terça-feira, 21 de novembro de 2023

O velho e a mitral

    

    Apesar de não me sentir tão velho, a maioria das pessoas costuma colocar um senhor logo antes do meu nome. E não pense você que possuo posição social de destaque. É verdade que também não preciso contar os vinténs no final do mês, isto é, desde que não surja algum imprevisto ou, porventura, eu resolva extrapolar o orçamento por conta de certas extravagâncias. Por sorte, gente da minha idade geralmente as usufruiu quase todas há tempos. 

    Como deve ter percebido, já passei dos 60. Para ser preciso, completei 67 no último julho. Devo confessar que, há muito, abomino meus aniversários. Não por conta do avançar da idade, mas porque todos, invariavelmente, acontecem no mesmo dia do mês mais frio do ano por aqui onde moro. Minhas carnes, antes firmes, agora não suportam mais os rigorosos invernos que cismam em chegar praticamente na mesma época.

    Além do clima, outro desconforto me tomou nos últimos dias. Não sei se essa é a palavra adequada, mesmo porque, até aquele exato momento, havia suportado, certamente a contragosto, todos os invernos, por mais rigorosos que fossem. Todavia, desde então, algo tem me tirado o sono e me enchido de pesadelos. É que tive meu primeiro encontro com a morte.

    Calma, que explico antes que você se aborreça e me deixe aqui falando sozinho. Isso é até compreensível, já que não seria o primeiro a fazê-lo. Entretanto, peço-lhe um pouco de paciência com este velho. Prometo ser breve, como breves foram os anos que passaram diante dos meus olhos. Como deveria tê-los aproveitado melhor!

    Fui ao médico no início da semana. Exames de rotina, nada mais. Faço-os quase anualmente. Não porque seja tão preocupado com a saúde, que, é certo, me fez companhia durante décadas. Eu, que pensava que tínhamos uma relação harmoniosa, fui pego de surpresa quando o cardiologista me abriu os olhos para um problema em uma das válvulas do coração. Mitral. Pois é esse o nome da dita cuja, que, a essa altura da vida, resolveu me trair. E eu, ingênuo até aquele momento, nunca havia desconfiado. Ela agiu sorrateiramente.

    — Doutor, é grave?

    — Não muito, mas requer cirurgia o mais breve possível.

    — É arriscado?

    — Não se preocupe com isso. Já operei diversos casos até piores do que o seu.

    — Então, posso ficar tranquilo?

   — Certamente, mas, como diz aquele ditado, o seguro morreu de velho. Melhor apressar o testamento.

    Que todos vamos morrer um dia, sempre soube.  No entanto, quando a morte se aproxima de maneira tão sutil, nos pega desprevenidos. Seja como for, já decidi que não farei testamento. Que os herdeiros se engalfinhem pelas migalhas!

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

As gêmeas

     

          Maria Amélia e Maria Amália nasceram do mesmo ventre há exatos 77 anos. Apenas sete minutos davam à primeira a vantagem de ter conhecido o mundo antes. Se bem que tal espaço temporal fora bastante compensado no decorrer dos anos que se seguiram pela gêmea mais nova, que sempre foi afeita a aventuras. 

            Amélia, ao contrário, viveu sua vida bem próxima à realidade das mulheres de sua idade: casou, teve filhos, netos, quebrou algumas barreiras, mas não muitas. Enviuvou cedo, teve de arrumar um trabalho, coisa sempre abominada pelo falecido, que não admitia que a esposa trabalhasse fora. Na verdade, a polpuda pensão que passou a receber do falecido, que fora alto funcionário do Banco do Brasil, era mais do que suficiente para manter o padrão de vida. Todavia, ela desejou conhecer os ares além das paredes do vasto apartamento em Copacabana.  

            Maria Amélia não se satisfez em apenas cuidar da prole. Jamais foi uma mãe ausente. Jamais! Ela sempre foi uma mãe dedicada, educou os três filhos praticamente sozinha. E nenhum deles poderia se queixar da falta de amor, carinho e, sejamos sinceros, algumas boas chineladas que receberam em momentos oportunos. 

    Teve poucos amores na vida, alguns ainda por cima platônicos, outros que se concretizaram, inclusive um que resultou em adultério. E foi justamente este que mais durou. Sete anos! E, apesar da desconfiança de alguns, jamais foi totalmente desvendado. Tanto é que, com o passar dos anos, as pessoas nem mais comentavam os constantes almoços de Adolpho e Maria Amélia. 

    Ele era o seu chefe numa repartição pública no Centro. “Dr. Adolpho é um homem sério, jamais iria se envolver com uma funcionária, ainda mais sua secretária. Além do mais, ele é apaixonado pela linda esposa”, diziam os contrários à tese de adultério. A etiqueta, parece, serviu de véu para encobrir qualquer desvio de comportamento.

            Por sua vez, Maria Amália bem cedo caiu na vida. Não que tivesse virado meretriz ou, pior até para alguns, vedete de teatro. Ela sempre fora apaixonada pelo mar, quando, ainda menina, construía castelos de areia na praia de Copacabana. 

    Quando completou seus 22 anos, tomou coragem e, para desespero dos pais, zarpou à bordo do convés do veleiro Captain Krayk ao lado de Bruno, um italiano metido a fazer o que Colombo já havia feito há séculos. Ele queria porque queria descobrir um mundo novo. E nessa empreitada achou em Amália a companheira ideal. 

    Velejaram, velejaram, velejaram. Não encontraram nenhum mundo novo, mas redescobriram alguns lugares bastante conhecidos. E possivelmente estariam juntos até hoje, caso um trágico acidente não tivesse acometido o pobre Bruno apenas nove meses depois que desatracaram na Baía de Guanabara.

     O Captain Krayk costeava o continente Africano, onde o casal já havia atracado e partido de alguns países (Nigéria, Camarões, Angola, Namíbia). Já na costa da África do Sul, o sol escaldante convidava a um mergulho no mar. O impetuoso Bruno foi o primeiro a pular nas águas quentes do oceano. Foi o primeiro. E somente ele pulou no mar, para sorte e desespero de Amália, que, quando já estava pronta para fazer companhia ao amado, viu o azul da água ser tomada por um vermelho assustador. Tubarão!

            Até hoje Amália não sabe como conseguiu chegar ao primeiro porto da África do Sul. Chegou! É fato que chegou! E, quando se encontrou em terra firme, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi retornar para casa e pedir perdão aos pais. 

            Chorou. Chorou muito! E descobriu que havia uma segunda alternativa: viajaria por terra mesmo, conheceria todo o continente africano. Logo depois de fazer o que havia de ser feito, voltou para os braços da sua grande paixão: o mar. 

            Viajou, viajou, viajou... Conheceu toda a costa africana, mas isso era pouco para o espírito aventureiro dessa mulher. Amou vários homens, também algumas mulheres. Mas nem todo amor na sua vida teve uma conotação romântica. Teve atrações físicas, nada além de amor carnal, é verdade. 

            Chan, um filipino de traços e voz brutos, a encantou por certo tempo. Não mais de duas semanas, sejamos sinceros. Mas, para não faltar com a verdade, provavelmente tenha sido o amor carnal mais intenso que Maria Amália viveu durante muitos e muitos anos de alcova. Tanto que, de vez em quando, seu nome é lembrado durante certas conversas mais picantes com suas amigas, mesmo depois de vários anos. 

            “O Chan era a prova viva de que o que vale não é o tamanho da varinha, mas a mágica que ela faz”, costumava dizer logo antes de cair na gargalhada. Uma gargalhada espalhafatosa, mas ao mesmo tempo encantadora. Mas ela não parava por aí, pois sempre havia histórias para contar, seja a de amores de alcova, seja de paisagens deslumbrantes, seja de culturas inimagináveis até para nós nascidos num país continental e tão diverso como o Brasil.

        Maria Amélia e Maria Amália, apesar de guardarem diferenças, também possuem lá suas semelhanças. Afinal, são gêmeas. Além do lindo sorriso de dentes desalinhados, gostam de esticar suas cangas diante da praia de Copacabana. E, caso você passe algum dia pelo posto 2, é bem provável que as encontre.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Irmãs gêmeas" foi publicado por Notibras no dia 23/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/amelia-e-amalia-so-pararam-ja-velhas-la-no-posto-2/

A garoupa

     

        Terça-feira era o dia sagrado das pescarias de Anibal e Nilson. A dupla se dirigiu até o Caminho dos Pescadores, localizado na pedra do Leme, quando o sol já não castigava tanto. Nessa terça-feira em particular, uma terça-feira de outubro, o som das cigarras acompanhou boa parte do passatempo dos dois velhos.

          Entre cocorocas e sargos, eis que surgiu uma bela garoupa no anzol de Nilson, o que fez arrancar alguns comentários exaltados dos presentes.

          _ Ganhou o dia, hein, Nilson! – Gilbert, um francês radicado no Brasil desde o final da Segunda Grande Guerra, foi o primeiro a parabenizá-lo pelo feito.

          _ Desse jeito não sobra mais peixe pra gente! – Celso, um velho pescador que morava no Méier, comentou em tom de brincadeira.

          _ Pois é, o meu amigo aqui é o maior pescador desta pedra! – Anibal emendou.

          _ Ih, olha lá a garoupa que o velho pegou! – um rapaz, que nem estava pescando, falou para a roda de amigos, todos na faixa dos 15, 16 anos.

          Diante de tais comentários, Nilson sorriu enquanto retirava o peixe do anzol. Contemplou, com certo ar de serviço cumprido, a pele escura da garoupa de não mais de 40 centímetros. Humilde, falou: "Pura sorte, pura sorte. Além do mais, prefiro um pampo, que é mais saboroso" – olhou mais uma vez o peixe que agonizava em suas mãos, devolveu-o ao mar. 

        Nilson não costumava fazer isso, mas o triste olhar daquela garoupa mexeu de certo modo com seus sentimentos. O gesto foi por puro impulso, pois, se parasse um segundo sequer para refletir, a janta já estaria garantida.

        As primeiras estrelas já despontavam no céu quando Nilson e Anibal resolveram se despedir da pescaria, que teve um saldo de três cocorocas, dois sargos, um sargento, uma garoupa devolvida ao mar e nenhum pampo.

O calçadão estava apinhado de gente correndo para cá e para lá, caminhando em vários ritmos, gente sentada nas mesinhas dos quiosques, gente em pé batendo papo, gente jogando futebol na areia, gente brincando de vôlei, gente simplesmente contemplando o mar ou, então, gente observando pessoas, possivelmente em busca de companhia para mais tarde ou, quem sabe, até para já. Anibal e Nilson, no entanto, passariam praticamente despercebidos, caso não fosse a tralha toda que carregavam.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A garoupa" foi publicado por Notibras no dia 20/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/historia-do-rio-e-a-garoupa-devolvida-ao-mar/

domingo, 19 de novembro de 2023

Um mísero dedo

        

             A chuva chegou de repente, pegando Nilson e Anibal de surpresa. Não ficaram correndo como formigas assustadas, como a maioria dos transeuntes, nem se renderam aos apelos dos camelôs com guarda-chuvas a cinco reais. Simplesmente seguiram para um boteco, sem pressa de chegar, mesmo porque suas vestes há muito estavam empapadas: velhos molhados que nem pintos.

          Trataram logo de puxar duas cadeiras. O garçom, certeiro como um carcará, já veio com o bloquinho e a caneta em punho.

          _ Dois chopes?

          _ Dois chopes, por favor – concordou Nilson.

          _ E como aperitivo? – mais uma investida do trabalhador, camisa branca e calça preta, lutando por seu ganha-pão.

          _ Por enquanto é só isso, meu amigo – respondeu Nilson do alto da sua longeva educação. Mas pode deixar o cardápio, por favor.

          Os pingos, cada vez mais grossos, pareciam jamais ter a pretensão de deixar de molhar a terra, ou melhor, o asfalto de Copacabana. Dava para ver os respingos logo após o encontro da água com a rua. Que espetáculo! Mas que espetáculo! Espetáculo mais que fantástico para dois velhos sentados com tulipas praticamente vazias após alguns goles.

          _ Vamos acabar gripados – profetizou Anibal.

          _ Provavelmente – concordou o amigo.

          _ Talvez até peguemos uma baita pneumonia! – Anibal foi mais longe em sua profecia, mas sua voz carregava um certo tom de deboche.

          Nilson, que estava sorvendo o último gole, baixou lentamente a tulipa, encarou o amigo e, percebendo o caçoar, sorriu.

          _ Pois é, provavelmente até mesmo morramos algum dia. Quem sabe por esses dias?! É certo que muita gente já deve ter rezado uma missa pra mim.

          _ ... – Anibal somente encarou o amigo.

          _ Chefe, por favor, mais dois chopes e uma porção de fritas! – Nilson falou em um tom levemente acima do usual, pois o barulho da chuva competia com a sua voz.

          Os velhos ficaram no botequim até sentirem o quão suas pernas conseguiriam suportar o peso de tantas tulipas. Depois decidiram prolongar um pouco mais a conferência, mesmo porque os dois se lembraram que há muito deixaram a necessidade de levantar cedo para trabalhar no dia seguinte. Simplesmente, também, não precisariam de suas pernas naquele dia para retornarem aos seus lares. Bastaria um mísero dedo para chamar um táxi.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um mísero dedo" foi publicado por Notibras no dia 19/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/velhos-amigos-trocam-profecias-durante-chope/

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Gaúcha, mas filha de nordestina

     

    A mulher, nordestina de nascimento, coração, alma e tudo mais que tivesse direito, foi morar em Porto Alegre. No entanto, não foi por conta do que geralmente o povo do Sul acredita, já que condição é o que não lhe faltava. Isso mesmo! Além de condição, ocupava cargo importantíssimo em órgão pra lá de almejado por concurseiros de plantão. 

    _ Sabia que você nem parece que veio do Nordeste?

    _ Ôxe! Pois está deveras enganada! Se eu saí do meu Nordeste, o meu Nordeste continua aqui dentro bem grudadinho em mim.

    Não que ela fosse orgulhosa por suas origens. Era uma questão inerente ao seu ser, que, desde sempre, hoje e adiante, se perpetuaria como o Sol nasce e se põe infinitamente. Era nordestina e pronto! Não dava e nem havia margem para discussão. 

    _ Mas...

    _ Não tem mais nem menos. Sou o que sou e fim de papo!

    A mulher foi ficando por aquela cidade, adaptando-se à rotina. Provou chimarrão, até gostou, mas nada que a fizesse abandonar o hábito do café. Teve mais afeição pelo churrasco, especialmente da famosa costela vinda do Uruguai. Uma delícia!

    Perambulou por toda a cidade, foi ao Brique da Redenção aos domingos, à Feira Ecológica do Menino Deus aos sábados, ao Centro Histórico, à Orla do Guaíba. Tudo, que antes era novidade, se transformou em hábito. E, de tanto rodar pela cidade, acabou conhecendo um belo rapaz, cujo sotaque lhe chamou a atenção na fila do pão, ali no supermercado mais famoso da cidade. 

    _ Dois pães, por favor.

    Assim que o rapaz tomou a direção do caixa, a moça decidiu segui-lo, pois já estava satisfeita com os itens colocados no carrinho.

    _ Carioca, né?

    _ Sim. Como descobriu?

    _ É que conheço os cariocas pelo jeito de andar.

    A conversa engatou e, já na saída do estabelecimento, o homem a convidou para prosseguirem na cafeteria da esquina. Despachada como ela só, aceitou com aquele sorriso mais lindo do mundo. Do café para o amor, foi um pulo e, alguns meses após, estavam casados e felizes.

    Foi numa segunda-feira de dezembro que a mulher, que havia sonhado com algo há muito desejado, se descobriu grávida. Contou ao marido, que chorou abraçado à esposa. Que felicidade!

    Os meses correram e, finalmente, nasceu uma linda menina de cabelos pretos como os de uma graúna. O sorriso, apesar da flagrante falta de dentes, era todo da mãe. Do pai, talvez o espaço incomum entre o dedão do pé e o segundo. 

    Não tardou, aquela amiga, a mesma amiga que cismava em dizer que a mulher não parecia ser nordestina, foi visitá-la. Beijinhos daqui, beijinhos dali, a amiga não resistiu e soltou uma provocação.

    _ Pois é, querida, a sua filha é gaúcha.

    _ Gaúcha, porém, filha de nordestina. Vai dormir na rede, sim!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Gaúcha, mas filha de nordestina" foi publicado por Notibras no dia 17/11/2023. 
  • https://www.notibras.com/site/chimarrao-e-churrasco-na-mesa-mas-berco-e-rede/

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Às favas

        Às vezes, os olhares inquisidores são extremamente castradores. Se somos jovens, a pressão costuma ser bem maior, mas chega-se a certa idade e, então, olhamos para dentro de nós, buscamos o nosso eu, nos importamos conosco, somos simplesmente nós mesmos. O que é o mundo? O que todo mundo tem a ver com nossos atos? Atos falhos? Bugalhos? Às favas!

As nuvens foram chegando como que não quisessem muita coisa. Uma a uma, todas foram se aglomerando no céu, antes praticamente onde só se via azul, tornando-o cinza, quase negro. Bum! Caiu aquela água toda, pegando muita gente desprevenida. Gente se amontoando sob as marquises para se proteger da chuva, os carros espalhando a água que ia se acumulando ao lado das calçadas. O trânsito já caótico de Copacabana ficou praticamente intransitável. Bi-bi! Fom-fom! Priiiiiiiiiii! O guarda de trânsito tentava, inutilmente, colocar ordem no caos.

          Silva acabara de deixar Elizabeth, sua namorada, em casa, quando se deparou com o espetáculo da natureza afligindo as pessoas nas ruas e avenidas, nas calçadas sob as marquises ou dentro de algum comércio. Ele não estava com pressa, mas não quis se deter como muitos transeuntes. Arriscou-se no temporal.

          O velho foi caminhando, vencendo os metros. Sua bexiga, talvez pela idade avançada, só começou a dar sinais de que estava repleta quando praticamente chegou à rua. Não quis retornar ao apartamento da amada apenas para urinar. Continuou caminhando, logo estaria em casa, pensou.

          Quando alcançou a primeira esquina, suas roupas já estavam mais molhadas do que se estivesse dentro de uma piscina. A bexiga apertava tanto, que incomodava, doía, cada passo era um tormento. Silva pensou em entrar em algum bar e despejar todo aquele líquido amarelo que carregava, mas preferiu continuar. E foi o que fez.

          Segundo quarteirão vencido, a bexiga castigava mais e mais a teimosia do velho. Ele talvez não resistisse por mais alguns metros. Preferiu continuar, a despeito da torrencial enxurrada. Velho teimoso que era, prosseguiu!

          Quando já ia chegando ao terceiro quarteirão, parou diante do sinal de trânsito. Os carros buzinavam, os transeuntes duelavam seus guarda-chuvas na tentativa de não se molharem tanto. O velho parou por um instante. As roupas totalmente molhadas, inteiramente coladas ao corpo. Pensou, pensou. Pensou! Afinal, quem perceberia? Certamente só ele, e, mesmo assim, por causa da diferença de temperaturas. Concentrou-se. Parado ainda, olhava para os lados, enquanto o quentinho seguiu o seu caminho natural. Que alívio!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Às favas" foi publicado por Notibras no dia 16/11/2023. A pedido da redação do jornal, foi feita pequena alteração no texto para dar a entender que a história se passa no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/chuva-salva-silva-que-parou-e-deixou-o-xixi-descer/

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Medo da chuva


        O medo é algo intrínseco a todos nós. Sabemos que há os destemidos, todos, aliás, fingidos de uma sociedade hipócrita. Por conta disso, qualquer um de nós poderia afirmar que a fragilidade humana nos aproxima, ao mesmo tempo em que nos afasta. 

     Como somos todos medrosos, isso nos une. Entretanto, nossos medos não são congruentes. Há pessoas que morrem de medo de barata, aranha, cobra e até mesmo de ursos-polares, mesmo vivendo ao Sul da linha do Equador.  Também não podemos deixar de apontar para vários indivíduos receosos de escuro, fantasma, assombração, ou seja, de coisas místicas. 

       Aqueles que acompanham meus escritos sabem que sou casado com a Dona Irene. Pois bem, apesar dela ser flagrantemente muito mais corajosa que eu, minha esposa tem lá alguns pavores. Um deles é de barata, como grande parte da população mundial. Outro, no entanto, é algo mais peculiar: chuva. 

      E lá estávamos nós dois dormindo na fazenda que tivemos em Goiás, quando começou a chover toda a água do Céu. Com certeza, São Pedro havia deixado todas as torneiras abertas, talvez por descuido, talvez até para provocar medo na minha amada. Tudo por implicância!

        Como tenho sono de pedra, não percebi aquele desperdício de água caindo sobre o telhado. Era um temporal, obviamente acompanhado de raios e trovões. A Dona Irene, completamente em pânico, me cutucou até que conseguiu me despertar.

        _ Oi, amor, o que foi?

        _ Dudu, está chovendo.

        _ Hum. Vamos dormir.

        _ Pede pra chuva parar!

        _ Chuva, para.

     Aqueles olhos assustados, quase escorrendo lágrimas, aguardavam ansiosamente por aquele milagre. É claro que o meu pedido não surtiu efeito. Por isso, olhei para a minha mulher e disse: "Não parou".

      Ela me abraçou e assim permanecemos até o amanhecer. O dia estava lindo. A Dona Irene me puxou para fora da casa e fomos passear. Todos os passarinhos pareciam ter feito o mesmo, pois eram nítidos os sons daquela orquestra. Quanto ao São Pedro, creio que ele iria ter um treco, pois a conta d'água seria alta naquele mês.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Medo da chuva" foi publicada por Notibras no dia 18/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/torneira-aberta-dobra-conta-dagua-de-s-pedro/

    

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Tudo por conta de uma anágua

   

Não foi muito antes de contemplar meus primeiros pelos debaixo do nariz. Talvez, pelo longo espaço temporal, eu esteja cometendo uma pequena falha de meses ou, pode até ser, alguns anos. Na verdade, tais detalhes são irrelevantes. Certamente, não havia chegado aos 20. Ou não.

          Lá estava diante da porta da casa da Matilda, já uma velha naquela época. Hoje, bem sei, ela está há pelo menos 30 anos deitada no São João Batista, endereço eterno de tantos famosos, além de um número infinito de meros mortais. Seja como for, a soberba de alguns parece ter sido em vão, já que todos, no final, se igualaram. 

          Provavelmente, você, que aqui me lê, deve estar agoniado diante de tanta enrolação. Que seja! Vou desembuchar, antes que perca mais um leitor, que, até onde consta, não são muitos. Estava ali por conta de uma encomenda. Digo, uma anágua. 

          Dei dois toques sutis na carcomida porta de madeira, o suficiente para me fazer anunciado. Não demorou, Matilda veio me atender. Fui recebido com um largo sorriso. A idosa, que há pouco havia trocado a dentadura, andava sorridente. Motivo outro, diziam à boca pequena, era por causa de um primo do falecido marido. Como não entendia dessas coisas naqueles idos ou, então, meu olhar estava mais preocupado com as pernas torneadas da Sandrinha, não posso dizer que sim ou que não. 

          A velha me convidou para entrar. Havia duas outras senhoras na ampla sala. A gordinha, eu conhecia. Não me recordo do seu nome. Elaine ou Eliane ou algo assim. Elisa? Pode ser. Não importa. A outra, uma mulher de aparência elegante, nunca havia visto. Bem que poderia ser capa de alguma revista de artistas. Exagero ou realidade, não posso afirmar, mas é como me recordo dos seus traços. 

          — Um instante, Betinho. 

          Matilda foi até um cômodo da casa, enquanto a fiquei aguardando em pé. A gorda e a artista me fitavam de cima a baixo, como se estivessem escolhendo o próximo modelito. Meu rosto começou a pegar fogo, com certeza completamente vermelho, como ainda acontece sempre que fico envergonhado por algo. 

          Não sei quanto tempo depois a velha voltou com um pacote. No entanto, pareceu-me uma eternidade. A minha vontade era sair correndo dali. Mas a bonitona, que continuava me encarando com aqueles olhos enormes, quis saber quem eu era.

          — É o Betinho, filho da Mariana, que mora no final da rua. 

          Se eu disse alguma coisa, não me lembro, mas bem sei que ela não tirava aqueles olhos de mim. O rosto, frio como o de uma loira platinada de Hitchcock, começou a me provocar calafrios. E, antes que eu pudesse fazer algo, eis que alguém deu dois toques na porta, o suficiente para que Matilda fosse ver quem era. 

          Solange, antiga moradora do bairro, entrou toda sorridente. Matilda me entregou o pacote com a anágua da minha mãe, enquanto aproveitei a porta aberta e saí, mas não antes de escutar o seguinte interlúdio, que ainda hoje me corrói de curiosidade.

          — Solange, vou passar um cafezinho. 

          — Não precisa, Matilda. Vim aqui apenas para lhe deixar esse vestido para ajustar.

          — Mas você aceita uma fofoca?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tudo por conta de uma anágua" faz parte da Coletânea de Contistas Contemporâneos 2023 - Volume I da editora Persona. 
  • O conto "Tudo por uma anágua foi publicado por Notibras no dia 13/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/clima-de-suspense-por-conta-de-uma-anagua/
  • O conto "Tudo por uma anágua faz parte da 42ª edição da Revista LiteraLivre, 2023.
  • https://drive.google.com/file/d/17eHuCBSfBm8MdceDc5oZApqQZcN-tIMv/view
  • O conto "Tudo por conta de uma anágua" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 29/4/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=80426

domingo, 12 de novembro de 2023

Tião, o caloteiro

    Sebastião fora chamado pelo nome de batismo apenas pela professora na época de escola ou, então, quando a mãe queria lhe aplicar um corretivo, tão costumeiro em tempos idos. Desde pequeno, todos o conheciam por Tião. E sempre foi assim, inclusive nos anos seguintes nos diversos empregos por onde havia passado.

    Não que fosse mau funcionário, certamente diria sua avó, que sempre o protegia. Mas também não se pode afirmar que Tião se destacasse entre os demais. Talvez fosse simplesmente a falta de sorte ou, então, o excesso de azar que perambulava pela vida daquele homem. 

    Seja como for, a coisa não andava muito boa para o lado do Tião, que vivia deveras requisitado pelos credores do bairro. A situação ficou ainda mais drástica quando a Doralice mandou o namorado, o Elismando, cobrar o caloteiro. Não que o Tião fosse covarde, mas evitar encarar o Elismando era questão de sobrevivência. É que o amado da Doralice era o que se pode chamar de armário dois por dois.   

    Tião fugiu o quanto pôde. Mandou dizer que na semana seguinte pagava o que devia, anunciou aos quatro cantos que a mãe estava acamada, mesmo que esta esbanjasse saúde nos bailes do clube da esquina, arranjou uma bengala e um par de óculos escuros e se fez de cego por quase um mês. As mentiras eram tantas, que acabou sendo pego quando teve a brilhante ideia de engessar a perna. Engessou a direita num dia, mas não aguentou a coceira provocada pelo gesso, que acabou arrancando aquilo tudo. Não tardou, engessou novamente a perna, só que a esquerda. 

    Elismando ficou tão furioso com as artimanhas do Tião, que foi tomar satisfação. Chegou esbaforido na casa do devedor. Tocou a campainha, mas esta estava quebrada. Tentou manter a calma e, então, deu três leves toques na porta. Nada! Cheio de cólera, esmurrou a porta, que quase veio ao chão. 

    Finalmente, uma voz bem fraca veio lá de dentro da casa.  Era o Tião, que parecia doente. Elismando, todavia, estava decidido a não cair em mais uma mentira do pilantra. Percebeu que a porta estava destrancada e, sem pedir licença, entrou. 

    O brutamontes queria porque queria esmurrar a face deslavada do Tião. Procura daqui, procura dali, ele acabou encontrando-o deitado na cama. Estava quase disposto a arrancá-lo daquele berço esplêndido, quando percebeu um pratinho nas mãos trêmulas do gajo. Alguns grãos de ração, que eram levados, um a um, para a boca tristonha do Tião. Elismando, talvez envergonhado por ir cobrar a dívida daquele pobre coitado, quis saber o porquê de ele estar comendo comida de cachorro. E, diante da resposta que recebeu, até ofereceu mais dinheiro para o caloteiro.

    — Meu querido, na guerra, urubu é frango.  

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tião, o caloteiro" foi publicado por Notibras no dia 12/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/elismando-irado-sente-pena-do-tiao-moribundo/
  • O conto "Tião, o caloteiro" faz parte da Antologia de Contos - Mentirinha do Grupo Qub1tis, 2023.


  • O conto "Tião, o caloteiro" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 11/9/2026.
  • https://www.notibras.com/site/tiao-o-caloteiro/

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Kriska, a menina e o cemitério

    Kriska, apesar de não ser nome de registro, era como aquela mulher era conhecida por todos. E, para não restar dúvida de quem se tratava, caso aparecesse outra, deram-lhe logo um sobrenome, que combinava com seus modos ardidos desde os tempos de menina. Por conta de tal probabilidade, mesmo que mínima, ficou Kriska Pimentinha.  

    Com aquele seu jeito malagueta de ser, Kriska esbanjava simpatia, ainda mais quando sorria aquele sorriso que lhe era tão característico. Aos olhos de qualquer dentista, aquele espaço entre os dois dentes superiores da frente seria um diastema. Para outros, uma falha. Falha? Que nada! Aquilo era puro charme! 

    Outra qualidade daquela mulher era seu amor pelas crianças. De tanto amá-las, acabou por ter quatro. Sim, isso mesmo! Quatro! Não resta dúvida de que Kriska sabia e, melhor, gostava de amar! E como amava!

    Por falar nesse carisma que Kriska possuía, vale aqui uma história, que, dizem, aconteceu no último Finados. Aliás, Dia dos Finados ocorrido no local mais propício para causos desse tipo, apesar da aversão total daquela mulher a qualquer acontecimento do além. Mas aconteceu! Fazer o quê?

    Pois lá estava a nossa heroína no cemitério, para onde havia ido fazer uma visita aos túmulos dos seus parentes. Medrosa que só, não conseguiu deixar de notar uma menininha sentada num banco. Uma linda menininha, por sinal, que nem aquela que, um dia, Kriska havia sido.

    Curiosa, a mulher tomou coragem e foi puxar conversa com a tal garotinha. Mal se aproximou, percebeu aqueles olhos enormes e lindos, de um tom castanho aconchegante. Kriska se abaixou e segurou uma das mãos da menina.

    _ Que olhos tão lindos!

    _ Obrigada.

    _ Cadê os seus pais?

    _ Não vieram.

    _ Mas você não tem medo de ficar aqui sozinha?

    _ Quando eu era viva, sim.

    Logo em seguida, as duas riram bastante. No entanto, Kriska Pimentinha, de tão nervosa, acabou fazendo xixi na calça. A mulher, toda trêmula de medo, saiu correndo, enquanto o líquido amarelo e quentinho escorria pelas suas pernas. Correu tanto e, somente já perto da saída do cemitério, teve coragem de olhar para trás. A menina, todavia, não estava mais lá.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Kriska, a menina e o cemitério" foi publicado por Notibras no dia 10/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/kriska-vive-sonho-fantasmagorico-em-cemiterio/

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Menino Deus, uma das minhas Itabiras

    

    Não é raro meus companheiros de Notibras, especialmente o José Seabra, o Wenceslau Araújo e o Mathuzalém Júnior, me questionarem como é que consigo morar em Porto Alegre, já que sou extremamente friorento. Eles têm razão, pois guardo uma frase na ponta da língua sobre isso: Quem gosta de frio é pinguim e picolé!

    Faz frio por aqui? Muito!!! Entretanto, quando faz calor, lembra muito os verões cariocas, pelos quais meu corpo clama a todo instante, apesar das reclamações da minha mulher. Pois é, parece que a antes friorenta Dona Irene está cada dia mais gaúcha. Mas, caso ela leia o que estou escrevendo, é certo que logo vai dar uma caprichada naquele delicioso sotaque piauiense com pitadas de Maranhão.

    Ah, Porto Alegre é a cidade para todos os gostos. Calma, explico! Se você prefere verão a inverno ou deseja que logo chegue a primavera ou, vá lá, é do tipo que só é feliz nos outonos, não se preocupe. Por aqui, todas essas estações acontecem com intervalos de 15 minutos entre uma e outra. Então, basta esperar.

    Para falar a verdade, a capital do Rio Grande do Sul é uma das melhores cidades que conheço. Há locais maravilhosos por aqui, mas nenhum, aos meus olhos, é mais encantador do que o Menino Deus, o bairro onde moro. Adoro passear pelas suas calçadas largas e, do nada, surge um indivíduo e puxa papo. Esse é o modo gaúcho de ser. 

   Também é comum alguém me perguntar se eu me sinto completamente feliz aqui. Completamente é uma palavra muito extensa. Mas deixemos os pudores de lado. Falta uma praia no Menino Deus. Pois bem, se é para falar a verdade, que baixem um decreto e tragam Copacabana inteirinha para cá. Somente assim, terei as minhas duas Itabiras juntinhas e misturadas.

    Algo que tem me interessado ultimamente é o chimarrão. Aliás, mate. O povo daqui parece que não fala muito chimarrão. Quando muito, um chima e olhe lá. Até evito falar chimarrão para não ser descoberto como forasteiro, se bem que basta eu pedir um pastel para ser identificado como tal. 

    Um amigo que fiz por aqui, o Marcio Petracco, tem sido meu conselheiro no assunto. Ele me dá umas dicas legais, mas que nem sempre conseguem evitar que a minha bomba entupa. Bomba? O Marcio me disse para usar camisinha da próxima vez. Camisinha? Talvez esses nomes sejam incomuns para você que está me lendo, mas não se preocupe, já que são apetrechos utilizados na degustação da erva. Erva?

    Deixemos de lado o porongo e vamos nos ater ao churrasco. Aliás, churrasco é uma palavra dita pelos estados mais acima. Por aqui, é assado. Vazio ou a tradicional costela, não tem como dar ruim. Até eu, acostumado com as massas por questões familiares, já aumentei meu consumo de carne em 300%. E, logo constatei, o gaúcho entende mesmo do assunto.

    Bem que eu poderia escrever o dia inteiro sobre Porto Alegre, mas preciso sair. É que o Chengulo, o meu cusco, está cutucando meu calcanhar. Então, vou lá dar uma volta pelo Menino Deus, o mais tradicional bairro de Porto Alegre. Até a próxima!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Menino Deus, uma das minhas Itabiras" foi publicada por Notibras no dia 9/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/menino-deus-uma-das-minhas-itabiras-friorentas/

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Danilo, o caixeiro-viajante

        Danilo herdara a profissão do avô, afamado caixeiro-viajante, a despeito das súplicas da avó, que sofrera com a ausência do marido por longos períodos. A mãe nem tentou dissuadir o rapaz, pois sabia que ele era cabeça-dura. O pai, que ganhara a vida na pequena venda da família, também não entrou nessa pendenga, ainda mais porque sempre desejou dar fim àquilo tudo e se mandar para o interior. Acabou morrendo antes do previsto, deixando apenas dívidas para o único herdeiro. 

        Sem muitas opções, Danilo se fez empregado da firma Joaquim & Manuel Almeida Ltda, que vendia seus produtos para todas as cidades do interior, além de algumas tantas outras fora do estado. O rapaz negociou a força e o entusiasmo próprios da juventude com aquela empresa e, não tardou, angariou uma clientela de fazer inveja aos seus colegas de profissão, mesmo aos mais tarimbados, como bem se via no Aristides, com seus quase 60, sendo mais da metade no ofício.

        O jovem logo percebeu que sua aparência poderia lhe ser útil. Não que fosse tão belo, mas ganhava de braçadas dos demais, já carcomidos por elevadas quilometragens.  Tanto é que, quando atendia uma comerciante, as vendas eram bem acima do previsto. Até mesmo se o cliente era do sexo masculino, o gajo não fazia feio, ainda mais se o comerciante fosse casado, pois as esposas se encantavam por aquele sorriso de dentes alvos e alinhados. Dessa forma, elas acabavam convencendo o marido a comprar além do necessário, tamanha que era a competência do rapazola.

            Cheio de histórias por causa de tantas viagens, aqui vale abrir um parêntese e contar uma das mais conhecidas, que ainda pulula nas melhores casas de fofoca da região. É provável que um ponto aqui, outro ali e, quiçá, até mesmo algum acolá, tenha sido aumentado ou, pode ser, suprimido. Afinal, há reputações e reputações, que precisam ser preservadas ou, dependendo do caso, expostas com certa dose de maldade. 

                Antes que me esqueça, é bom lembrar que essa história se passou em agosto de 1958, quando o país ainda comemorava a conquista da Copa na Suécia. Nessa época, talvez por causa daquele ritmo frenético há pouco chegado dos Estados Unidos, ousados rapazes e moças se dividiam em imitar e se apaixonar por Elvis Presley. Danilo, apesar de alheio a tais eventos, não deixou de perceber que poderia conseguir alguns trocados vendendo bugigangas das mais variadas.

            Pois bem, esperto como ele só, Danilo comprou várias camisas do vitorioso escrete brasileiro. Vendeu centenas e mais centenas para crédulos torcedores, crentes que estavam adquirindo o uniforme vestido pelos craques do selecionado. Só do Pelé, o rapaz vendeu quase 200 camisas. 

            E lá estava o nosso vendedor com uma camisa 7 nas mãos. Gritava a plenos pulmões que aquele era o famoso manto usado por Garrincha na final. De tanta gente querente comprar aquela relíquia, Danilo decidiu promover um leilão ali mesmo na praça: "Quem dá mais? Quem dá mais?"

        Tudo corria muito bem. Danilo estava certo de que logo encheria ainda mais o alforje com notas graúdas, até que, por uma dessas distrações, ele acabou sendo descoberto por um cliente mais atento. 

        _ Meu rapaz, essa camisa é mesmo a que o Garrincha usou na Copa?

        _ Exatamente, meu senhor! O próprio Garrincha me entregou essa belezura. E ela ainda guarda o suor do nosso Anjo das Pernas Tortas!

        _ Estranho, pois, até onde me consta, o Garrincha não usou a 7, mas a 11.

        Não se sabe ao certo o que aconteceu em seguida. Há os que afirmam que Danilo levou uma baita surra da multidão. Outros, no entanto, dizem que ele conseguiu fugir daquela cidade graças às pernas ligeiras. 
    
    Também já ouvi outras versões sobre o desfecho desse causo. A que mais gosto é a que afirma que Danilo, cansado de correr de possíveis clientes insatisfeitos, acabou se enveredando para a política. Dizem até que chegou a prefeito de uma famosa cidade mineira localizada na Zona da Mata. Será?
  • Nota de esclarecimento: O conto "Danilo, o caixeiro-viajante" foi publicado por Notibras no dia 8/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/danilo-foge-de-clientes-e-da-drible-em-eleitor/
  • O conto "Danilo, o caixeiro-viajante" faz parte da Antologia de Contos - Mentirinha do Grupo Qub1tis, 2023. Por uma questão do regulamento dessa antologia, foi feita pequena alteração no último parágrafo do conto, que ficou assim: Também já ouvi outras versões sobre o desfecho desse causo. A que mais gosto é a que afirma que Danilo, cansado de correr de possíveis clientes insatisfeitos, acabou se enveredando para o garimpo. Dizem até que chegou a vender uma tonelada de ouro para suas vítimas, que, coitadas, compraram pirita. Será?



terça-feira, 7 de novembro de 2023

Estradas da vida

 

    Desde muito cedo, ganhei gosto por estradas. É que meu pai, cheio de ímpetos, não raro, me cutucava de madrugada e me falava: "Acorda, Edu! Que tal irmos para Cabo Frio?" Ainda sonolento e, provavelmente, com os olhos cheios de remela, apenas concordava com movimentos de cabeça. 

    E lá íamos para a aprazível cidade litorânea ou, então, para outro destino que meu pai decidisse de última hora. Quase sempre finalzinho da noite ou madrugada adentro. Meu pai me incutiu tal hábito, como a me mostrar que a solidão nas estradas nos faz pensar na vida e sentir que há muito mais coisas além de trabalho e contas para pagar.  

    Pois bem, eis que, nesses dias, resolvi fazer uma viagem entre Porto Alegre e Brasília. Meus companheiros nessa saga foram o meu velho parceiro Chengulo e suas netinhas, a Bebel e a Clarinha. Isso mesmo, entulhei o carro da minha esposa, a Dona Irene, de fraldas e seguimos viagem justamente numa madrugada. Pra que tanta fralda? São da Malulinha, minha pequenina filha, que, ainda muito nova para pegar a estrada, foi de avião com a minha mulher.

    Liguei o ar-condicionado no máximo, pois meus amigos, ao contrário de mim, são muito calorentos, o que os manteve dormindo por grande parte do percurso. E, a cada parada que fazíamos para esticar as pernas, eu percebia olhares curiosos das pessoas. Na certa, alguns deveriam pensar: "Que maluco viaja com três cachorros?"

    Depois de rodarmos mais de 1.300 quilômetros, meus buldogues e eu paramos num motel de beira de estrada em Porto Ferreira-SP. Estávamos cansados, especialmente o Chengulo e eu, que somos os mais vividos da trupe. O meu amigo foi se deitar e, não demorou, já era possível ouvir aquele ronco tão costumeiro aos meus ouvidos. 

    Tomei um banho bem quente e caí praticamente desfalecido na ampla cama, enquanto a Bebel e a Clarinha ainda exploravam aquele ambiente estranho. Não sei a que horas elas foram dormir, mas, já na manhã seguinte, as encontrei roncando sobre as minhas pernas. 

    Liguei na recepção e pedi café e nada mais. Aliás, café sem açúcar, pois de doce já basta a vida! Em seguida, tomei aquela ducha quente, paguei pela hospedagem e voltamos para a estrada, que já nos esperava com saudade.

    Chegamos a Brasília por volta das 16h, onde encontramos a Dona Irene e a Malulinha, que nos receberam com aquele sorriso tão acolhedor. A minha esposa, com quem já viajei por inúmeras estradas por este Brasil e até para o Uruguai, olhou para mim e disse: "Edu, queria ter vindo com vocês!" 

    Finalmente, olhei para o Chengulo, que, apesar de cansado, também me sorriu. Não sei se essa foi a nossa última viagem juntos. Se estamos velhos para tais estripulias? Talvez. Seja como for, enquanto escrevo esta crônica, ouço o ronco inconfundível do Chengulo. E, pela cara do meu companheiro para o que der e vier, estou certo de que logo, logo estaremos de volta à estrada.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Estradas da vida" foi publicada pelo Notibras no dia 7/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/diva-de-poa-para-brasilia-com-chengulo-e-as-netas/

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Eustáquio e o tempo

 

           Há momentos na infância que nos marcam como ferro em brasa no couro de gado. Cicatrizes tão profundas, que nem um fiozinho de cabelo se atreve a nascer sobre tamanha devastação. Não que esses instantes sejam de todo desagradáveis, já que também há aqueles que nos transportam para o passado e nos enchem de sorrisos bobos nos lábios, mesmo que já envelhecidos depois de tantas primaveras. 

        Eustáquio, no alto dos seus mais de 70, apesar de sempre ter se atrasado para o trabalho, agora, já aposentado, era pontual no seu encontro matinal com a praia, logo ali à frente, não mais que trezentos passos da sua quitinete em Copacabana. Atravessava quatro ruas e, antes que pisasse na areia, retirava o chinelo. 

            O primeiro contato dos pés com aqueles infinitos grãos era uma das sensações mais gostosas que esse tempo lhe trazia. Não que o velho tivesse uma vida ruim. Pelo contrário. Era um fanfarrão, desses capazes de passar o dia inteiro em confraternizações com amigos ou mesmo simples conhecidos do último verão.

            Já sem idade para levar um baldinho e uma pá para fazer castelos na areia, ele armou a cadeira e abriu o jornal. Entre uma notícia e outra, dava uma olhada no público ao redor. Alguns corajosos encaravam aquela água gelada, enquanto outros tentavam manter a bola no ar em eternos altinhos. Obviamente que velhos faziam caminhadas pela orla, assim como também se deitavam em cangas, algumas quase tão gastas como eles. 

           Pois lá estava o Eustáquio observando um menino, talvez com seus dois ou três anos, construindo castelos de areia. Diante de tal visão, o velho foi transportado para sua infância, quando também gostava de se fazer mestre de obras, mesmo não sabendo, naqueles idos, o que isso significava. 

       Eustáquio voltou os olhos para o jornal e, surpreso, descobriu que um velho conhecido, o Augusto, havia morrido. A viúva e familiares convidavam amigos e conhecidos para o velório, que ocorreria ainda naquele dia, logo ali no cemitério São João Batista. 

     O velho foi transportado novamente para o longínquo passado, quando ele e Augusto corriam por toda aquela orla em busca de tatuí. Ele voltou os olhos para o menino que brincava na areia. O tempo pode ser cruel, é verdade. Mas também é divertido quando se sabe sorrir. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Eustáquio e o tempo" foi publicado por Notibras no dia 4/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/anuncio-funebre-faz-renascer-construtor-de-castelos/