terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Encontro inusitado

     

Passos firmes no final da rua, que ecoaram pelo beco decadente, cujos esgotos eram disputados por ratos que intimidariam até o mais atrevido dos gatos. Lúcio estacou, as pernas trêmulas o traíram. Sem opção, precisou encarar o próprio medo e, não tardou, ficou de frente com a silhueta enegrecida na penumbra, até que, tocado pelo filete de luz do único posto, surgiu o rosto de uma mulher de cabelos enegrecidos. 

        — Quem és tu a esta hora?

        — Você é a morte?

        — Quem és tu?

        — Lúcio.

        — Lúcio Lopes da Silva?

        — Como você sabe?

        — Quer mesmo saber?

        O sujeito arregalou os olhos e, mesmo curioso, a coragem lhe escapou. No entanto, quis saber o nome da misteriosa mulher.

        — Posso saber o seu nome?

        — Prefiro tomar uma caipirinha.

        — Agora?

        — Por quê? Não gosta?

        — Gosto. 

        — Então?

        — Tá! Mas onde vamos encontrar um boteco aberto agora?

        — Já deixei uma mesa reservada pra gente bem ali.

       Para espanto de Lúcio, havia realmente uma mesa com dois copos com doses generosas de caipirinha, além de uma garrafa de pinga de Salinas. Até um prato caprichado de peixe frito. Nem se atreveu a questionar de onde surgira aquelas iguarias. O gajo estava certo do poder de convencimento da tal nebulosa criatura. 

          Sentados um de frente para o outro, a dama convidou Lúcio para um brinde. Em seguida, certo de que estava diante do crepúsculo da vida, Lúcio não se fez de rogado e começou a relembrar todos os podres cometidos desde o instante em que a memória foi capaz de alcançar. E não pense que foram poucos.

          Após horas naquele lugar, eis que os primeiros raios da manhã se fizeram presentes. Lúcio, notório fraco com bebida, aparentava espantosa sobriedade. Ele trocou alguns olhares com a interlocutora, que, àquela altura, lhe parecia conhecida de longa data. Ela lhe lançou um sorriso, levantou-se e se despediu com um aperto de mão.

        — Já vai?

        — Sim.

        — Pensei que você fosse me levar.

        — Outro dia, talvez.

        — Posso saber o seu nome?

        — Pensei que já soubesse.

        — Não. Não sei.

        — Aurora.

       Virou-se e foi embora. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Desejos e realidade

          

        Álvaro andava às turras com o trabalho. Não que isso fosse algo novo, mesmo porque essa situação teria iniciado há quase 15 anos e, por coincidência ou não, no primeiro dia no emprego. E não sejamos hipócritas, pois isso é bastante comum no mundo dos normais. 

          Na sexta-feira, assim que deu a hora de sair do serviço, o sujeito abriu aquele sorrisão e, talvez inebriado por conta da euforia que tomou seu ser, confidenciou a si mesmo que aquele havia sido o derradeiro dia de martírio. Nunca mais! Dali para frente seria somente liberdade, o tempo apenas para gastar com coisas realmente importantes: viagens, encontros com amigos, leitura de bons livros, muita poesia, longas sonecas no sofá, vinhos, cervejas diversas, namorar sem tempo para acabar, esbórnia total. 

          No sábado, quis emendar e, ainda disposto, mal despertou, tomou aquela ducha para espantar qualquer cansaço porventura sorrateiro. Vestiu a bermuda e a camisa mais confortável, calçou o par de chinelo de dedo e foi para o churrasco na casa de Mariana, colega dos tempos de faculdade. Até imaginou algo com a mulher, que foi logo descartado. É que ela era casada com um robusto praticante de artes marciais. Melhor seria se concentrar nas carnes na grelha e na cerveja gelada. E foi o que fez, apesar dos arriscados olhares trocados com a anfitriã. 

          Retornou ao apartamento quando o domingo já se avizinhava. Por impulso, abriu a geladeira e se deparou com duas latas de cerveja, que talvez estivessem trocando confidências. Pegou uma e abriu sem pensar. Deu o primeiro gole e caminhou até a sala. Esparramou-se no sofá e tentou pensar em algo, mas os pensamentos, confusos, se esvaíram como fumaça. Mais um gole, depositou a lata no chão. Apagou sem se dar conta. 

          O inconveniente interfone tocou, tocou, tocou. Álvaro, cujas pálpebras clamavam por continuar cerradas, finalmente ergueu o corpo fatigado e foi ver quem era. Reinaldo, amigo de longa data, resolvera surgir do nada após quase dois anos.

            — Tô incomodando?

            — Não. 

            — Tem certeza? Se quiser, volto outra hora.

            — Não.

            — Mesmo?

            — Não.

            — Não?

            — Não! Sim. Fique à vontade. Só vou lavar o rosto e já volto.

            — Beleza. Tem cerveja?

            — Hum... Acho que tem uma latinha na geladeira.

            — Só uma?

            — Acho que é. Olha lá. 

          Assim que retornou do banheiro, Álvaro viu a visita bebericando a derradeira cerveja.

            — Só tinha esta. Vou comprar mais pra final.

            — Ih, é mesmo! Hoje tem Vascão! 

            — Sim! Vamos acabar com o Corinthians. 

            — Vou com você. Preciso andar um pouco, Reinaldo.

           Além de cerveja, compraram tira-gostos variados. Retornaram ao apartamento, onde ligaram a televisão para assistirem à final da Copa do Brasil. 

            Álvaro parecia revigorado por causa da possibilidade de comemorar um importante título do seu time do coração. O problema é que o Coringão marcou um gol, o que fez com que alguns impropérios saíssem sem qualquer cerimônia daquelas bocas angustiadas. Mas eis que o Vasco consegue empatar ainda no primeiro tempo. E os palavrões, agora de felicidade, ecoaram por todo o apartamento. 

          Segundo tempo, eis que o Corinthians voltou a marcar. Álvaro e Reinaldo, cada um com uma lata na mão e desprovidos de pudores, xingaram, xingaram, xingaram. Não era possível que o Vasco da Gama ficaria mais um tempo na fila, enquanto o Timão se sagraria campeão em pleno Maracanã.

        Os minutos de esperança se transformaram em frustração para os vascaínos. Corinthians campeão. Sem força para chorar a derrota ou continuar bebendo, Reinaldo se despediu. Álvaro, ainda querendo se esquecer daquilo, ainda abriu algumas latas, até que, exausto, desfaleceu, completamente embriagado, sobre a cama. 

              Na manhã seguinte, Cida, a diarista, chegou e constatou que seria um dia de faxina pesada. E começou a limpar, pois não havia outro jeito. E, quando percebeu que Álvaro continuava dormindo, foi acordá-lo.

            — Álvaro. Álvaro! Álvaro!! Álvaro!!!

            — Hum?

            — Num vai trabalhar hoje?

            — Oi, Cida. Que horas são?

            — Quase dez.

            — Tudo isso?

            — Sim.

            — Droga! Queria que ainda fosse domingo.

            — E quem é que não queria?

            — Como assim?

           — Álvaro, meu querido, absolutamente ninguém tá preparado pra uma segunda-feira.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Desejos e realidade" foi publicado no Notibras no dia 22/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/desejos-e-realidade/

domingo, 21 de dezembro de 2025

Laurindo Guimarães, um tipo frio e extremamente violento

    

         Frio e extremamente violento. Foi assim que ouvi pela primeira vez as qualidades de Laurindo Guimarães, notório homem do crime do Capim Meloso, região obscura de Sobradinho, no Distrito Federal. Não muito alto, mas corpulento o bastante para enfrentar quem se atrevesse a cruzar o seu caminho, o sujeito fez inimigos por onde passou. E se conto essa história quase esvaído de receio, é porque o sujeito bateu as botas no mês passado, já beirando os 90 anos.

        — E tu por acaso tem medo de um velho dessa idade?

        — Pois aguarde e ouça, Pedrito.

        — Hum! Tu é mesmo um frouxo, Rogério!

        — Frouxo, é? Então você que é o valentão? Queria ver se você ficaria assim com essa cara de brabo na frente do Laurindo Guimarães. 

        — Pois conte logo, que preciso esticar as canelas porque a Rafaela hoje quer sair hoje pra comemorar.

        — Comemorar, é? E vocês vão comemorar o quê?

        — Num é da sua conta. Fale logo sobre esse tal Laurindo das couves.

        — Guimarães! Olha que o bicho era tinhoso com brincadeira desse tipo.

        — Pois conte logo, vá! 

       Como estava dizendo, Laurindo Guimarães era frio e extremamente violento. Um tipo assim meio Lampião e Zé do Caixão. Ninguém podia com ele, e os que se atreviam a tentar logo se arrependiam, pois o cabra era bom de tiro e, se as balas acabassem, cortava o bucho do petulante com a peixeira.

        Era noite escura, dessas de fazer medo até em assombração, quando três forasteiros... Digo que eram forasteiros porque me contaram, mas nem precisavam me falar, pois só gente de fora que se atreveria a enfrentar o Laurindo. Só besta mesmo para tentar a sorte com quem não deve.

        Pois esses três desaforados viram o Laurindo cambaleando quando já passava da meia-noite, como se estivesse bêbado. E acredito que estivesse, já que o homem era chegado a uma branquinha, fosse com limão, fosse com mel, fosse até pura. Ele gostava de andar calibrado.

        Os atrevidos quiseram meter um assalto justamente no tipo mais indigesto que já pisou por aqui. Lógico que nem desconfiavam na enrascada que estavam se metendo, ainda que o homem estivesse bêbado. Ainda  que estivessem armado de revólveres e atirassem de longe, precisariam ter pontaria certeira, pois o chumbo viria grosso do outro lado. Mas não! Confiaram nos punhos e se deram mal. 

        Os caras cercaram o Laurindo e começaram a ameaçá-lo. Queriam não apenas roubar a carteira, mas a honra do sujeito. E você sabe, né, que sujeito homem não se dobra facilmente, ainda mais um tipo que nem o Laurindo Guimarães. Ih, aquele lá era osso duro de roer até para onça-pintada.

        Mandaram o Laurindo passar a carteira e falaram que iriam lhe dar uma surra que nem mãe dá em menino. Mal terminaram de dizer tais palavras, o primeiro tombou com um murro no nariz. E o coice foi tão forte, que os comparsas se assustaram com o som seco de osso partindo. 

          Os dois devem ter pensado em fugir, mas não o fizeram porque as pernas, de tão trêmulas, não deixaram. E o sopapo comeu solto, até que, ensanguentados, foram ao chão. Mas a coisa não parou por aí. Aliás, foi a partir daí que o festival de horrores teve início.

            Se fosse outro, certamente iria embora e a história acabaria daquele jeito. Porém, as coisas não funcionavam assim com o Laurindo. Não mesmo! Violência era tão arraigada nele, que eram os raros que se atreviam a lhe olhar nos olhos. 

            Laurindo abriu o bucho dos três desafortunados, arrancou as tripas e deu para alguns vira-latas que estavam por ali. Pegou o fígado de um e arrancou um naco com os dentes. Engoliu. Mordeu mais um pedaço, mas pareceu não apreciar o gosto. Cuspiu. Depois foi embora, enquanto os cachorros se refestelaram com aquele banquete.

            Assim que amanheceu, os moradores encontraram os corpos. Todos sabiam que aquilo só podia ser obra do Laurindo Guimarães. Ninguém teve coragem de denunciar. E quando o camburão chegou ao local, os policiais tiveram certeza de que o autor era o Laurindo. E você acha que prenderam o homem? Nananinanão. Para você ver! Nem a polícia queria bater de frente com o demônio. 

          Pois é, esse era o Laurindo Guimarães, o tipo mais desalmado que já pisou por estas bandas. Ninguém podia com ele. Dizem até que não era humano. Falavam que era bicho. Mistura de cachorro louco com jararaca. 

                — Pedrito, meu amigo, você tá bem?

          — Posso usar o seu banheiro? Num sei o que me deu, mas parece que esse torresmo não me caiu bem.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Laurindo Guimarães, um tipo frio e extremamente violento" foi publicado no Notibras no dia 21/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/laurindo-guimaraes-um-tipo-frio-e-extremamente-violento/

sábado, 20 de dezembro de 2025

Maratona de coisas ruins

   

          Naquele final de semana, no lar, doce lar de dona Arminda, a maratona de coisas ruins estava a todo vapor. No sábado, Júlio, o filho mais velho, teve uma intoxicação alimentar. Foi à UPA, tomou medicação na veia e, não tardou, parecia ter melhorado. 

          O jovem retornou para casa e teve um sono tranquilo, com direito a sonhar com a musa Carla Marins. Isto é, até que chegaram, sem qualquer aviso, atrevidas pontadas agudas na parte baixa da barriga, ao mesmo tempo em que a atriz esvaiu-se dos pensamentos lascivos do rapaz. Quis voltar à UPA, mas a preguiça falou mais alto. Tomou um analgésico e voltou a dormir. 

          Já no domingo, Júlio aparentava ter melhorado, o que foi um alívio para Arminda, que queria porque queria assistir tranquilamente ao seu Vasco da Gama em mais uma partida eletrizante. Mas eis que, antes mesmo de iniciar a partida, Renato, seu outro filho, de 20anos, teve um piripaque dos brabos. A mulher e o marido, Silvimar, desesperados, tentaram acudir o rapaz.

          — Renato, meu filho, você está bem? Por favor, responde! Sou eu, sua mãe!

          — Acho melhor ligar pro SAMU.

          — Então, corre lá e liga, Silvimar! Ou você quer que o nosso menino morra?

          Apesar de atordoado, o homem conseguiu telefonar para a emergência, que disse que uma ambulância já estava a caminho. 

          Enquanto todos aguardavam a chegada do socorro, eis que o Renato pareceu retornar para o mundo dos sãos. Fez até cara de quem não estava entendendo as expressões faciais dos pais.

          — Que foi, gente? Até parece que alguém morreu.

          — Você está bem, meu filho?

          — Ué! Tô! E a senhora está?

          — Você quase matou a gente de susto.

          — Eu? 

          — Sim! Tu mesmo! 

          Depois das devidas explicações, a campainha tocou. Era o pessoal do SAMU. Tudo certo, caso não fosse por um pequeno detalhe. É que o Renato, achando que os pais estavam de brincadeira, não aceitou ser examinado. E não havia santo que fizesse com que acreditasse que a coisa era séria.

          — Renato, meu filho, por favor, deixe os homens te examinarem.

          — Que examinar o quê, mãe! Tô bem!

          Como a vida dos profissionais de saúde é corrida, e eles precisavam atender a outra chamada, já estavam de saída, quando, de repente, o Renato teve uma leve tontura e foi com a testa justamente na quina da mesa, sempre pronta para fazer aquele estrago nos mais desavisados. 

          Do chão da sala, o sujeito foi levado para o hospital, onde ficou internado por três dias. E recebeu alta com recomendação de repouso absoluto. Mas como segurar o ímpeto dessa juventude? 

          — Meu filho, por favor, o doutor falou pra você ficar em casa.

          — Tô bem, mãe.

          — Hum! Bem que nada! Mal dá um passo e já cai de novo.

          — Caio nada, mãe.

          — Olha que a quina da mesa já tá de olho nessa sua testa cheia de pontos.

          — Que quina da mesa nada, mãe.

          — Pois fique sabendo de uma coisa! Se você sair por aquela porta, nem adianta me telefonar, que não vou mais perder o meu Vasco por tua causa.

          Renato arregalou os olhos e, talvez naquele instante, percebeu que mães possuem outras prioridades na vida além de cuidar da cria. Retornou para o quarto e permaneceu deitado dois dias além do tempo prescrito pelo médico.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A misteriosa chuva de cartas

 

          Todos ali naquele vilarejo aguardavam a chuva, que não dava as caras há quase dois anos, como se Deus estivesse testando a fé daquela gente. Ajoelhados ao lado da cama, os moradores suplicavam, enquanto a lavoura se perdia naquela seca, que parecia não ter fim. Foi então que algo aconteceu em mais uma manhã ensolarada, o que causou espanto em muitos, admiração em outros e desconfiança em alguns.

          Em vez da tão esperada água, o povo viu envelopes de cartas caindo do céu. Sim, inúmeras, centenas, milhares de correspondências, todas sem remetente e com destinatário a quem pudesse interessar.

          Laura, mãe de quatro crianças arteiras, não tinha tempo disponível para ler. Mesmo assim, talvez por curiosidade ou receio de perder oportunidade de algo desconhecido, tratou de catar um envelope antes mesmo de ele cair no chão. Guardou-o no bolso da saia e retornou para casa, onde havia muita coisa para ser feita naquela manhã. 

          Juvenal, já passado dos 80 anos, viu aquilo como insanidade e, por isso, retornou para sua residência antes que a loucura o atingisse. Assim que entrou em casa, passou a chave na porta e cerrou as janelas. Foi só quando tirou o casaco e o pendurou no gancho preso à parede que percebeu que um sorrateiro envelope havia se instalado em um dos bolsos.

          Juliana e Dionísio, casal que andava às turras por coisas que nem se lembrava, também pegaram, cada um, um envelope. Intrigados, nem sabiam por que haviam feito aquilo. Talvez pelo simples motivo de não querer ficar fora de algo que poderia mudar seus destinos. Mas uma carta? Como um mero pedaço de papel teria a capacidade de transformar vidas? Bobagem. 

        Ninguém ficou de fora. Um envelope para cada um dos quase três mil moradores. Como aquilo era possível? O mais incrível é que, ao abrirem as missivas, eles constataram que as cartas lhes eram direcionadas. E nada de mensagens aleatórias, não apenas por dizerem coisas específicas, mas por citarem os nomes de cada um dos destinatários. 

          Não se sabe se foi por impulso, curiosidade ou suspeita de que se tratava de algo grandioso, mas todos resolveram responder as cartas. E foi o que fizeram e, não se sabe por qual razão, decidiram colocar todos os envelopes empilhados no meio da única praça da pequena vila. 

          Os dias passaram e nada. Foi aí que o pequeno Francisco, filho da Laura, resolveu contar os envelopes. Achou estranho, mas talvez tivesse errado na conta. Pediu ajuda à Lúcia, a irmã mais sábia. Realmente estava faltando uma carta. 

          Não tardou, as crianças descobriram que havia sido o velho Juvenal o ausente. Não se sabe se teria sido por esquecimento ou implicância, o sujeito ainda não tinha aberto o seu envelope, que continuava no bolso do seu casaco, que ainda estava pendurado no gancho preso à parede. 

          Decididos, Francisco e Lúcia foram bater à porta do antigo morador. Eles questionaram Juvenal, que achou aquilo uma tremenda baboseira. Seja como for, finalmente resolveu abrir o tal envelope, leu a mensagem e, impactado com aquelas palavras, pegou papel e lápis e, compulsivamente, escreveu, escreveu, escreveu...

          Missiva escrita, lá foram Francisco, Lúcia e o agora animado Juvenal depositar o envelope lacrado sobre a pilha dos outros milhares. E todos os moradores se aproximaram, como se aguardassem algo grandioso acontecer. Aquele mundaréu de olhos fixos naquelas cartas. Nada. Nada parecia acontecer, até que alguém disse que aquilo tudo era um completo despropósito.

          Quando a multidão começou a se dispersar, eis que um redemoinho se formou do nada. Assustada, aquela gente não conseguiu se mover. E o redemoinho, impávido, se aproximou e se apoderou do monte de cartas e as levou embora. 

           Boquiabertas, as pessoas não acreditavam no que haviam acabado de assistir até que as suas faces começaram a sentir os primeiros pingos de chuva. E, felizes, sorriram.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Um velório muito louco

         

        Aquele velório prometia. Quer dizer, tudo indicava que seria muito concorrido, já que o defunto, apesar da fama duvidosa, era benquisto por parcela dos que o conhecia. Já a outra parte, melhor nem comentar, pois, dizem, falar mal dos mortos dá azar. 

      Arlindo Teixeira... Quem? Hum! Também, por esse nome, talvez nem a parentada soubesse quem era. Capaz de achar que fosse engano. 

      Arlindo Coca-Cola enfartou aos 67 anos e não teve quem desse jeito. Morreu a caminho do hospital. E motivos é que não faltaram para o triste fim desse Policarpo Quaresma desprovido de ideais.

        Bebia igual a uma porca. Gordo que nem um capado. Não fazia ginástica. Desse modo, não tinha como ajudar. Diziam os mais chegados que até durou muito.

       Lúcio Amendoim e Márcio Minhoca, os tais chegados, até a derradeira noite antes do último respiro, faziam companhia ao desprovido de cuidados com a própria saúde no botequim do Zeca. Como você já deve ter percebido, os dois também não eram adeptos da malhação, nem mesmo a contra Judas no sábado de aleluia. 

        Já no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, em Brasília, enquanto davam o último adeus ao agora finado, Amendoim e Minhoca, talvez impressionados com a feição pálida do parceiro imóvel dentro do féretro, imaginaram, ao mesmo tempo, terem ouvido vozes. Eles se entreolharam e, então, deu-se o seguinte interlúdio.

        — Tu ouviu o que eu ouvi, Amendoim?

        — Como pode isso, Minhoca?

        — Num sei! Só sei que é a voz do Coca-Cola.

        Os dois fitaram o rosto do falecido, que parecia imitar o sorriso de Monalisa. Seria possível? Diante da dúvida, Minhoca arriscou.

          — Coca-Cola, foi tu que falou?

          Nada. Nem mesmo um ai. No entanto, assim que os dois estavam prestes a voltar à realidade, eis que Arlindo Coca-Cola, direto do féretro, arregalou os olhos e gargalhou. Minhoca e Amendoim tomaram um baita susto e se abraçaram de medo.

            Ainda com um resquício de coragem, Minhoca quis dar um pito no morto.

            — Pô, Coca-Cola! Quer matar a gente de susto?

          Foi como se aquelas palavras fizessem o rosto do Arlindo Coca-Cola voltar à palidez mórbida. Os colegas até tentaram puxar assunto, mas parecia que o moribundo não queria mais papo. Tanto é que permaneceu calado até que o caixão foi fechado. 

            Amigos em vida, os três esquifes foram depositados lado a lado. Quem sabe não continuariam aquela conversa no além?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O dia em que tietei a Simone Magalhães, a poetisa inquieta

Foto Gaia Sophia

             Gente, e não é que conheci a poetisa inquieta do Café Literário? Sim, a própria! Simone Magalhães. Com aquele sorriso que envolve qualquer um. E eu, obviamente, me deixei ser envolvido, mesmo porque estava diante de uma das mais atuantes autoras do nosso tempo. Exagero? Sou fã, e fã tem dessas coisas! Então, é! Pronto e acabou!

          Pois é, confesso que a vida me leva para os superlativos, ainda mais diante de alguém que sabe pintar e bordar o sete, o oito, o milhão e o zilhão num guardanapo que seja, só para ficar de olho na reação do leitor. Simone é assim.

          O encontro aconteceu na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, na Asa Sul, no dia 13 de dezembro de 2025. Por que escrevo a data completa? Coisa de fã, coisa de fã... Quem é me entende.

          Tietei, tietei e tietei, e ela se deixou tietar. Simpática além do infinito. E como aqueles olhos brilham! Brilham com a timidez da escritora. Sim, ela é tímida. Como é que pode? 

          A Simone e outros autores estavam lançando a Coletânea Estilo & Poesia, Volume 10, pela Editora Brunsmarck. E a minha agora amiga... Sim, ainda sou fã, mas, após esse encontro, nos tornamos amigos. Que nem minha filha Mariana diz: "Desculpa aí!"

          Mas como estava dizendo, a minha amiga Simone Magalhães tem um lindérrimo poema nesse livro que já devorei: Nos palcos da vida. Demais!!!

          Durante a nossa conversa, surgiram alguns nomes lembrados pela Simone, com destaque para a Cecília Baumann, o Daniel Marchi e o José Seabra. Todavia, do nada, ela me confidencia sua admiração pelo escritor J. Emiliano Cruz, figura constante no Café Literário.

          — Edu, o J. Emiliano é bom pra caramba!

          — Excelente! Um dos melhores! E gente boa demais!

          Simone Magalhães, uma poetisa talentosíssima, que escreve com inquietude e beleza incomuns. Sigo por aqui ainda muito fã e, agora também, amigo. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O dia em que tietei a Simone Magalhães, a poetisa inquieta" foi publicada no Notibras no dia 17/12/2025.
  • https://www.notibras.com/site/o-dia-em-que-tietei-simone-a-poetisa-inquieta-da-capital/

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Rebu no condomínio

   

          Arlete andava às turras com Eliosmar, vizinho de prédio na Asa Norte, na capital do país. Não que esse imbróglio fosse antigo, até porque, não fazia muito tempo, os dois mantinham, digamos, excelente relacionamento, mesmo que ambos fossem casados com pessoas distintas. Por sorte ou discrição, o romance, enquanto durou, parece não ter ido além da alcova. 

          O término do relacionamento não se deu por incompatibilidades ou falta de desejos. Nisso, aliás, os amantes pareciam ter nascido um para o outro, como adultos que, de repente, se percebem adolescentes diante da primeira paixão. O problema foi outro, que pegou Arlete de surpresa: eleição condominial.

          A mulher, que há tempos reclamava da conduta do síndico, o Juarez, resolveu lançar candidatura própria. Até aí, nenhum problema aparente, mesmo porque o desafeto havia decido não concorrer. E a situação caminhava para uma vitória da Arlete, já que ela era a única candidata ao cargo. No entanto, no minuto final da reunião, eis que alguém resolveu lançar-se no pleito. 

          Carla. Sim, justamente a Carla. Pois saiba você que a dita cuja era nada mais, nada menos do que a esposa, de papel passado e tudo, do Eliosmar. E isso, aliás, deixou o gajo numa sinuca de bico, pois, apesar de não querer se meter, foi obrigado pela mulher a fazer campanha para ela. 

          — Não é possível que você vai ficar ao lado daquela lambisgoia.

          — Arlete, mas a Carla é a minha mulher.

          — Hum! E eu o que sou?

          — Bem, você é... 

          — Sou o quê, Eliosmar? Diga! Diga!

          — Ué, você é mulher do Adamastor.

          — Ah, agora, então, eu sou mulher do Adamastor. É isso mesmo?

          — E não é?

          — Pois você é um cínico! Sim! Um cínico! 

          — Mas, Arlete...

          — Chega! Já entendi tudo! Sou apenas um passatempo pra você.

          — Não é isso, meu amor.

          — Amor? Não sou o seu amor! O seu amor é aquela usurpadora.

          — Usurpadora?

          — E não é? Desde quando ela quis ser síndica? Aposto que se candidatou apenas pra me apezinhar. E você... Ah, e você ainda tem a petulância de ficar ao lado dela?

          O término foi inevitável. E a campanha eleitoral, que parecia ser mais uma entre tantas outras, se tornou uma verdadeira guerra. E nenhuma das duas candidatas estava disposta a perder. 

          As ofensas mútuas aconteceram de modo vexaminoso. Nada era deixado de fora, inclusive um possível par de chifres que a Carla teria ganhado por suposta traição. E o pior é que quem espalhou a fofoca foi justamente o pivô do adultério. Anonimamente, é óbvio!

          No dia da votação, a Carla expôs seus planos de melhorias. Todavia, os moradores pareciam mais interessados no imbróglio, ainda mais por causa de um comentário maldoso da Arlete.

          — Pois é, Carla, como é que você vai dar conta de administrar o nosso condomínio, se não consegue nem mesmo tomar conta do seu marido?

          Por pouco, a assembleia não se tornou um ringue. Contidas pelos presentes, as concorrentes, cada uma no seu canto, ouviram a contagem de votos. Por 18 a 7, e 11 abstenções, eis que a Arlete foi eleita a nova síndica do condomínio. Mas não pense você que a pendenga acabou por aí.

          Ainda naquela noite, todos os moradores voltaram os ouvidos para a discussão vinda do apartamento 401. E a briga foi tamanha, que o Eliosmar achou por bem deixar a esposa falando sozinha e, então, foi passar a noite em um hotel. 

          Já na unidade 402, eis que o Adamastor comentou com a amada sobre aquele rebu.

          — Arlete, amor da minha vida, será que a Carla vai pedir o divórcio?

       — Hum! Não tô nem aí. Quero mais é ver o circo pegar fogo e o palhaço morrer queimado.