— Você é um mau-caráter, Osvaldo!
—
Não sei de onde você tira essas ideias, Amélia.
—
Aliás, nem mau-caráter você é. Falta-lhe caráter para tanto!
Para
encurtar a história, esses dois eram casados, pelo menos até aquele momento. Os
pombinhos foram passar uma nova lua de mel após 25 anos de união. Que
celebração! Nada de filhos, todos já bem crescidos. Nada de netos, mesmo porque
estes ainda não teriam sido concebidos.
Pois
bem, lá estava o casal sentados na canga sobre as areias branquinhas em frente
ao mar, lindo mar, quando, por esses descuidos que podem acontecer com qualquer
um, os olhos nos traem e observam corpos alheios. O descuido, tudo bem, o
problema não foi apenas o olhar, mas a sua persistência em acompanhar o
traseiro dançante de uma beldade de lá seus 30 anos, quiçá 35. Pior,
então, foi o sorriso nos lábios sobre o vasto bigode. Sorriso, aliás, do tipo
que entrega desejos reprimidos. Pura traição!
Não
adiantou palestra pra convencer Amélia do contrário. O dia acabou ali mesmo
debaixo daquele céu azul. Furiosa, a mulher voltou para o hotel e pensou até em
fazer as malas e voltar para casa. Mas desistiu diante do cardápio do almoço.
Bobó de camarão, arroz branco e torta de limão pra sobremesa. Quem resiste a
tal mimo? Amélia não seria indiferente a tamanha regalia, ainda mais porque
tudo já estava pago.
Almoçou
sozinha, enquanto Osvaldo foi conhecer a cidade. Rodou tanto, que acabou
esbarrando com a dona daquele traseiro, o mesmo traseiro da discórdia. Sorriso
daqui, sorriso dali, convidou a mulher para um passeio, mas ela propôs
outro.
—
Já conhece Tambaba?
—
A praia dos pelados?
A
mulher, que se chamava Cristina, riu da maneira como Osvaldo se referiu à
famosa praia de naturismo de Conde. Todavia, ainda naquele início de tarde, o
casal de última hora se dirigiu até lá, onde se despiram diante de toda a
deslumbrante natureza. Ficaram como vieram ao mundo durante o resto do dia, até
que começou a escurecer e, então, o homem se lembro de que precisava voltar
para o hotel para salvar seu casamento.
Mal
pisou no quarto, percebeu a esposa entretida com o aparelho celular. Disse boa
tarde, apesar da noite já se fazer presente. Não obteve resposta. Pegou a
toalha e se dirigiu ao banheiro.
Debaixo
do chuveiro, Osvaldo não percebeu que Amélia entrou no banheiro. Parece que foi
retocar a maquiagem e, boba que não era, percebeu que o bumbum do marido estava
vermelho, como se tivesse pegado sol. Ela até pensou em questioná-lo, mas
estava com fome, e o jantar no restaurante do hotel já estava servido há
tempo.
Naquela
noite, quando o casal já estava deitado, Osvaldo tentou uma investida, mas foi
logo repelido pela mulher. Nada de reconciliação, ainda mais depois do que
Amélia havia visto no banheiro. Ah, não mesmo!
O
dia amanheceu e as cizânia continuou firme naquele quarto. O esposo, já sem
esperanças de conquistar um perdão, desceu para o saguão do hotel, onde tomou
café da manhã. Retornou ao quarto meia hora após. Nada da esposa. Para onde ela
teria ido?
O
homem ainda aguardou por uma hora, depois por mais meia hora. Fez um acordo com
a própria consciência e firmou que, caso Amélia não retornasse dentro da
próxima meia hora, telefonaria para Cristina. E foi o que fez assim que o prazo
venceu.
Diante
do fruto da discórdia matrimonial, não tardou, Osvaldo propôs passarem o dia
novamente na praia de Tambaba. E foi o que fizeram. Que Amélia se virasse pelas
lojas de João Pessoa e comprasse todas as lembrancinhas que quisesse levar para
casa.
Osvaldo
e Cristina, mal pisaram nas areias de Tambaba, retiraram a roupa e a colocaram
em uma mochila. E lá foram os dois, livres, leves e solto, para uma mesa do
restaurante logo adiante. Pediram dois sucos de laranja e conversaram
futilidades, até que, de repente, surge, do nada, a Amélia. Totalmente sem
roupa e despida de qualquer pudor.
—
Oi, Osvaldo! Há quanto tempo!
O
homem arregalou os olhos, enquanto Cristina ficou sem entender aquilo. Ele
tentou balbuciar alguma coisa, mas a gagueira instantânea o impediu de
prosseguir a conversa. No entanto, para surpresa dele, Amélia estava sorrindo
um sorriso que ele não conhecia. Osvaldo tremeu na base, mas logo o medo tomou
outro rumo e se desfez em humilhação. É que, não tardou, surgiu um homem ao
lado da esposa. Mas não um tipo comum, se é que você me entende.
- Nota de esclarecimento: O conto "Aleivosia se paga com aleivosia" foi publicado por Notibras no dia 28/3/2024.
- https://www.notibras.com/site/bumbum-bronzeado-entrega-traicao-de-osvaldo/
- O conto "Aleivosia se paga com aleivosia" faz parte da Coletânea Todas as Formas de Amor do projeto Apparere, 2024.
- O conto "Aleivosia se paga com aleivosia" foi publicado na editoria Nordeste do Notibras no di a1º/6/2026.
- https://www.notibras.com/site/aleivosia-se-paga-com-aleivosia/

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