Não que fosse mau funcionário,
certamente diria sua avó, que sempre o protegia. Mas também não se pode afirmar
que Tião se destacasse entre os demais. Talvez fosse simplesmente a falta de
sorte ou, então, o excesso de azar que perambulava pela vida daquele
homem.
Seja como for, a coisa não
andava muito boa para o lado do Tião, que vivia deveras requisitado pelos
credores do bairro. A situação ficou ainda mais drástica quando a Doralice
mandou o namorado, o Elismando, cobrar o caloteiro. Não que o Tião fosse
covarde, mas evitar encarar o Elismando era questão de sobrevivência. É que o
amado da Doralice era o que se pode chamar de armário dois por
dois.
Tião fugiu o quanto pôde. Mandou
dizer que na semana seguinte pagava o que devia, anunciou aos quatro cantos que
a mãe estava acamada, mesmo que esta esbanjasse saúde nos bailes do clube da
esquina, arranjou uma bengala e um par de óculos escuros e se fez de cego por
quase um mês. As mentiras eram tantas, que acabou sendo pego quando teve a
brilhante ideia de engessar a perna. Engessou a direita num dia, mas não
aguentou a coceira provocada pelo gesso, que acabou arrancando aquilo tudo. Não
tardou, engessou novamente a perna, só que a esquerda.
Elismando ficou tão furioso com
as artimanhas do Tião, que foi tomar satisfação. Chegou esbaforido na casa do
devedor. Tocou a campainha, mas esta estava quebrada. Tentou manter a calma e,
então, deu três leves toques na porta. Nada! Cheio de cólera, esmurrou a porta,
que quase veio ao chão.
Finalmente, uma voz bem fraca
veio lá de dentro da casa. Era o Tião, que parecia doente. Elismando,
todavia, estava decidido a não cair em mais uma mentira do pilantra. Percebeu
que a porta estava destrancada e, sem pedir licença, entrou.
O brutamontes queria porque
queria esmurrar a face deslavada do Tião. Procura daqui, procura dali, ele
acabou encontrando-o deitado na cama. Estava quase disposto a arrancá-lo
daquele berço esplêndido, quando percebeu um pratinho nas mãos trêmulas do
gajo. Alguns grãos de ração, que eram levados, um a um, para a boca tristonha
do Tião. Elismando, talvez envergonhado por ir cobrar a dívida daquele pobre
coitado, quis saber o porquê de ele estar comendo comida de cachorro. E, diante
da resposta que recebeu, até ofereceu mais dinheiro para o caloteiro.
— Meu querido, na guerra, urubu é frango.
- Nota de esclarecimento: O conto "Tião, o caloteiro" foi publicado por Notibras no dia 12/11/2023.
- https://www.notibras.com/site/elismando-irado-sente-pena-do-tiao-moribundo/
- O conto "Tião, o caloteiro" faz parte da Antologia de Contos - Mentirinha do Grupo Qub1tis, 2023.
- O conto "Tião, o caloteiro" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 11/9/2026.
- https://www.notibras.com/site/tiao-o-caloteiro/


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