terça-feira, 19 de março de 2024

Dirce e a fofoca

  

Mal chegou à casa da amiga, Dirce foi puxada pelo braço. Ela apenas sorriu aquele sorriso de regozijo, enquanto Paula, ainda com mão firme, a encarava com os olhos arregalados. No canto, Toinha, a avó, parecia desfrutar mais um dos inúmeros cochilos diários. 

    – Conta!

    – Contar o quê, Paula?

    – Tudo! Quero saber de tudo!

    – Não sei do que você tá falando, mulher!

    – Não se faça de sonsa, pois a Ritinha me disse que você estava lá quando aconteceu.

    Dirce se sentiu a mais privilegiada das criaturas do bairro, pois, ela sabia, era detentora de informação sobre o maior bafafá dos últimos tempos. Ademais, a mulher possuía a versão original, sem interferência da famosa rádio corredor. 

    – Diga logo, Dirce!

    – Só sei que o Laurentino pegou a Maria na cama com outro.

    – No ato?

    – Sei lá!

    – Rezando que não tava. Conte! Conte! Quero saber!

    – Mas, mulher, não sei de nada.

    – Pois não é o que o povo tá falando.

    – E o que é, então? Diga!

    – Diga, você, que viu tudo!

    – Vi nada, Paula. Além disso, não gosto de ficar falando da vida dos outros.

    – Pois, sim! Logo você!

    – E o que tem eu?

    – A Solange me disse que você contou muito mais coisas pra ela.

    – E você lá ainda acredita nas coisas que a Solange fala? Me poupe!

    – Pensei que fôssemos amigas, Dirce.

    – E somos! Mas não vi nada além do Laurentino jogar na cara da Maria as coisas que ela tava fazendo com o Juninho.

    – Com o Juninho? 

    – Pois é. Você acredita?

    – E ele com aquela carinha de sonso.

    – Sonso nada! Parece que já deu uns pegas até na Márcia.

    – A mulher do Pedro da padaria?

    – A própria!

    – Valha-me Deus!

    – Pra você ver!

    – Conte! Conte tudo! Quero saber!

    – Mulher, preciso ir agora. Depois passo aqui e conversamos mais.

    Apesar da insistência de Paula para que a amiga prosseguisse com a história, Dirce foi em direção à porta. Nada parecia dissuadi-la de guardar, ao menos por mais algum tempo, aquelas informações preciosas. No entanto, quando ela meteu a mão na maçaneta, eis que a velha Toinha, com olhar firme, a provocou.

    – Minha filha, fofoca pela metade não edifica. E tem mais!

    – Mais o quê, dona Toinha?

    – Fofoca pela metade mata a fofoqueira.

  •  Nota de esclarecimento: O conto "Dirce e a fofoca" foi publicado por Notibras no dia 20/3/2024.
  • https://www.notibras.com/site/fofoca-pela-metade-de-dirce-vale-repreensao/


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