terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Marcio, Helena, Lucas e a água

   

   Dizem que essa história aconteceu em Porto Alegre. Na verdade, eu até sei os nomes dos personagens: Lucas, Marcio e a sua filha, a pequena Helena, que não é a de Troia, mas bem que poderia ser, tamanha a sua capacidade de captar os olhares de todos. Magnetismo puro, apesar dos seus oito anos, quase nove.

    Pois bem, o Marcio havia matriculado a menina em uma aula de natação. E lá estavam os dois saltitando pelas largas calçadas da capital gaúcha, quando, de repente, surgiu o Lucas. De tão amigo do Marcio, o Lucas fez questão de acompanhá-lo nessa missão importantíssima para o futuro da natação nacional. Afinal, vai que a Helena se torne uma prodígio nesse esporte e ganhe várias medalhas nas próximas olimpíadas. 

     Durante o trajeto, Helena, tagarela como ela só, disse que sua avó materna era judia. Lucas sorriu e falou que ele era judeu. Até falou que o seu sobrenome era Hoffmann. Pronto! Formou-se um laço quase instantâneo por conta dos elos de uma história marcada por perseguições. Tanto é que o Marcio, que é Petracco, se sentiu um pouco deslocado da conversa. Todavia, curioso como ele só, quis saber como aquele bate-papo iria terminar. 

     A conversa sobre o povo judeu prosseguiu até pouco depois do trio entrar no clube, onde a pequena Helena iria seguir os seus firmes passos até o ponto mais alto nos futuros jogos olímpicos. Isso se a professora, uma mulher enorme, cabelos loiros, olhos azuis mais azuis até que os azulejos da piscina, não começasse a gritar ordens e mais ordens. Só faltou exigir que todos os alunos lhe fizessem continência.

     A aula prosseguiu, a pequena Helena parecia resistir a qualquer impropério da professora de natação. Já o Marcio queria porque queria arrancar a sua garotinha das garras daquela enorme mulher, que parecia uma caricatura de militar de pantufas. Todavia, foi contido pelo Lucas. Ademais, a professora era bem maior do que o Marcio. Perigava ele tomar uma surra.

   Terminada a aula, Helena foi direto para o vestiário a fim de se trocar. O Marcio, todo orgulhoso, imaginou que a sua filha era durona, pois havia resistido a tanta brutalidade. No entanto, assim que a menina saiu, ele percebeu que estava enganado. A pequena Helena surgiu com o rosto mais choroso que uma menina de quase nove anos poderia ter. Os dois se abraçaram e choraram juntos.

    O Marcio disse para a filha não se preocupar, pois ela não precisaria ser uma campeã de natação. Ele falou para a Helena que ela já sabia nadar muito bem cachorrinho. Aliás, esse estilo de nado ela havia aprendido muito mais com o Coco e o Cacau, que são os dois cachorros do Marcio, do que com ele. É que o Marcio não é o que podemos chamar de grande adepto das braçadas em águas com mais de 30 centímetros de profundidade. O lance dele é mesmo a música. 

    O Lucas ficou tão emocionado com a situação, que foi abraçar aqueles dois. Nisso, a Helena fez um bico e disse que estava com sede. O Lucas, então, disse que iria pagar uma água para a menina, que sorriu aquele sorriso mais largo do que boca de sapo. 

    Já no caminho de volta, Lucas se despediu do amigo e da menina. O Marcio e a Helena continuaram a caminhada. Nisso, ele para e pergunta para a filha se ela está melhor. A menina, ainda com a garrafa de água nas mãos, responde: "Estou ótima! Eu só queria ver se eu conseguia fazer o Lucas me pagar uma água".

  • Nota de esclarecimento: O conto "Marcio, Helena, Lucas e a água" foi publicado por Notibras no dia 18/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/cara-de-choro-faz-judeu-abrir-carteira-e-pagar-agua/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Santana e o assalto


   A correria em frente à delegacia era tamanha, que até o Santana resolveu tirar o seu traseiro gordo da cadeira e averiguar o que estava acontecendo àquela hora da manhã. Era tanta gritaria, que os policiais demoraram algum tempo para entender que havia um grupo de bandidos assaltando as lojas do quarteirão. 

    Corre daqui, corre dali, os policiais foram entrando aos trancos e barrancos nas viaturas. O Santana, de tão moroso, quase ficou para trás, não fosse pelos gritos alucinados do delegado Wander: "Corre, Santana!!!"

    O Santana, ainda mais esbaforido do que de costume, entrou no banco de trás da viatura. Ao se sentar, espremeu os outros dois policiais que estavam ao lado, tamanho o espaço que ocupou no assento. Allan Belos Cabelos pisou fundo no acelerador, enquanto o delegado acionou a sirene. E lá foi aquele carro preto da polícia cometendo todas as infrações de trânsito possíveis. 

    As viaturas seguiram em comboio até o local onde estariam os criminosos. Os berros desesperados dos comerciantes quase abafavam o som agudo que saía das sirenes. Enquanto um grupo de policiais entrava em uma loja, outro tentava a sorte em outra. Nessa altura do campeonato, ninguém sabia onde estariam os bandidos. 

    Seu Joaquim, dono da padaria, jurava que havia visto pelo menos dois, enquanto Celeste, a manicure, dizia que todos estavam fortemente armados. Todavia, ninguém conseguia descrever exatamente como eram os criminosos. Enquanto alguns afirmavam que eram todos magros, outros diziam que pelo menos dois gordinhos faziam parte do bando. 

   Nessas idas e vindas, eis que o Santana resolveu entrar sozinho em uma loja de roupas. Não que fosse corajoso. Pelo contrário, tinha medo até de baratas. No entanto, percebeu que ali seria um local improvável para que os assaltantes pudessem estar. 

    Foi até o fundo do enorme estabelecimento, quando sentiu vontade de usar o banheiro. Pois é, os efeitos do bolo de chocolate na noite anterior estavam sendo cobrados com juros e correção monetária. Assim que avistou a porta do único local em que desejava estar, foi logo desabotoando a calça.

   Quase não deu tempo para se sentar, finalmente ouviu, aliviado, o som das suas necessidades fisiológicas cumprimentando a água no fundo do vaso sanitário. Alguns respingos bateram no traseiro do Santana, mas ele não se incomodou. Ficou sentado por mais algum tempo, já que não queria que um resquício lhe fizesse borrar os fundilhos da calça. 

   Depois de longos minutos de espera, resolveu se limpar. Pegou um bom pedaço de papel higiênico e passou na bunda. Já estava se vestindo, quando ouviu um barulho. Logo sentiu vontade de se sentar novamente no vaso, mas a tremedeira nas suas pernas o impediu. Pegou a sua arma, que havia deixado ali no chão do banheiro e, olhando pela brecha da porta, logo notou algumas roupas balançando nos cabides adiante. Não teve dúvida, apertou o gatilho e atirou não sei quantas vezes. 

  Não demorou muito, a loja se encheu de policiais e curiosos. O Santana, diante de tanta plateia, tomou coragem e saiu do banheiro gritando: "Peguei os vagabundos!" O delegado Wander foi o primeiro a ir até o Santana, que lhe apontou onde estariam os bandidos. 

    Allan Belos Cabelos foi até o local. Fitou o delegado, que o questionou.

    — E aí, o Santana acertou algum dos bandidos?

    — Nenhum vestígio de sangue. Mas ele matou aqueles três manequins ali.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Flora, a menina sardenta


    Lucinda, mal pisou no chão frio de vermelhão, se arrependeu de ter colocado o despertador para tão cedo. A franja caída protegia os olhos da luminosidade, que atravessava sem piedade a janela de vidro do seu quarto. Olhou de relance e, assustada, percebeu um vulto andando apressado pelo jardim. Tentou, mas não conseguiu vislumbrar o rosto.

    Intrigada, calçou o chinelo de tricô e correu, mas não encontrou viva alma no local. Apenas o amplo gramado, onde se destacavam uma mangueira e um enorme abacateiro, além das roseiras e hortênsias. Voltou os olhos para o alpendre, onde costumava ficar Mel, a cadela de cor trigueira, morta há não mais de um ano. Talvez impressionada, imaginou ter ouvido o último uivo de lamúria da cachorra, que havia sido picada por uma cascavel. 

    Tornou a olhar para o amplo gramado. Balançou a cabeça de um lado para o outro, até que desistiu e entrou. Foi direto para a cozinha, onde já se encontrava Flora, tão ruiva e sardenta como uma criança de seis anos pode ser. A menina se virou e abriu um amplo sorriso ao ver a mãe. As duas se abraçaram. Em seguida, Lucinda preparou o café da manhã. 

    Flora parecia adorar cada tipo de biscoito que a mãe lhe preparava. A geleia era tão generosamente espalhada pelo pão quentinho,  que escorria sem cerimônia pelos cantos. As faces rosadas da pirralha ficavam lambuzadas de felicidade. 

    Da cozinha, passavam para a sala, onde Flora tentava aprender cada ponto de crochê. De tão esperta que era, logo começou a fazer amplas colchas, que atraíam fregueses vindos de bem longe até o sítio, que ficava grudado ao pé da serra. Horas e mais horas, até que a luz do dia se findava por completo, obrigando Lucinda a acender as lamparinas. Não tardava, as duas adormeciam abraçadas.

   Na manhã seguinte, a rotina prosseguia. Lucinda, o jardim, Flora, o café da manhã, as colchas, lembranças cada vez mais distantes da cadela Mel.  A ciranda rodava como na última volta, repleta de uma nota só. Até que, certa manhã, quando as duas ainda estavam fazendo o dejejum na cozinha, foram despertadas daquele transe de felicidade por um incessante bater de palmas vindo da porteira.

    Lucinda foi até o alpendre, de onde pode avistar um jovem casal, que parecia perdido. Pelo menos ela nunca havia visto aqueles dois, que logo se apresentaram. Eram da cidade e estavam fazendo trilha pela região. Pediram um pouco de água, Lucinda os convidou para entrar. 

    Já na cozinha, foram servidos pela anfitriã, que os apresentou à filha. O casal olhou para a cadeira, onde Flora costumava se sentar. A menina lhes sorriu. Os jovens beberam mais que depressa a água, agradeceram pela hospitalidade e se afastaram até quase a porteira. Ao se virarem para se despedir pela última vez, avistaram um pequeno monte, de onde aparecia uma lápide. Nela estava escrito: "Saudade eterna da minha amada Flora".

  • Nota de esclarecimento: o conto "Flora, a menina sardenta" foi publicado no Notibras no dia 14/02/2023. Por solicitação da direção do Notibras, a história sofreu leve alteração para se passar no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/flora-a-menina-sardenta-que-voltava-e-tricotava/
  • O conto "Flora, a menina sardenta" consta da Coletânea de Contos de Terror 2023 da editora Persona. 
  • O conto "Flora, a menina sardenta" foi  publicado no Café Literário do Notibras no dia 1º/12/2025.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Frederico, Hans e o charque

          Sempre acordava com calafrios, que poderiam ser facilmente confundidos com um dos sintomas mais característicos da malária. Todavia, era tão gaúcho, que nem havia saído do Rio Grande do Sul. Se bem que, por uma ou duas ocasiões, botara as galochas na fronteira com o Uruguai. 

          Frederico Fischer era casado, mas a esposa e os filhos haviam se mudado há tempos para Porto Alegre, de onde nunca mais tiveram disposição para nem sequer uma visita ao longínquo rincão. Ele, por sua vez, preferia a solidão e, por isso, não se lembrava da última vez que tentou pegar o ônibus para a capital. Nunca foi. Preferia o ambiente rural da sua pequena estância.

          Aqueles poucos mais de 50 anos pareciam começar a pesar nos largos ombros de Frederico. Com a enxada nas mãos calejadas, ele cambaleou para o lado e deixou o enorme corpo avermelhado pelo sol tombar. Caiu de bunda, quase ao mesmo tempo em que apertou seus olhos azuis. Tão azuis, que alguém poderia duvidar que eram reais. 

          Um redemoinho levantou poeira bem na fuça de Frederico, que não se espantou. Ele já havia passado por isso algumas vezes. No entanto, todas elas aconteceram quando ele ainda era um menino gorducho que ficava assombrado com as histórias contadas pelo avô. Histórias sobre as trincheiras da Grande Guerra. Corpos mutilados em meio a tanta lama. A fome fazia os homens lutarem contra os ratos por um naco de carne, mesmo que essa carne fosse a de um companheiro abatido pelo fogo inimigo. 

          Despertado do seu devaneio, Frederico se levantou. Estapeou a calça para expulsar a poeira. Rumou para a varanda da casa. Despejou água fervente sobre a cuia, sentou-se na cadeira de balanço, degustou o chimarrão. Pensou no que faria no resto daquela tarde. Nada lhe veio à cabeça, a não ser a saudade da família. 

          O pensamento de Frederico, no entanto, foi interrompido pela batida suave do cavalo que se aproximava, carregando no lombo um vizinho, o Hans. Tão alemão quanto Frederico, Hans era pouca coisa mais alto.

          Cumprimentaram-se quase em silêncio, dividiram a bebida gaúcha. O sol já havia se posto, quando Frederico principiou a conversa.

          — Sinto falta da Frida e dos guris.

          — Acontece. Fez o charque?

          — Tá ali.

          Hans se levantou, cortou um bom pedaço da carne, fatiou-a na travessa de madeira sobre a mesa da cozinha. Voltou para a varanda e a ofereceu ao anfitrião. Mastigaram, devoraram tudo com tanto gosto, que pareciam animais famintos. Adormeceram ali mesmo, apesar da previsão de geada. 

          Frederico foi o primeiro a acordar. Encolhido de frio, passou pela cozinha sem notar as várias peças de carnes penduradas em ganchos. Foi até o quarto, pegou dois cobertores, um para ele e outro pro amigo. Entretanto, passando novamente pela cozinha, ficou estarrecido. Diante dos seus olhos estavam pendurados os corpos desmembrados da sua mulher e dos seus filhos.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Frederico, Hans e o charque" foi publicado pelo Notibras no dia 6/7/2023. A pedido da redação do jornal, foi feita uma pequena modificação para que a história fosse contada no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/frederico-hans-corpos-e-charque-com-chimarrao/
  • O conto "Frederico, Hans e o charque" faz parte da Antologia Sexta-feira 13 - parte 2, da editora Obook.
  • O conto "Frederico, Hans e o charque" faz parte da "Antologia de contos - NO RASTRO DO MAL", 2024, da editora Tenha Livros. 


  • O conto "Frederico, Hans e o charque" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 2/12/2025.

O beco

   Meninas e meninos, todos com não mais de dez anos, corriam de um lado para outro naquele beco mal iluminado. Não raro, alguns ratos pareciam querer entrar na brincadeira, tamanha a euforia da molecada. As moscas, no entanto, demonstravam maior interesse em sobrevoar as caçambas de lixo, que se amontoavam exalando um cheiro horrível. 

    As paredes ao redor eram cobertas por tintas e mais tintas de grafites esquecidos pelos olhares dos que por ali haviam passado. Casas praticamente abandonadas circundavam aquele beco. Todas com as mesmas cores, como se combinassem até as falhas rudemente encobertas por um reboco sem pintura, tijolos que se sobressaíam como espinhos que machucam a carne. 

    Os poucos moradores eram os esquecidos daquela cidade, que cada vez mais havia crescido para o lado oposto. Sim, o lado oposto! O lado onde tudo parecia florescer, a despeito da miséria que ficava cada vez mais para trás. Todas as mazelas cada vez mais incrustadas naquele beco. 

     Entretanto, aquelas crianças pareciam não se importar com a própria situação de penúria. A gritaria chegava a ser ensurdecedora. Seja como for, os raros transeuntes não demonstravam qualquer interesse naqueles pirralhos. 

    A manhã passou como um sopro. Ninguém queria deixar de participar do pega-pega, do pique-esconde, da queimada. As brincadeiras se sucediam, se sobrepunham, se misturavam como se tudo fosse uma coisa só. Todas aquelas criaturas miúdas sorriam seus sorrisos infantis, algumas sem os dentões da frente, que há pouco haviam caído. 

     Logo chegou a tarde, que correu ligeira como aquelas pernas curtas, que cismavam em permanecer naquele beco imundo. O sol a pino fez os ratos desistirem de acompanhar tamanha balbúrdia, que parecia não ter fim. Cada moleque tentava gritar mais algo que o outro, como se disputassem a atenção de todos os presentes.     

    Aos primeiros sinais da noite, os poucos moradores do local começaram a retornar para os seus paupérrimos lares. As horas se adiantaram, enquanto o sono começou a tomar aqueles seres em suas casas. E foi o que aconteceu, até que todos os ocupantes adormecessem em suas camas puídas.  Já no beco, as crianças ainda guardavam energia para várias horas.

       A madrugada veio e, com ela, o ranger das rodas enferrujadas de uma velha carroça, puxada por um cambaleante cavalo. O animal arfava, enquanto era chicoteado por um homem de chapéu de palha. E antes que esse ser repugnante pudesse perceber a movimentação no beco, todas as crianças correram para trás de uma daquelas enormes lixeiras.

     O homem parou a carroça bem perto de uma das caçambas. Observou para todos os cantos. Nada! Nem uma alma viva! Ele soltou o chicote e desceu da carroça. Era mais alto do que se supunha, apesar das costas arqueadas. O rosto encovado talvez fossem marcas de uma vida sofrida. 

      Abriu a enorme tampa do contêiner de lixo. Deu mais uma olhada ao redor, em seguida se dirigiu até a traseira da carroça, arriou a tampa, puxou um saco encardido. Com um pouco de esforço, o colocou sobre o ombro direito. Aproximou-se o máximo possível e, então, deixou que o volume caísse direto na caçamba. Um som surdo se fez notar. Novo olhar ao redor. Ninguém! Nenhuma alma perdida.

    Fechou a tampa, subiu na carroça, pegou o chicote. O cavalo, talvez percebendo o que lhe iria acontecer, adiantou o passo e logo a carroça desapareceu daquele beco escuro. O silêncio permaneceu naquele local, pois as crianças não se atreviam nem a respirar, tamanho o medo que lhes tomou por completo.

    Alguns minutos depois, no entanto, um dos miúdos saiu detrás da lixeira. Não que fosse o mais corajoso, mas era o que possuía o maior sentimento de curiosidade.  Um a um foram ao seu encalço, até que chegaram à outra caçamba de lixo, justamente aquela onde o homem havia jogado o tal saco encardido. 

    Com certo esforço, conseguiram suspender a tampa. Abriram o saco e, então, perceberam que ali havia o corpo de uma menina. Mas não era apenas isso que estava naquela enorme caixa de metal enferrujada. Outros corpos jaziam ali. As crianças, olhos arregalados, se reconheceram, uma a uma, naqueles cadáveres em avançado estado de decomposição.

  • Nota de esclarecimento: o conto "O beco" foi publicado pelo Notibras no dia 22/1/2023. A pedido da direção do Notibras, essa história sofreu uma leve alteração para que se passasse no Distrito Federal. 
  • https://www.notibras.com/site/futuro-antecipado-das-nossas-criancas-sem-teto/
  • "O beco" foi o primeiro conto de terror publicado pelo Blog do menino Dudu. 
  • A ideia de escrever um conto de terror surgiu de uma conversa com a Dona Irene, que adora o gênero. 
  • "O beco" é o conto de terror favorito da Dona Irene. 
  • "O beco" faz parte da antologia "Noites de horror" da editora Tenha Livros, 2023.
  •  https://www.notibras.com/site/o-beco-da-a-eduardo-martinez-mais-um-premio/


  • "O beco" faz parte da Ficção Barata, da terceira edição da revista Porão do Terror.
  • "O beco" faz parte da antologia "Sussurros da Noite" da editora Arame Farpado, 2024.
  • "O beco" faz parte antologia "Umbral", 2024, da Editora Mhajulla.




  • O conto "O beco" faz parte da Antologia "Escabroso" do Grupo Editorial Triumphus, 2024.
  • O conto "O beco" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 27/11/2025.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Ele está de volta!!!

Foto de Ricardo Stuckert

   O Brasil tem, finalmente, um Presidente da República! Isso depois de mais de seis anos após o covarde golpe contra a Presidenta Dilma, bem como os últimos quatro nefastos anos. Pois é, o Lula voltou! O Brasil voltou! 

    No entanto, ainda ouço o mimimi de alguns conhecidos, que cismam nas asneiras de que estamos a caminho de nos tornar uma Venezuela. Gente tola, que não consegue enxergar a própria hipocrisia, já que sofreram tanto quanto boa parte dos brasileiros nesses tempos catastróficos, quando possuir uma pistola valia mais que ler um livro. 

     Perdemos amigos, perdemos parentes, perdemos tanta gente por conta de um governo genocida, que não há um só brasileiro que não tenha sentido com a partida de um ente querido. Viramos chacota internacional. Deixamos de ser o país do futebol, o país da alegria, o país do futuro, para nos tornarmos o antro do retrocesso, graças a um plano macabro que teve início com a prisão política do Lula, e se completou com a eleição de um capacho da extrema direita. Um capacho!!! Sim, um capacho que fugiu como um covarde, assim como todo o gado, que precisa de outros da sua laia para se sentir ainda mais gado. 

   Ontem, dia 01/01/2023, entretanto, o Brasil voltou à normalidade. O trabalho será árduo para recuperar um campo devastado pelo fascismo institucional. Todavia, temos um Lula ainda melhor, que soube envelhecer como os melhores vinhos. 

     Quanto à manada que ainda insiste em acreditar nas tolices propagadas nos últimos anos, eis que me lembrei de uma sábia frase da minha amada Dona Irene: "É muita prosopopeia flácida para acalentar bovinos". 

domingo, 1 de janeiro de 2023

A Alegria tomou posse!!!

   Acordamos mais cedo do que o costume, tomamos café e, empolgados como crianças diante de uma praia, rumamos para o grande evento no primeiro dia do ano de 2023, tão esperado por todos aqueles que lutaram contra o fascismo, que rondou o Brasil nos últimos anos. Pois é, a Dona Irene e eu não poderíamos deixar de estar em Brasília na posse do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

   Deixamos o carro em uma quadra próxima à Esplanada dos Ministérios e, então, logo avistamos milhares de pessoas formando uma enorme fila logo ali no Eixão Norte. Por coincidência, as pessoas próximas eram de Porto Alegre. Trocamos confidências com os nossos novos amigos, inclusive que estávamos vendo Brasília com outros olhos, pois nunca havíamos visto tantos petistas reunidas por lá. É que o Distrito Federal, apesar de não ser um grande colégio eleitoral, possui uma enormidade de pessoas que cismam em votar na direita, mesmo que isso nada lhes traga de bom. 

    Mas deixemos de lado esse complexo de pobre de direita de boa parte dos candangos e voltemos ao grande evento do dia, mesmo porque a fila começou a andar cada vez mais rápido. E lá fomos nós seguindo aquela multidão esperançosa de que o país havia virado a página do descaso e crueldade com sua população, especialmente a mais carente. 

     Chegamos diante dos palcos armados para a apresentação de inúmeros artistas. Gostamos de todos!!! E, para a nossa surpresa e alegria, lá estava a fantástica cantora Alessandra Terribili, da qual somos fãs de carteirinha há tempos. Ela simplesmente nos embalou com "Maria, Maria", do Milton Nascimento. A Alessandra, por si só, conseguiu fazer com que a nossa viagem até Brasília valesse muito a pena. Mas ainda queríamos mais. Aliás, muito mais!!!

    Assim que acabou o show, fomos nos espremer na cerca do lado direito da Esplanada, por onde sabíamos que o Lula desfilaria em carro aberto. Ficamos em pé por mais de uma hora, o sol a pino. No entanto, ao invés de lamentarmos, cantávamos músicas com a multidão, fazíamos o "L", sorríamos, nos abraçávamos, nos beijávamos. 

   A certo momento, a multidão ficou alvoroçada! Era certeza de que o Lula estava próximo. E estava mesmo! Em pé no Rolls-Royce presidencial, onde também estavam a Janja, a Lu e o Alckimin, o Lula acenava para todos aqueles indivíduos que gritavam seu nome. 

    A nossa viagem estava completa! Conseguimos ver o Presidente Lula a poucos metros. Que homem incrível!!! Que história de vida fantástica!!! Que líder!!! Que estadista!!! Não sei se este texto será lido pelas futuras gerações, mas, com certeza, a volta do Lula à Presidência da República já entrou para a história não só do Brasil, mas do mundo. 

     

sábado, 31 de dezembro de 2022

Carmen, a varredora

    Carmen varreu tanto chão na vida, que não seria exagero afirmar que toda poeira que ela tinha retirado das casas por onde havia passado, caso fosse possível juntá-la, daria para construir um outro Pão de Açúcar. E lá estava a dita cuja carregando aqueles calos nas mãos, o suor escorrendo da testa, quando finalmente catou o último pó do dia. 

   Nem sentiu alívio, pois sabia que a rotina continuaria no dia seguinte, fosse segunda, terça, sábado, domingo ou qualquer feriado. Não dava para sonhar com o luxo de se espreguiçar numa rede suspensa por dois coqueiros em uma praia de areia macia. Definitivamente não! Pelo menos não naquela vida miserável que se arrastava há anos.

   Já na calçada, caminhava grudada às suas varizes que, de tão grossas, poderiam ser dissecadas facilmente por um médico em uma futura necropsia. Nem sabia se sentia dor. Devia estar acostumada ou, então, nem se lembrava dessa sensação de vida.

  Tentou pegar o primeiro ônibus, mas, de tão cheio, as portas nem se fechavam, como se fossem um gorducho tentando, inutilmente, fechar o zíper depois de uma feijoada. Tarimbada, decidiu aguardar pelo próximo, que chegou quase duas horas depois. E, apesar do cansaço da longa espera, pareceu que havia valido a pena. O caixote veio praticamente vazio. Carmen poderia se sentar e tirar um cochilo até perto de casa.

   Acomodou-se em uma das cadeiras mais ao fundo. Esparramou-se, já que não havia viva alma no assento ao lado. Adormeceu como há muito não o fazia. Tudo parecia como num sonho bem sonhado, desses que não queremos despertar. Todavia, não demorou muito, Carmen começou a sentir os solavancos do ônibus. 

    A suspensão, de tão gasta, parecia não suportar nem mesmo o menor defeito da pista. Mal saía de um tremelique, o coletivo começava outro, numa infinidade de convulsões. Revoltada, Carmen não se conteve e gritou: "Ô, motorista, eu paguei a passagem de ônibus, não foi a entrada pro baile!" 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Carmen, a varredora" foi publicada pelo Notibras no dia 17/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/solavanco-de-onibus-transporta-para-baile-funk/

Elvis em Porto Alegre


  Lá estava eu na agência Central dos Correios, em Porto Alegre, onde havia ido buscar uma correspondência enviada pelo meu tio. De lá, teria que ir até o cartório da 4ª Zona, que fica bem próximo ao Brique da Redenção. 

    Saquei o aparelho celular do bolso e chamei um Uber. Enquanto isso, fiquei olhando o movimento ao meu redor e, então, me deparei com um enorme outdoor. Nele havia uma propaganda do filme "Elvis", estrelado pelo ator Austin Butler. 

   Olhei por alguns instantes aquele cartaz e, em seguida, volto os olhos para a tela do meu celular. Tomei um susto! Fiquei sem saber o que significava aquilo, até que me dei conta do que estava acontecendo: o motorista se chamava Elvis.

    O Uber chegou, entrei e, como de costume, puxei conversa com o motorista. Enquanto isso, fiquei imaginando uma maneira de como poderia passar aquilo tudo pro papel, pois era uma das situações mais hilárias que já havia passado. 

    Seja como for, deixei essa história de lado, até que a contei para o Marcio Petracco quando o conheci no cachorródromo do Tesourinha. É que ele deu o desfecho que eu tanto procurava para o texto. 
    
_ Que susto, Marcio! 

_ Pois é, Dudu, sempre ouvi que o Elvis não morreu, mas não sabia que ele também estava a caminho.
  • Nota de esclarecimento: A crônica "Elvis em Porto Alegre" foi publicada pelo Notibras no dia 25/07/2023. Por uma solicitação do jornal, foi feita uma pequena alteração no texto original para que Brasília entrasse na história.
  • https://www.notibras.com/site/elvis-em-porto-alegre-so-faltou-usar-bombacha/

 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Gratidão, respeito e Resistência


   Foram 580 dias de vigília diante da sede da Polícia Federal em Curitiba, uma verdadeira prova de resistência. Enquanto o preso político Luiz Inácio Lula da Silva cumpria sua pena imposta por um emaranhado de artimanhas maquiavelicamente arquitetadas pela tal República de Curitiba, milhares de pessoas dividiam espaço com uma personagem no mínimo curiosa: uma vira-lata de pelos arrepiados e olhos tão meigos e visionários.    

   Resistência! Foi justamente esse o nome que a Janja escolheu para a tal simpática cadelinha. Não demorou muito, a então namorada do Lula a abrigou em seu lar, onde também já vivia outra vira-lata, a doce Paris. 

   Resistência de milhões de brasileiros maltratados, humilhados, vítimas de um governo que flertou com o fascismo durante quatro cruéis anos. Aos sobreviventes, ares de esperança começaram a soprar na noite do dia 30/10/2022 com a confirmação do resultado das eleições presidenciais. 

   Resistência das pessoas em conceder espaço para os animais é algo tão comum no Brasil, já que a permanência deles em vários ambientes é terminantemente proibida. Além disso, não são raras as caras de nojo das pessoas quando olham um cachorro ou um gato em situação de rua. Aliás, essas criaturas de Deus são enxotadas até de igrejas, como no clássico "O Pagador de Promessas", do saudoso Dias Gomes.

  Gratidão! Palavra usada tantas vezes de maneira leviana, não poderia ser mais adequada quando se trata da fidelidade canina. E Lula, como um homem que sabe como poucos o valor dessa qualidade, soube demonstrar esse nobre sentimento pela Resistência.    

  Respeito pelos animais foi o motivo crucial que para que alguns protocolos sejam deixados de lado durante a posse do próximo presidente eleito democraticamente. Nada de fogos de artifício e os 21 tiros de canhão, que tantos traumas causam especialmente aos cães e gatos, que possuem ouvidos muito mais sensíveis que os nossos.  

   Há um antigo ditado que diz que "Deus fez o cão para que protegesse o homem enquanto caminhasse pelas trevas". Por isso, nada mais justo que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de passar pelo calvário em Curitiba, suba a rampa do Planalto acompanhado da sua amiga Resistência. Esse pequeno gesto do único homem eleito por três vezes para sentar na cadeira do maior posto do Poder Executivo brasileiro abre caminho para que outros cães também possam ser recebidos com amor e carinho em todos os ambientes no Brasil.

  • Nota de esclarecimento: o texto "Gratidão, respeito e Resistência" foi publicado pelo Notibras no dia 29/12/2022.
  • https://www.notibras.com/site/resistencia-vira-sinonimo-de-gratidao-e-respeito/

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Camilo, o almoço e a sogra

    Camilo, mal pôs os pés no chão gelado do quarto, logo lembrou que a esposa não estaria em casa naquele dia. Ela havia viajado na noite anterior a trabalho e iria permanecer fora por alguns dias. Arrastou o corpanzil até a cozinha e soltou um bocejo que despertou o gato, que deu aquela esticada preguiçosa antes de tomar coragem e sair do cesto acolchoado para as necessidades. 

      O homem, que não suportava cozinhar, teria que fazer o almoço. Nada de comida sofisticada, mas crescera aos pés da mãe, que tudo fazia. Cresceu um tanto mais e se casou com Aurora, a quem conheceu ali mesmo naquela rua. Chegaram até a brincar de queimada, garrafão e outras peraltices antes do primeiro beijo, que só aconteceu porque ela tomou a iniciativa. 

       Tiveram um par de filhos, que hoje não chegam a dez anos. Viviam até bem, caso não fosse pela rigidez de Serafina, a rigorosa mãe de Aurora. Sempre atenta a todos os detalhes, não poupava Camilo de uma bronca aqui, uma chamada de atenção ou até mesmo um puxão de orelha por qualquer descompostura.

        Maria Luíza e Pedro tiveram que ser quase empurrados da cama, que parecia acolhê-los muito melhor que a escola. Pelo menos era o que os filhos do Camilo insistiam em sonhar, apesar do berro do pai. 

    — Vamos que vamos sair dessa cama!

    — Ah, pai, só mais cinco minutinhos.

    — Anda, anda e não me aperreie! Hoje tô que tô uma pilha!

    Depois do café da manhã preparado e devorado quase sem gosto, os rebentos rumaram para a escola, logo ali na esquina. Enquanto isso, Camilo foi até o quintal da casa, onde tragou dois cigarros baratos. Voltou para a cozinha e tratou de descascar algumas batatas. Olhou para o lado e viu o gato esparramado no cesto, cabeça tombada, nariz quase encostado na cerâmica carcomida pelo tempo. 

    — Folgado!

  Batatas depiladas, foi jogar as cascas ao pé da mangueira. Aproveitou e sacou mais um cigarro e tragou até a alma. O amargor na garganta o despertou para o horário. Quase meio-dia! Correu para a cozinha, tirou as panelas de arroz e de feijão da geladeira, quase ao mesmo tempo em que pegou a frigideira com óleo de uma semana ou mais. Fritou as batatas, requentou o punhado de arroz e feijão. 

    Sacudiu os farelos de pão da toalha da mesa, derramou os pratos e talheres. Não demorou, Maria Luíza e Pedro, esbaforidos, entraram em casa. Jogaram as mochilas sobre o sofá e correram para a cozinha. Famintos, mal conseguiram esperar que o pai os servisse. 

    Enquanto o homem despejava mais uma colherada de feijão no prato de Maria Luíza, eis que surge Serafina. Com o nariz apontado para o alto como um perdigueiro, a sogra de Camilo tentou farejar o aroma do ambiente. Enquanto isso, os netos e o genro, quase estáticos, a observavam. A velha afanou uma batata do prato de Pedro e a colocou na boca. Mastiga daqui, mastiga dali, encarou os três e, finalmente, a engoliu. Camilo, com a voz quase muda, arriscou uma pergunta.

    — Gostou?

    — É, até que ficou uma comida honesta. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Marcio Petracco, Cacau e Coco

    Lá estávamos a Dona Irene, o Clei e eu no cachorródromo do Tesourinha, em Porto Alegre, quando surgiu um magrelo em sua bicicleta acompanhado de dois belos cães da nobre raça vira-lata. Não demorou muito, as nossas buldogues, Bebel e Clarinha, foram dar as boas vindas àqueles dois lindos cachorros, que logo soubemos se chamarem Cacau e Coco. 

    Enquanto as quatro crianças corriam para cá e para lá, chegando ao fundo, voltando para mais perto, eis que o tal rapaz da bici (alcunha gaúcha para bicicleta) se aproximou e começamos uma conversa, no início meio tímida, mas que logo se encheu de sorrisos e até algumas gargalhadas. "Nem precisa perguntar quem é o Coco e quem é o Cacau", disse Marcio, fazendo menção às cores dos seus pupilos.

    Conversa vai, conversa vem, faço uma pergunta que, provavelmente, tenha causado certo espanto aos outros donos de cachorros que estavam próximos. 

    _ Marcio, o que você faz da vida?

    _ Dudu, eu sou músico há mais de 40 anos.

  Pois é, eu estava diante do famoso Marcio Petracco, mas como autêntico forasteiro nem percebi o tamanho da minha gafe. Seja como for, ele não pareceu ter ficado chateado comigo, já que a nossa conversa se descambou para a música, onde percebemos algumas afinidades. Marcio me disse que iria fazer um show no Queen's, famoso bar da cidade, no dia seguinte, 18 de dezembro de 2022. Seria uma apresentação com músicas dos Rolling Stones, justamente na data do aniversário de 79 anos do Keith Richards, lendário guitarrista.

  Fomos uns dos primeiros a chegar ao Beco do Queen's, quando as nuvens acinzentavam o céu da capital gaúcha. Típico dia de primavera! Um efusivo Marcio nos recebeu, enquanto fazia os últimos reparos no palco. 

    _ Fio do bigode! Vocês vieram mesmo! 

    Demos os parabéns pelo aniversário do Marcio, já que ele iria fazer as vezes do Keith. Aliás, diria até que o Marcio estava mais parecido com o Keith Richards do que o guitarrista dos Stones poderia parecer consigo mesmo. Não demorou muito, o ambiente começou a lotar, apesar da chuva, que logo começou a derramar um monte de água. Abrigados, bebericamos e degustamos, enquanto nossos olhos e ouvidos se encantavam com a apresentação da banda. Tanto é que até arriscamos alguns passinhos ao lado da mesa.

    O tempo pareceu voar, como geralmente acontece quando estamos nos divertindo. Logo chegou a derradeira "Satisfaction", o que é o prelúdio do término do show da famosa banda inglesa. Todavia, assim que o último acorde desse clássico do rock and roll se esvaiu pelo ambiente, eis que o Marcio anuncia ao microfone: "A gente vai fazer uma pausa de cinco minutos e daqui a meia hora a gente volta".

domingo, 11 de dezembro de 2022

A insanidade do ser humano

  Provavelmente você não se recorde do longínquo final de dezembro de 1992, quando dois fatos marcaram os noticiários brasileiros: O impeachment do então presidente Fernando Affonso Collor de Mello e o brutal assassinato da atriz Daniella Perez.  Nessa época, talvez pela minha total ignorância em relação às novelas, nunca havia ouvido falar da artista, muito menos que ela era filha de uma escritora de teledramaturgia. Seja como for, não foi esse fato que me causou certo espanto, mas sim como nos comportamos diante de certas situações.

    Calma!!! Vou explicar! Longe de mim querer negar a importância jornalística de um crime tão cruel cometido por um ator (que eu também não fazia a menor ideia de quem era) contra sua companheira de cena. Todavia, não há como negar que o impeachment do Collor era muito mais importante para o país, já que se tratava de algo que iria mexer com todos nós. Mas só se falava no então homicídio, tanto é que eu, um completo ser alheio ao mundo das tramas novelescas, acabei por me informar de praticamente tudo por osmose.

     Avancemos para dezembro de 1998 e mudemos de país, agora os Estados Unidos da América. Pois é, nessa época, o pessoal de lá queria porque queria arrancar o traseiro do Bill Clinton da Casa Branca. Nunca na história daquele país um sexo oral havia abalado tanto a estrutura de uma nação. Sim, isso mesmo!!! Por causa dessa esdrúxula situação, todos estavam com os olhos voltados para os lábios da então estagiária Monica Lewinsky e o órgão sexual presidencial. 

   Mas onde eu quero chegar, talvez você esteja questionando? Pois bem, o ser humano parece se preocupar com coisas que, na verdade, não o afetam diretamente. A barbárie ocorrida com a Daniella Perez, por mais desumana que fosse, jamais deveria ter ofuscado o impeachment do Collor. Por sua vez, um ato sexual tão comum como, por exemplo, chupar picolé, também não deveria ganhar proporções gigantescas, ainda que tenha sido praticado por alguém aos pés do homem mais poderoso do planeta. 

  Somos humanos!!! Somos curiosos!!! Preferimos coisas escabrosas, cruéis e não desejamos nos preocuparmos com algo talvez chato. Queremos crer em mamadeira de piroca, kit gay, banheiro unissex nas escolas, já que encarar os reais problemas do país (miséria, fome, racismo, machismo, abismo socioeconômico) deva ser mesmo muito enfadonho. Afinal, a nossa bandeira jamais será vermelha!!! Talvez o nosso maior problema esteja aí, haja vista Brasil significar, literalmente, vermelho como brasa.

  • Nota de esclarecimento: O texto "A insanidade do ser humano" foi publicado pelo Notibras no dia 11/12/2022.
  • https://www.notibras.com/site/corrupcao-sexo-e-brasil-vermelho-como-brasa-eterna/?fbclid=IwAR04JlxCYB4s1KWAmyz2Ik6e1hFHIfnYGd0Wm-Re6GyuEcR0oDja5MEzNr0

Arthur Claro, o comunista

    Arthur nasceu Claro, sobrenome de família. Mas, desde cedo buscou caminhos e trilhas tão diversos, às vezes obscuros, mas todos carregados de paixão. Alguns poderiam acusá-lo de ser cabeça-dura. Que seja!!! Para enfrentar tanta pancada da vida, não pode ter a moringa de bexiga. 

   Os que o conhecem dizem que ele parece uma coruja, pois sempre está de olho em tudo, como se tentasse entender, ou melhor, captar a essência e, assim, fazer a sua arte. Esta, aliás, pode soar estranha, às vezes até lúgubre, mas digo-lhe que não. Basta dar uma olhadela no blog do Arthur para você sentir que está no DeLorean do Marty McFly indo direto para os conturbados anos 1970, quando os fanzines eram armas contra a cruel Ditadura Militar. 

    O blog do Arthur Claro é uma colcha de retalhos, onde cada detalhe é importante para a formação do todo. No entanto, não se engane, caso esteja imaginando que essa verdadeira feira livre está pronta e acabada. Não!!! Esse artista, um verdadeiro bicho-carpinteiro, não cansa de se reinventar e buscar novas trajetórias nessa saga.

    Esse rapaz paulista, que ostenta um belo bigode à Salvador Dalí, também tem lá as suas contradições. A maior delas, a meu ver, descobri quando constatei que ele é torcedor de um certo time, que não é conhecido por engajamentos sociais. Pois bem, lá estávamos os dois trocando algumas ideias, quando surgiu esse pequeno interlúdio.

    _ Dudu, eu faço arte alternativa porque sou comunista.

    _ Mas, Arthur, você torce pro São Paulo!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Adeus, namorico!

 

    Aprígio, com seus quase 70, acordava sempre cedo, mais cedo até que o próprio despertador, que, talvez cansado de ter a corda apertada há anos, de vez em quando se fazia de mudo. Seja como for, o velho parecia não se importar com tal comportamento desse seu segundo companheiro de quarto. Sim, o segundo! É que também havia a temperamental Filó, a não muito simpática cadelinha caramelo. 

    Cara de poucos amigos, a companheira de Aprígio colecionava desafetos na quadra 312 da Asa Norte, Brasília-DF. Algumas tentativas frustradas de mordidas aqui, outras tantas acolá, inúmeros latidos estridentes por todos os lugares. Não perdoava ninguém!!! Até mesmo o Aprígio carregava algumas cicatrizes, lembranças de mordidelas sem grandes consequências, a não ser aquelas que ferem a parte mais valorizada por um homem como ele: a honra.

    Aprígio, assim como Filó, também não era muito afeito a conversas sem um sentido prático. Por isso, não era do tipo que dizia "Bom dia!", "Boa tarde!" ou "Boa noite!", nem mesmo para Francisco, o antigo porteiro do prédio. Homem direto, sem tempo para sentimentalismo, até que, por um desses acasos da vida, eis que Aprígio percebeu que do outro lado da calçada havia um enorme cachorro. De tão gigantesco, o velho chegou a duvidar de que se tratava mesmo de um cão. Talvez fosse um cavalo ou qualquer desses bichos da roça. 

   Não demorou, o velho constatou que Filó mantinha o olhar fixo naquele cachorrão. Apesar de azulados pela catarata avançada, os olhos da cadelinha pareciam apaixonados. Nenhum latido!!! Apenas ganidos de quem queria porque queria algo. No caso, esse algo estava há poucos metros, preso a uma guia que se estendia até as mãos graciosas de Eufrásia, que também carregava uma recente viuvez. 

   O defunto, apesar de fresco, carregou o resquício de lamúrias da viúva, além de lhe deixar uma polpuda pensão. Livre do estorvo e com dinheiro mais do que suficiente para as despesas, Eufrásia se sentiu livre como jamais havia sido. Queria mais é se divertir!

    _ Desculpe, não sei o que houve com a minha cachorra!

    _ Ah, não se preocupe! Acho que o Sultão também gostou dela. 

    Não tardou muito, Aprígio, Filó, Eufrásia e Sultão passaram a se encontrar algumas vezes por dia, como se tivessem combinado. Na verdade, Aprígio ficava de olho na janela do seu apartamento para ver quando a velha e o enorme cachorro apareciam na calçada lá embaixo. Então, mais ligeiro que barata fugindo quando se acende as luzes, lá ia o Aprígio carregando uma também apaixonada Filó. 

    A conversa, por mais frugal que fosse, parecia bem recebida por Eufrásia. Todavia, caminhava para um eterno destino sem futuro, até que a velha tomou a iniciativa e convidou Aprígio para um lanche logo mais à tarde. Obviamente que ele aceitou! Tomou aquele banho caprichado uma hora antes do horário marcado. Borrifou pelo corpo maltratado o perfume que havia ganho num dos seus aniversários, não sabia qual. Retirou a naftalina de dentro do sapato e o calçou. 

   De tão entusiasmado, arriscou até uma leve corridinha, olhando para aquele céu azul de Brasília. Sorria, sorria, sorria!!! De tanta felicidade, imaginou que a calçada estava mais macia do que de costume. Era o amor saltitando no velho coração enrugado!!!

    Mal se postou diante da porta da amada, essa lhe sorriu aquele sorriso esperançoso de que algo mais pudesse vir a acontecer. Logo estavam sentados à mesa. Suquinhos, biscoitinhos, chazinhos, até mesmo um providencial cafezinho gourmet para agradar os paladares mais aguçados. Entretanto, Eufrásia pareceu se incomodar com um cheiro não muito agradável. Ela abriu a ampla janela da sala, mas aquele fedor parecia cada vez mais impregnado no ambiente. 

    _ Você não está sentindo, Aprígio?

    _ O quê?

    _ Essa catinga horrível.

    O velho, como se fosse um perdigueiro, começou a buscar o tal fedor, até que resolveu olhar para a sola do sapato. Não demorou muito, constatou que havia uma boa explicação para a tal maciez da calçada.

    _ Que merda!!!

  • Nota de esclarecimento: "Adeus namorico!" foi publicado no Notibras no dia 16/12/2022. 
  • https://www.notibras.com/site/cuidar-do-coco-do-pet-evita-frustracao-como-a-de-aprigio/

    

    

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Almeidinha e o truco

    Já contei sobre o meu amigo Almeidinha, que tem um temperamento intempestivo, mas um grande coração. Se bem que há gente que duvide que ele possua o famoso órgão que bombeia o sangue pelo corpo. Mas deixemos um pouco de lado tal implicância com o gajo, pois hoje é dia de relembrar uma das situações mais esdrúxulas que vivi durante meus tempos de estudante de medicina veterinária lá na Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

    Apesar de conviver com muitos aficionados por carteado, nunca me interessei por esse passatempo. Na verdade, nunca levei muito a sério, apesar de na infância acompanhar a minha avó nas intermináveis batalhas de paciência. Mas não aquelas tão comuns em jogos de computador. Minha avó só jogava uma em que se formavam oito colunas, quatro de um lado, quatro do outro, cinco cartas em cada. Tanto é que, quando alguém me fala em paciência, sempre me vem à mente justamente esse tipo, apesar que ninguém parece conhecê-lo.  

    Todavia, deixemos a paciência de lado, mesmo porque o tipo de carteado que vou falar é outro. Pois bem, lá estava eu degustando o meu jantar no bandejão, quando o Almeidinha, todo eufórico, veio me contar a última, como se eu fosse a pessoa mais interessada nesse assunto, o tal truco.

    _ Dudu, sabe aqueles caras do alojamento C?

    _ Que caras?

    _ Os que ganharam o último campeonato de truco.

    _ Almeidinha, nem sei do que você tá falando. 

    _ Dudu, em qual mundo você vive?

    O meu amigo me olhou com cara de espanto, como se eu tivesse que saber quem eram esses tais caras. Aliás, nem sabia que existia um campeonato de truco, ainda mais na Rural. Não dava a mínima para aquilo. No entanto, o Almeidinha continuou com aquela ladainha até que, não entendo isso até hoje, conseguiu me convencer a formar uma dupla com ele para enfrentar os tais campeões do alojamento C. Pois é, acredite ou não, essa tal batalha seria naquela mesma noite.

  Rapidamente o Almeidinha me jogou um monte de regras, como se eu fosse um computador recebendo vários dados, que deveriam ser prontamente processados. Isso depois que eu havia acabado de encher o bucho no bandejão. Seja como for, aceitei o desafio apenas para agradar o meu amigo. Não que eu levasse aquilo a sério, muito menos imaginava que isso tivesse tamanha relevância para o Almeidinha. Isto é, até que, depois de tomarmos aquele vareio dos caras do alojamento C, o meu amigo, espumando pela boca mais que touro diante do balançar de um pano vermelho, começou a esbravejar.

    _ Dudu, você fez a gente perder!

    _ Deixa isso pra lá, Almeidinha! Isso é apenas um jogo.

    _ Dudu, isso não é um jogo! Isso é truco!!! 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Almeidinha e o truco" foi publicada pelo Notibras no dia 29/08/2023.
  • https://www.notibras.com/site/jogar-e-para-ganhar-nem-que-seja-no-palitinho/