segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A garoupa

     

        Terça-feira era o dia sagrado das pescarias de Anibal e Nilson. A dupla se dirigiu até o Caminho dos Pescadores, localizado na pedra do Leme, quando o sol já não castigava tanto. Nessa terça-feira em particular, uma terça-feira de outubro, o som das cigarras acompanhou boa parte do passatempo dos dois velhos.

          Entre cocorocas e sargos, eis que surgiu uma bela garoupa no anzol de Nilson, o que fez arrancar alguns comentários exaltados dos presentes.

          _ Ganhou o dia, hein, Nilson! – Gilbert, um francês radicado no Brasil desde o final da Segunda Grande Guerra, foi o primeiro a parabenizá-lo pelo feito.

          _ Desse jeito não sobra mais peixe pra gente! – Celso, um velho pescador que morava no Méier, comentou em tom de brincadeira.

          _ Pois é, o meu amigo aqui é o maior pescador desta pedra! – Anibal emendou.

          _ Ih, olha lá a garoupa que o velho pegou! – um rapaz, que nem estava pescando, falou para a roda de amigos, todos na faixa dos 15, 16 anos.

          Diante de tais comentários, Nilson sorriu enquanto retirava o peixe do anzol. Contemplou, com certo ar de serviço cumprido, a pele escura da garoupa de não mais de 40 centímetros. Humilde, falou: "Pura sorte, pura sorte. Além do mais, prefiro um pampo, que é mais saboroso" – olhou mais uma vez o peixe que agonizava em suas mãos, devolveu-o ao mar. 

        Nilson não costumava fazer isso, mas o triste olhar daquela garoupa mexeu de certo modo com seus sentimentos. O gesto foi por puro impulso, pois, se parasse um segundo sequer para refletir, a janta já estaria garantida.

        As primeiras estrelas já despontavam no céu quando Nilson e Anibal resolveram se despedir da pescaria, que teve um saldo de três cocorocas, dois sargos, um sargento, uma garoupa devolvida ao mar e nenhum pampo.

O calçadão estava apinhado de gente correndo para cá e para lá, caminhando em vários ritmos, gente sentada nas mesinhas dos quiosques, gente em pé batendo papo, gente jogando futebol na areia, gente brincando de vôlei, gente simplesmente contemplando o mar ou, então, gente observando pessoas, possivelmente em busca de companhia para mais tarde ou, quem sabe, até para já. Anibal e Nilson, no entanto, passariam praticamente despercebidos, caso não fosse a tralha toda que carregavam.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A garoupa" foi publicado por Notibras no dia 20/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/historia-do-rio-e-a-garoupa-devolvida-ao-mar/

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