Frederico Fischer era casado, mas a esposa
e os filhos haviam se mudado há tempos para Porto Alegre, de onde nunca mais
tiveram disposição para nem sequer uma visita ao longínquo rincão. Ele, por sua
vez, preferia a solidão e, por isso, não se lembrava da última vez que
tentou pegar o ônibus para a capital. Nunca foi. Preferia o ambiente rural da
sua pequena estância.
Aqueles poucos mais de 50 anos pareciam
começar a pesar nos largos ombros de Frederico. Com a enxada nas mãos
calejadas, ele cambaleou para o lado e deixou o enorme corpo avermelhado pelo
sol tombar. Caiu de bunda, quase ao mesmo tempo em que apertou seus olhos
azuis. Tão azuis, que alguém poderia duvidar que eram reais.
Um redemoinho levantou poeira bem na fuça
de Frederico, que não se espantou. Ele já havia passado por isso algumas vezes.
No entanto, todas elas aconteceram quando ele ainda era um menino gorducho que
ficava assombrado com as histórias contadas pelo avô. Histórias sobre as
trincheiras da Grande Guerra. Corpos mutilados em meio a tanta lama. A fome
fazia os homens lutarem contra os ratos por um naco de carne, mesmo que essa
carne fosse a de um companheiro abatido pelo fogo inimigo.
Despertado do seu devaneio, Frederico se
levantou. Estapeou a calça para expulsar a poeira. Rumou para a varanda da
casa. Despejou água fervente sobre a cuia, sentou-se na cadeira de balanço,
degustou o chimarrão. Pensou no que faria no resto daquela tarde. Nada lhe veio
à cabeça, a não ser a saudade da família.
O pensamento de Frederico, no entanto,
foi interrompido pela batida suave do cavalo que se aproximava, carregando no
lombo um vizinho, o Hans. Tão alemão quanto Frederico, Hans era pouca coisa
mais alto.
Cumprimentaram-se quase em silêncio,
dividiram a bebida gaúcha. O sol já havia se posto, quando Frederico principiou
a conversa.
— Sinto falta da Frida e dos guris.
— Acontece. Fez o charque?
— Tá ali.
Hans se levantou, cortou um bom pedaço da
carne, fatiou-a na travessa de madeira sobre a mesa da cozinha. Voltou para a
varanda e a ofereceu ao anfitrião. Mastigaram, devoraram tudo com tanto gosto,
que pareciam animais famintos. Adormeceram ali mesmo, apesar da previsão de
geada.
Frederico foi o primeiro a acordar.
Encolhido de frio, passou pela cozinha sem notar as várias peças de carnes
penduradas em ganchos. Foi até o quarto, pegou dois cobertores, um para ele e
outro pro amigo. Entretanto, passando novamente pela cozinha, ficou
estarrecido. Diante dos seus olhos estavam pendurados os corpos desmembrados da
sua mulher e dos seus filhos.
- Nota de esclarecimento: O conto "Frederico, Hans e o charque" foi publicado pelo Notibras no dia 6/7/2023. A pedido da redação do jornal, foi feita uma pequena modificação para que a história fosse contada no Distrito Federal.
- https://www.notibras.com/site/frederico-hans-corpos-e-charque-com-chimarrao/
- O conto "Frederico, Hans e o charque" faz parte da Antologia Sexta-feira 13 - parte 2, da editora Obook.
- O conto "Frederico, Hans e o charque" faz parte da "Antologia de contos - NO RASTRO DO MAL", 2024, da editora Tenha Livros.
- O conto "Frederico, Hans e o charque" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 2/12/2025.
- https://www.notibras.com/site/frederico-hans-e-o-charque/


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