sexta-feira, 4 de abril de 2025

Desavenças e conselhos

   

 Por mais que irmãos sejam unidos, as disputas permeiam suas vidas, independentemente da idade. Há inclusive casos que provam que a rivalidade fica ainda mais acirrada na fase adulta.  Talvez esse seja o caso das irmãs Amanda e Fabíola, hoje já passadas da casa dos 50. 

          Para entender melhor a história, preciso dizer que as duas mulheres possuem um irmão caçula, o Jean Paul, tipo temporão, pois ainda não tem 40. Mero rapazola, caso compararmos o gajo à maturidade das quase coroas. Por isso mesmo, enquanto as manas discutem, o sujeito trata de fechar o bico, o que não o impede de arregalar os enormes olhos de tom esverdeado. 

          Amanda, a primogênita, vive a exuberância do seu quarto casamento ao lado de Orlando, português radicado no Brasil desde o massacre promovido pelos alemães, no Mineirão, sobre a nossa outrora gloriosa Seleção. A despeito do vexame, o casal engatou um romance, ainda mais porque o então terceiro relacionamento da mulher não andava bem das pernas. Se rolou traição, ninguém comenta, já que o ex-marido, Jurandir, possuía fama de galanteador entre as funcionárias de uma agência do Banco do Brasil localizada na Asa Sul, em Brasília.

          Fabíola, que sempre foi do tipo namoradeira, estava fadada, segundo as palavras de Alzira, a mãe, a ser a solteirona da família. Aliás, solteirona no bom sentido, como a genitora gostava de falar: 'Essa aí não nasceu pra lavar cueca de marido.' Tal previsão se degringolou quando a moçoila colocou os olhos sobre o belo Gustavo, dono de respeitável bigode, sempre cuidadosamente aparado diante do espelho do banheiro. Os pelos caíam solenemente na pia até que a torneira era acionada, e a água os fazia desaparecer pelo ralo. 

          — Amor, o que achou?

          — Hum... Perfeito, meu bem!

          Fabíola beijava o marido, que pegava logo cedo no consultório odontológico. Implante era sua especialidade, o que garantia o sorriso expansivo de vasta clientela na capital. A mulher, funcionária pública, só pegava no serviço à tarde. 

          Aconteceu numa sexta-feira, quando Fabíola quis fazer uma surpresa para o amado. Iria convidá-lo para almoçar no Caminito Parrilla, famoso restaurante argentino na 403 Norte. Mal entrou no consultório, viu uma loira abraçada a Gustavo. Teve vontade de esganar a mulher, mas conteve o ímpeto e, assim, evitou o vexame. Não obstante, não foi capaz de impedir que seus lábios se torcessem ao mesmo tempo em que lançou olhar de fúria sobre aqueles dois.

          — Oi, amor, você por aqui?

          — Sim. Algum problema, Gustavo?

          — Problema? Nenhum. E por que haveria de ter?

          — Não sei. Você quer me dizer alguma coisa?

          O sujeito tentou disfarçar o desconforto e apaziguar a situação. Tratou logo de apresentar a tal loira, 35 anos, corpo estonteante e, para piorar a situação, ainda possuía uma sensual pinta no canto esquerdo sobre os lábios carnudos. 

          — Amor, esta é a Sônia, uma das minhas pacientes.

          Fabíola trocou olhares desconfiados com a outra, que sorriu o mais lindo sorriso cheio de dentes perfeitos. Sônia, aliás, apontou para os próprios dentes e aproveitou para elogiar o excelente serviço de Gustavo.

          — O Dr. Gustavo é perfeito! Olha o que ele fez na minha boca.

          — Ele é perfeito mesmo.

          Após alguns instantes, mal-estar instalado, Sônia se despediu e foi embora antes que o imbróglio desandasse para algo ainda mais constrangedor. E, assim que se viu sozinho com a esposa, Gustavo quis beijá-la, mas foi rispidamente afastado.

          — O que foi?

          — O que foi perguntou eu, Gustavo!

          O Caminito Parrilla não contou com a presença ilustre do casal naquele dia. Fabíola foi trabalhar com a certeza de que o marido estava tendo um caso com aquela loira. Como era mesmo o nome da fulana? Ah, Sônia! Que ódio daquele nome! Tanto é que, mal entrou na sua sala, se deparou com a moça do cafezinho. Seu nome? Sônia. Imaginou que o café oferecido estivesse envenenado. 

          — Já coloquei duas gotas de adoçante como a senhora gosta.

          Fabíola sorriu aquele sorriso forçado e agradeceu. No entanto, assim que essa outra Sônia deu as costas, a traída derramou o café no vaso de plantas ao lado. Ela até imaginou que o destino da bela orquídea estaria selado até o final do dia. 

          Ninguém pareceu notar o azedume do humor de Fabíola, talvez porque estavam empolgados com o último dia útil da semana. Ela, todavia, não tirava da mente a imagem da loira do sorriso encantador abraçada a Gustavo. Que dentes lindos que a danada possuía! Por que Gustavo nunca pensou em fazer o mesmo com os dentes da própria esposa? Ela pegou o pequeno espelho dentro da bolsa e sorriu. Hum! Nada mal, mas nem se comparava àqueles dentes alvos, grandes, alinhados, perfeitos. O ódio parecia não ter fim.

          Fabíola encontrou o esposo no amplo apartamento do Sudoeste. Ele tentou abraçá-la, mas foi repelido. A mulher entrou direto para o banheiro. Tomou um banho de meia hora, como se precisasse lavar a alma. Em seguida, pegou um livro de poesias, 'A verdade nos seres', de Daniel Marchi, e foi para cama. 

          No dia seguinte, Fabíola e Gustavo foram almoçar na casa de Alzira, onde encontram Amanda, Orlando, Jean Paul e a esposa, Fernanda. A carne assada estava ótima, o que não impediu a primogênita de perceber que algo não estava bem com a irmã. Dessa forma, assim que todos se deliciaram com a sobremesa, Amanda puxou Fabíola para varanda, onde já se encontrava Jean Paul, que havia se afastado para fumar.

          — Que cara é essa, Fabíola?

           — Não é nada!

           — Que nada o quê, mulher! Te conheço desde que você usava fraldas.

           — Não é nada.

           — Esse seu não é nada tá mais parecendo que é tudo.

           — Ah, é o Gustavo.

           — E o que tem ele?

           — Ontem o peguei abraçado a uma mulher.

           — Que mulher?

           — Uma paciente.

           — Paciente?

           — É. Fui ao consultório dele e peguei os dois se abraçando.

           — Hum... Bonita?

           — É... 

           — Hum...

           — Então, o que isso significa?

       — Hum... Olha, se tem uma coisa que eu sei é como lidar com desavenças matrimoniais.

          Jean Paul, que estava prestando atenção à conversa das irmãs, se engasgou com a fumaça e quase cuspiu o cigarro fora.

             — O quê?

             — O que o quê, Jean Paul?

           — Amanda, e desde quando você é referência para dar conselhos matrimoniais?

             — Ué, e por que não?

             — Ah, Amanda! Por favor! Me poupe, se poupe e nos poupe!

           Jean Paul se levantou e voltou para sala, onde aproveitou para comer mais um pedaço da sobremesa: pudim de leite. Fabíola, apesar de concordar com a opinião do irmão, estava em mato sem cachorro e, então, preferiu ouvir a irmã mais velha, tarimbada que era após tantos matrimônios. Quanto aos conselhos de Amanda, não se sabe exatamente o que ela disse. Entretanto, parece que funcionou, pois Fabíola e o marido estão a caminho de nova lua de mel em Montevidéu.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Desavenças e conselhos" foi publicado por Notibras no dia 4/4/2025.
  • https://www.notibras.com/site/marido-flagrado-paga-cara-traicao-com-nova-lua-de-mel-em-montevideu/

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Como dizer não à dona Rosilda?

    

Tem gente que desfaz qualquer negativa dos nossos lábios, e nem precisa ser do tipo sedutora ou autoridade. No meu caso, uma dessas pessoas é a dona Rosilda, minha vizinha, que me fez um favor há tanto tempo, que, na verdade, nem sei direito o que foi. Mesmo assim, toda vez que ela me pede algo, lá vou eu atendê-la, antes que a culpa se instale sobre minha consciência. 

          Pois lá estava eu chegando de mais uma noitada transportando passageiro para cá e para lá na minha Kombi. Assim que pisei na calçada, eis que dona Rosilda, com aquele sorriso desprovido de segundas intenções aparentes, me abordou.

          — Bom dia, Maria Lúcia!

          — Oi, dona Rosilda! Bom dia.

          Sem imaginar que a conversa se esticaria, caminhei na direção da porta da minha casa, quando ouvi novamente a voz da mulher.

          — Pois é, Maria Lúcia, não sei se devo lhe pedir uma coisa dessas.

          — Que coisa, dona Rosilda?

          — Sabe... Bem, você conhece o Rafael e o Júlio, né?

          — Sim, claro, os filhos da senhora.

          — Pois é, menina, eles estão que não param de me telefonar aqui.

          — Hum...

          — Sabe como é, né, Maria Lúcia?

          — Só vou saber se a senhora me contar.

          — Já que você tá se oferecendo, tem como você emprestar a sua Kombi pra eles?

          Não sei de onde ela ouviu que eu estava oferecendo algo, ainda mais a minha Kombi. Mas, como dito no início desta história, ainda não consegui aprender a dizer não para a velha. 

          — A minha Kombi?

          — Isso.

          Além de emprestar o meu ganha-pão, ainda teria que ir até os filhos da dona Rosilda. Onde os homens estavam? Bem, os dois estavam no sítio da família, que ficava a quase duas horas. Nem entrei em casa, pois dona Rosilda já foi logo pedindo para que eu abrisse a porta da Kombi, pois fazia questão de me acompanhar, ainda mais porque eu nem tinha noção de como chegar ao tal sítio.

          Durante o trajeto, tive que escutar a ladainha da dona Rosilda sobre religião. Justamente eu, que faço questão de me manter o mais longe possível de qualquer crença, fui obrigada a fazer cara de paisagem até que, finalmente, paramos em frente à porteira, onde Rafael e Júlio já aguardavam ansiosos.

          — Demorou, hein, mãe!

          — Ah, Rafael, a estrada não tava boa.

          Pois é, o traste, além de nem me olhar no rosto, ainda quis pagar sermão para a mãe. Ainda bem que não tenho filhos e, se um dia tiver, não serei eu tratada que nem capacho. Ah, não mesmo!

          Dona Rosilda me puxou para dentro da modesta casa, enquanto os filhos saíram na Kombi. Devo ter feito cara de desalento ao ver a poeira levantar, enquanto minha amiga de lata sumia na estrada de chão. Tanto é que a velha tentou me consolar.

          — Vamos tomar um café, Maria Lúcia, que logo, logo os meninos voltam.

          Meninos? Gente, aqueles tais meninos já passaram dos 30 há tempos! Mas vamos dar um desconto para dona Rosilda, que é mãe e, como boa parte delas, não consegue enxergar que a cria já virou adulta há mais de uma década. 

          Invés de me acalmar, o café me deixou ainda mais tensa. Afinal, para onde aqueles imprestáveis teriam levado a minha Kombi? E por que saíram tão apressados? Teriam ido assaltar algum banco? 

          — Calma, Maria Lúcia! Logo, logo as crianças estarão de volta.

          Devo ter feito cara de espanto. Crianças? Será que a velha estava caducando? Dois homens barbados daqueles, e a mulher chamando-os de crianças. Onde já se viu um absurdo daqueles? Disparate maior só mesmo na Terra do São Nunca.

          Dona Rosilda, percebendo que o café não era o suficiente para aplacar minha angústia, foi preparar bolinhos de chuva. Não é que a danada conhecia meu fraco por tal quitute, que me transportava para meus tempos de menina. 

          — Não sei se você gosta, Maria Lúcia, mas recheei com rodelas de banana.

          — Ah, dona Rosilda, desse jeito vou engordar.

          — Hum! E desde quando você é gorda?

          — Se não sou, é porque fecho a boca, dona Rosilda.

          — Hum! Besteira! Vá comendo os bolinhos, que vou passar mais café.

          Sem ter o que fazer, procurei me concentrar nos bolinhos de chuva recheados com banana. Uma delícia! Até então, desconhecia as qualidades culinárias da minha vizinha. E a segunda rodada de café ficou ainda melhor. 

          Quando me dei conta, o relógio na parede da cozinha já estava acusando quase meio-dia. No entanto, antes que eu pudesse praguejar contra os filhos da mulher, eis que ouvi o inconfundível barulho do motor da minha Kombi. Corri para ver, sendo acompanhada pelos passos lentos da velha.

          — Ah, meninos, até que enfim chegaram!

          — Ah, mãe, desculpe. E obrigado por emprestar a Kombi, Maria Lúcia.

          Rafael me entregou as chaves e, então, ouvi um som estranho vindo do interior da Kombi.

          — Que barulho é esse?

          — Ah, é a Luciana.

          — Luciana?

          — Maria Lúcia, Luciana é a porca daqui do sítio.

          — Porca, dona Rosilda? Eles colocaram uma porca na minha Kombi?

           — Não liga, não, Maria Lúcia. A Luciana é porca, mas toma banho toda semana.

          Olhei pro céu, ao mesmo tempo em que Júlio abriu a porta lateral da Kombi, e logo saiu uma enorme porta malhada. Ela desembestou pelo terreno, como se libertada da prisão. 

           Dona Rosilda me disse que a Luciana havia ido para um sítio próximo a fim de namorar com o Castor, afamado porco da região. E, se a lua de mel desse resultado, dali a pouco menos de quatro meses, nasceriam os primeiros bebês da Luciana, que era praticamente da família. 

           Passei o resto do dia no sítio e, já perto da luz do dia se despedir, dona Rosilda e eu retornamos para Brasília. E, durante a viagem, constatei que a velha tinha razão em relação à Luciana. A danada era mesmo cheirosa. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Como dizer não à dona Rosilda" foi publicado por Notibras no dia 3/4/2025.
  • https://www.notibras.com/site/aventura-de-kombi-no-entorno-para-transportar-luciana-a-porca-cheirosa/

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A aniversariante e as recordações

 

            Maria Luiza, pouco antes de assoprar as 58 velinhas no enorme bolo de chocolate, cerrou os cílios negros sobre os olhos argutos. O marido e os filhos observaram a mulher, que, sorrindo, encheu os pulmões e expeliu todo aquele ar em forma de efêmera ventania, o suficiente para apagar as chamas.

          O primeiro pedaço, para surpresa da plateia, foi para a aniversariante. Fernando, o marido, sutilmente, fez bico com os lábios, talvez não percebido pelos presentes. A mulher, todavia, sorriu da birra do amado, enquanto lambuzava dedos e boca com o sabor característico de chocolate.

          — Gente, como isso é bom!

          Alguns sorrisos tomaram conta do ambiente, enquanto Maria Luiza tomou novamente a faca em suas mãos e partiu outro pedaço. Em seguida, já se saciando com a fatia, virou-se com os dentes sujos de chocolate.

          — Por favor, sirvam-se! 

          Ao esposo coube a tarefa de partir o restante do bolo e servi-lo aos convidados, que eram quase os mesmos de anos anteriores. A ausência de tia Eulália foi sentida, ainda mais porque conseguia animar o ambiente com seus causos curiosos e, muitas vezes, inusitados. Pobre senhora, não resistiu ao enfisema pulmonar. Como a velha fumava! Não à toa, era chamada de dona Chaminé pelos amigos e alguns desafetos.

          Outra parenta ausente, Marília, prima quase irmã, finalmente havia resolvido conhecer as pirâmides do Egito.

          — Vem comigo, Maria Luiza.

          — Hum! Bem que eu queria, mas não tem como abandonar as minhas turmas na faculdade.

          — Ah, aprova todo mundo e venha comigo, boba!

        Maria Luiza adorava o jeito amalucado da prima, que muitas vezes contrastava com a seriedade que ela levara a própria vida. Ela casara logo após concluir o doutorado, quando já possuía uma próspera carreira acadêmica em química. Fernando era seu colega, mas em outra área: literatura.  

          O casal, durante anos, desejou ter um filho, ideia que foi adiada por pouco mais de uma década. Quando a mulher engravidou, bateu aquela insegurança, que foi transformada em desespero já na primeira consulta com a obstetra: gêmeos. 

          Apesar dos percalços da maternidade, que vieram em dobro, Maria Luiza até que se saiu bem. Fernando parece ter sido o mais afetado, pois levou um tempo para perceber que aquele fardo também lhe pertencia. E, entre uma briga e outra, o casal conseguiu superar as barreiras, e a cria cresceu praticamente sem traumas.

           Pois é, a aniversariante, enquanto recolhia com os dedos o resquício de cobertura no guardanapo, observou os presentes. Não tardou, seu pensamento foi transportado para os tempos de criança, quando corria serelepe pelas areias de uma das praias gaúchas. Que sonhos aquela garotinha sonhava? Será que ainda havia resquícios daquela menina em Maria Luiza?

            Fernando, percebendo o semblante diferente na esposa, se aproximou. Passou o braço pela cintura da mulher e a beijou na face. Ela sorriu e abraçou o companheiro.

          — Maria Luiza, sabia que às aniversariantes é reservado um pedido especial?

           — Hoje não quero nada além do que recordações, meu amor.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A aniversariante e as recordações" foi publicado por Notibras no dia 2/4/2025.
  • https://www.notibras.com/site/aniversariante-do-dia-guarda-data-para-recordacoes/

terça-feira, 1 de abril de 2025

Aversão ao frio

    

    Geraldo, como todos os outros viventes, tinha afeição por certas coisas, aversão por outras. No entanto, o sujeito não suportava frio. Isso mesmo! O frio era algo que o deixava de humor pra lá de azedo, como se tivesse passado a madrugada dentro de um liquidificador e, assim que os primeiros raios solares desabrochassem, precisasse ir trabalhar. 

          Problema maior era que o azarado havia nascido em Urupema, cidade catarinense afamada por ser a mais gélida do país. E, para piorar a situação, a família era desprovida de recursos suficientes para bancar um aquecedor. No máximo, dava para colocar algumas lascas de madeira na bacia de ferro. Quando o inverno apertava, a parentada se espremia em volta da bacia antes que alguém congelasse.

          Adolescente, jurou que um dia sairia daquele congelador e moraria nos trópicos. Nunca mais sentiria frio na vida. A promessa não se cumpriu, apesar da mudança para um local de clima mais quente, mesmo que seco que nem o Saara. 

          Agora homem, Geraldo passou em um concurso público e foi morar em Brasília. O salário era suficiente para pensar até em casamento, a despeito do elevado custo de vida na capital. Não chegou a casar, pois a mulher por quem se apaixonou estava de olho em outro. Seja como for, Geraldo acabou se engraçando para cima da Maria da Graça, a Gracinha, colega de trabalho.

          De namoro firme, o gajo se sentiu preparado para enfrentar os invernos em Brasília, que, afinal, não são tão inocentes como algum desavisado possa imaginar. É verdade que nada parecido com os de Urupema, mas longe do que Geraldo supunha. Tanto é que, durante um churrasco na casa de um amigo, eis que aconteceu o seguinte interlúdio.

          — E aí, Geraldo, gostando de Brasília?

          — Odiando!

          — Ah, aposto que está sentindo falta do frio da sua cidade.

          — Quem gosta de frio é picolé e pinguim, Pedro.

          — Hum! Mas aqui é mais quente do que a sua terra, né?

          — Isso não posso negar, mas o meu sonho é outro.

          — E qual seria, Geraldo?

       — Quero construir uma casa na Linha do Equador. Metade numa banda, metade na outra e o quarto no meio.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aversão aos frio" foi publicado por Notibras no dia 1º/4/2025.
  • https://www.notibras.com/site/de-urupema-para-brasilia-geraldo-agora-projeta-morar-na-linha-do-equador/