
Durante meus 17 anos no Banco do Brasil, fui lotado em
alguns locais e trabalhei com centenas de pessoas. É verdade que já faz
muitos anos que saí de lá, mas ainda possuo alguns amigos desse tempo, que faço
questão de conservar. Um deles é o Samuel. Aliás, Samuel Machado Francisco, se
bem que também é conhecido por Samuca.
Para quem vê pela primeira vez o Samuel, talvez se engane
com aquela cara de homem brabo, ainda mais quando ouve aquele vozeirão. No
entanto, para alívio de quem lhe é apresentado, logo vem aquele sorriso mais
acolhedor do que colo de vovó em final de semana.
Excelente nas contas de cabeça, dispensava a calculadora
na maior parte do tempo. Esta era usada apenas quando a lista de itens era
enorme. E lá ficava eu ao lado do Samuel, enquanto ele dedilhava a calculadora
tão rapidamente, que até saía faísca das teclas. Não raro, aquela cena me
reportava a um dos pioneiros do rock and roll, o Jerry Lee Lewis, que arrasava
no piano.
Por falar em música, quando havia alguma comemoração no
final do expediente, alguém costumava se lembrar de alugar uma máquina de
karaokê. Gosto de música, mas até debaixo do chuveiro canto completamente fora
de ritmo. Um desastre! Quanto ao Samuel, diria que é o que costumamos chamar de
cantor eclético.
O timbre da voz do Samuel é algo entre Altemar Dutra e
Sidney Magal e, por sinal, ele canta tais artistas com maestria. Todavia, não
pense que o repertório do meu amigo fica por aí, pois sabe ser suave como o
Paulinho da Viola, mas, a qualquer momento, pode surgir aquela potência do
Emílio Santiago.
Se o Samuca é um mestre da arte de cantar, isso não o
impede de mostrar outra de suas facetas: o humor. Aqui vale um adendo sobre uma
brincadeira que ele adorava fazer com a Norminha, a sua esposa, por quem o
Samuel sempre se mostrou muito apaixonado.
Pois bem, lá estávamos no Banco do Brasil, final de
expediente, todos arrumando as coisas para ir para o lar, doce lar, quando o
Samuel pegava o telefone e ligava para a Norminha. Um detalhe: ele colocava o
telefone no viva-voz para que todos
tivessem aquele momento de risada coletiva, talvez para retornarmos no dia
seguinte com mais disposição pro trabalho. Coisas de chefe.
- Oi, Norminha! Tudo bem por aí?
- Oi, meu amor! Que saudade!
- Já posso ir pra casa ou quer que eu fique por aqui por
mais meia hora?
- Ué, claro que pode.
- Tem certeza?
- Tenho. Por quê?
- Sei lá. Vai que eu atrapalhe algo que esteja acontecendo
por aí.
- Samuel, pare com isso! Você sempre com essas
brincadeiras bobas. Vem logo, que estou morrendo de saudade!
Engraçado que, ao escrever tais linhas, percebo que os
momentos mais marcantes que passei nos meus tempos de Banco do Brasil são esses
de descontração com meus colegas, muitos dos quais continuam amigos até hoje.
Não tenho muitas lembranças do serviço em si, mas as risadas das pessoas ainda
ecoam nos meus ouvidos, e, certamente, a gargalhada do Samuca se destaca das
demais.
- Nota de esclarecimento: A crônica "O vozeirão do Samuca" foi publicada por Notibras no dia 26/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/servico-no-bb-fica-marcado-por-vozeirao-do-samuca/
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