terça-feira, 20 de outubro de 2026

A pena impiedosa de Machado

         

    Lá estava Julião das Dores. Dizia-se escritor, mas a maioria, na surdina, o considerava a maior fraude literária. Um pária que se achava inovador, porém, na verdade, jamais alcançaria a coragem de Lima Barreto ou o reconhecimento de Machado de Assis.

          Desleixado com as palavras, era nítido o descaso que dava à própria aparência. Pente para quê, quando é no texto que o leitor se deve fiar? Se um desconhecido passasse por ele na rua, provável que lhe dispensasse algumas moedas. Indigente sim, senhor!

          Acordou, os olhos enevoados, passou a mão pela face. Remela seca como sua criatividade. Nada. Fixou o olhar no teto tentando encontrar ânimo, mas percebeu que a existência já estava desgastada como refrão tolo de antigo sucesso das rádios. Puro jabá!

          Cansado de escrever as mesmas tolices, Julião preparou a primeira xícara de café do dia. Foi até a sacada, observou a vida correndo nas ruas, teve ímpeto de pular. Primeiro andar, provável quebrar as pernas, alguns pontos na cabeça. Melhor não arriscar. Se ao menos tivesse alugado o apartamento 704...

          Voltou o olhar para o sofá carcomido, a estante de mogno, herança de família. Alguns volumes raros talvez valessem o custo de uma impressão inédita. Todavia, o que escrever, quando tudo parece ter sido escrito há tempos? Sentiu saudade do século XIX, apesar de ter nascido pouco antes de The Beatles se separarem. 

          A ironia bateu fundo no coração de Julião, que não foi capaz de conter o amargor das próprias palavras:

    — É, Julião, o sonho acabou quando a pena impiedosa de Machado desenhou Memórias Póstumas de Brás Cubas.

    Diante da cruel falta de perspectivas, desandou a procrastinar, algo no qual era mestre. Sacou um cigarro no maço sobre a mesa, riscou o fósforo na vã tentativa de iluminar furtivas ideias. Nada! Tragada após tragada, amassou a guimba no frio cinzeiro de vidro. Mais um, os pensamentos fugiram com a fumaça pela janela. E, antes de esmagar mais uma ponta de cigarro na sepultura, desabafou para si próprio:

    — Julião, não é fácil ser escritor!

    Almoçou o resto de macarrão ao molho de tédio do dia anterior. Bebeu o vinho barato, o único que cabia no seu bolso. Adormeceu no tapete que se fingia persa. Sonhou glórias e reconhecimentos. Finalmente, Julião das Dores era um renomado escritor. Aclamado pela crítica especializada, reconhecido no banco da praça pelos milhares de leitores. Milhões!

    Olhos cerrados, a realidade indiscreta teimou em abri-los. A testa franzida, a voz carregada de ressaca soou vazia pela sala:

    — É, Julião, ser escritor não é mesmo fácil!

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