Já mulher feita, juntou os panos com Julião, um trabalhador
braçal como tantos outros daquela parte da cidade. Ele se encantou por aqueles
olhos faceiros logo de cara. Tentou por uma, duas vezes, mas nada. Tentou uma
terceira e, provavelmente, teria insistido outras mais, caso Raquel,
finalmente, não tivesse aceitado o convite para tomar sorvete na praça. Ela não
só aceitou, como gostou daquelas mãos, calejadas é verdade, mas que também
sabiam ser meigas.
A harmonia, que nem roda de samba, imperava na humilde
residência do casal. A vida era dura, com suor de segunda a sábado, mas, uma vez
por semana, sempre surgia um domingo. Tempo de relaxar e curtir, inclusive em
confraternizações com os vizinhos, geralmente regadas a cerveja e um bom pedaço
de carne na brasa. Só felicidade!
Mas alegria de pobre tem lá seus percalços. Pois é, e o último
aconteceu logo após o quarto dia de greve dos garis. Questões salariais e de
insalubridade, que tornavam o trabalho ainda mais desgastante.
A prefeitura até prometeu manter o serviço, mínimo que fosse,
enquanto a greve durasse. No entanto, talvez por uma falha na comunicação, esse
mínimo nunca contemplou aquele bairro tão afastado. O resultado foi um mundaréu
de lixo e, de lambuja, as ruas ficaram inundadas de ratos.
A situação chegou a ficar calamitosa, a ponto de até os ratos
disputarem a tapas cada metro quadrado ao redor das lixeiras, que transbordavam
os restos dos moradores. Raquel, então, nem colocava a pontinha dos pés para
fora de casa.
Passada a greve, ainda assim, o recolhimento de todo o lixo
levou quase duas semanas. Coisas que acontecem em bairros longe do centro.
Demorou, mas até que ficou apresentável. Entretanto, os ratos demoraram um
tempo para perceber que aquela fartura havia ficado no passado. No final, todos
foram embora. Isto é, quase todos, já que restava o último da família,
provavelmente abandonado pela trupe.
Vez ou outra, o focinhudo surgia do nada e era aquele alvoroço.
Um corre-corre daqui, um corre-corre dali. Alguém até pensou em pegar a
soca-soca pendurada na parede da casa do velho Tião. Que nada! Aquilo era
objeto de decoração, não tinha nem furo no cano. Só se fosse para tacá-la no
pobre roedor.
Não se sabe como aconteceu, mas aconteceu, pois, dois dias após
a última aparição da criatura, eis que ela surgiu estatelada ali bem em frente
à residência da Raquel. Pra você ver, justamente na residência de quem mais
temia um confronto tête-à-tête com o roedor. Seja como for, o
rato partiu para o além. Ninguém soube qual a causa mortis do
dito cujo. Quem sabe foi por saudade da parentada ou, então, ataque fulminante
diante de tanta gritaria?
Julião tratou logo de colocar o defunto em um saco preto. Com
uma ponta de alívio, outra de nojo, jogou os restos mortais do dentuço na lata
de lixo. E, assim, parecia que tudo estava resolvido, até que ficou encucado
com a recusa da mulher em passar pela porta da frente da casa.
– Por que não está
mais usando a porta da frente?
– Por causa do rato.
– Raquel, já faz mais
de mês que joguei aquele bicho fora.
– Sei disso, mas a imagem dele ainda está ali.
- Nota de esclarecimento: O conto "Trauma de rato" foi publicado por Notibras no dia 19/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/medo-ate-de-roedor-morto-deixa-raquel-presa-em-casa/
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