_ Dois chopes?
_ Dois chopes, por favor – concordou Nilson.
_ E como aperitivo? – mais uma investida do trabalhador, camisa branca e calça preta, lutando por seu ganha-pão.
_ Por enquanto é só isso, meu amigo – respondeu Nilson do alto da sua longeva educação. Mas pode deixar o cardápio, por favor.
Os pingos, cada vez mais grossos, pareciam jamais ter a pretensão de deixar de molhar a terra, ou melhor, o asfalto de Copacabana. Dava para ver os respingos logo após o encontro da água com a rua. Que espetáculo! Mas que espetáculo! Espetáculo mais que fantástico para dois velhos sentados com tulipas praticamente vazias após alguns goles.
_ Vamos acabar gripados – profetizou Anibal.
_ Provavelmente – concordou o amigo.
_ Talvez até peguemos uma baita pneumonia! – Anibal foi mais longe em sua profecia, mas sua voz carregava um certo tom de deboche.
Nilson, que estava sorvendo o último gole, baixou lentamente a tulipa, encarou o amigo e, percebendo o caçoar, sorriu.
_ Pois é, provavelmente até mesmo morramos algum dia. Quem sabe por esses dias?! É certo que muita gente já deve ter rezado uma missa pra mim.
_ ... – Anibal somente encarou o amigo.
_ Chefe, por favor, mais dois chopes e uma porção de fritas! – Nilson falou em um tom levemente acima do usual, pois o barulho da chuva competia com a sua voz.
Os velhos ficaram no botequim até sentirem o quão suas pernas conseguiriam suportar o peso de tantas tulipas. Depois decidiram prolongar um pouco mais a conferência, mesmo porque os dois se lembraram que há muito deixaram a necessidade de levantar cedo para trabalhar no dia seguinte. Simplesmente, também, não precisariam de suas pernas naquele dia para retornarem aos seus lares. Bastaria um mísero dedo para chamar um táxi.
- Nota de esclarecimento: O conto "Um mísero dedo" foi publicado por Notibras no dia 19/11/2023.
- https://www.notibras.com/site/velhos-amigos-trocam-profecias-durante-chope/
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