Se há uma figura querida e odiada por todos, todos mesmo, em
Sobradinho, é o Leopoldo. Além de dono da oficina Magnu, é conhecido por ser
mecânico de mão-cheia. No entanto, como nem tudo é perfeito, especialmente
quando se fala de mecânico, pedreiro, político e cunhado, ele possui um cacoete
que irrita até defunto quando o assunto é prazo.
A demora, meu amigo. Sim, isso mesmo! O Leopoldo acumula tantos
serviços, que já não tem mais onde guardar a quantidade descomunal de
automóveis dos clientes. Caso algum forasteiro passe por ali, é capaz até de imaginar
que se trata de depósito de carros e não uma mecânica.
Para acalmar os ânimos, praticamente sempre
exaltados, da clientela, Leopoldo costuma revelar seu lado, digamos, de
psicólogo de esquina.
— Pode ficar tranquilo, meu amigo, que o seu
carro vai ficar pronto antes do combinado. Seu eu não entregar o seu Opala até
sábado, vou vestir calcinha e desfilar na avenida.
Essa lorota funciona na primeira vez e,
dependendo da ingenuidade do cliente, até na terceira. Seja como for, quando o Leopoldo
percebe que não tem conversa, e que penico não espera o sujeito sentar, inventa
que precisou sair para acudir um parente enfermo.
Sebastiana, uma das que confiaram seu carango ao mestre da
embromação, poderia ser acusada de tudo, menos de inocente. Ah, e ai de quem
tente fazê-la de boba. A mulher não deixa barato.
Já
subindo nas tamancas por conta do atraso na entrega da sua camionete,
Sebastiana, após várias reclamações por telefone, resolveu ir pessoalmente à
Magnu, com o intuito de descarregar insultos que nem o Capeta está acostumado.
O problema é que o Leopoldo, já prevendo que a cliente estava a caminho, talvez
porque um passarinho lhe tenha contado, resolveu tirar o time de campo e se deu
a tarde de folga. Sobrou para os seus funcionários: Boquinha e Zero-Zero, que
precisaram ouvir tamanhos desaforos.
— Dona Sebastiana, o Leopoldo me garantiu que o seu veículo vai ficar pronta
até sábado.
— Boquinha, você quer que eu acredite nisso? A minha camionete já está
aqui há quase dois anos!
— Mas dessa vez é verdade, dona Sebastiana. O Leopoldo garantiu.
— Zero-Zero, você acha que sou idiota que nem esses clientes de vocês?
— Num tô falando isso, não, dona Sebastiana.
— Ah, é?
— É sim, senhora!
Sebastiana fitou os dois homens e, então, os questionou:
— Vem cá! Por acaso vocês sabem qual é a cor favorita do Leopoldo?
Os mecânicos se entreolharam por um instante. Sem entender a pergunta,
ficaram na dúvida se era aquela mesma ou, então, precisavam lavar melhor as
orelhas.
— Num entendi, dona Sebastiana.
— Não vai me dizer que vocês não sabem
qual é a cor que o patrão de vocês mais gosta.
— Cor?
— É, Boquinha! Cor!
— Bem, num tenho certeza, mas acho que
é azul. Não é, Zero-Zero?
— É sim, Boquinha.
A mulher, com um sorriso maligno nos
lábios, meteu a mão na bolsa e retirou algumas calcinhas de cores diversas.
Pegou uma peça azul e a entregou para o Boquinha.
— É! Acho que esta vai servir direitinho. Amanhã mesmo estarei na avenida. Não
quero perder isso por nada neste mundo.
- Nota de esclarecimento: O conto "Leopoldo, o procrastinador" foi publicado por Notibras no dia 6/11/2025.
- https://www.notibras.com/site/leopoldo-o-procrastinador/

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