terça-feira, 11 de novembro de 2025

Entre o vestido e o sorvete

        A campainha não parava. Solange, imaginando se tratar das crianças da rua aprontando alguma, sorriu. Ah, moleques! Que época boa. Se soubessem... Mas não! Era Roberta, a filha do meio.

          — Mãe! Mãe! Mãããããeeeee!!!

          Assim que abriu a porta, a mulher foi questionada.

          — Pô, mãe! Tá surda?

          — Pensei que fossem os meninos.

          — Meninos? Que meninos, mãe?

          — Os da rua, ué.

          — Hum! E por que viriam aqui na casa da senhora?

          — Meninos são assim mesmo. Ou você já se esqueceu?

          — Esqueci o quê, mãe?

          — Ué, você e seus irmãos tocando a campainha da casa da dona Sebastiana e depois fugindo.

          — Hum! Mãe, mãe, mãe! A senhora tá bem?

          — Tô. Por quê?

          — Ninguém mais faz essas coisas, não. Tá todo mundo ligado no celular. 

          Logo após entrar, Roberta quis saber se a mãe havia feito o bolo de fubá.

          — Tá na cozinha. Mas não ficou bom.

          — Hum! Quando a senhora diz que não tá bom é porque ficou ótimo. 

          Sentadas à mesa, as duas trocavam confidências. Quase nenhuma por parte da senhora, que andava alheia à correria do mundo. Passava os dias entretida entre poesias de antigos e novos autores, Cecília Meireles e Sarah Munck, Drummond e Luzia Couto, Augusto Frederico Schmidt e Daniel Marchi.

          — Mãe, tem sorvete?

          — Não.

          — Hum.

          — Seu pai gostava de flocos.

          — Eu sei. Também é o meu favorito.

          — Prefiro chocolate.

          — Não era morango?

          — Também.

          — Será que aquela sorveteria da esquina tá aberta?

          Solange olhou o relógio de parede. Quase cinco da tarde.

          — Tá.

          — Vamos lá?

          A idosa, diante do sorriso de menina da filha, não sentiu a menor vontade de contrariá-la.

          — Só vou colocar uma roupa melhor. 

          Cinco minutos depois, a mulher retorna e fica diante do espelho da sala.

          — Roberta, minha filha, tô achando esta roupa tão feia. 

          — Então, troca, mãe.

          — Não.

          — Não?

          — Sou velha. Tenho direito de me vestir assim.

          Roberta achou graça daquelas palavras e, antes que pudesse dizer algo, a mãe complementou:

          — Ah, meu Deus, como esta roupa é esquisita! Mas vamos, que o sorvete vai acabar derretendo.

            As parentas gargalharam e se dirigiram à sorveteria.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre o vestido e o sorvete" foi publicado por Notibras no dia 11/11/2025.
  • https://www.notibras.com/site/entre-o-vestido-e-o-sorvete/

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