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Pois é, meu amigo, crônica é povo.
— Hum?
— E mais! Não só crônica, é pedagogia e até cotidiano.
Para não parecer idiota, o segundo concordou com a cabeça. O outro prosseguiu:
— Povo é espaço coletivo da práxis ainda não instrumentalizada. Digo
mais, meu querido! Sem povo não há crônica nem haveria motivo para a sua
existência. Desse modo, você e eu estaríamos sem ofício.
— É verdade. Você está coberto de razão.
— Talvez seja exagero da minha parte, meu amigo.
Os dois homens se entreolharam por um instante até que o mais jovem
ergueu o indicador e, em tom um pouco mais elevado, chamou o garçom:
— Ei, chefe, desce mais um. Dois! O copo do meu amigo secou.
O companheiro agradeceu com os olhos, quase ao mesmo tempo em que o
outro continuou:
— Povo, meu amigo, povo cria e não registra direito autoral. Povo sabe
das coisas, já socializa na fonte.
O garçom traz os dois chopes, os amigos brindam, um gole a mais. O mais
jovem se sente compelido a continuar:
— O capitalismo, meu camarada... O capitalismo, em dado momento... O
capitalismo registra propriedade e até distribui sustentos filosóficos e
narcísicos.
O mais velho, confuso, buscou expressões inexistentes na face para
tentar acompanhar o raciocínio do colega erudito, que não parava de destilar
palavras.
— Pois é, meu amigo... Narcísicos! Mas vida que segue lenta no seu leito
e, nem por isso, antirrevolucionária, pois conta com a força da arte, essa tal
categoria do imaginário humano da qual você e eu também fazemos parte.
Mais um brinde, outro gole. Enquanto houver ócio, a filosofia estará por aí. Quanto às crônicas, só enquanto existir povo. Aqueles tipos, mentes inquietas, pediram a conta e, cambaleantes, se embrenharam pelas ruas da cidade, que adormecia.
- Nota de esclarecimento: O conto "Dois chopes e uma teoria" foi publicado no Notibras no dia 22/7/2026.
- https://www.notibras.com/site/dois-chopes-e-uma-teoria/









