sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Nada como um samba para dar aquela animada

     

      Arlete, técnica de enfermagem de profissão, imaginava-se na Sapucaí, enquanto Alcione, no rádio, soltava a voz em "Não deixe o samba morrer". Requebrava-se por inteiro, mesmo em pensamento, pois não ficava bem mexer o quadril enquanto trabalhava, ainda mais quando estava medicando um paciente no Hospital de Base. Vá que pensassem que ela estivesse variando.

          Nascida em Coromandel-MG, mudou-se para Brasília ainda criança nos idos de 1978, onde começou a se interessar pelos ritmos vindos da casa ao lado. Os vizinhos, casal formado por uma baiana e um carioca, faziam questão de escutar, especialmente nos finais de semana ou feriados, as batucadas típicas dos seus estados de origem. Não deu outra. Arlete foi fisgada de tal forma, que seus pezinhos de menina começaram a ensaiar os primeiros passos. 

          Quando a adolescência chegou, Arlete foi testemunha da ascensão do rock na capital. Diversas bandas ditavam a trilha sonora das festas. Ela, no entanto, não pareceu interessada e, por conta disso, se sentia deslocada. Para piorar, os vizinhos haviam se mudado com os vários discos de vinil, cujas músicas a jovem sabia de cor e salteado. 

            Foi quando os anos 1990 estavam engatinhando que, por um desses acasos, conheceu Rubião, bancário, que vivia com um pandeiro a tiracolo. A paixão foi instantânea, apesar de, até hoje, Arlete não ter certeza de que o interesse foi por conta dos lânguidos olhos castanhos do sujeito ou, então, pelo instrumento musical. Seja como for, apesar de idas e vindas, sem contar algumas puladas de cerca de ambas as partes, os dois continuam firmes. 

            E lá estava a mulher, hoje quase uma sexagenária, preparando a medicação de um paciente, quando teve o seguinte interlúdio com Franciele, também técnica de enfermagem.

           — Mas me conta, mulher, é verdade mesmo aquilo que tu me disse?

           — Tá falando do quê, Franciele?

           — Do Rubião.

           — Hum! E por que tu quer saber?

           — Pra ver se funciona lá em casa. O Pedro anda tão desanimado.

            Arlete observou a face tristonha da amiga. Ela sabia que aquilo era puro teatro. E dos mal encenados, por sinal. Mesmo assim, estufou o peito, abriu aquele sorriso e não se fez de rogada.

           — Samba, amiga! Muito samba! Sempre samba! Todos os dias, sem parar, ainda que de breque.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Nada como um samba para dar aquela animada" foi publicado por Notibras no dia 31/10/2025.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Inebriado pelas páginas dum livro

     

       Enquanto tentava se concentrar na leitura, Edmar não percebeu que Letícia, a esposa, o acompanhava com olhos castanhos cheios de curiosidade. O que ela estaria pensando? Ou, então, o que queria a mulher, que sabia que o marido era do tipo incapaz de se concentrar em mais de uma coisa por vez. Homens...

          — Edmar, o que tu tá lendo?

          Nenhuma resposta. A mente do leitor parecia sugada para dentro daquelas páginas amareladas. Há quanto tempo mesmo ele teria comprado o exemplar? Hum... Quatro anos? Talvez pouco mais, mesmo porque, quando se chega a certa idade, a noção de tempo parece se encurtar, como se o que aconteceu há uma década tenha se passado no mês anterior. 

          — Edmar.

          Nada.

          — Edmar!

          Lento virar de cabeça. 

          — Oi.

          — Tá surdo?

          — Surdo?

          — É! Surdo!

          — Não. Por quê?

          — Tô aqui há meia hora te chamando.

          Meia hora? Bem, não foram mais do que alguns segundos. Que seja! Um minuto ou dois.

          — Desculpe, amor. Não ouvi.

          — Pois não tô te falando?

          — O quê?

          — Tu tá mesmo surdo!

          Curiosidade arrazoada ou pura manifestação de amor, carinho, atenção? Não importa. Mas que provoca de propósito, que arranca do delicioso e valioso transe que a apaixonada leitura nos proporciona. Edmar observou a amada por um instante a mais e, com um sorriso nos lábios, voltou a ler. Homens... Ou seriam leitores? Vá saber.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Inebriado pelas páginas dum livro" foi publicado por Notibras no dia 30/10/2025.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O mestre do realismo mágico

          Nunca me furtei a dizer que o meu escritor contemporâneo favorito é o Daniel Marchi, que tenho a intimidade de chamar apenas de Dan. É um prazer indescritível quando me deparo com seus contos ou crônicas. Quer saber? Pois leio e, em seguida, releio, como se fosse almoço na casa da minha saudosa avó, Esther Stella Cesario, que me instigava a encher o prato outra vez. 

          Bem, se os textos do Daniel possuem essa capacidade de revelar meu lado glutão, há algo que nem ele nem eu possuímos. Sim, faço questão de me incluir nisso. E o que seria isso que nós não temos? O costume - ou seja lá o que for - de escrever histórias impossíveis. Não que, vez ou outra, elementos fantásticos não apareçam nos nossos escritos, mas isso não é uma constante. 

          Quem já se deparou com os contos do Daniel ou os meus, pode até pensar de onde tiramos tantas ideias. Seja como for, são roteiros críveis, por mais mirabolantes que possam parecer. Não posso afirmar por que isso acontece, já que nunca toquei nesse assunto com o Daniel, apesar de sermos amigos há tanto tempo, que afirmo que, por eu ser mais velho, ele jamais vivenciou um instante neste mundo sem saber quem eu sou. E por uma simples razão: sou o afilhado preferido da Marilda e do Celso, os pais do Dan.

          No meu caso específico, ao contrário da minha esposa, a Dona Irene, nunca fui leitor assíduo de realismo mágico. Li alguns autores, é verdade, e até gostei, o que não quer dizer que tenho pretensão ou vontade de me tornar um escritor que nem o J. Emiliano Cruz (Jota), a Edna Domenica, o Gilberto Motta e a Luzia Couto. Todos talentosos e com estilos próprios, que me atrevo a afirmar que consigo distinguir seus textos sem nem mesmo ler o nome do autor. Isso se chama assinatura, chancela ou, recorrendo a um termo possível de encontrarmos em um conto do Dan, jamegão.

          Os quatro escritores que citei costumam, vez ou outra, fazer uso (e muito bem, por sinal) dessa narrativa fantástica. Todavia, o grande mestre dessa maneira de fazer literatura é, sem qualquer resquício de dúvida, o Cadu Matos. Ele é tão bom nisso, que, quando me deparo com um dos seus contos, tento desvendar de onde ele tira aquelas situações. 

        Teria o meu colega das letras poderes que nós, escritores do cotidiano, por mais surpreendente que seja, desconhecemos? Não duvido e até tenho uma teoria sobre isso. Absurda, você pode dizer e, caso insista um pouquinho, terei que concordar. Mas não dá para imaginar que o José Mojica Marins, o notório Zé do Caixão, transferiu seus poderes pro Cadu quando desencarnou?

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O mestre do realismo mágico" foi publicada por Notibras no dia 29/10/2025.
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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Paulo César acordou de pá virada

Acordou disposto a não ceder nem um milímetro no que quer que fosse. Não, não e não! Também não seria o primeiro dia em que despertara daquele jeito todo invocado, como se fosse James Brown. Melhor! Que nem Ney Matogrosso e pronto! Que viessem as vaias, ele se postaria diante de todos, com o corpo empertigado igual girafa ao buscar a folha mais alta de acácia.

          Pegou o elevador e percebeu dona Lucimara, antiga moradora do prédio. Ergueu o queixo e coçou o pescoço. Nem mesmo uma única palavra. Mudo. Completamente calado, enquanto a vizinha aguardava ao menos um bom-dia, que não veio. 

          — Hum! Acordou de pá virada hoje, Paulo César? 

          O sujeito fuzilou a mulher com olhar de falcão prestes a agarrar a presa. Nada disse. Simplesmente ajeitou o bigode diante do espelho do elevador e, assim que esse parou no térreo, desceu na frente sem qualquer gentileza.

          Passou pelo Gilberto, o porteiro, e nem o breve aceno de cabeça, como costumava fazer. Mal saiu do edifício, dona Lucimara comentou:

          — Você viu, Gilberto?

          — Pois é, dona Lucimara. O que será que deu no Paulo César?

          — Aposto que isso é chifre!

          — Chifre?

          — Sim! Chifre e dos bons! Daqueles que doem até na alma.

          — Mas, dona Lucimara, pelo que sei, o Paulo César está solteiro há tempos.

          — Pior, então! Isso é falta!

          — Falta?

          — Falta, sim, Gilberto!

          — Dona Lucimara, mas a senhora, hein!

          — Ih, Gilberto, sei das coisas.

          — Que coisas?

          — De tudo! Tu-do!!! Tudinho!

          — Por acaso agora a senhora virou filósofa?

          — Sempre fui.

          — Sério?

          — Num tô te falando?

          — Desculpe. Num sabia.

          — Pois agora sabe. Sou filósofa! Filósofa da vida.

          Enquanto a conversa se prolongava, lá ia o Paulo César, a passos largos, se sentindo o último biscoito do pacote. Decidido, destratou quem pode pelo caminho: o balconista da padaria, o dono da banca de jornal, o mendigo, a senhora que passeava com o cachorro, o vendedor ambulante, as crianças que brincavam de bola na rua e até o padre Francisco. Pois sobrou desaforo para todo mundo.

          Após tanta ignorância, eis que o homem decidiu visitar a avó, que morava ali perto. Já fazia quase mês que não se viam e, não demorou, lá foi o mal-humorado bater à porta da velha. 

          — Paulo César, quem é vivo sempre aparece. Pensei que tivesse se esquecido da vovó.

          Para surpresa da senhora, o neto nem a olhou nos olhos. Passou direto e foi até a cozinha, onde se serviu de café. A dona da casa, encucada com aquele comportamento, foi atrás do parente. 

          — O que foi? O gato comeu a sua língua?

          O pavio da mulher, que nem era tão curto assim, findou-se. Ela aplicou um baita dum beliscão no braço do neto, que sentiu.

          — Ai, vovó! Doeu, viu?!

          — Olha aqui, moleque! Comigo não, violão! Aqui tem que pisar fofo!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Paulo César acordou de pá virada" foi publicado por Notibras no dia 28/10/2025.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A vida atropela os verborrágicos

    

        Sabe aquela coisa que não muda a direção do vento, que não altera a vida de um mísero grão de arroz, mas que instiga o sujeito a se questionar, nem que por um milésimo de segundo? Nem sei se aconteceu exatamente assim, mas considero a versão tão boa, que vou tentar expô-la sem subterfúgios para tentar agradar aos olhos curiosos ou lânguidos de algum leitor. 

          Três amigos, não mais que três. Se bem que já ouvi que havia um quarto e, não duvido, até mesmo um quinto. Seja como for, para economizar o seu tempo, ficaremos com a tríade, sendo dois aposentados, cujo compromisso naquela noite parecia ser apenas não chegar muito tarde e, ainda mais importante, não tão embriagados, aos respectivos lares, todos a não mais do que alguns passos, mesmo que cambaleantes, do bar do Alberico, o terceiro, que era português radicado no Brasil desde o final dos anos 1970.

          Além do Alberico, estavam por ali o Josias e o Sousa. O primeiro havia sido bancário por quase 40 anos. Do Banco do Brasil, fazia questão de dizer, como se aquilo fosse uma taça, mais importante até do que a Jules Rimet. 

          — Concurso! Passei por concurso. Não foi pela janela, como era comum na época. Mé-ri-to! 

          Já o Sousa, apesar de não ter a pompa do colega, desfrutava de condição financeira praticamente idêntica, com vantagem de levar vida mais modesta, pois não se preocupava com vestimentas e muito menos com sapatos de grifes famosas, que eram fetiches do amigo. Usava o que tinha até que a mulher não suportasse mais ver o marido trajando aquela camisa surrada e, sem qualquer aviso, a direcionasse para doação ou, em casos extremos, para a lata de lixo. 

          — Pois, meu amigo, como você bem sabe, e nunca escondi isso de ninguém, inclusive do nobre Alberico, que há mais de década tem a paciência de aturar nossos porres, sejam etílicos, sejam verborrágicos, o que consegui na vida foi por indicação de parente ou cupincha. Mas vida que segue, e não cabe aqui pito, pois ela é curta e não pede passagem. Atropela!

         Alberico, nesse momento, esboçou seu sorriso mais sarcástico, o que provocou interrogações múltiplas nos parceiros. Josias, o mais cismado do trio, arregalou os olhos e cuspiu palavras.

          — Alguma coisa que não captei, Alberico?

           — Não é nada.

          — Como não é nada? 

          — Bem, na verdade, não sei nem por que, o que o Sousa disse me fez lembrar de algo que meu pai costumava falar.

          — Pois diga! 

          — Sim, Alberico! Compartilhe aqui comigo e o nosso ansioso Josias.

          — Ansioso? Eu?

          — E quem mais seria? 

          — E por que não você, Sousa?

          — Deixa quieto, então. 

         — De jeito nenhum! Se atiçou, quero saber o que o pai do Alberico dizia.

         Enquanto os dois discutiam que nem velhos amigos fazem, Alberico tentava buscar na memória as exatas palavras do pai. Como é que era mesmo que ele discursava? E, do nada, desandou a falar, o que fez os dois resmungões pararem e prestar atenção.

          — Meus amigos, meu pai dizia que quase todo mundo tem que saber escrever apenas telegrama. Sabe aquela coisa sem rodeios? Pois é, nada de "ti", "te", "si", "se", "mi", "me". "Lhe", "lho" e "lha", então, tá de brincadeira! Sucinto! A vida urge! Sou comerciante, sou pá-pá-pá, pá-pá-pá, ponto! Té-té-té, té-té-té, ponto! Só quem tem que saber escrever é advogado e engenheiro. Nem médico precisa, né?! Porque médico escreve aqueles garranchos e ninguém entende. Se ele estiver receitando veneno, não tem como provar. Sou econômico nas palavras. Sem subterfúgios. Minhas ideias são curtas, com a maior precisão possível, com o menor número de palavras possível. Papai estava ou não certo?

          Os dois ouvintes se entreolharam e, quase em uníssono, responderam:

           — Disse tudo!

  • Nota de esclarecimento: O conto "A vida atropela os verborrágicos" foi publicado por Notibras no dia 27/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/editoria/quadradinho-em-foco/

domingo, 26 de outubro de 2025

Filhos de um tempo

O vento soprava tão forte

que desfez meu rosto

Tentei correr

mas o vento soprava muito forte


Árvores

aprisionadas na terra

balançavam conforme a vontade

daquele vento forte


Os filhos dessas árvores

foram levados a terras distantes

e voltaram diferentes

  • Nota de esclarecimento: O poema "Filhos de um tempo" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 26/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/filhos-de-um-tempo/

Entre poesias e o fenômeno físico ao som da Alessandra Terribili

  

Vagner, professor de física, era tido pelos alunos como verdadeiro carrasco. Quer dizer, não exatamente daqueles carrascos de verdade, responsáveis pelo derradeiro instante dos condenados à morte. Escolhamos, portanto, verbete menos malsoante como, vamos ver... Verdugo! Sim, mesmo porque, creio, muitos dos que não conhecem seu significado talvez nem se deem ao trabalho de procurá-lo num dicionário.

          Além de rígido na correção das provas, o sujeito não era afeito a polissemias. Pois é, ainda mais se o sentido da palavra descambasse para sentidos figurados. Ih, aí, então, é que batia o pé como menino birrento.

          Destino, entretanto, é algo que não dá para controlar por completo, ainda que o sujeito tente viver uma vida nas condições normais de temperatura e pressão (CNTP). E foi num desses momentos de deslize da perfeição que Vagner se deparou com Cecília, professora de literatura e, como tinha nome de poetisa, poetisa também era. 

          A mulher, assim que entrou no recinto, apesar das vestes costumeiras de uma dolorosa segunda-feira, quando as memórias afetivas parecem vivenciar o final de semana, por mais simplórios que tenham sido, foi notada por Vagner. Não que ele nunca a tivesse visto. Eram colegas desde o início do ano letivo. Mas algo diferente, como se, naquele dia, as narinas do professor, finalmente, tivessem se dilatado para sentir o inebriante perfume de colega. 

          Sem muito traquejo para paqueras, Vagner não encontrou palavras para tentar aproximação. Por sorte, Cecília, que de boba não tinha sombra nem cacoete, percebeu a intenção do gajo e, atrevida que nem gente romântica, convidou o bonitão para sair. Quer dizer, bonitão é força de expressão. Se bem que o homem, apesar de sisudo, não era de se jogar fora. 

          O encontro se deu na sexta-feira seguinte, em um bar ao som de Alessandra Terribili, cuja voz rouca costuma encantar a plateia. Por falar em rouquidão, era mês de setembro, quando o ar em Brasília é mais seco do que garganta de camelo ou bochecho de velho. Dizem que até o deserto do Atacama fica enciumado com tamanha secura. 

          Enquanto o casal de pombinhos se enamorava ao som da cantora, eis que a destemida professora, insinuante que estava, aproximou os lábios tão perto, que nem o desajeitado Vagner deixou de notar o que aquilo significava. E lá foi o danado beijar a quase namorada, quando, de repente, o inusitado aconteceu. Um choque! 

          Cecília, apesar do susto, sorriu, enquanto Vagner, sabedor daquele fenômeno, não pareceu surpreso.

          — Você viu isso, Vagner? Acho que rolou uma química, né?

          — Não.

          — Não?

          — Estática.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre poesias e o fenômeno físico ao som da Alessandra Terribili" foi publicado por Notibras no dia 26/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/entre-poesias-e-o-fenomeno-fisico-ao-som-da-alessandra-terribili/

sábado, 25 de outubro de 2025

O menino, a mangueira e a formiga

     

 Olhos perdidos, o menino observava o nada em busca de algo que ainda não havia descoberto. Pensava no seu mundo, o quintal da casa da avó. Não uma avó qualquer, era a materna, cujos laços costumam ser emaranhados que nem pensamentos de gente miúda. 

          Não o quintal todo, mas parte dele, mais precisamente uma árvore. Não uma árvore qualquer, uma mangueira, presente da parenta. 

          — É sua, Joaquim.

          — Minha?

          — Sim. Sua!

          — Só minha?

          — Todinha sua. Desde as raízes lá no fundo até aquela folha verdinha lá no topo.

          O moleque observava a casca áspera do caule, a copa, as raízes exibidas que mostravam parte de suas curvas e, em seguida, se embrenhavam solo adentro, como se buscassem algo. Talvez um tesouro escondido ou, então, apenas água.         

          Formigas. Os olhos observam formigas, formigas pretas, que sobem, que descem, que, de vez em quando, saem dos trilhos, como se desnorteadas ou em busca de algo novo. Joaquim pegou uma formiga, abriu a mão e a pequenina correu por sua palma, começou a escalar o braço. O menino, pegou a danada novamente. 

          Entre o polegar e o indicador, o guri, curioso, viu aquela criatura minúscula se debater. Por um instante, imaginou que a pequenina gritava, desesperada, pedindo socorro. Que nada! Era avó chamando o neto. Hora do almoço.

          Joaquim levou a formiga até o nariz, a cheirou. Cheiro de formiga. Cuidadosamente, a colocou no caule da mangueira, da sua mangueira. Enquanto o minúsculo inseto voltada para a colônia, ele corria para comer seu prato favorito. Talharim à bolonhesa. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O menino, a mangueira e a formiga" foi publicado por Notibras no dia 25/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/o-menino-a-mangueira-e-a-formiga/

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Clarice e o jogo de paciência

    

    Concentrada diante das cartas dispostas sobre a mesa, Clarice estava determinada a não perder a paciência. Um movimento errado e tudo poderia ir por água abaixo. Dois, dois, três, três, quatro, quatro... Tudo ia se sobrepondo aos ases. Por que aquele maldito nove tinha que ficar trancafiado entre o Rei e o Valete? Droga!

          Embaralha, embaralha, embaralha. Nova disposição de cartas. Dessa vez, o jogo parecia favorável à mulher. Passa, passa, passa, nada se encaixa. Que inferno! 

          Determinada a vencer, Clarice embaralhou, embaralhou e, para dar sorte, fatiou o baralho de trás pra frente, como se aquilo fosse fazê-la fechar o jogo. Não tinha erro, daquela vez as cartas se renderiam a ela. 

          Logo após o baralho ser distribuído sobre a mesa, Clarice começou a virar o bolo de cartas que segurava com a firmeza e determinação de uma espadachim. 

          O início foi complicado, deixou para trás dois ases. Entretanto, com o desenrolar do jogo, as cartas foram se encaixando, abriu novas casas, o sorriso no rosto de Clarice já antecipava a vitória, que vislumbrava no horizonte. Mas eis que uma onda de gritaria e latidos interrompeu a próxima jogada. Ela olhou para o lado e foi atacada por abraços dos três netos e lambidas do Barão, o enorme vira-lata da família,

         Clarice, assim que os calorosos afagos foram dissipados, se lembrou das cartas. Voltou os olhos para a mesa e constatou que o baralho estava espalhado. A mulher não acreditava naquilo e teve ímpeto de dar aquela bronca na trupe. 

        Olhos furiosos, lábios trêmulos, que, gradativamente, se transformaram em gargalhada. Paciência. Clarice, finalmente, havia vencido. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Clarice e o jogo de paciência" foi publicado por Notibras no dia 24/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/clarice-e-o-jogo-de-paciencia/

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Arnaldo, a frustração e a cerveja

     

          Andava bilioso por conta do chefe. Não que o homem o tivesse destratado, a questão era outra. Arnaldo, preterido para uma promoção, que fora ofertada para Lígia, a novata de aparência agradável e movimentos lascivos, queria porque queria descascar para cima de alguém, nem que esse alguém fosse o vendedor de picolé, que sempre estacionava o carrinho de mão em frente ao restaurante, onde ele e todos os demais funcionários costumavam almoçar. 

          Nem mesmo Arnaldo acreditava que a bonitona tivesse sido a escolhida para o cargo por causa da aparência, apesar de ter quase certeza de que tanta lindeza tenha dado aquela forcinha capaz de dirimir qualquer dúvida. No entanto, mesmo diante da flagrante competência da mulher, não conseguiu reprimir o sentimento que começou a consumi-lo. Antes bom ator, passou a denunciar todo o rancor através expressões faciais que não conseguia evitar. 

          — Você está bem, Arnaldo?

          — Tô!

          — Tem certeza?

          — Tenho!!!

          — Calma, meu amigo, não precisa gritar.

          — Não sou seu amigo, Lúcio! Colegas de trabalho! Colegas de trabalho e nada mais.

          Lúcio, que ocupava um cargo do mesmo nível do ranzinza, para evitar prosseguir naquela infrutífera discussão, sorriu seu melhor sorriso e foi tomar um café. Arnaldo o fuzilou com o olhar dos insatisfeitos, cuja frustração era evidente. Seja como for, já com o copo descartável entre os dedos indicador e polegar, o colega, nada mais do que simples colega, tentou não queimar a língua com o líquido fumegante. 

          Quando chegou ao lar, naquele dia não tão doce assim, Arnaldo pensou em pegar uma cerveja na geladeira. Entretanto, preferiu tomar um banho quente antes.

Debaixo do chuveiro, enquanto sentia a água quente cair sobre os ombros, Lígia se materializou ali ao seu lado. Ele tomou um susto e, instintivamente, procurou cobrir as partes mais vulneráveis. Desistiu. Se ela estava ali, não seria ele a se envergonhar da situação, apesar de não poder se gabar por algo fora do comum. 

          Mesmo não aparentando qualquer desconforto, Arnaldo não entendia o motivo da agora sua superior querer se imiscuir logo ali. Teria chegado aos seus ouvidos o pequeno imbróglio que ele tivera com Lúcio? Seria o colega um fofoqueiro e, agora não duvidava, teria se sentido ofendido por não passar de mero colega de trabalho? 

          Arnaldo fechou o chuveiro e, sorridente, pediu a toalha para Lígia. 

          — Não sabia que você estava em tão boa forma.

          — Pois é, Lígia... Posso chamá-la de Lígia? É que agora você é a minha superior...

          — Lígia. Prefiro Lígia.

          — Então, Lígia, respondendo à sua observação, procuro fazer exercícios diários. Afinal, a gente não sabe quando é que vai ser pego de surpresa, né?

          A mulher sorriu, enquanto os enormes olhos castanhos não se deram ao trabalho de disfarçar possível interesse. 

          — Eu iria beber uma cerveja, mas talvez você prefira algo mais sofisticado. Vinho?

          — Cerveja. Prefiro a honestidade de uma boa cerveja.

          Honestidade de uma boa cerveja? O que significava aquilo? Arnaldo, mesmo intrigado, procurou manter o controle da situação, que já era todo de Lígia. Como aquela mulher era autoconfiante! 

          — Você manda, chefe! Quer dizer, Lígia.

        Beberam, beberam, beberam até que, chegou aquele momento de se esquecer do que, de fato, teria acontecido. Benesses do álcool, diriam os filósofos de botequim. 

          Arnaldo acordou na cama. Tentou puxar pela memória a noite que certamente tivera com a estonteante intrusa. Nada além do lençol amarrotado ao lado. Ergueu as narinas, como se desejando buscar o perfume de Lígia. O homem olhou para o lado e percebeu a janela aberta, culpada por roubar o resquício do aroma da mulher.

          A partir daquele dia, os colegas, incluindo Lúcio, não entenderam o porquê daquela mudança repentina de humor. Estaria Arnaldo planejando algo ou, então, teria o sujeito mudado da água para o vinho? Todos estavam enganados. Cerveja, nada mais do que a honestidade de uma boa cerveja. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Arnaldo, a frustração e a cerveja" foi publicado por Notibras no dia 23/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/arnaldo-a-frustracao-e-a-cerveja/

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Gerson, notório sedentário, resolveu maratonar

   

De quem foi a ideia, ninguém se lembrava ao certo. Se bem que, passados quase dois anos do ocorrido, parece que foi da Paula, responsável pelo arquivo da repartição. Uma maníaca por malhação, como se correr numa esteira fosse salvá-la do destino de todos nós, meros mortais: engrossar a cintura apenas de olhar aquela mesa farta, mesmo que tudo não passe de mero devaneio. 

          — Maratonar?

          — É!

          — Mas maratona não é aquela corrida de cansar até preá?

          — É, mas essa é diferente.

          — Diferente como?

          — Olha, quem praticar mais exercícios e se alimentar com comida saudável ganha.

          — Hum! Tá! Mas como é que a gente vai ter certeza de que o outro vai cumprir as metas?

          — Basta tirar fotos quando a pessoa estiver na academia ou da comida que está comendo.

          — Mas não tem como trapacear?

          — Ter até tem, mas ninguém aqui é mais criança, né!?

          — Hum! E o que o vencedor ganha?

          — Saúde.

          — Saúde?

          — Sim! Saúde!

          — Só?

          — E tu acha pouco?

          — Bem, é que acho que a gente poderia ganhar pelo menos um bombom.

          — Hum!

          A conversa envolveu vários preguiçosos e a doida da academia. Seja como for, parece que todos começaram a se empenhar, como se a competição despertasse os mais primitivos instintos naquela gente. Não era apenas uma questão de saúde, mas principalmente de vida ou morte. 

          Gerson, notório sedentário, botou na cabeça que aquela disputa teria que ser vencida por ele. Afinal, além do prazer de ver todos os demais concorrentes reverenciarem sua capacidade de superação, ainda estava de olho na Júlia, que trabalhava na mesa ao lado. Determinado, tratou de se matricular na academia ao lado do seu apartamento, bem no início da Asa Norte.

          A dieta do então mais novo discípulo da busca pelo corpo perfeito passava principalmente por frutas, cereais, carnes magras e, não poderia faltar, ovos. Cozidos! Nada de fritura, pois não queria correr riscos desnecessários, além de que, óbvio, a ingestão de calorias ficaria reduzida substancialmente. 

          O início, é verdade, foi mais sofrido do que o esperado. Todavia, imbuído do desejo de vitória, Gerson conseguiu driblar fraquezas como, por exemplo, aquela vontade de chutar o balde e abocanhar aquela tão convidativa barra de chocolate. Fechou a boca para tais tentações e, não tardou, conseguiu reduzir a silhueta já no final da primeira semana. 

          O sujeito, a cada levantamento de peso, ovo cozido ingerido e quilômetros e mais quilômetros vencidos na esteira, estava certo de que seria laureado como o grande campeão da acirrada competição. Para não restar dúvida, montou até um PowerPoint que, mesmo não tendo prova, carregava muita convicção. E lá foi o Gerson para receber seu troféu numa sexta-feira, dia marcado para a aferição dos resultados apresentados pelos participantes.

          Não venceu. Tanto esforço pra nada! No entanto, caso não fosse o Gerson, qualquer um estaria satisfeito com um honroso terceiro lugar. O problema é que era o Gerson, que não conseguiu segurar a frustração. Soltou a língua e, caso não fosse contido pelos colegas, talvez chegasse a via de fatos com a criadora daquele martírio. 

          Na segunda-feira seguinte, lá estavam todos na repartição. Gerson, envergonhado pelo ocorrido, fizera um tour pelas prateleiras mais calóricas do supermercado e, ao entrar no ambiente de trabalho, os colegas não deixaram de notar a antiga silhueta do gajo, que se sentou à mesa e, cabisbaixo, tentou se concentrar no trabalho. Desiludido, pensou que o melhor mesmo era tirar a Júlia da cabeça. Também, depois daquele papelão... Sem chance!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Gerson, notório sedentário, resolveu maratonar" foi publicado por Notibras no dia 22/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/gerson-notorio-sedentario-resolveu-maratonar/