terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Santana, o polido

    Lá estava o Santana no balcão da delegacia, que naquelia dia parecia calma. Quase não havia público, que, muitas vezes, aparece do nada. "São como baratas!", esbravejava o Santana de vez em quando em alguma mesa de bar, mesmo se estivesse sozinho. "São como baratas! Aparecem sem avisar e saem de locais improváveis!"

    Pois foi justamente num desses dias aparentemente tranquilos que surgiu um rapaz insuspeito. Não que ele não tivesse culpa de alguma coisa, o Santana poderia muito bem pensar. O dito rapaz se aproximou timidamente do balcão, bem em frente ao Santana. "Por que não escolheu o Marques?", ele pensou, já que não gostava muito de trabalhar, ainda mais quando havia outros policiais que poderiam fazê-lo no seu lugar. No entanto, o rapaz, agora bem à sua frente, estacou e perguntou se poderia sentar. O Santana mal o olhou, torceu a cara de poucos amigos e, com um gesto de cabeça, indicou a cadeira à sua frente. 

    _ Eu gostaria de registrar um boletim.

    _ O que foi?

    _ Eu gostaria de registrar um boletim.

    _ Você já falou isso! Não sou surdo! O que você quer registrar?

    _ Um boletim.

    _ Que boletim? O que aconteceu? Desembucha logo!

    _ Moço, eu sou de Itabuna, Bahia.

    _ Hum. E daí?

    _ Pois é, eu sou de Itabuna, lá na Bahia, e fizeram um trabalho pra mim.

    _ Trabalho? Que trabalho?

    _ Isso. Um trabalho pra minha vida não andar pra frente. O senhor entende?

    _ Trabalho? Você tá falando de macumba?

    _ Sim. Isso. Fizeram um trabalho pra mim lá na minha cidade. Umas pessoas que não gostam de mim fizeram esse trabalho.

    _ E daí?

    _ Como eu estava dizendo, moço, essas pessoas fizeram esse trabalho pra que eu não conseguisse as coisas. Eu não consigo estudar, eu não consigo trabalhar.

    _ Pera aí! Aqui não é lugar para você resolver isso. Você tem que procurar uma igreja, um centro espírita, um terreiro, sei lá o quê. Mas não é aqui que você vai resolver isso.

    _ Moço, o senhor não está entendendo. Parei de estudar, não consigo arrumar emprego.

    _ E daí? O que a polícia tem a ver com isso?

    _ Mas, moço, eu tenho 27 anos, não tenho namorada e ainda sou virgem.

    _ Ih, aqui é que você não vai  resolver isso mesmo!

    O Santana se levantou e foi tomar um café. Ele pensou: "Hoje vai ser um daqueles dias!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Santana, o polido" foi publicado por Notibras no dia 3/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/baiano-vitima-de-macumba-vai-procurar-delegacia/

4 comentários:

  1. Ah! Eu entraria na Internet, pegaria um endereço de um lugar apropriado e dava pro moço:
    - Está aqui, senhor, é aqui qye o senhor vai resolver seu problema.
    Digitais, é lógico. Nada de deixar marcas.
    Kkkkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É que esse Santana, infelizmente, é um completo troglodita.

      Excluir
  2. Conheci um "Santana" na Décima Quinta. Ranzinza no atendimento, porém, quando a vítima era mulher bonita ele se derretia todo. Logo recebeu o apelido de bucho de égua.com.br. kkkk. A polícia têm os Santanas que merece.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gil, quantos e quantos Santanas existem nas polícias...rs Aliás, percebi agora que se colocarmos um acento agudo no último "a" do plural de Santanas dá Satanás. Eita!!!

      Excluir