
Felinto! Sim, esse era o nome de mais um dos milhares
de velhos que arrastam suas carcaças carcomidas pelo tempo, sempre implacável,
pelas ruas e avenidas de Copacabana.
Havia muito que Felinto se despedira da vida de servidor público, função que
exerceu por longos 47 anos até que, finalmente, recebeu a tal da compulsória.
Foi para casa. O dinheiro deu uma minguada, é verdade, mas também deixou de ser
escravo da gravata.
Ficou num impasse: abandonar as viagens
frequentes à terra natal, Cataguases, interior de Minas Gerais, ou comprar os
remédios da pressão, da diabete, as vitaminas... Abandonou Cataguases. Para que
iria continuar indo lá, se praticamente todos os amigos já haviam adquirido um
pedacinho de terra no cemitério? E os parentes que ainda tinha naquela cidade
nem se importavam mais com o velho, que, no final da década de 1940, resolveu
tentar a sorte na então capital da República.
E
se os parentes da não tão longínqua Cataguases não se importavam com o velho
Felinto, os da Cidade Maravilhosa também não eram diferentes. A esposa o deixou
para ir se deitar em uma das covas do Cemitério do Caju há quase uma década. Os
filhos... Ah, esses constituíram família há tanto tempo que, por isso mesmo,
preferiam vivenciar apenas seus próprios problemas. Afinal, o pai já estava
fazendo, há tempos, hora extra no plano dos vivos.
Felinto acordava todos os dias praticamente à mesma hora. Levantava da cama
solitária, caminhava pelo apartamento solitário até que resolvia, de vez em
quando, abrir a porta da rua e pisar no corredor solitário. Tomava o elevador
solitário, passava pela portaria solitária e chegava à rua solitária. Dobrava a
esquina solitária, entrava na padaria solitária, onde enfrentava a fila
solitária. Fazia o caminho solitário de volta, uma volta também solitária.
Comia o pão, único, solitário.
Às vezes, bebia. Às vezes, cerveja, às vezes, vinho, às vezes, caipirinha, mas
preferia uma purinha mesmo. Cachaça solitária! Tão solitária que doía no peito,
batia no estômago e, por pouco, atrevida, não voltava. Teimosa, doía na alma!
Certo dia, chegou ao seu solitário apartamento, exausto de tanto álcool
circulando pelas veias e artérias. Abriu a geladeira. Fria! Vazia! Tentou o
fogão, girou o botão e abriu o forno. Desgostoso da vida, cansado da solidão,
resolver dar cabo de tudo aquilo. Dar cabo até mesmo do velho corpo, que
continuava perambulando, sonâmbulo, por Copacabana. Enfiou a cabeça dentro do
forno!
Na
mesma semana a notícia se espalhou.
—
Vocês souberam o que aconteceu com o velho Felinto? – Ernesto, um rapazola que
passara a frequentar a Praça Serzedelo Corrêa há pouco mais de um ano,
perguntou a um grupo que jogava cartas. Ernesto logo ficou conhecido pela
alcunha de Boca de Balde, por causa de sua peculiar incapacidade de guardar
segredo.
—
Não – alguns responderam, enquanto outros nem tiraram os olhos das cartas,
tamanho o interesse pelo jogo.
—
O que houve com o Felinto? – Anibal, que estava próximo, tentando vencer Nilson
em uma truncada partida de xadrez, fez a pergunta antes de todos, que apontaram
as orelhas atentas em direção à boca mordaz de Ernesto
— O
Felismino morreu? – Clarindo, que trocava os nomes das pessoas, conhecia o
velho há anos, mas não chegava a ser seu amigo, arriscou.
Antes de começar a contar, Ernesto deu
uma gargalhada, tentou conter a própria euforia e, finalmente, desandou a
tagarelar.
— Olha,
vocês nem vão acreditar no que aconteceu com o velho Felinto. Vocês sabem que
ele mora sozinho, né? Pois bem, no domingo ele voltou pra casa mais bêbado que
um gambá. Chegou tropeçando, o porteiro até teve que colocá-lo no elevador,
pois o velho tava que tava.
—
E como você sabe disso? – Nilson desconfiou da história do rapazola.
—
O porteiro do prédio do velho Felinto é meu chegado. Foi ele que me passou a
história. Mas como eu estava falando, o Felinto teve de ser carregado até o
elevador pelo porteiro. Então, quando chegou ao apartamento, o Felinto abriu o
gás do fogão, meteu a cabeça dentro do forno e...
—
O Felinto morreu? — Nilson, que tinha certa simpatia pelo velho, apesar de não
serem amigos, tomou um susto.
—
Ô, seu Nilson, o senhor vai me deixar contar a história ou não?
—
Pô, Nilson, deixa o Boca de Balde falar! — Felipe, um velho que adorava as
reportagens sangrentas do jornal O Povo, reclamou.
—
Boca de Balde é a puta que te pariu! — Ernesto ficou indignado com o apelido.
—
Calma, Ernesto! E fale logo o que aconteceu com o Felinto! — Anibal tentou
acalmar os ânimos do pirralho.
—
Tá bom, tá bom! Mas Boca de Balde é sacanagem! Pô, não sou baú pra ficar
guardando segredo, mas Boca de Balde já é demais.
— Fala
logo, moleque! — Felipe se exaspera.
Ernesto, com cara de poucos amigos, encarou o velho, mas logo percebeu que
todos estavam esperando pelo desfecho da história. E ele gostava de ser o
centro das atenções.
— Pois
bem, o velho ligou o gás do fogão e meteu a cabeça no forno. Aí, na manhã
seguinte, esse porteiro, que é meu amigo, tocou o interfone do apartamento do
Felinto, pois o cara da antena coletiva passaria naquele dia pra sintonizar os
canais da televisão. Então, ele se lembrou de que o interfone do velho Felinto
estava com defeito. Aí, ele foi até o apartamento do Felinto e encontrou a
porta entreaberta. Ele entrou e encontrou o velho estirado no chão da cozinha.
Só que teve um lance! – Ernesto fez uma pausa de suspense.
—
Que lance? — Nilson perguntou.
—
Fala logo, Ernesto! — Anibal, que estava quase tão aflito quanto Nilson,
intimou.
E, após mais uma gargalhada, Ernesto continuou.
—
Olha, o velho Felinto acordou no outro dia cheio de ressaca e com o maior
torcicolo. O velho burro tentou se matar, mas se esqueceu de pagar a conta e,
então, o gás havia sido cortado — Ernesto finalmente solta toda a história e
volta a cair na gargalhada.
Nilson e Anibal ficaram aliviados pelo desfecho do ocorrido, se bem que um
tanto desapontados pela forma grosseira como Ernesto se referiu ao velho
Felinto. “Velho burro!” ainda ecoou nos ouvidos dos dois amigos por um bom
tempo.
E o que antes deveria ter sido
motivo de tristeza, acabou se transformando em chacota de muitos em Copacabana.
Felinto não chegou a notar o sarcasmo das pessoas. Talvez até gostaria de saber
que havia se tornado alvo de piadas. Ao menos, passaria a ser notado.
Em menos de 15 dias, vendeu o apartamento. Vendeu com todos os móveis, não
queria lembrança alguma. E, com a bolada no bolso, também não quis mais saber
de Copacabana, não quis mais saber da Cidade Maravilhosa. Também não procurou
abrigo nas Minas Gerais.
Viajou, viajou, viajou... Até onde o dinheiro permitiu!
- Nota de esclarecimento: O conto "Aposentadoria compulsória" foi publicado por Notibras no dia 8/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/velho-solitario-entrega-vida-ao-forno-do-fogao/
- O conto "Aposentadoria compulsória" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 6/10/2026.
- https://www.notibras.com/portal/cafe-literario/aposentadoria-compulsoria/
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