Hércules Breno Magalhães cresceu
cercado por irmãos. Era o quinto de uma fila de nove. Quatro pra cá, mais
quatro pra lá, enquanto Hércules, no meio, olhava para um lado, olhava para
outro, mas só conseguia enxergar o pai, que, por essas manias de eternizar a
vida, também se chamava Hércules.
Um nome forte, dizia o homem para tentar convencer a mulher,
que, sem forças por conta de mais um parto difícil, apenas fechou os olhos e
adormeceu antes do próximo choro do recém-nascido. Que fosse Hércules,
Hurculino, Herculano ou José, desde que o menino carregasse Breno para
diferenciar do pai, Hércules Magalhães. Precisa descansar e foi o que
fez.
Mas voltemos ao pequeno Hércules, filho de Hércules, mas sem
Filho ou Júnior. Hércules, por sinal, também era filho de Doraci, que, pelos
próximos cinco anos, ainda iria parir mais quatro rebentos. Aliás, todas
meninas, ao contrário dos cinco primeiros, todos homens, inclusive o pequenino
Hércules, último da fila dos que usam calça, brincam de carrinho e jogam
futebol. Afinal, a masculinidade precisa ser enaltecida num mundo cada vez mais
perdido, dizia Hércules, o pai. Quanto às meninas, por ele, bastava aprender a
cozinhar, passar e coser as meias, que, vez ou outra, furassem. Escola pra quê?
Nananinanão!!! Mulher que estuda fica com ideias na cachola!
Hercules cresceu regado a tanta virilidade exalada pelas ventas
do pai. Este, por sinal, havia se aposentado depois de dezenas de anos de
labuta no principal banco da cidade. A fama correu toda a vasta região. Tanto é
que ganhou até placa na agência do centro. Pois é, uma placa! Pensaram até em
mudar o nome da filial, mas acharam melhor não contrariar o prefeito, cujo avô
dava nome àquela dependência bancária.
O agora rapaz estudou que
nem condenado, mas conseguiu aprovação no Banco do Brasil. Sim, senhor! No
Banco do Brasil! Um empregão naqueles idos de 1976. E lá foi o rebento ser
bancário em uma cidadezinha do interior.
Hércules progrediu, é
verdade, mas não da noite para o dia. Levou tempo, até que, finalmente, atingiu
o posto de gerência. Nesse dia, fez questão de telefonar pro pai, que, parece,
estava ocupado com outras coisas, pois a conversa foi curta. Seja como for, o
rapaz não teve tempo para lamuriar, já que vida de gerente é deveras
atarefada.
O homem conseguiu, após
quase uma década, ir para a capital, onde iria trabalhar numa grande agência,
que seria inaugurada em breve. Certamente lhe dariam uma placa por ser o
primeiro gerente de lá. Mas eis que, por conta dessas coisas de bastidores, o
felizardo foi outro. Um tal José Benevides. Veja só! Mal inaugurou a agência,
foi chutado para outro lugar. Caiu para cima, como se costumava dizer naquele
tempo, pois foi parar na diretoria do Banco do Brasil.
Hércules acabou tomando o
lugar do agora diretor. Labutou, labutou e labutou, até que, por fim, chegou a
tão esperada aposentadoria. E, se ainda esperava uma placa, esta não chegou.
Desgostoso, voltou para a cidade natal, onde fechou os olhos quando estava bem
perto dos 90.
Vale aqui uma menção
honrosa pelo desempenho quase teatral dos seus últimos momentos. Diante de uma
pequena plateia de familiares, tentou se levantar da cadeira de balanço no
canto do alpendre. Não conseguiu. Tombou o corpo, a cabeça pro lado.
Incrédulos, os parentes pensaram fingimento. Era tudo verdade.
O enterro aconteceu no
dia seguinte. Um dia chuvoso, desses de espantar aqueles menos propensos ao
último adeus para alguém apenas conhecido. Poucos presentes no mais famoso
cemitério da pequena cidade. O único, por sinal, mas nem por isso menos
importante.
Hércules Breno Magalhães,
agora, teria direito à sua tão sonhada placa, que foi presa na lápide de
mármore. Se bem que, talvez por desconhecimento do profissional, a letra H fora
suprimida. E daí? Ninguém naquele lugar se preocuparia em ler o que estava
escrito.
- Nota de esclarecimento: O conto "À sombra do pai" foi publicado por Notibras no dia 21/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/hercules-levou-para-tumulo-sonhada-placa-de-gerente/
Nenhum comentário:
Postar um comentário