Henrique, que casara muito cedo com Cristiane, cada vez mais
lutava contra a compulsão pelos porros, ainda mais por conta de quase duas
décadas de convívio com a amada, cada vez mais difícil. Dizem que até ameaça de
separação havia rolado naquela casa. No entanto, religiosos que eram, tentaram
manter as promessas ditas diante do altar.
O homem, que saía de casa
pela manhã, de vez em quando passava na birosca da esquina e comprava uma ou
duas caftas. Ele as devorava ainda a caminho do trabalho, o que lhe deixava com
aquele fedor de alho. Que importa? Henrique não precisava se preocupar com
supostas reclamações de colegas do serviço, mesmo porque não era casado com
nenhum deles. Que se danem! Ademais, nada que algumas pastilhas de menta não deixassem
de camuflar durante o resto do dia até que, finalmente, ele retornasse para os
braços de Cristiane.
A mulher andava toda feliz
com a suposta abnegação do marido. Era prova de amor, ela imaginava. Tanto é
que, naquele dia, ela preparou um jantar à luz de vela com o intuito de
recompensá-lo. Encomendou um bom pedaço de cabrito no açougue da esquina e,
usando uma receita antiga de família, preparou a iguaria com ervas de aromas
suaves. Obviamente, Henrique amaria a surpresa e, era certo, notaria o vestido
com generoso decote da mulher.
Enquanto isso, lá estava
o Henrique quase terminando o atendimento a um cliente. Na verdade, você
poderia dizer que saber o nome de tal cliente fosse algo desnecessário, mas lhe
afirmo que era fundamental. Pois bem, o sujeito carregava, desde seu longínquo
nascimento, o nome de Ahmed Abdullahi. Mais libanês que isso? Difícil! Além do
mais, quase junto ao nome, eis que o senhor Abdullahi carregava uma caixinha de
papelão, de onde exalava um cheiro irresistível de quibe. Era óbvio que com uma
dose extra de alho.
Satisfeito que ficou com
o atendimento recebido, o homem insistiu para que Henrique aceitasse ao menos
um quibe. Sejamos justos, pois o marido de Cristiane tentou resistir. Que nada!
Não apenas aceitou, como devorou outros dois que o senhor Abdulhahi nem
precisou insistir. O estrago estava feito.
No caminho de
volta para o lar, doce lar, Henrique comprou duas caixas de pastilhas de menta.
Mastigou uma a uma no trajeto. O homem, a cada minuto, soltava uma baforada
para avaliar o próprio hálito. Derradeira pastilha, deu-se por satisfeito.
Todavia, assim que pôs os pés em casa, eis que a mulher, com olfato de
perdigueiro, lançou um olhar de repúdio ao marido.
- Nem precisa dizer. Já
sinto o fedor daqui. Nem entra ou, se quiser entrar, eu é que saio. Vou dormir
na casa da minha mãe!
- Nota de esclarecimento: O conto "Paixão por alho" foi publicado por Notibras no dia 28/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/henrique-passa-noite-so-apos-comer-alho-de-abdullahi/
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