domingo, 23 de junho de 2024

Olímpio, a filha do fazendeiro e a onça

    

Lá pelos idos de 1940, enquanto o mundo guerreava num dos conflitos mais insanos da história da humanidade, Olímpio, rapaz de seus 20 anos, se interessou pela Francisca, filha única do maior fazendeiro da região da futura capital do Brasil. Mas não pense você que naquele tempo era coisa fácil arranjar namorada, pois ainda eram comuns os casamentos arranjados.

          Olímpio, que era mais do que pobre, deu uma talagada na garrafa de cachaça e foi ter um dedo de prosa com o futuro sogro. Sem ter dado nem uma palavra sequer com a moça, precisava convencer o fazendeiro a aceitá-lo como genro. Mal pisou na propriedade, o frangote se fez anunciar. 

          — Dia.

          — Dia.

          — Olímpio José Pacífico. Vim falar com o seu Faustino.

          — O que você quer com o patrão?

          — É assunto particular.

          O empregado, cara feia, foi avisar o dono do lugar, que mandou trazer a visita até o alpendre. 

          — Tarde, seu Faustino. Queria dar dois dedos de prosa com o senhor.

          O homem olhou o jovem por um instante, até que o chamou para se sentar na poltrona ao lado da sua. Mandou vir café e, somente após servido, permitiu que o silêncio fosse quebrado.

          — Qual a sua graça?

          — Olímpio José Pacífico, a seu dispor.

          — E o que o traz aqui na minha humilde casa?

          Olímpio, sem tempo de pensar naquela ironia, tratou logo de desembuchar o motivo da visita. Tremendo que nem vara verde, o rapaz torcia o chapéu de palha nas mãos suadas. Mas, antes que o efeito da pinga passasse, falou o que planejou falar.

          — Pois é, seu Faustino, eu vim aqui pedir a mão da sua filha em casamento.

          — Olímpio, eu conheço o senhor desde menino. O senhor é filho do finado Libório, pessoa de muita estima. Mas o que o senhor tem a oferecer para minha Francisca? Ela é moça distinta, sabe cozinhar, costurar, bordar, cuidar da casa, toca piano, já está diplomada para casar. 

          — Seu Faustino, o senhor sabe que não sou homem de posses. A terra que meu pai deixou foi dividida entre os filhos. Tenho algumas galinhas, uns porcos, uma mula trabalhadeira, mas sou homem de muita coragem. 

          O fazendeiro encarou o rapaz, coçou o queixo e, então, colocou seu ponto de vista.

          — Está ótimo, senhor Olímpio. Minha filha nem precisa de coisas materiais. O senhor sabe que sou um homem muito rico e, quando eu fechar os olhos, e Deus me chamar, tudo será da minha amada Francisca. Mas tem um porém.

    `     — Qual, seu Faustino?

          — Pois bem, senhor Olímpio, o senhor sabe que o mundo vai de mal a pior. Viver já não é mais seguro como antigamente. Por isso, quero um cabra de coragem ao lado da Francisca. Enquanto posso, eu garanto a segurança da minha filha. No entanto, senhor Olímpio, o senhor sabe que a vida não nos pertence, não é mesmo?

          — É verdade, seu Faustino.

          — Para não tomar mais seu tempo, senhor Olímpio, por enquanto faremos o seguinte. Tem uma onça nas redondezas que anda pegando as criações. A tinhosa já pegou dois bezerros meus, mais uns três do vizinho Flaviano. Já ouvi que pegou até forasteiro que passou por aqui e ninguém mais viu.

          — Parece que ouvi alguma coisa assim, seu Faustino.

          — Então, o senhor sabe que eu e meus meeiros não podermos sair à procura dessa onça sem um cabra de coragem pra valer. Sei que o senhor parece mesmo ser essa pessoa. Vejo pelo seu olhar que coragem não lhe falta. 

          Coragem até que não faltava no Olímpio, mas o sangue lhe faltou todo. Ele ficou mais branco que uma vela, os lábios roxos, as mãos não paravam de enrolar o chapéu, que pingava de tão molhado pelo suor. O fazendeiro, percebendo aquela tremedeira toda, gritou para a empregada.

          — Ô, Maria, traz mais café aqui pra minha visita.

          Assim que a mulher serviu a bebida, Olímpio deu um gole longo no café, que lhe queimou a garganta. O rapaz tentou disfarçar, enquanto o pai de Francisca cofiou o bigode. Seja como for, sem aquele gole de café, perigava a visita desabar.

          — Está bem, seu Faustino. Que dia vai ser a nossa empreitada? Eu lembrei que tenho que apartar uns bezerros no sítio do seu Lourival.

          — Amanhã mesmo. Afinal, não podemos esperar muito ou, então, essa onça pode começar a comer os porcos do senhor.

          — Está bem. Amanhã estarei aqui para agarrar essa onça. 

          Assim que Olímpio foi embora, Faustino sentiu um fedor. Ele olhou para a empregada, que também apertou o nariz.

          — Ué, Maria, você pisou em bosta?

          — Não, patrão. Nem fui lá fora hoje.

       No dia seguinte, Olímpio quase amanheceu na casa do fazendeiro. Casar com Francisca agora era uma questão de honra, não era mais pela fortuna. que ele certamente iria herdar, e muito menos pelo amor, mesmo porque ele nem conhecia a moça direito. Foram duas ou três olhadelas durante a missa de domingo.

          — Muito bem, senhor Olímpio, além de corajoso, o senhor é pontual.

           O fazendeiro possuía uns cachorros excelentes, que não perdiam o faro nem quando a caça atravessava o rio. E lá foram Faustino, Olímpio e mais três meeiros atrás da onça. No entanto, quando chegaram a determinado lugar, resolveram se separar. Cada um no seu canto e os cachorros latindo cada vez mais alto. A onça estava perto.

             Olímpio, cuja coragem parece que havia sumido, resolveu se proteger lá em cima de uma árvore. Ágil que nem macaco-prego, ficou escondido até que foi descoberto pelos cachorros, que latiam em direção à copa. O fazendeiro e os outros homens chegaram e olharam para cima da árvore. O fazendeiro, garrucha na mão, falou quase gritando.

           — Muito bem, senhor Olímpio. O senhor me impressionou. O senhor é o homem certo para se casar com a minha filha. O senhor é muito corajoso, quis pegar a onça na unha.

           Olímpio, sem entender aquelas palavras, foi despertado pelo rugido da onça em um tronco logo acima. De tão assustado, pulou. Pobre rapaz, os cachorros foram para cima dele. Não se sabe se morreu pela queda ou pelas mordidas que levou. 

           De tão espantados que Faustino e os meeiros ficaram, trataram de fugir do local. No entanto, no outro dia, retornaram, mas não encontraram o corpo do Olímpio. É quase certo que a onça o tenha devorado. 


  • Nota de esclarecimento: O conto "Olímpio, a filha do fazendeiro e a onça" foi publicado por Notibras no dia 23/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/olimpio-a-filha-do-fazendeiro-e-a-onca-de-tocaia/
  • O conto "Olímpio, a filha do fazendeiro e a onça" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 27/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/olimpio-a-filha-do-fazendeiro-e-a-onca/

Cosme, Mimosa e o mar

    

Era um tipo comum, honesto, bem-intencionado, repleto de virtudes, fadado à melancolia. Cosme, sem um Damião para chamar de mano, era tão rígido em atitudes, que nas curvas saía pela tangente. Se dava a cara contra o muro ou despencava desfiladeiro abaixo, imaginava ser sua sina.

          Perene que era o homem, só saiu da pequena Timbaúba dos Batistas por conta de doença, que se abateu sobre a família. Restou-se só. Sem perspectivas melhores, ajuntou o que dava na velha carroça e tomou o rumo do mar. Ao longo do caminho, foi trocando o que tinha por comida e. quando já não havia mais coisas para trocar, fez catira com a carroça. Ficou no lombo da Mimosa, mula com nome de vaca. 

          Decidido a não morrer por coisa boba, apeou quando chegou o tempo de apear, montou nos momentos que Mimosa, resistente que nem mula, conseguia alguma provisão para manter o passo firme. O sol castigava aqueles dois, que descansavam quando dava, geralmente durante as horas mais ardentes do dia, debaixo de qualquer mandacaru que lhes fizesse sombra.

          Num vilarejo, teve gente que quis comprar a Mimosa. Paga pouca, mas que já dava para sobreviver por uma semana. Diante da oferta salvadora, Cosme coçou o queixo, abanou o rosto com o chapéu de couro.

          — Vendo, não. 

          — Aluga?

          — Pra quê?

          — Tô precisando roçar um pedaço de terra.

          — Alugo, não.

          — Por quê?

          — Combinei com ela que vamos ver o mar.

          Cosme e Mimosa se despediram e prosseguiram viagem. O caminho era longo e penoso, quase impossível. Todavia, aqueles dois estavam possuídos por aquela teimosia própria dessa gente nordestina. Sem tempo para descansar, sem comida para comer, sem água para beber, viajaram até que, esquálidos, sentiram o aroma de algo que não conheciam.

A maresia entrou forte por aquelas narinas. Cobriram mais alguns metros de areia até que sentiram as ondas. Exaustos, deitaram, enquanto a água salgada refrescava aqueles corpos, que, não tardou, repousaram inertes. Almas lavadas. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Cosme, Mimosa e o mar" foi publicado por Notibras no dia 23/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/cosme-mimosa-e-a-descoberta-de-que-e-doce-morrer-no-mar/
  • O conto "Cosme, Mimosa e o mar" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 23/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/cosme-mimosa-e-o-mar/

sábado, 22 de junho de 2024

Pancada, os cachorros e o frango

       

Até onde se sabe, não era do conhecimento dos moradores do bairro o nome daquele homem. Todos o chamavam de Pancada, talvez por conta da aparente falta de normalidade de suas ações, algumas até esdrúxulas. No entanto, ninguém o via como possível ameaça, já que nunca tiveram motivo para tal. Até gostavam dele, como provavam as diversas migalhas que lhe jogavam, da mesma forma que faziam com os cachorros da rua. 

           Quando os dias estavam quentes, o mendigo era facilmente encontrado debaixo de alguma árvore frondosa, especialmente a mangueira da pracinha em frente à igreja. Lagarteava o dia inteiro, até que, no final da tarde, espreguiçava-se como um felino que acabara de se levantar. Precisava se alimentar. 

          Durante o inverno, Pancada tratava de arrumar algum jornal velho para se aquecer. Não que a vestimenta puída não lhe fosse suficiente para suportar o frio, mas o costume, já entranhado em seu ser, dizia que hábitos deveriam ser preservados. Além do mais, gostava de se inteirar das notícias, mesmo que antigas, apesar de não saber ler. Divertia-se com as figuras. 

          Pancada, quando estava livre de suas obrigações, que poderiam ser facilmente adiadas para o dia de São Nunca, apreciava o cheirinho de frango assado. Postava-se logo atrás dos vira-latas diante da televisão de cachorro da padaria do Manoel. Tantos olhos gulosos assistindo àquelas aves depenadas girando em longos espetos. 

          Foi num momento de distração do dono do comércio que o faminto Pancada teve uma crise de atrevimento. Abriu a portinhola, arrancou um fumegante frango e o jogou para o alto para não queimar as mãos. Os cães, concorrentes diretos, tentaram pegar os nacos de direito. Sem sucesso, pois o mendigo, mais ligeiro, aparou a iguaria com a barra da blusa e se escafedeu.

          Manoel, avisado por um cliente sobre o ocorrido, foi até a rua, de onde ainda conseguiu visualizar o maltrapilho correndo desembestado atirando e aparando sobre a blusa o fruto do roubo. Pão-duro que era, bem que poderia praguejar pelo prejuízo. Que nada! O homem até achou graça vendo aquele doido tentando não se queimar, ao mesmo tempo em que era perseguido por uma horda de cachorros. 

          Alguns fregueses ainda soltaram impropérios em direção ao maluco. Entretanto, Manoel virou-se e, antes de entrar no seu comércio, ainda com um sorriso nos lábios, desencorajou qualquer possível ato de violência contra o mendigo.

          — Esse Pancada precisaria ser refundado para ser normal.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Pancada, os cachorros e o frango" foi publicado por Notibras no dia 22/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pancada-os-cachorros-e-o-frango-do-dia-de-sao-nunca/


sexta-feira, 21 de junho de 2024

Meu amigo Antônio

    

        A última conversa que tive com Antônio foi numa noite fria logo após retornarmos de uma festa junina aqui em Campina Grande. Ele andava meio calado por aqueles tempos e, talvez por isso, o convidei para uma cerveja lá em casa. Sentados na varanda, conversamos até surgirem os primeiros raios da manhã, quando o chamei para tomarmos café.

          Meu amigo sorriu e concordou com um movimento sutil da cabeça. Enquanto a água esquentava sobre o fogão, meu amigo ficou entretido com as fotografias sobre a estante da sala. Em duas dela, lá estávamos nós dois, ainda jovens na praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, para onde havíamos viajado com nossos pais. Nessa época, tínhamos muitos sonhos, a maioria não realizada. 

          Antônio pegou a xícara e sorveu o primeiro gole. Disse que estava delicioso, que eu sempre fui o cara da turma que sabia fazer café. Fingi falsa modéstia, mesmo porque desde sempre aprendi que não se pode deixar a água ferver, pois o pó queima. 

          — Vou embora.

          — Pra onde, Antônio?

          — Ainda não decidi. Mas vou pro litoral. 

          — Cabo de Santo Agostinho?

          — Pode ser. Lembra que amamos aquelas férias?

          — Sim. Você tem razão.

          Depois do café, Antônio se despediu com um abraço apertado. Disse que eu sempre fora seu melhor amigo. Em seguida, me deitei no sofá da sala e adormeci. Acordei quando já era quase noite. Peguei um cigarro e fui fumar na varanda. Ao sair, percebi um pedaço de papel debaixo da porta. Era um bilhete do Antônio: "Pedro, o caminho para o mar é sempre o mais bonito."

          Nunca mais tive notícias do meu amigo. De vez em quando, imagino que ele esteja só de bermuda, pele bronzeada, ainda com seus 18 anos, deitado em frente à praia de Itapuama. Pura ilusão. Somos velhos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Meu amigo Antônio" foi publicado por Notibras no dia 21/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/viver-bem-e-trocar-campina-grande-por-itapuama/

Tio Jurandir era um terror

   

    Reunião de família é coisa rara, mas, de vez em quando, acontece por aqui. Tirando Natal, apenas aniversário de vovó ou alguma tia graduada. De resto, mensagem ou ligação curta já está de bom tamanho. Seja como for, o imbróglio que soube foi em confidência, já que é coisa antiga, e o pessoal se esqueceu ou não gosta de comentar.

          A história se passou lá pelos idos de 1950, ali pelos lados de Luziânia, época em que a capital ainda era o Rio de Janeiro, e Brasília nem se cogitava e fazia parte do Goiás. A família de minha mãe morava por aquelas bandas, e o causo ocorreu em uma fazenda.

          Meu tio Jurandir era um terror. Atrevido que nem macaco-prego, não se importava se a mulher era casada, solteira ou tico-tico no fubá. Se desse brecha, o danado não perdia a oportunidade. Prova disso é que ele foi se engraçar para o lado da Sônia, que era casada com o Tião, justamente o cabra mais brabo da região. No entanto, não foi por conta de suposta coragem do meu parente, que era praticamente nenhuma. A coisa desandou pela falta de juízo mesmo.

          De tantas investidas que recebeu do tio Jurandir, Sônia deixou o resto de pudor na igreja e se engraçou para o lado do galanteador. O problema é que na roça as coisas acontecem de modo um tanto diferente. É que, enquanto as paredes têm ouvidos, o mato possui olhos. E era justamente no meio do capim que os amantes iam se refestelar.

          Há meses naquele vuco-vuco, a confiança batia na copa do jacarandá sem qualquer cerimônia. Tio Jurandir e Sônia, crentes de que faziam as coisas sem serem notados, acabaram por levantar suspeita no marido traído. Tião, caçador dos bons, começou a usar a tática de caça dos gatos. Sem fazer barulho, o homem seguiu a esposa, que, naquele dia, talvez por conta dos hormônios aflorados, saiu toda apressada rumo ao matagal na beira do rio. 

          Sônia, assim que avistou tio Jurandir, caiu em seus braços. Afoitos por carícias, não demorou e se deitaram sobre o capim, que aceitou o peso e o movimento daqueles corpos apaixonados. Mas eis que, no meio da brincadeira, foram flagrados pelo marido traído, que saiu detrás da moita com o facão na mão. Sem desculpas convincentes, os amantes, completamente pelados, nem tentaram mentir.

          Tio Jurandir, receoso de ter as partes decepadas, tratou de cobri-las com as mãos. Sônia até tentou ficar na frente para protegê-lo, mas ela sabia que facão que corta um também corta dois. Melhor seria confessar o que estava engasgado na garganta há tempos.

           — Não te amo, Tião. Nunca te amei. Casei com você porque papai quis assim. Se quiser me matar, mate-me de uma vez. 

          — Não vou te matar, Sônia. Mas quero ter um dedo de prosa com esse moleque.

          Tio Jurandir, com os cambitos tremendo, ficou mudo.

          — Olha aqui, Jurandir, vou falar uma vez só. Você vai se casar com a Sônia, vai tratar dela com todo respeito. Se eu ficar sabendo que você maltratou essa mulher ou anda arrastando asa pra mulher casada de novo, é melhor preparar o caixão, que eu volto e te mato, seu cabra safado. Você ama a Sônia?

          — Amo, sim, senhor!

          — Pois pode levá-la pra sua casa, pois na minha não entra mais. Vou jogar fora todas as roupas dela e tacar fogo. Trate de comprar roupa nova pra sua mulher. 

          Tião olhou mais uma vez aqueles dois, virou o rosto e cuspiu grosso. Levantou o facão e, com um golpe só, rasgou o chão. Virou as costas e se embrenhou no mato.

          Depois de ouvir atentamente cada palavra, levei alguns dias para visitar meus tios, que ainda moram na fazenda da família em Luziânia. Olhando aqueles rostos enrugados e corpos curvados, é difícil imaginar que protagonizaram aquela história. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tio Jurandir era um terror" foi publicado por Notibras no dia 21/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/tiao-traido-flagra-casal-e-impoe-novo-casamento/
  • O conto "Tio Jurandir era um terror" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 15/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/tio-jurandir-era-um-terror/
  • O conto "Tio Jurandir era um terror" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 18/1/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=77939

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Jogo de damas

      Marcia e Marcio, por brincadeira, começaram a namorar há quase 30 anos, quando, ainda adolescentes, fizeram juras de amor eterno. O relacionamento não passou de um verão, até que, quase dez anos após, os dois se reencontraram em um barzinho. Dessa vez, não teve jeito. Os dois engataram um romance, que dura até hoje.

          O casal mora em uma bela casa, dois andares, quatro quartos, sendo um deles usado como atelier dela, além da garagem, de tão espaçosa, tem servido para guardar as tralhas do Marcio. Bagunceiro além da conta, ele passa boa parte do tempo livre martelando pregos, lixando ripas de madeira, apertando parafusos, menos aquele que dizem que permanece frouxo na cabeça. 

          Francisco, filho do meio, passa horas trancado no quarto, onde toca piano sem parar. O rapaz, talentoso que é, sonha em viver de música. Helena, a caçula, possui uma gaita, que quase sempre deixa repousada sobre a cabeceira ao lado de sua cama. Já o mais velho, Pedro, há tempos saiu de casa para ganhar o mundo ao som de sua guitarra. 

          Pois o que aconteceu por esses dias pode parecer história inventada, mas a realidade, não raro, pode ser mais surpreendente do que a própria mentira. Que seja um tanto de uma, outra pitada de lorota, o importante é que é um caso, no mínimo, curioso.

         Marcia, que quase nunca sai para passear com os cachorros, Cacau e Coco, justamente nesse dia, fez o que era tarefa do marido. Enquanto isso, Marcio, com uma furadeira nas mãos, furava a parede da garagem para pendurar um quadro da sua banda de rock favorita, Graxelos. Quanto ao Francisco, estava empolgado tocando Villa-Lobos. 

          Helena, que acabara de acordar, permaneceu deitada na cama olhando para o teto. Ela pensou que é muito bom acordar ouvindo o irmão ao piano, logo ali no quarto vizinho, apesar da barulheira provocada pelo pai, que insistia em furar a tal parede. Nisso, eis que a porta se abre. Era um homem, que a menina julgou ser um dos amigos do pai.

          O sujeito encarou a garota, que lhe sorriu. Ela puxou conversa e o convidou para brincar de damas. Ele se sentou na cama e os dois jogaram quatro ou cinco partidas, todas vencidas por Helena.

          — Acho que acordei com sorte.

          O homem, após quase uma hora por ali, se levantou. Olhos arregalados, observou ao redor. De repente, viu uma pequena boneca de pano ao lado. Não teve dúvida, a pegou e saiu correndo do quarto. Enquanto isso, Helena, ainda imaginando que aquilo fosse mais uma brincadeira entre os dois, sorriu. Mal sabia a garota que aquele sujeito era um ladrão.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Jogo de damas" foi publicado por Notibras no dia 20/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/ladrao-entra-em-casa-e-helena-inocente-desconhece-o-perigo/


quarta-feira, 19 de junho de 2024

Tia Joaquina não tinha muito juízo

    

        Tia Joaquina sempre foi muito brincalhona, eterna criança, como dizia mamãe. Fingia-se de morta com a língua pendendo para o lado. Vovó a chamava de doida, mas também não conseguia segurar o sorriso. Sei que ela se divertia com as maluquices da filha do meio.

          Mamãe, a mais velha, parecia proteger a irmã sempre que alguém tentava imputar-lhe culpa. Não era assim com tia Aline, a caçula, talvez porque ela sempre teve juízo demais. Vivia uma vida regrada além da conta, com medo de afrouxar o cinto e tudo desandar. O engraçado é que até a séria da família adorava as brincadeiras da irmã maluca. É verdade que o riso era sempre contido por uma mão sobre os lábios, que eram mais sinceros do que as atitudes. 

          Quando nasci, tia Joaquina estava com 23 anos, mas as traquinagens dos seus tempos de menina eram tão vivas, que parecia que eu as havia presenciado. Titia era mesmo maluca, e crianças adoram essas personalidades tresloucadas. Enquanto os adultos se misturavam entre si, meus primos e eu cercávamos nossa tia favorita até que chegava a hora dela se despedir, sempre com a promessa de novas estripulias no próximo encontro da família.

          Tia Joaquina nunca se casou, pois, segundo mamãe, gostava muito de namorar. Meu avô odiava essa conversa e sempre queria empurrar algum possível marido para a filha. Vovó, ao contrário, falava que, nesse ponto, Joaquina era a filha mais ajuizada. Esse entrevero até virou assunto em um churrasco na casa dos meus avós.

          — Joaquina, por que você não arruma um marido que nem as suas irmãs?

          — Papai, nem me venha com essa conversa de marido, que meu negócio é saracotear.

         Minha tia jamais se casou. Até pensei que fosse juntar os panos com o Toni, namorado de idas e vindas. O sujeito era bonitão, mas parece que os gênios dos dois não batiam. O homem era ciumento demais e não se adaptou às liberdades da titia. 

          Quando a adolescência chegou e me trouxe tantas transformações, mamãe tentou me ajudar. No entanto, foi com tia Joaquina que aprendi a lidar com as mudanças do meu corpo e os primeiros namoros. Graças aos seus conselhos, provavelmente me feri menos do que as minhas amigas.

          Na semana passada, enquanto estava de férias em Porto de Galinhas, soube que tia Joaquina sofreu um enfarto fulminante num supermercado. Ela estava prestes a completar 50 anos. Tão jovem, tão linda, tão livre, tão querida. Larguei tudo e voltei correndo para Recife.

          Foi muito estranho encontrá-la imóvel no caixão. Todos olhávamos incrédulos para aquela mulher, como se não acreditássemos que ela pudesse morrer de verdade. Passei o velório inteiro esperando que minha tia desse um pulo e fizesse careta com a língua para fora como sempre havia feito. Nem se mexeu. Talvez, a plateia já não acreditasse mais nas brincadeiras da tia Joaquina.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tia Joaquina não tinha muito juízo" foi publicado por Notibras no dia 19/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/tia-joaquina-sem-juizo-gostava-de-saracotear/

Gastura de pobreza

Que eram pobres, não restava dúvida. No entanto, Alma, a esposa, fazia questão de tentar esconder tamanha miséria debaixo dos trapos que lhe serviam de vestes. Uma fita na cintura, uma bijuteria no pescoço, aquele retoque na maquiagem. Quem visse, até pensava que aquele povo pertencia à tão almejada classe média. 

          Júlio, o marido, era pobre até nas atitudes. Isso, aliás, provocava discussões frequentes com a mulher, que não suportava tamanha dureza. Tanto é que o homem, talvez por inocência, não percebia as próprias manias e, não raro, levava aquela bronca.

          Domingo, lá estava o casal apaixonado, apesar das agruras. Coisas de gênios, não necessariamente opostos, apesar de diferentes. O prato do dia era macarronada com carne moída. Uma iguaria, levando-se em conta tanto pauperismo.

          Comida pronta, os dois se serviram. De tão gostoso que o prato estava, repetiram. O imbróglio começou quando o esposo quis pegar o resto do macarrão.

          — Pare de raspar a panela, Júlio!

          — Por quê, amor?

          — Os vizinhos vão pensar que a gente é pobre.

          — Que besteira!

          — Que besteira que nada! E trate de bater forte na tábua de carne.

          — Alma, por que eu bateria na tábua, se nem temos dinheiro pra comprar bife?

          — É pros vizinhos pensarem que somos ricos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Gastura de pobreza" foi publicado por Notibras no dia 19/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/alma-tenta-levantar-astral-sem-ter-o-que-comer/

terça-feira, 18 de junho de 2024

As cirurgias e a abóbora

            Não sei se você é do tipo que acredita em crendices, sejam as contadas pelo povo, sejam aquelas outras escritas em livros de capas pretas. Na verdade, isso não vem ao caso, pois a história é boa e vale a pena desfrutá-la com a alma livre de preconceitos. Ou você vai querer me dizer que nunca bateu três vezes na madeira para espantar mau-olhado?

          Era o ano de 1952, quando Altamira convenceu o marido, José, a levar o pequeno Augusto, de oito anos, para Goiânia, a então nova capital do estado. O único filho homem do casal estava com hidrocele e, se a coisa desandasse, perigava o sobrenome do pai não vingar, mesmo porque a mulher não podia mais engravidar. 

          José, que andava às turras com uma hérnia, carecia de operar. Ele adiou o que pode, mas a situação andava de um jeito, que qualquer peso era aquele problema. E o homem precisa ter saúde para lidar com as coisas da roça.

          Sem opções, José pegou o filho e rumaram para Goiânia, pois, naquela época, não existia hospital em Luziânia. Os três médicos da cidade atendiam em domicílio, mas só tratavam de lombrigueira, bicho-de-pé e outros males daquele povo. Cirurgia mesmo era na capital.

          No trajeto, pai e filho tiveram que atravessar a ponte de madeira sobre o rio Corumbá, que era a única ligação com o sul do estado. Augusto ficou maravilhado com aquele mundaréu de água. Quase mudo no dia a dia, desandou a falar.

          — Pai, quem é dono desse rio.

          — Se não for Deus, deve ser algum fazendeiro da região.

          — E tem peixe?

          — Tem.

          — E jacaré?

          — Tem.

          — Mas os peixes não têm medo de jacaré?

          — Jacaré também é filho de Deus. O bicho precisa se alimentar.

          Altamira, que ficara no sítio tomando conta das outras crias, chorava pelo canto. Rezava todos os dias pedindo que o marido e o caçula retornassem logo. Naquele tempo, cirurgia era sinônimo de morte. As pessoas morriam, mas não se permitiam ser operadas. Isso demonstrava o quão o marido era corajoso. Mal sabia ela que José estava adiando os passos para que a viagem demorasse o tempo que nem possuía.

          Apesar da procrastinação na jornada, os dois chegaram à capital. Foram operados e, por milagre, tudo correu bem e, assim que receberam alta, pegaram o caminho de volta para Luziânia. Recompostos que estavam, apressaram o passo, pois queriam chegar logo ao sítio da família. O problema é que a ponte, único acesso sobre o rio Corumbá, estava bloqueada. 

          Enquanto o marido e o filho aguardavam o concerto da ponte, Altamira, sem ter notícias, arrefecia em orações. A mulher já havia percorrido todos os santos que conhecia. No entanto, até aquele momento, só pensava em algo especial para preparar para José e o pequeno Augusto. Foi até a horta para escolher uma abóbora, mas não uma abóbora qualquer. 

          Como a mulher havia plantado algumas sementes no quintal, resolveu colher os frutos. Catou três e, após avaliação breve, se decidiu pela maior e de aparência mais saborosa. A mulher colocou as três morangas sobre a mesa da cozinha, com a escolhida no meio. 

          Naquele tempo, as pessoas se visitavam com muita frequência. Rosa, moradora da propriedade ao lado, foi tomar café no sítio da Altamira. Pra quê? A mulher ficou admirada com a perfeição daquela abóbora, justamente a escolhida pela dona da casa. Ela quis porque quis levá-la, mas foi dissuadida pela anfitriã.

          — Ô, Rosa, essa não dou. Vou preparar moranga com carne seca quando o José e o Augusto retornarem. Mas se você quiser, pode ficar com as outras duas.

          A visita fez cara de quem não gostou. Saiu sem palavras, mas seus olhos diziam tudo e mais um tanto. Já estava escurecendo e querendo economizar querosene, Altamira apagou as lamparinas e colocou as filhas para dormir. Ela adormeceu após algumas rezas direcionadas para São Benedito. 

          No dia seguinte, antes do primeiro canto do galo, Altamira se levantou. Foi até a cozinha e quase caiu para trás. A abóbora reservada para o festejo de retornou do marido e do filho estava seca que nem uva-passa. As outras duas continuavam do mesmo jeito.

          Não se sabe o que aconteceu com a Rosa. A mulher sumiu e ninguém soube informar seu paradeiro. Alguns dizem que ela foi para o lado de Goiânia, outros até falam que morreu afogada no Corumbá. Seja como for, após mais alguns dias, José e Augusto chegaram ao sítio da família, onde comeram moranga com carne seca durante uma semana inteira.

  • Nota de esclarecimento: O conto "As cirurgias e a abóbora" foi publicado por Notibras no dia 18/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/historia-baseada-em-fatos-reais-antes-de-brasilia-destronar-velha-luziania/


segunda-feira, 17 de junho de 2024

Arigó e o desabafo

                Minha avó costumava reclamar da miséria que passou na infância. Não chego a tanto no momento, mas poderia facilmente dizer que estou latindo no quintal para economizar cachorro. É que perdi o emprego há quase três meses. 

                  Perdi é modo de falar, pois fui obrigado a pedir as contas depois que o patrão descobriu algumas falcatruas que andei fazendo. Coisa pequena, mas que fizeram com que o dono da firma perdesse por completo a confiança em mim, que há tempos não era muita. 

           Francisco Arigó, seu criado! Nascido e criado pelas bandas de Conde, famoso município paraibano por causa dos naturalistas que desfilam nudez nas areias de Tambaba. Digo com sinceridade que jamais pus os pés por lá. Mas não pense que tenha sido por falsa modéstia nem por timidez. Antes fosse. Mas deixemos de lado minha falta de atributos, pois o tempo também é curto, e vamos direto ao que interessa. 

               Fui pego com a mão na massa pelo Sandoval, cujos braços estão sobre centenas de cabeças na região. Aliás, antes que você procure saber quem é Sandoval, não perca tempo. É que coloquei um pseudônimo para protegê-lo. Todavia, não estou preocupado com a segurança do meu ex-patrão, mas com a sua que está lendo este desabafo. 

           Meus desvios eram pequenos e esporádicos, difíceis de serem averiguados. Mas o olho cresceu e a mão perdeu a cerimônia. Quase oitenta mil, o que nem representava tanto assim num montante de mais de milhão. O problema foi que o Sandoval percebeu algo estranho. Nem tive tempo de inventar desculpas.

               — Ficou mais alto, Arigó?

                — ...

                — Arigó, só não te mato agora porque pode respingar sangue no tapete novo.

              Diante de tais palavras, tirei os sapatos e expus aquelas notas de cem escondidas sob as palmilhas. Sandoval não me disse mais nada. Lançou-me aquele olhar firme e repuxou a narina esquerda três vezes, como costuma fazer sempre que algo o aborrece. Ele apontou a porta e fui embora, antes que ele mudasse de ideia.

           Tratei de sumir, até que, na semana passada, recebi a visita da minha mãe no sítio onde ainda estou. Não sei como ela me encontrou, mas certamente foi com a ajuda do pessoal do Sandoval. Seja como for, assim que a vi, corri para lhe dar um abraço, mas fui interrompido por um inesperado tapa na cara.

           — Você tá maluco, Francisco? Por pouco que seu pai não te mata?

           — Pai?

           — Sim. Há tempos que estava pra te dizer isso. O Sandoval é seu pai.

          Arregalei tanto os olhos, que não sei como é que eles não saltaram do rosto. Levei um tempo para digerir aquela informação. Mamãe me disse que os dois se conheceram e tiveram um caso. O romance não durou muito, mas Sandoval não deixou nada faltar para minha mãe, que já me carregava no ventre. Após ouvir tal revelação, confesso que senti um alívio.

           — Agora que entendi.

           — Entendeu o quê, Francisco?

           — O Sandoval não me matou porque ele é meu pai.

           — Deixa de bobagem, moleque! Foi por causa do tapete.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Arigó e o desabafo" foi publicado por Notibras no dia 17/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/tapete-novo-salva-a-vida-de-filho-bastardo/

Maria Tereza e o filho displicente

    

        Maria Tereza conhecia as próprias fraquezas, mas precisava se fazer muralha diante dos filhos, especialmente do caçula. 

        — Acorda, Rubens, que não vou viver pra sempre!

        — Mãe, tá cedo. Nem é meio-dia ainda.

        — Olha, que vai acabar perdendo esse emprego que te arrumei. 

        — Relaxa, mãe!

        — Quem relaxa é calça frouxa, Rubens!

    Enquanto os irmãos mais velhos demonstravam resiliência que nem a mãe, Rubens, além de displicente, era frágil perante os percalços da vida. Tanto é que, naquele mesmo dia, o rapaz chegou mais uma vez atrasado ao emprego e, como previsto pela mãe, recebeu o temido bilhete azul. 

    Como desgraça pouca é bobagem, calhou da Soraia, namorada de longa data, apresentar o cartão vermelho para o gajo. Pobre Rubens, voltou para casa destroçado. Mas não antes de afogar as mágoas no boteco do Juca, famoso pelas cachaças de alambiques clandestinos.

        Mal pisou em casa, Rubens se deparou com a genitora. Ela, que conhecia a cria de longe, adivinhou o motivo daquele olhar tristonho. Torceu os lábios, como só as mulheres sarcásticas e sábias sabem fazer.

        — Ih, nem precisa falar. Já sei de tudo! Foi demitido.

        — Sim. 

        — E precisa ficar com essa cara de cachorro de rua? Daqui a pouco, você arruma outro.

        — É verdade.

        — Tem mais coisa, né?

        — ...

        — Desembucha, Rubens!

        — A Soraia terminou comigo.

        — Levanta a cabeça, meu filho. A gente tropica, mas não cai.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Maria Tereza e o filho displicente" foi publicado por Notibras no dia 17/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/maria-tereza-da-correicao-no-filho-displicente/