Desleixado com as palavras,
era nítido o descaso que dava à própria aparência. Pente para quê, quando é no
texto que o leitor se deve fiar? Se um desconhecido passasse por ele na rua,
provável que lhe dispensasse algumas moedas. Indigente sim, senhor!
Acordou, os olhos enevoados,
passou a mão pela face. Remela seca como sua criatividade. Nada. Fixou o olhar
no teto tentando encontrar ânimo, mas percebeu que a existência já estava
desgastada como refrão tolo de antigo sucesso das rádios. Puro jabá!
Cansado de escrever as mesmas
tolices, Julião preparou a primeira xícara de café do dia. Foi até a sacada,
observou a vida correndo nas ruas, teve ímpeto de pular. Primeiro andar,
provável quebrar as pernas, alguns pontos na cabeça. Melhor não arriscar. Se ao
menos tivesse alugado o apartamento 704...
Voltou o olhar para o sofá
carcomido, a estante de mogno, herança de família. Alguns volumes raros talvez
valessem o custo de uma impressão inédita. Todavia, o que escrever, quando tudo
parece ter sido escrito há tempos? Sentiu saudade do século XIX, apesar de ter
nascido pouco antes de The Beatles se separarem.
A ironia bateu fundo no
coração de Julião, que não foi capaz de conter o amargor das próprias palavras:
— É, Julião, o sonho acabou quando a pena impiedosa de Machado desenhou Memórias
Póstumas de Brás Cubas.
Diante da cruel falta de perspectivas, desandou a procrastinar,
algo no qual era mestre. Sacou um cigarro no maço sobre a mesa, riscou o
fósforo na vã tentativa de iluminar furtivas ideias. Nada! Tragada após
tragada, amassou a guimba no frio cinzeiro de vidro. Mais um, os pensamentos fugiram
com a fumaça pela janela. E, antes de esmagar mais uma ponta de cigarro na
sepultura, desabafou para si próprio:
— Julião, não é fácil ser escritor!
Almoçou o resto de macarrão ao molho de tédio do dia anterior. Bebeu o
vinho barato, o único que cabia no seu bolso. Adormeceu no tapete que se fingia
persa. Sonhou glórias e reconhecimentos. Finalmente, Julião das Dores era um
renomado escritor. Aclamado pela crítica especializada, reconhecido no banco da
praça pelos milhares de leitores. Milhões!
Olhos cerrados, a realidade indiscreta teimou em abri-los. A testa
franzida, a voz carregada de ressaca soou vazia pela sala:
— É, Julião, ser escritor não é mesmo fácil!

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