A menina corria serelepe pela casa dos avós. Ela acabara de saber que iria passar o próximo domingo na companhia dos tios no clube. "Se aquieta, Maria Alice!", a avó tentava conter o arroubo de alegria da neta, que parecia não prestar atenção naquelas palavras, talvez, sem sentido, ainda mais para ela, que era filha única e necessitava, mais que a maioria, da companhia de outras crianças.
Já no sábado, ela
foi dormir na casa da tia. Ela já queria acordar no dia seguinte e ir logo pro
clube. Ansiosa como ela só, não pregava os olhos. Rolava tanto na cama, que a
tia, preocupada, colocou um colchão no chão para proteger a criança, caso
caísse. O tio, no outro quarto, também estava eufórico com o dia seguinte. Ele
não era menino há décadas, mas agia como tal sempre que a mulher avisava que
iriam ao clube. Adorava piscina! Coisa de menino.
A Maria Alice e o
tio foram os primeiros a levantarem no dia seguinte e já foram preparar as
coisas. A tia levantou mais tarde, abriu a cortina do quarto e olhou o céu
cinza. Levantou-se ainda com preguiça, calçou os chinelos e foi ao banheiro.
Depois foi ver o que a sobrinha e o marido estavam aprontando. Encontrou-os
tomando café. A menina, com um grande naco de pão na boca, sorria com todos
aqueles dentes de criança. O marido bebia aquele café preto com algumas gotas
de adoçante.
— Não vai dar pra
irmos ao clube.
— Por quê, tia? - a
menina abriu tanto a boca, que quase deixou aquele resto de pão cair.
— O tempo está
ruim.
A Maria Alice
voltou o rosto para o tio, esperançosa de um alento. Ela acreditava nas
palavras dele, que sempre vinha com pontas de esperança.
— No clube é
diferente! Sempre tem sol! - o tio disse olhando para a sobrinha.
O rosto da menina
voltou a sorrir. A tia, que conhecia bem o marido, tentou sorrir, mas aquele
humor azedo, amigo de praticamente todas as manhãs, não a impediu de torcer a
boca e disse:
—Que história
maluca é essa de que no clube não chove?
— Você não sabia?
Ih, Maria Alice, ela não sabia disso!
— Tia, todo mundo
sabe disso!
Terminaram de
comer, a tia se levantou e foi para a sala, onde se sentou no sofá, pegou o
controle ao lado e ligou a enorme televisão. Parecia determinada a passar um
bom tempo ali. No entanto, logo a menina a puxou pelo braço.
— Vamos, tia!
— Se aquieta, Maria
Alice! - a tia repetiu as mesmas palavras da sua mãe.
A menina, quase chorando,
buscou os olhos do tio, na esperança de que ele a salvasse daquele momento
desesperador, tão angustiante, mas que muitos adultos já se esqueceram. Ele se
sentou perto da esposa, a abraçou, lhe deu um beijo carinhoso na face esquerda.
Nada disse, simplesmente colocou a mão sobre a dela, que desligou a televisão e
foi se arrumar.
Poucos minutos
depois, talvez uns 10 ou 15, que pareceram horas para a menina, lá estavam
todos dentro do carro. O portão automático da garagem se abriu e o veículo
tomou a rua, quase deserta. Mal chegaram no final da rua, começou a chover. Uma
chuva forte!
— Tá chovendo!
Vamos voltar!
— Tia, no clube
sempre faz sol!
A chuva parecia não
querer dar trégua, cada vez mais forte. Mas lá ia o tio dirigindo o veículo, a
mulher com cara de poucos amigos ao lado, a Maria Alice, atrás, ia confiante
nas palavras do tio. Faltava não mais que um quilômetro para chegarem ao
destino quando, de repente, lá estava um céu iluminado pelo astro-rei. O tio
simplesmente se virou para a esposa, que sorriu. Ele observou, pelo retrovisor,
o rosto da sobrinha, que estava radiante.
Assim que entraram
no clube, colocaram as bolsas numa mesa embaixo de uma barraca e foram direto
fazer exame para poderem entrar na piscina. Cada um ganhou uma pulseira. A
menina e o tio correram para a piscina, enquanto a tia caminhou a passos lentos
para a barraca, onde pediu uma caipirinha e se espreguiçou.
A Maria Alice e o
tio, agora mais menino que nunca, brincaram na piscina. Era uma alegria
radiante, que se espelhava no rosto daqueles dois. Crianças! Coisas de
crianças! Elas vivem um mundo mais divertido, que a grande maioria dos adultos nem
sequer se lembram que existe.
Após algumas horas,
a tia foi até a piscina, onde se juntou àquelas duas crianças, que ainda
estavam com o maior pique. Ela passou passou alguns minutos se refrescando
naquela água, talvez um pouco mais fria que o esperado.
— Maria Alice, você
precisa comer alguma coisa.
— Ah, tia, não
estou com fome!
— Você tem que
comer alguma coisa! Vou pedir alguma coisa pra gente agora.
A tia se dirigiu à
lanchonete. A menina e o tio ficaram ali na piscina. O pedido chegou, a tia foi
até a grade que cercava a piscina e acenou para os dois, que acataram a ordem.
Emburrados, saíram da piscina, mas logo o sorriso voltou aos olhos daquelas
duas crianças: Batata frita!
Comeram tanto, mas
logo quiseram voltar pra piscina. A tia disse que não, que deveriam aguardar um
pouco. Aguardaram e aguardaram. Aqueles minutos lentos como lesmas, fizeram a
menina olhar para a outra piscina, logo ali ao lado. Um mundaréu de pirralhos
correndo de um lado para outro, escorregando pelo tubo de plástico até as águas
rasas.
— Tia, posso ir?
— Vai lá. Mas
cuidado!
A menina correu
mais do que nunca. No entanto, chegou timidamente na piscina, entrou como se
pedisse permissão. Mas isso não durou mais do que meros segundos. Logo uma
outra menina a chamou para entrarem naquele tubo de plástico e escorregarem.
Eufóricas, subiram as escadas, desceram escorregando, subiram as escadas
novamente, desceram, subiram, desceram... Não sei quantas vezes ficaram ali.
Criança não se aquieta mesmo!
Enquanto isso, o
tio já havia ido e voltado da piscina duas ou três vezes. Agora, sentado
debaixo da barraca, ouvia a esposa contando as notícias. De vez em quando eles
comentavam sobre os ocorridos, até que apareceu a Maria Alice, com uma das mãos
na testa e cara de choro. Nenhuma lágrima! Até para chorar, a menina era
tímida. A tia, muito preocupada, lhe perguntou o que havia acontecido, no que
ela respondeu que, durante uma das subidas das escadas, deu um encontrão com um
menino. Testa com testa! Isso dói! Como dói!!!
A Maria Alice disse
que o menino saiu chorando da piscina e foi direto para a mãe. O tio se
levantou e foi pegar um pouco de gelo na lanchonete para colocar no galo que já
despontava na cabeça da menina. Ao retornar, enrolou o gelo numa blusa e pediu
para a Maria Alice ficar segurando bem em cima do galo.
— Sabia que eu vi a
mãe do menino chorão procurando por você? Ela perguntava pra todo mundo: você é
a Maria Alice?
— Vamos embora,
tio! Ela vai me bater!
— Vai nada! Basta
mudar o seu nome. Você quer se chamar como?
A menina pensou
brevemente e disse que gostava de Joelita, que era o nome da sua professora.
Então, o tio começou a chamar a Maria Alice de Joelita. Dessa forma, a Maria
Alice, agora Joelita, ficou mais tranquila e, mesmo com aquele galo enorme
querendo cantar, ela achou graça de tudo e começou a rir, até que chegou a hora
de irem embora.
Os tios da Joelita
a deixaram na casa da avó, onde os pais a pegariam mais tarde. Ela ficou com
aquela pulseirinha durante muito tempo, apesar dos protestos dos pais. A
Joelita, depois de um tempo, deixou de ser chamada por esse nome. É que o seu
tio começou a chamá-la de Jojô. Aquele galo já sumiu faz tempo. Mas o apelido
continua. Na família, todos sabem quem é a Jojô.
A menina corria serelepe pela
casa dos avós. Ela acabara de saber que iria passar o próximo domingo na
companhia dos tios no clube. "Se aquieta, Maria Alice!", a avó
tentava conter o arroubo de alegria da neta, que parecia não prestar atenção naquelas
palavras, talvez, sem sentido, ainda mais para ela, que era filha única e
necessitava, mais que a maioria, da companhia de outras crianças.
Já no sábado, ela
foi dormir na casa da tia. A minina já queria acordar no dia seguinte e ir logo
para o clube. Ansiosa como ela só, não pregava os olhos. Rolava tanto na cama,
que a tia, preocupada, colocou um colchão no chão para proteger a criança, caso
caísse. O tio, no outro quarto, também estava eufórico com o dia seguinte. Ele
não era menino há décadas, mas agia como tal sempre que a mulher avisava que
iriam ao clube. Adorava piscina! Coisa de menino.
A Maria Alice e o
tio foram os primeiros a levantar no dia seguinte e já foram preparar as
coisas. A tia levantou mais tarde, abriu a cortina do quarto e olhou o céu
cinza. Levantou-se ainda com preguiça, calçou os chinelos e foi ao banheiro.
Depois foi ver o que a sobrinha e o marido estavam aprontando. Encontrou-os
tomando café. A menina, com um grande naco de pão na boca, sorria com todos
aqueles dentes de criança. O marido bebia aquele café preto com algumas gotas
de adoçante.
— Não vai dar pra
irmos ao clube.
— Por quê, tia? - a
menina abriu tanto a boca, que quase deixou aquele resto de pão cair.
— O tempo está
ruim.
A Maria Alice
voltou o rosto para o tio, esperançosa de um alento. Ela acreditava nas
palavras dele, que sempre vinha com pontas de esperança.
— No clube é
diferente! Sempre tem sol! - o tio disse olhando para a sobrinha.
O rosto da menina
voltou a sorrir. A tia, que conhecia bem o marido, tentou sorrir, mas aquele
humor azedo, amigo de praticamente todas as manhãs, não a impediu de torcer a
boca e disse:
—Que história
maluca é essa de que no clube não chove?
— Você não sabia?
Ih, Maria Alice, ela não sabia disso!
— Tia, todo mundo
sabe disso!
Terminaram de
comer, a tia se levantou e foi para a sala, onde se sentou no sofá, pegou o
controle ao lado e ligou a enorme televisão. Parecia determinada a passar um
bom tempo ali. No entanto, logo a menina a puxou pelo braço.
— Vamos, tia!
— Se aquieta, Maria
Alice! - a tia repetiu as mesmas palavras da sua mãe.
A menina, quase chorando,
buscou os olhos do tio, na esperança de que ele a salvasse daquele momento
desesperador, tão angustiante, mas que muitos adultos já se esqueceram. Ele se
sentou perto da esposa, a abraçou, lhe deu um beijo carinhoso na face esquerda.
Nada disse, simplesmente colocou a mão sobre a dela, que desligou a televisão e
foi se arrumar.
Poucos minutos
depois, talvez uns 10 ou 15, que pareceram horas para a menina, lá estavam
todos dentro do carro. O portão automático da garagem se abriu e o veículo
tomou a rua, quase deserta. Mal chegaram no final da rua, começou a chover. Uma
chuva forte!
— Tá chovendo!
Vamos voltar!
— Tia, no clube
sempre faz sol!
A chuva parecia não
querer dar trégua, cada vez mais forte. Mas lá ia o tio dirigindo o veículo, a
mulher com cara de poucos amigos ao lado, a Maria Alice, atrás, ia confiante
nas palavras do tio. Faltava não mais que um quilômetro para chegarem ao
destino quando, de repente, lá estava um céu iluminado pelo astro-rei. O tio
simplesmente se virou para a esposa, que sorriu. Ele observou, pelo retrovisor,
o rosto da sobrinha, que estava radiante.
Assim que entraram
no clube, colocaram as bolsas numa mesa embaixo de uma barraca e foram direto
fazer exame para poderem entrar na piscina. Cada um ganhou uma pulseira. A
menina e o tio correram para a piscina, enquanto a tia caminhou a passos lentos
para a barraca, onde pediu uma caipirinha e se espreguiçou.
A Maria Alice e o
tio, agora mais menino que nunca, brincaram na piscina. Era uma alegria
radiante, que se espelhava no rosto daqueles dois. Crianças! Coisas de
crianças! Elas vivem um mundo mais divertido, que a grande maioria dos adultos nem
sequer se lembra de que existe.
Após algumas horas,
a tia foi até a piscina, onde se juntou àquelas duas crianças, que ainda
estavam com o maior pique. Ela passou alguns minutos se refrescando naquela
água, talvez um pouco mais fria que o esperado.
— Maria Alice, você
precisa comer alguma coisa.
— Ah, tia, não
estou com fome!
— Você tem que
comer alguma coisa! Vou pedir alguma coisa pra gente agora.
A tia se dirigiu à
lanchonete. A menina e o tio ficaram ali na piscina. O pedido chegou, a tia foi
até a grade que cercava a piscina e acenou para os dois, que acataram a ordem.
Emburrados, saíram da piscina, mas logo o sorriso voltou aos olhos daquelas
duas crianças: Batata frita!
Comeram tanto, mas
logo quiseram voltar pra piscina. A tia disse que não, que deveriam aguardar um
pouco. Aguardaram e aguardaram. Aqueles minutos lentos como lesmas, fizeram a
menina olhar para a outra piscina, logo ali ao lado. Um mundaréu de pirralhos
correndo de um lado para outro, escorregando pelo tubo de plástico até as águas
rasas.
— Tia, posso ir?
— Vai lá. Mas
cuidado!
A menina correu
mais do que nunca. No entanto, chegou timidamente na piscina, entrou como se
pedisse permissão. Mas isso não durou mais do que meros segundos. Logo uma
outra menina a chamou para entrarem naquele tubo de plástico e escorregarem.
Eufóricas, subiram as escadas, desceram escorregando, subiram as escadas
novamente, desceram, subiram, desceram... Não sei quantas vezes ficaram ali.
Criança não se aquieta mesmo!
Enquanto isso, o
tio já havia ido e voltado da piscina duas ou três vezes. Agora, sentado
debaixo da barraca, ouvia a esposa contando as notícias. De vez em quando eles
comentavam sobre os ocorridos, até que apareceu a Maria Alice, com uma das mãos
na testa e cara de choro. Nenhuma lágrima! Até para chorar, a menina era
tímida. A tia, muito preocupada, lhe perguntou o que havia acontecido, no que
ela respondeu que, durante uma das subidas das escadas, deu um encontrão com um
menino. Testa com testa! Isso dói! Como dói!!!
A Maria Alice disse
que o menino saiu chorando da piscina e foi direto para a mãe. O tio se
levantou e foi pegar um pouco de gelo na lanchonete para colocar no galo que já
despontava na cabeça da menina. Ao retornar, enrolou o gelo numa blusa e pediu
para a Maria Alice ficar segurando bem em cima do galo.
— Sabia que eu vi a
mãe do menino chorão procurando por você? Ela perguntava pra todo mundo: você é
a Maria Alice?
— Vamos embora,
tio! Ela vai me bater!
— Vai nada! Basta
mudar o seu nome. Você quer se chamar como?
A menina pensou
brevemente e disse que gostava de Joelita, que era o nome da sua professora.
Então, o tio começou a chamar a Maria Alice de Joelita. Dessa forma, a Maria
Alice, agora Joelita, ficou mais tranquila e, mesmo com aquele galo enorme
querendo cantar, ela achou graça de tudo e começou a rir, até que chegou a hora
de irem embora.
Os tios da Joelita
a deixaram na casa da avó, onde os pais a pegariam mais tarde. Ela ficou com
aquela pulseirinha durante muito tempo, apesar dos protestos dos pais. A
Joelita, depois de um tempo, deixou de ser chamada por esse nome. É que o seu
tio começou a chamá-la de Jojô. Aquele galo já sumiu faz tempo. Mas o apelido
continua. Na família, todos sabem quem é a Jojô.
- Nota de esclarecimento: O conto "Jojô, a menina serelepe" foi publicado pelo Notibras no dia 15/4/2023. A pedido da redação do jornal, foi feita uma pequena alteração no texto original para que a história se passasse no Distrito Federal.
- https://www.notibras.com/site/jojo-a-menina-serelepe-e-o-galo-no-amiguinho/
- O conto "Jojô, a menina serelepe" faz parte da edição de novembro/2021 da Revista Barbante.
- https://revistabarbante.com.br/wp-content/uploads/2023/11/completannovembro2023_barbante.pdf
Que história legal!
ResponderExcluirMais legal o tio. Ela deve amá-lo muito até hoje.
A infância é o melhor período da vida, que pena que passa logo.
Jojô deve ter muita saudade da infância.
Que bom que o tio era criança também. Será que ele ainda se comporta como criança, ou ficou ranzinza?
Kkkkkkkkkkkkkkk
Pois é, Maria Lúcia! Espero que tanto a Jojô quanto o tio continuem crianças.
ExcluirNossa que lindo!! Amei amei. Obrigada por compartilhar essa história tão linda. Sorte da Jojô que tem um tio criança.
ResponderExcluirObrigado! Esta foi uma das histórias mais agradáveis de se escrever. Ri muito.
ExcluirEu me lembro perfeitamente deste episódio, e gosto muito do meu tio criança. Saudades das nossas idas a o clube
ResponderExcluir- Maria Alice (Jojô)
Que bom que você gostou, Jojô!!! Também sinto muita saudade daquele tempo!
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