quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Taxa extra

  

    Taxa extra. Reunião de condomínio é ringue sem regras no escuro. Que até a mais elevada das almas perde as estribeiras, ninguém duvida.

    — Ninguém aguenta, Eleonora!

    — É o jeito, José. Você bem sabe que sou a última a querer taxa extra.

    — Última? Eleonora, me poupe!

    — Não precisa apelar pra ironia, Márcia. Fale na cara!

    — Hum! É a verdade!

    — A sua verdade, você quer dizer, né, Márcia?

    Ernesto, ao fundo da sala, tentou controlar a língua para não arrumar imbróglios particulares. Já bastavam os coletivos. Taxa extra. Ele pensou no que poderia cortar nas despesas. De cara, trocaria o café, uma marca popular. E nada de almoçar fora. Levaria marmita para o trabalho.

    — Então, meus amigos, o valor vai ser de duzentos e cinquenta e três reais.

    — Dividido em quantas prestações?

    — São dez parcelas de duzentos e cinquenta e três reais, Jorge.

    — Não vai dar.

    — O que não vai dar, Jorge?

    — Você sabe que vivo da aposentadoria, Eleonora?

    — Sorte a sua.

    — O quê? Tá zombando da minha cara?

    — E eu, Jorge, que nunca vou me aposentar? Como é que fico?

    Não teve conversa. A taxa extra foi imposta. 

    Ernesto foi um dos últimos a deixar o recinto. Muito burburinho para nada. Leite. Sim, o homem cortaria também o leite. Há muito não usava fraldas. Leite pra quê? Não era bebê.

    No elevador, Ernesto ouviu a indignação de Márcia e Lindaura. Vez ou outra, as moradoras encaravam o sujeito, talvez na esperança de incentivo. Nada! Nem mesmo uma mísera vogal.

    A porta do elevador se abriu. As mulheres saíram sem se despedir. E, antes que a caixa de transporte prosseguisse a viagem, Ernesto ouviu parte da conversa, que parecia se desenrolar pelo corredor.

    — A minha vontade era matar a Eleonora.

    — Márcia!

    — E não é?

    — Pois estou nessa contigo, amiga.

    O quê? Aquilo era sério? Ernesto pareceu estupefato. Que Eleonora era uma crápula, ele não carregava dúvidas. Que a síndica estava roubando o condomínio, bem, ele não tinha provas. Se bem que a falta de provas não o incentivava a colocar a mão no fogo por Eleonora. Mas assassinato? Aí, já era algo que extrapolava qualquer bom senso. 

    Abriu a porta do apartamento ainda atordoado pelo diálogo daquelas mulheres. Loucura. Ah, certamente palavras cuspidas da boca para fora. Será? Absurdo! Ou não?

    Ernesto pegou o resto de leite da geladeira. Mal deu para uma xícara. Esquentou e fez o derradeiro pingado até que a furtiva sorte lhe desse as caras novamente.  

    O homem puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha e acomodou o fatigado corpo. Duzentos e cinquenta e três reais. Que afronta! De onde iria tirar tamanha quantia do seu já minguado orçamento? Voltar a trabalhar era impossível. Com tantas dores instaladas em cada junta do corpo, acabaria internado. E os remédios? De onde tiraria dinheiro para pagar os remédios? 

    Quando sorveu o primeiro gole, tudo lhe pareceu tão óbvio. E por que não? Sim! Ele se juntaria a Márcia e Lindaura. Um plano. Eles só precisariam de um plano. Pensou, pensou, pensou até que a voz lhe saiu mais alta do que o planejado: 

    — O elevador!

    Ernesto tapou os lábios, arregalou os olhos e sorriu. O maldito elevador vivia dando problemas mesmo. Uma fenda entre o elevador e o piso, algo tão corriqueiro. E lá iria a pobre Eleonora beijar o fundo do poço. Gargalhou.

    Levantou-se, foi até a sala, pegou um livro de poesias na estante, A verdade nos seres, de Daniel Marchi. Esparramou-se no sofá e, entre gargalhadas abafadas, leu páginas espaçadas. Adormeceu.

    No dia seguinte, Ernesto despertou com o burburinho nos corredores. Vozes nervosas persistiam. Ele tentou ignorá-las até que a curiosidade o levou a abrir a porta. Lá estavam José, Ruth e Soraia ruminando palavras. Ernesto colocou metade do corpo para fora.

    — Ei, José, o que aconteceu? Por que estão tagarelando tão cedo?

    — A Eleonora, Ernesto.

    — E o que tem ela? 

    — Não soube?

    — Não soube o quê, José?

    — Ela foi encontrada no fosso do elevador. Pobre mulher, não resistiu.

    Ernesto foi tomado por um misto de culpa e dúvida. Será? Não, ele não teve qualquer coisa com aquilo. Mas e a Márcia e a Lindaura? Teriam aquelas duas roubado o seu pensamento? Não, não, não. Essas coisas não acontecem. Não mesmo! Será?

    Naquele mesmo dia, Ernesto encontrou as duas mulheres. Seus olhares se cruzaram. Nada foi dito, porém, os três sentiram que havia um acordo implícito. E o silêncio foi o caminho escolhido por todos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário