Sexta-feira, chegou ao pequeno apartamento,
lançou um olhar apaixonado sobre o velho sofá, como se fosse refúgio. Exausta,
só teve tempo de retirar os sapatos e se esparramar por cinco ou dez minutos,
que se prolongaram até a manhã seguinte. Ninguém teve coragem de acordá-la. Que
se virassem sem ela.
Despertou. Sim, despertou como há anos não o
fazia. Abriu os olhos com dificuldade por conta da luz do amanhecer. Olhou ao
redor, ergueu os braços e se espreguiçou com um sorriso nos lábios. Sorrir era
algo que a mulher, até aquele instante, imaginava ter deixado em algum ponto lá
atrás.
Levantou-se e, descalça, foi até o banheiro e
se olhou no espelho. Achou-se bonita, fez caras e bocas e pensou em soltar um
grito só para escutar a própria voz, que andava tão calada. Não o fez,
lembrou-se de que o marido e os filhos deveriam ainda estar dormindo.
Na cozinha, preparou uma
xícara de café. Soprou de leve, sorveu um gole apenas. Sentiu o gosto
reconfortante e, em seguida, voltou para sala. Abiu a janela. Olhou dois passarinhos,
que supôs serem um casal. Teriam filhotes ou ainda estavam na fase de namoro?
Talvez tivessem ninho com dois ou três ovos, que certamente eclodiriam em
breve.
João-de-barro. Sim, era um casal de
joão-de-barro. Um tipo comum por ali. Jaqueline gostava do canto acolhedor
daqueles pássaros de aparência simpática. Quando percebeu, havia dado o último
gole no café.
Retornou saltitante para cozinha, às vezes
dois passos para um lado, depois para o outro, um ou dois para trás, seguia
adiante num balé harmonioso. Ao redor, o caos, ainda que organizado, da sua
vida.
Mais café. Jaqueline desejou mais café.
- Nota de esclarecimento: O conto "Jaqueline, o sofá, o café e os passarinhos" foi publicado por Notibras no dia 23/11/2025.
- https://www.notibras.com/site/jaqueline-o-sofa-o-cafe-e-os-passarinhos/

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