sexta-feira, 7 de junho de 2024

Lenda urbana da linha Plano Piloto/Sobradinho

           Você bem que poderia dizer que se trata de mais uma lenda urbana, mas afirmo que está redondamente enganado. Sou testemunha ocular do fato, ocorrido no dia 10 de janeiro de 1985, uma quinta-feira. Como guardei tal data? Simples, mas aguarde até o final da história para descobrir. 

          Meu nome é Francisco dos Santos. Aliás, dos Santos por parte de mãe e pai. Mamãe até queria que ficasse Francisco dos Santos dos Santos, mas o homem do cartório achou que ficaria esquisito e disse que o dos Santos seria dos dois. Papai, que sabia respeitar decisão de gente importante, nem discutiu. Voltou para casa e ouviu até seus últimos dias que o dos Santos do meu nome era dela e não dele. 

          Pois lá estava, nos meus 23 anos, em pé naquele ônibus lotado, indo para Sobradinho, quando, bem ali no início da Asa Norte, aconteceu um acidente envolvendo dois Opalas. Pelo visto, um queria correr mais do que o outro e, por conta de tamanha disputa, bateram e fecharam a W3. Formou-se o caos, justamente no horário que todos estavam a caminho do lar. 

          Foi um festival de buzinas em Brasília, onde o povo adora propagar que os motoristas ali não buzinam. Pois, sim! Naquele dia, não houve condutor que se sentiu impedido de apertar com força as buzinas, seja de Corcel, seja de Chevette ou até mesmo de Fusquinhas. 

          O calor, mesmo àquela hora, não dava trégua. Os passageiros abriram todas as janelas para entrar um ventinho, que se mostrava tímido. Xingamentos de todos os lados, de todos os tipos, de todas as bocas. Um barulho ensurdecedor. E lá estava o motorista, que ainda tentou conter aquele povo. Foi um festival de palavrões direcionados para ele e até sobrou para a sua genitora, que, até onde sei, não estava presente para se defender.

          De repente, no calor do momento, o motorista se levantou, olhou para aquela gente enfurecida e, sem palavra, abriu a porta do ônibus e foi embora. Ninguém entendeu aquela atitude, até que o cobrador, um rapaz franzino, nos revelou: "O Cardoso soube hoje que a sua aposentadoria saiu."

          Todos ali dentro se perguntaram o que fariam, até que alguém sugeriu que um dos passageiros poderia continuar a viagem no lugar do motorista. Uma senhora apontou o dedo para mim e disse que eu tinha cara de quem sabia dirigir ônibus. Eu, que mal havia tirado a carteira, fui arrastado até o banco do motorista. E, não me pergunte como, terminei a viagem.

          Pelo visto, você ainda está aqui, na certa para saber como é que guardei essa data. É que esse foi o meu primeiro dia como motorista da linha Plano Piloto/Sobradinho.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Lenda urbana da linha Plano Piloto/Sobradinho" foi publicado por Notibras no dia 7/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/lenda-urbana-da-linha-de-onibus-plano-sobradinho/

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Entrevista para Cecília Baumann

   

Bate-papo com o escritor Eduardo Martínez

Cecília Baumann

    Da minha varanda voltada para a vasta paisagem da metrópole, aqui no Paraíso, em São Paulo, aguardo, deitada preguiçosamente na rede, a hora da entrevista por vídeochamada que marquei com Eduardo Martínez, autor do recém lançado livro cuja leitura, de cara, já me encantou: 57 CONTOS E CRÔNICAS POR UM AUTOR MUITO VELHO.

    Na chamada, deparo-me com o charmoso coroa de cabelos grisalhos, de aparência muito mais jovem e jovial do que o título do livro sugere. Ele vai conversando comigo de seu apartamento, em Porto Alegre, entre uma e outra xícara de café, enquanto eu vou acendendo uns cigarros.

    De início, Edu é tímido, mas vamos ficando íntimos, e ele vai se soltando.

    Cecília Baumann: Edu, por que você é escritor?

    Eduardo Martínez: Cecília, creio que é porque sempre adorei ler e mandar cartas. A escrita, então, está presente na minha vida desde muito cedo.

    CB: Para quem você escreve?

    EM: Engraçado que, talvez, as pessoas imaginem que o escritor escreva para um monte de pessoas. Mas penso que isso não é verdade. Escrever é um ato solitário, mas que é dirigido a alguém. Por isso, os leitores se sentem destinatários do escritor. É como se o escritor estivesse lhe mandando uma carta. E quem escreve cartas precisa cativar quem irá recebê-la.

    CB: Como você gostaria que as pessoas pensassem em você e na sua obra?

    EM: Quanto a pensar em mim, não sei. O escritor não é um astro do rock ou do cinema. Podemos sair tranquilamente na esquina para comprar pão sem que as pessoas pulem no nosso pescoço. Nas poucas vezes que alguém me reconheceu e veio conversar foram momentos muito legais, mas que não são capazes de me fazer tirar os pés do chão. Quanto à minha obra, é lógico que gosto de receber elogios. Isso massageia o ego. Todavia, há algumas pessoas que reclamam sobre determinados finais, pois querem que tudo seja lindo e maravilhoso. No entanto, a vida não é assim.

    CB: Estava aqui dando uma lida no seu livro e fiquei imaginando de onde você tira tantas ideias.

   EM: Pois é, Cecília, creio que o escritor precisa ficar atento ao que acontece ao redor. O modo de olhar uma fotografia, ouvir uma frase que possa ser usada em alguma história. São muitas coisas que servem como ponto de partida. Anoto tudo para não esquecer.

    CB: 57 CONTOS E CRÔNICAS POR UM AUTOR MUITO VELHO não é o seu primeiro livro. Vi que você escreveu outros, inclusive DESPIDO DE ILUSÕES.

    EM: É verdade. Também escrevi alguns outros, mas em 2012 parei de escrever. Isso até que a minha esposa, a Dona Irene, me convenceu a voltar a escrever. Aconteceu exatamente no dia 23/12/2021. Então, comecei a escrever compulsivamente contos e crônicas, que acabaram sendo utilizados por professores no Rio de Janeiro e em Brasília.

    CB: Edu, você que é um escritor premiado e publica contos e crônicas diariamente, como é saber que seus textos são lidos por estudantes?

    EM: Cecília, é a parte mais gratificante. Inclusive já visitei algumas turmas em uma escola em Brasília, alunos do professor Leandro Mendes. É algo tão incrível, que preciso me beliscar para ter certeza de que não estou vivendo um sonho.

    CB: Soube que você mora num apartamento que pertenceu ao Caio Fernando Abreu. Como é morar no mesmo local que viveu um dos maiores escritores brasileiros?

    EM: Pois é, Cecília, isso foi uma surpresa para mim. Às vezes, enquanto escrevo, fico olhando ao redor da sala e imagino o Caio me olhando e dizendo: "Ei, cara, melhor trocar essa palavra por outra!"

    CB: Os 57 contos e crônicas deste livro são muito bons. Eu coloco A CARTA E A URNA como um dos maiores contos que já li. Como surgiu essa história?

    EM: Engraçado você falar isso, pois é um dos meus favoritos. A ideia surgiu a partir do desprezo que o homem é capaz de possuir em relação ao outro. A partir daí, enquanto comecei a escrever, a história foi se formando na minha mente. Gostei muito do que escrevi. Tanto é que pedi para a minha mulher ler em voz alta. Assim que terminou, ela arregalou os olhos e disse: "Edu, esse conto está incrível!"

        CB: Já te falaram que você possui a escrita muito fácil e prazerosa de ser lida?

        EM: Sim. A minha esposa até brinca com isso, pois diz que sou o escritor mais facinho que ela conhece.

        CB: Ela está certa (risos). Edu, o que o leitor pode esperar de 57 CONTOS E CRÔNICAS POR UM AUTOR MUITO VELHO?

        EM: Cecília, essa seleção de contos e crônicas passou por um criterioso crivo. A Dona Irene e outras pessoas participaram da escolha, entre as quais o jornalista José Seabra, o escritor e poeta Daniel Marchi e o professor Leandro Mendes. O professor José Geraldo de Sousa Junior, ex-reitor da UnB, e a jurista Soaria Mendes também leram as histórias antes de eu encaminhá-las para a Joanin Editora. Por isso, penso que o leitor irá ter uma conexão muito gostosa com o livro.

       CB: O que eu não perguntei que você gostaria de ter respondido?

        EM: A leitura é fundamental para fazer o ser humano pensar. O livro não é algo pronto e acabado. Isso porque o leitor é parte não passiva da trama. Ele precisa criar imagens para visualizar a história, as personagens, as paisagens. Além disso, o livro não acaba com o fim, pois nos acompanha por dias, meses, anos e, em alguns casos, durante toda a vida. Uma vida sem livros é uma vida vazia, triste e sem sentido.


Trauma de infância

    

    Boris Scherer, 56 anos, alto, loiro, olhos azuis, pele tão branca, que lhe dava aquele aspecto de boneco de cera, parou diante da porta. A placa indicava que estava no local certo: Dr. José Oliveira Silva, psicólogo. Não foi preciso se anunciar, haja vista um homem quase tão alto, pele escura, olhos profundos e sorriso largo o recebeu, ao mesmo tempo em que o cumprimentou. Era o dono não só da placa, mas daquela sala inteira, que se abriu de maneira acolhedora para o paciente. Primeira consulta. 

          — Fale sobre você.

          — O que você quer saber?

          — Tudo o que você quiser falar.

          Boris, com os olhos voltados para o tapete com formas geométricas, tentou buscar seu passado mais longínquo, onde se encontrava com seus lá quatro, cinco anos. Estava brincando no canto do escritório do pai, Klauss Scherer. 

          O agora paciente herdou a aparência do pai, que, àquela época, era mais jovem que ele é hoje. Não mais de 40 anos, talvez 36. Detalhes sem a menor importância. Quanto ao temperamento, por mais que Klauss tivesse tentado incutir seu modo de ser no filho, o fruto não poderia ter caído mais longe do pé. 

          — Meu pai era controlador. Era um bom homem, mas gostava de manter as rédeas firmes. Bruto, mas creio que todos os homens eram assim naquela época. Minha mãe sempre me falava para respeitar meu pai, pois era ele que mantinha a família unida. Ele era o homem da casa, o sustento de todos nós. 

          Pelas próximas quase duas horas, o psicólogo escutou atentamente o paciente e, ao final, os dois se despediram com um forte aperto de mãos. Boris, apesar de contido nas emoções, não conseguiu esconder a fragilidade no olhar ao remexer o passado. Mas parece ter saído aliviado e, caminhando pelo amplo corredor, chegou ao elevador, que o levou até a garagem do edifício. Ligou o automóvel e voltou para casa, onde encontrou a esposa e os dois filhos adolescentes.

          — Como foi a consulta, meu amor?

          — Boa.

          — Gostou do psicólogo?

          — Sim. Agendei nova sessão para semana que vem.

          A semana caminhou a passos lentos. Boris queria porque queria contar tantas outras coisas para o psicólogo. É verdade que pensou em desmarcar a consulta, pois não queria relembrar tempos tão difíceis. Todavia, ao recordar da sensação de leveza que o acompanhou no caminho de volta para casa, desejou reencontrar novamente o profissional.

          Pouco antes do horário, Boris estava diante da porta do consultório. José o recebeu de braços abertos, o que fez o paciente se sentir acolhido de maneira incomum para o mundo que lhe fora apresentado desde a mais tenra idade.

          — Meu pai, sempre autoritário, não aceitava que eu chorasse. Sempre dizia que homem não chora. Minha mãe, talvez receosa da reação do marido, nada dizia. E, quando estávamos sozinhos, ela enxugava minhas lágrimas em sua saia e me mandava lavar o rosto antes que meu pai retornasse. Aquilo sempre me pareceu algo normal, que certamente acontecia em todas as famílias. Levei anos para perceber que, apesar de acontecer com bastante frequência, aquilo não era normal.

          Boris, após quase seis meses de consultas, conseguiu se livrar de vários traumas de infância. No entanto, um ainda estava instalado bem lá no fundo do seu subconsciente. Mas, naquela sessão de agosto, tudo veio à tona. 

          — Sei que estava prestes a completar dez anos, pois acompanhei meus pais até o supermercado para comprar refrigerante. Estava eufórico, mas contido para não tomar bronca do papai. Ele segurava firme o meu pulso, como um carcereiro conduzindo o preso. Percebi um menino, praticamente da minha idade, empurrando um carrinho de compras pelos corredores. Ele me pareceu bem feliz e, obviamente sem querer, esbarrou o carrinho na minha perna. O garoto se voltou para mim e tentou se desculpar, mas meu pai, ríspido, o segurou pelo braço. Comecei a chorar, não sei se pela dor ou se por presenciar aquela violência. Meu pai, ainda segurando firme o braço do menino, me mandou chutar a sua perna. Eu não queria agredi-lo, mas meu pai me ordenou. Chutei a perna do menino uma, duas, três, dez vezes. Não me lembro de quantas, até que a minha perna ficar doendo demais para prosseguir. O menino, imóvel, aguentou sem derramar lágrimas. Meu pai o soltou, e o menino foi embora. Desde então, isso me consome de tal modo, que até hoje procuro por aquele menino para lhe pedir desculpas. 

          O psicólogo abraçou o paciente, que chorou copiosamente por minutos. Soluços, pedidos de desculpas para aquele menino do supermercado. Após quase meia hora, Boris se despediu de José. A próxima sessão seria na semana seguinte.

          Naquele dia, José entrou em seu apartamento. Não sentiu vontade de acender a luz. A escuridão era necessária para acalmá-lo após mais um dia de trabalho. Que turbilhão de emoções! Pensou em se servir uma dose de uísque, mas preferiu manter a mente limpa. 

          O psicólogo se dirigiu ao banheiro, onde ligou o chuveiro, enquanto retirava a roupa e a jogava no cesto ao lado. Sentiu a temperatura da água, entrou debaixo da ducha. A água morna caiu sobre sua cabeça, seus ombros largos, como se tirassem toneladas de angústias guardadas há tempos. Com o rosto virado para o chuveiro, as lágrimas foram levadas pela água. Passou a mão pela perna esquerda. Ele não era o único que carregava o trauma daquele dia.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Trauma de infância" foi publicado por Notibras no dia 6/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/boris-vai-ao-passado-chora-e-faz-psicologo-chorar/
  • O conto "Trauma de infância" faz parte da Coletânea Nossos Pais, do Projeto Apparere.
  • O poeta e escritor Daniel Marchi escreveu matéria, publicada por Notibras no dia 27/2/2025, sobre a premiação do conto "Trauma de infância", que conquistou a medalha de ouro no concurso INTER/CAPOLAT.
  • https://www.notibras.com/site/prata-da-casa-eduardo-martinez-vale-ouro-na-casa-do-poeta-latino-americano/
  • A jornalista Cecília Baumann escreveu matéria, publicada por Notibras no dia 28/2/2025, sobre a repercussão da premiação do conto "Trauma de infância", que conquistou a medalha de ouro no concurso INTER/CAPOLAT.
  • https://www.notibras.com/site/medalha-de-ouro-para-eduardo-martinez-repercute-entre-leitores-e-escritores/
  • O conto "Trauma de infância" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 22/7/2025.
  • https://www.notibras.com/site/boris-scherer-traumatizado-busca-ajuda-de-psicologo/
  • O conto "Trauma de infância" foi publicado pelo Jornal Cultural ROL no dia 12/1/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=77798

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Pior que rato

        

        Não se sabe exatamente como Teodoro virou mendigo, mas virou, como qualquer um que passa pelas primeiras quadras da Asa Norte, Brasília. pode facilmente constatar. Vestes que parecem trapos, cabelos desgrenhados, qualquer moita ou muro serve de banheiro, a cachaça para esquecer as amarguras diárias, entranhadas que nem amálgama naquele ser, que há tempos deixou de ser humano. 

          Quem passa, torce a cara. Cada dia pior! Esses vagabundos são maiores mazelas que os ratos. Cadê a polícia que não prende esses bandidos? Ao menos umas boas coronhadas para ver se aprendem. Aprendem nada! Por que não voltam para suas casas? Que casa? Ah, conta outra, pois todo mundo tem casa. Tem? Só me falta aparecer por aqui um padre que nem aquele de São Paulo. Nunca vi gostar tanto de gente miserável. Gente? Vermes, isso, sim! 

          De resto a resto, Teodoro sobrevivia. Comida azeda ou estragada, tanto faz, o prejuízo já estava garantido mesmo antes do amanhecer do dia, que chegava castigando as vistas cansadas de ver tanta desgraça. Mais um gole para descansar debaixo de uma árvore. Nada de marquise, pois aqueles seres, que são humanos, não gostam. 

            Pois foi num final de tarde, quando o indigente repousava sob a proteção da copa de uma mangueira, um casal, não mais de 40 anos, passou. O homem, talvez com o coração mais duro, cutucou a mulher e apontou para um vira-lata que se aproximou do moribundo. Focinho colado ao rosto do mendigo, lambeu-o sem qualquer cerimônia.

            — Olha lá, amor, aquele cachorro lambendo a cara do maltrapilho.

            — Que nojo!

            Ao sentir aquela língua na face, Teodoro sorriu e confidenciou para o amigo de última hora: "Obrigado, estava precisando disso!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Pior que rato" foi publicado por Notibras no dia 5/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/entregue-a-vida-mendigo-recebe-afagos-de-cao/

terça-feira, 4 de junho de 2024

Antes aliadas que invejosas

   

             Zileide se achava, tamanha a quantidade de elogios que sempre recebia dos rapazes do bairro Nossa Senhora da Apresentação, na linda capital do Rio Grande do Norte. Garbosa que nem cardeal-do-nordeste, amava ser notada e falada. E a língua do povo corria igual cachorro-do-mato. Era um piscar d'olhos, lá vinha fofoca fresquinha sobre a moçoila.

          Pois a história que causou reboliço por aqui aconteceu na semana passada, quando Zileide foi convidada para um forró na casa da Dulcineia, mulher do Afrânio. Mal chegou, os olhares dos convidados se voltaram para a saia curta cor de carne, que, não há quem negue, favoreceu aquelas trigueiras coxas torneadas. Comentários não faltaram, até transbordaram pelos muros da residência.

          Zulmira, que trazia o Roberto a tiracolo, entrou em seguida. Pra quê? A mulher, trajando um vestido que mal cobria a calcinha, roubou todos os olhares para si. A intriga, aliada à inveja, estava lançada, justamente quando a vitrola tocava "Severina Xique Xique" na voz inconfundível do Genival Lacerda. 

          Dulcineia, já prevendo o imbróglio, tratou de puxar a Zileide pelo braço. Foi apresentar a amiga para alguns rapazes solteiros, que contavam vantagens entre si. Todas, obviamente, mentiras, seja na quantidade, seja no tamanho.  

          Zileide, a despeito dos belos espécimes diante dos olhos, preferiu o gajo da outra beldade da festa. Roberto, apesar de já desgastado pelos mais de 40 anos, possuía algum charme. A calvície adiantada lhe conferia certa hierarquia diante de tanta gente cabeluda. Era como se a careca se fizesse coroa.  

          — Aquieta, mulher! O homem tem dona.

          — E quem disse que sou mulher de desistir fácil, amiga? Se quero, vou até o fim!

          — Zileide, você não tem jeito.

          Sem mais ter o que fazer, Dulcineia lavou as mãos e deixou aquela pendenga por conta de Deus. Isto é, se Ele não estivesse envolvido em questões mais urgentes do que cobiça por homem de outra. Vai que o Divino arranjasse tempo na agenda lotada para salvar aquele forró, que perigava se transformar numa barafunda. 

          Quando a prosa com a dona da casa terminou, Zileide se virou e deu de cara com a rival dançando colada ao corpo do amante. Era rodopio pra cá, saracoteio pra lá, até que, no final da música, os lábios daqueles dois grudaram que nem chiclete em sola de sapato. De tão apaixonado foi aquele beijo, que tinha gente apostando que os dois cairiam durinhos por falta de ar. 

          Ninguém ganhou a aposta. E lá foi o casal refrescar todo aquele calor, quando esbarraram com a Zileide, que providencialmente segurava dois copos de cerveja. Roberto esticou o braço e sorriu aquele sorriso de Napoleão Bonaparte ao atravessar o Arco do Triunfo.

          — Tira a mão, homem! Esse copo é pra minha amiga aqui.

          — Obrigada. Qual a sua graça?

          — Zileide. 

          — Prazer, Zileide! Sou a Zulmira. 

          Roberto, percebendo que as duas queriam conversa reservada, tratou de ir buscar uma cerveja, pois o calor estava infernal. E lá ficaram Zileide e Zulmira por quase meia hora, entre gargalhadas que chamaram a atenção dos presentes. Não se sabe ao certo o que falaram, mas parece que elas entraram em acordo. Tanto é que, assim que o objeto da discórdia voltou e quis uma nova rodada de dança com a namorada, esta declinou.

          — Dance com a Zileide, que mais tarde te prometo uma recompensa.

          Não se sabe o que aconteceu depois, mas apenas conjecturas. O certo é que aqueles três, já a altas horas, saíram de braços entrelaçados. Deixa o povo falar. Eita, povo que gosta de uma fofoca!

Entre Napoleão e Drummond

        

    Apesar da aura emocionada, faltava-lhe sensibilidade e sobrava-lhe angústia para rabiscar sentimentos no papel. A pena, repousada ao lado do pote de tinta, permanecia intacta no canto da mesa. Por que havia comprado aquilo? Certamente deveria ir para as mãos de gente talentosa. Mas combinava com a decoração do ambiente.

    Há tempos formado em direito, tentou trabalhar na área por quase dois anos. Não durou muito nesse ofício, pois não suportava a ideia de ter que entrar com ação contra os clientes maus pagadores. Graças a alguns contatos, arranjou emprego numa repartição. Mas sonhava em ser professor de história. 

    Apaixonado pela figura de Napoleão Bonaparte, adorava se postar diante do amplo espelho do quarto. Ereto e com a mão direita sobre o ventre, simulava dar vitoriosas aulas para uma sala cheia de alunos, todos entusiasmados pela maneira do professor contar as aventuras da maior figura da história da humanidade. 

       Os sonhos de ser interlocutor de Napoleão, todavia, eram constantemente interrompidos pelo avançar das horas. O homem tratava logo de correr para não perder a hora no emprego. De pé no ônibus lotado, murmurava baixinho alguma passagem do incomparável líder francês, mas ninguém parecia perceber. Problema deles! Que permanecessem na ignorância!

        Foi em agosto, mês mais triste do ano, que aquela tragédia aconteceu. E para ser emblemática, o homem calculou que o dia 16, que dividia o mês em duas partes iguais, obviamente seria o mais repleto de lamúrias. Subiu em uma cadeira diante do espelho e pulou. A corda, devidamente presa no lustre acima, completou o trabalho. Enquanto o corpo balançava, um bilhete caiu-lhe da mão: "Nem de longe sou Drummond, mas, de vez em quando, torço para que surja uma pedra no caminho. Ao menos, seria uma pedra nessa estrada tão vazia." 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre Napoleão e Drummond" foi publicado por Notibras no dia 4/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/servidor-sonhador-acaba-com-corda-no-pescoco/

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O café, os biscoitos e o tempo

    

Engraçado como a simples visão de algo é capaz de fazer com que lembranças adormecidas, praticamente defuntas, despertem de repente. No caso em questão, não foi exatamente algo que vi, mas o inconfundível aroma que veio do apartamento ao lado, cuja brisa, talvez em raro momento de gentileza, me fez chegar às narinas bem aqui na poltrona da sala. Nem sei se sorri, mas gosto de pensar que sim, pois senti aquele cheiro de café fresquinho, suplicando para ser degustado a goles suaves em quintal repleto de flores e passarinhos.

          É verdade que moro em apartamento. Quinto andar, para ser mais exato. E o máximo de natureza que possuo é uma orquídea de plástico na varanda. Foi presente de uma tia querida, que me visita com certa regularidade. Por conta dessas vindas da minha parenta, nem me atrevo a jogar aquele trambolho fora. Que fique lá enganando qualquer beija-flor desatento. 

          O café! Ah, o café! Quantas recordações me traz esse cheiro inconfundível. Minha avó era especialista no preparo, sabia que a água não se ferve, o ponto é até surgirem aquelas pequenas bolhas no fundo da chaleira. 

          Nessa época de menino, vovô, que era advogado, atendia no escritório em sua casa. Invariavelmente, vovó preparava aquele cafezinho e levava em uma bandeja de prata para os clientes. E, quando eu estava por lá, ela me chamava para carregar uma cestinha com alguns biscoitos finos. 

          Assim que deixávamos o café e os biscoitos, saíamos para não atrapalhar o trabalho do vovô. Por isso, quase nunca ouvíamos algo. Mas eis que, certa vez, um homem, que não deveria ter chegado aos 30 anos, perguntou para meu avô quem eu era.

          — É o Marquinho, meu neto.

          — Que saudade dos meus tempos de criança, doutor Olavo.

          — O tempo, meu amigo, é um suspiro.

          — Doce?

          — Não. Ligeiro.

domingo, 2 de junho de 2024

Maricota entre Orlando e Sandoval

        Sandoval, homem cheio de mistérios, há pouco se mudara para aquela rua, cujos buracos, de tão antigos, já eram conhecidos por todos. Dona Ruth, viúva do finado Elias, não perdia oportunidade de varrer a calçada. De tanto que a velha varria, contava-se à boca pequena que, não tardava, a mulher conseguiria preencher o vazio da cratera no asfalto bem em frente à sua casa. 

         Gominha, dono da única padaria por ali, vivia uma vida regrada. Diziam que guardava dinheiro debaixo do carcomido colchão, mas a verdade é que Laura, a esposa, era gastadeira das mais eficientes. Que o marido labutasse ou, então, não iria desfrutar os favores da mulher. 

          Por aquelas bandas também morava Orlando, homenzarrão dois por dois que metia medo por onde passava. Apesar de nunca ter lido Maquiavel, sabia se fazer mais temido e não suplicava pelo amor dos outros moradores. Ganhava a vida como segurança de boate lá pelo lado do bairro de Ponta Verde, na aprazível Maceió. Não raro, fazia bico como carregador de sacolas da dona Fátima, cuja artrite não lhe permitia com tanto peso. 

          Maricota, olhar faceiro, desfilava pela rua ao som de Alceu Valença. Os olhos, quase sempre voltados para Orlando, ultimamente andavam curiosos pelo mais recente morador. Tanto é que, na primeira oportunidade, justamente na sobrevida do último carnaval, enquanto o povo se divertia com os derradeiros acordes de "Morena tropicana", a mulher se aproximou da mesa onde estava o Sandoval. 

          O homem, copo de cerveja numa mão, cigarro na outra, não conseguiu esconder o sorriso diante de tanta beleza. Tratou logo de se levantar e convidá-la para se sentar. Maricota sorriu de volta e, antes de repousar as generosas ancas na cadeira, jogou os longos cabelos para o lado. 

     Aquela conversa rendeu, tamanha a empatia mútua. Tudo indicava que haveria prorrogação naquele jogo, até que Orlando, que nem árbitro, resolveu interromper a partida. A montanha enciumada de músculos esbarrou sem cerimônia na cadeira do Sandoval, que só não veio ao chão por conta da ginga própria de capoeirista. 

          — Tá maluco? 

          Orlando respondeu com uma pancada de cima para baixo na cabeça do Sandoval, que desmaiou nos braços da Maricota. A mulher, enfurecida, xingou o agressor de todos os nomes possíveis e outros tantos improváveis. O brutamontes, sem defesa, baixou o rosto e foi chorar as mágoas no bairro ao lado. 

          Maricota, preocupada com o desmaiado, tratou logo de pegar um pano úmido e passar no rosto do Sandoval, que aos poucos despertou. Assim que abriu os olhos, ele não teve noção do que havia acontecido, mas gostou tanto da beleza daquela mulher, que imaginou estar no paraíso. Mas antes que prosseguisse naquele devaneio, uma forte dor no alto da cabeça o trouxe à realidade.

        A mulher, que continuava enfurecida com Orlando, insistiu para que Sandoval chamasse a polícia. Este, no entanto, balançou a cabeça negativamente.

          — Não vai mesmo chamar a polícia?

          — Melhor não.

          — Vai deixar isso barato, Sandoval?

          — É o melhor a se fazer, linda. Já tenho muita encrenca com a lei.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Maricota entre Orlando e Sandoval" foi publicado por Notibras no dia 2/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/maricota-entre-orlando-e-sandoval-que-teme-a-lei/

 

O curioso caso da desova do manequim

         

Há causos tão impossíveis de acontecer, que, no entanto, costumam acontecer a todo instante. Basta manter a mente conectada aos ouvidos e olhos para não se deixar enganar. Se bem que, como disse o poeta, nem tudo são flores.

          Pois lá estava a equipe de policiais entediada com a demora da troca de plantão, que só aconteceria dali a quase uma hora. Foi aí que a mente criativa do Marcos entrou em curto circuito e pensou em algo inacreditável. Aliás, inacreditável, inimaginável e improvável. Ele andava de pendenga com o Aurélio, que ainda não completara dois meses de polícia. O novinho fazia parte do grupo que entraria.

Marcos se lembrou de um manequim extremamente realista, fruto de apreensão em uma operação na residência de famoso traficante da região, o Zé Moela. Como a cela estava vazia, ele, com ajuda do Lauro e a conivência de todos da equipe, pegou o tal manequim no depósito e o levaram para a cela, onde o penduraram pelo pescoço com uma corda improvisada com alguns trapos. Pronto! De tão impactante ficou, que até para um bom observador era difícil perceber que aquele enforcado se tratava, na verdade, de um boneco.

          Cínico como ele próprio, Marcos convidou o comparsa para um cafezinho especialmente preparado pela Sissi na cozinha da delegacia. De tão eufóricos que estavam, os dois encheram as xícaras, mas o Marcos, com aquele sorriso sarcástico nos lábios, fez questão de beber café sem açúcar.

          — Sem açúcar, Marcos?

          — Sissi, de doce já basta a vida!

          Às 7h55, o poderoso ronco da motocicleta anunciou a chegada do Aurélio. Marcos, Lauro e o restante da equipe, incluindo o delegado Álvaro e o escrivão Rubens, cumprimentaram o colega e já estavam indo embora, quando o Aurélio perguntou se havia algum preso. Marcos, com a cara mais deslavada, respondeu que sim. Nisso, o Aurélio foi verificar se estava tudo bem com o detento e quase caiu duro ao vê-lo pendurado pelo pescoço. O agente saiu gritando.

          — Marcos, peraí! O preso se matou!

          — Isso não é problema meu, Aurélio. Se vira!

          — Não, não, não!!! 

          Marcos e sua equipe, a despeito dos protestos do Aurélio, foram embora. Desesperado e temendo que algo acontecesse e caísse sobre as suas costas, o policial começou a colocar a cachola para pensar em algo. Ele, então, teve uma ideia. Iria desovar o cadáver no mato para que algum bicho o comesse. Talvez alguma onça andasse por ali. 

          Antes que o resto da equipe chegasse, Aurélio colocou aquele corpo dentro do camburão. Não tardou, os colegas chegaram. Todos notaram algo estranho no colega e ficaram com a pulga atrás da orelha. Aquela situação era muito estranha. Tinha caroço naquele angu!

          Aurélio disse que precisaria sair para resolver alguma coisa. O policial pegou as chaves da viatura, enquanto os colegas o encaravam com olhos inquisidores. Suando em bicas, Aurélio ligou o carro e saiu o mais rápido possível da delegacia.

          Como a delegacia ficava a menos de 100 quilômetros da divisa com outro estado, Aurélio rumou para lá. Ele estava certo que aquela era a melhor solução. Assim que ultrapassou a fronteira, o agente começou a procurar um local ermo, até que, já tendo avançado quase 30 quilômetros, percebeu um matagal tão denso, que não teve dúvida. Seria ali mesmo que desovaria o cadáver. E foi o que fez. 

          Depois do trabalho feito, Aurélio tomou a estrada de volta. Acendeu um cigarro e sorriu aquele sorriso nervoso de quem sabe que acabou de fazer algo errado. Seja como for, não seria ele o culpado. Até que teve certo orgulho do feito, pois se lembrou que a volta à academia teria lhe proporcionado um excelente preparo físico. Pois é, carregou um homem daquele tamanho nos ombros e nem sentiu dificuldade. 

          Assim que estacionou a viatura na delegacia, ninguém pareceu notá-lo, pois o local estava apinhado de gente. Tratou logo de se sentar no seu lugar e atender o povo, que estava impaciente para registrar os mais variados tipos de boletins de ocorrência. E foi o que fez durante mais 26 anos, até se aposentar.

          Aurélio nunca contou para ninguém o que havia feito. Estava certo de que havia cometido o crime perfeito. Quanto ao Marcos e seus cúmplices, todos acabaram se esquecendo da brincadeira. Dessa forma, mesmo que a felicidade não seja eterna, até onde se tem notícias, o Zé Moela jamais reclamou a devolução do manequim.

sábado, 1 de junho de 2024

O patrão e o empregado

    O patrão resmungava aos quatro ventos. Cadê o miserável do Tonho? Que desculpa iria inventar naquele dia. Atrasou? De novo? Que acordasse antes da cidade inteira, mas que chegasse a tempo. 

    O ônibus quebrou? Entrou em greve? Problema dele! Quem mandou morar tão longe? Por que não se mudava para aqui no bairro? Que os aluguéis daqui não eram para sua gente, não era problema do patrão.

     De hoje não passa! Vai pro olho da rua! Tá pensando que aqui é a casa da mãe Joana? Pois vá tirando o cavalinho da chuva! 

   Tonho morreu. Chegou a notícia logo após o almoço. E ainda por cima me apronta mais essa? Embrulhou meu estômago! 

    O patrão nem se deu ao trabalho de perguntar como foi, se atropelado, se de tiro, se de infarto ou qualquer doença própria desse povo. Maior desgraça era a do patrão, que teve que fazer a vez do empregado. 

    Tonhão morreu hoje? Só falta esse desgraçado me deixar na mão amanhã também. Se o traste não me aparecer aqui com uma boa explicação, o olho da rua é a serventia da casa!

  • Nota de esclarecimento: O conto "O patrão e o empregado" foi publicado por Notibras no dia 1/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/chefe-que-fala-sozinho-vira-doido-de-hospicio/

Pedro Cabelo Fino e Maria Doida

    

              Pedro Cabelo Fino apareceu no nosso sítio aqui em Campina Grande no final dos anos 1950. Quis emprego, mas meus pais disseram que não poderiam contratá-lo. O homem pediu para ficar e papai lhe mostrou o galpão próximo ao galinheiro. Ele nem pestanejou e tratou logo de arrumar a rede.

          Não sei exatamente por quantos anos ficou por ali, até que sumiu no mundo. Mas, durante o tempo que morou no sítio, conheceu a futura esposa, a Maria Doida, sobrinha quase filha de mamãe. Regulada em idade com Joana, minha irmã mais velha, Maria havia dividido o peito de mamãe com ela. Sem muito juízo, a nossa prima parecia se incomodar com tudo, até criava caso com as galinhas cacarejando antes de botar. Loucuras por conta de misturas entre parentes. 

          Ainda menina, não entendia aquelas coisas, mas, ao lado dos meus irmãos, morria de rir das vezes em que Pedro pegava um galho e imitava um caçador de passarinho. O homem cuspia sons de tiros, enquanto Maria Doida tapava os ouvidos e corria gritando pedindo socorro. Mamãe, cheia de autoridade, mandava Pedro parar com aquilo antes que a sobrinha tivesse um treco. 

          Foi numa manhã que mamãe flagrou Maria e Pedro adormecidos na rede. Não sei se ela disse alguma coisa, mas não demorou para que aqueles dois se casassem diante do padre. Foi uma cerimônia breve e, algum tempo depois, o casal ganhou o mundo e nunca mais soube notícias, até que, ontem, me chegou aos ouvidos algumas histórias.

          Pedro Cabelo Fino e Maria Doida tiveram quatro filhos antes de se separarem. Ele acabou se embrenhando pelos lados de Marabá, onde, parece, foi morto por questão de disputa de terras. Disseram que pouco antes vivia com outra mulher, mas não souberam dizer se Pedro deixou mais algum herdeiro no mundo. 

          Quanto à Maria Doida, parece que tomou juízo. Colocou a cria na escola e se casou com um professor, com quem viveu até o último suspiro. Uma das filhas, a Augusta, virou doutora e trabalha em um hospital em Recife. Quanto aos outros, não souberam informar, mas disseram que estão todos bem. Que bom saber que mamãe, ao acolher aqueles dois, contribuiu para que isso pudesse acontecer, mesmo que o querido Pedro Cabelo Fino não tenha tido um final feliz.

  •  Nota de esclarecimento: O conto "Pedro Cabelo Fino e Maria Doida" foi publicado por Notibras no dia 1/6/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pedro-e-maria-flagrados-na-rede-acabaram-casando/