sábado, 14 de setembro de 2024

Entre galinhas e corujas

Quando menino, imaginava que a noite era dos adultos. Por isso, não estranhava quando meus irmãos mais velhos iam dormir mais tarde, enquanto o sono sempre me pegava antes das 20h.  O tempo passou e meus vinte e poucos anos me pegaram de surpresa. Pois é, eu havia me tornado adulto e cheio de responsabilidades.

          Meus amigos, animados para esticar as horas após mais um dia de trabalho, quase sempre conseguiam me arrastar para um bar. Quando me dava conta da situação, o desânimo e o sono invadia todo o meu ser. Era um martírio manter os olhos abertos, enquanto aquele turbilhão de vozes ecoava pelo ambiente. Afinal, o que eu estava fazendo naquele lugar? E bastava a simples menção de que eu iria embora para que um dos meus colegas gritasse para o garçom: "Chefe, mais uma rodada! E sem colarinho!"

          Com o acúmulo de noites em claro, percebi que aquela tentativa de me enturmar com os notívagos era algo incompatível com o meu relógio biológico. E foi justamente numa sexta-feira, início de mês, quando todos estávamos com dinheiro na conta, a mesa do bar lotada de tulipas, tira-gostos diversos, que, sem avisar, resolvi me levantar e rumar para o único local que, àquela hora da quase madrugada, desejava estar: minha cama.

          Lembro-me dos apelos do Paulo e do Julião, que não entendiam como é que eu poderia ir embora, justamente quando o Rômulo, nosso chefe, começava mais um dos seus embriagados discursos. Ademais, a Rúbia, a colega mais desejada do ambiente, parecia arrastar asa para mim. Mal sabiam que ela estava tão interessada em mim quanto uma onça por uma salada de alface e tomate. Como sei disso? Bem, a própria Rúbia me confidenciou que, após algumas desilusões amorosas, andava de caso com seu vizinho de porta, no prédio para onde havia se mudado há pouco.

          Não quero me prolongar nesse romance da minha amiga. No entanto, vale aqui mencionar que o gajo era recém-casado e que, após alguns meses de luxúria, a coisa esfriou. Cada um foi para o seu lado e, até onde sei, a esposa do amante não descobriu a traição.

          Mas como disse, logo que me levantei, cumprimentei os presentes com um leve movimento de cabeça e saí. Enquanto me afastava, minha mente foi se sentindo mais aliviada com o barulho diminuindo até que, ao entrar no carro, o murmurinho se tornou música na voz do Gil: "Vamos fugir deste lugar, baby..."

          Desde aquele longínquo dia no bar, nunca mais me deixei levar pelos convites, por mais insistentes que fossem, dos meus amigos. Eles sabem que sou esquisito, que não gosto de trocar a noite pelo dia. Durmo com as galinhas, enquanto eles passam as noites com as corujas. No entanto, parece que eles perceberam algo naquela última noite, que, até há pouco, não havia sido captado pelo meu radar. É que estou aqui na cozinha preparando o café da manhã para a Rúbia, que ainda adormece sob os lençóis da cama no quarto ao lado.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Entre galinhas e corujas" foi publicado por Notibras no dia 14/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/chope-pra-distrair-de-diniz-sai-de-cena-e-entra-vamos-fugir-baby-de-gil/

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Casa de Família

   

        Risoleta era famosa por ser mulher de negócio. Mas não pense você que era qualquer mercancia. Não mesmo! Era algo que mexia com os desejos e luxúrias de toda aquela cidade no sertão nordestino, envolvendo desde o mais simplório dos cidadãos até o de maiores posses. 

          Casa de Família. Pois é, era esse o nome do comércio da senhora Risoleta. Nome mais apropriado não havia, apesar de certas línguas ferinas contestarem o lema do estabelecimento: "O prazer do cliente acima de tudo". 

          Entre os insatisfeitos, encontrava-se dona Neusa, esposa do seu Viriato. Este, apesar de já passado dos 80 anos, era dos mais assíduos frequentadores do afamado lupanar. Não era por acaso que a mulher andava possessa com a Risoleta. Por conta disso, dona Neusa, naquela manhã de domingo, resolveu ter uma conversa de mulher para mulher com a dona da Casa de Família.

          A esposa do seu Viriato, já com o pé na calçada, avistou a alcoviteira caminhando para a igreja. Isso mesmo! Para a igreja. E não é que a proxeneta teve a audácia de entrar no recinto religioso? Pois é, disparate maior não podia!

          Dona Neusa, tomada de fúria justa, foi ao encalço da cafetina, que, sem qualquer pudor, estava sentada justamente no banco em frente ao padre. Que atrevimento! Obviamente que dona Neusa, católica fervorosa que era, não poderia fazer um escândalo bem ali na casa do Senhor. 

          Missa de domingo é longa e aquela pareceu durar uma eternidade. No entanto, assim que o padre encerrou a palavra, o público foi saindo aos poucos. Todavia, Risoleta foi dar um dedo de prosa com o pároco, certamente em busca de redenção de tantos pecados. Conversa vai, conversa vem, a mulher beijou a mão do religioso e, já do lado de fora da igreja, foi abordada por uma impaciente dona Neusa.

          — Preciso conversar com a senhora.

          — Comigo?

          — Sim! Com a senhora!

          — E quem é você?

          — Sou a esposa do Viriato.

          — Viriato? E quem é esse Viriato, mulher?

          Dona Neusa sacou da bolsa uma fotografia do marido e a mostrou para Risoleta.

          — Ah, o Vivi.

          — Vivi?

          — Sim. Ele é o mais querido mingau de aveia que frequenta o meu estabelecimento.

          — Mingau de aveia? 

          — Sim. É que dividimos nossos clientes entre mingau de aveia e mucilon.

          — Que história é essa? 

          — Mucilon é como chamamos os novinhos, os mais impetuosos. Mingau de aveia é um jeito carinhoso de nos referirmos aos velhinhos que já aposentaram o amigo. Então, a senhora pode ficar tranquila, pois o seu marido só vai ao meu estabelecimento para conversar e tomar um drink com as minhas garotas. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Casa de Família" foi publicado por Notibras no dia 13/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/vivi-com-o-cabo-morto-vira-mingau-na-casa-de-risoleta/

Breves prazeres

          

           Não preciso florear os meus longínquos tempos de menina, mas também não desejo expor todos os podres que presenciei ao longo dos anos que se seguiram. Que fiquem guardados em algum canto ou mesmo debaixo do tapete. E, caso a curiosidade se abata sobre alguém, que vá remexer por sua conta e risco o que todos fingimos ter esquecido. Afinal, as aparências, não raro, se fazem providenciais em um mundo repleto de culpas.

          Papai nunca me falava isso é errado ou certo. Ele gostava de contar histórias e, no final, deixava-nos tirar nossas próprias conclusões. Juliano, meu irmão, tagarelava ideias, enquanto eu preferia ir até o quintal, onde me deitava no chão ao pé da pitangueira imaginando coisas. De vez em quando, floreava, mas certas conjunturas me mostraram que a vida pode ser dura e, geralmente, é o que temos.

          Com minha mãe, aprendi a degustar as amarguras da vida. Pode parecer estranho aos que imaginam que os momentos a serem lembrados devam ser os felizes. Discordo. Se fosse assim, o que teríamos para lembrar? A bicicleta que ganhamos no Natal? O primeiro beijo na boca? Prefiro recordar o dissabor do pote de sorvete carregado de lágrimas após qualquer uma das tantas desilusões amorosas. 

          Juliano, assim como todos os homens que conheço, é fraco. Não consegue entender como é que consigo enxergar o mundo de maneira tão pessimista. Na verdade, meu pobre irmão desconhece que as pessoas nunca estão verdadeiramente felizes. Somos meros animais permanentemente insatisfeitos em busca de prazeres efêmeros. 

          — Isabel, por que você é tão pessimista?

          — Juliano, meu querido e amado irmão, aprenda uma coisa.

          — O quê, minha irmã?

          — Tirando o Elvis, todos nós já nascemos fadados a morrer.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Breves prazeres" foi publicado por Notibras no dia 13/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/isabel-realista-indica-que-estamos-fadados-a-morrer/

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Falta de tato

    

            Não que fosse tão chato. Bem, a palavra adequada não é essa, assim como também não seria cricri. Talvez, usando a vastidão do vernáculo, cheio de dedos seja o que temos para os paladares mais requintados ou, então, o corriqueiro arroz e feijão.

          Lourdes Maria, mulher de família tradicional. Melhor! Era também abastada e poliglota e, talvez por conta de tantos predicativos, não possuía muita paciência com essa gente sem tempo para os livros. E não era sua culpa se a pobreza atingisse esse povo. Seja como for, vez ou outra, a madame se deparava com um desses habitantes sem classe, como aconteceu por esses dias, justamente na quitanda do seu Gomes. 

          — Sabe qual é o seu pobrema?

          — Problema, meu amigo!

          — Ué, já tamo assim de amizade?

          — Prossiga, que meu dia é longo.

          — Num sabia que dia de rico tinha mais que 24 horas.

          — Milhões de compromissos. Não posso perder meu tempo com tolices. Vou-me, antes que a agressão vá além do acinte contra o dicionário.

          — Dona Lourdes Maria, pelo visto, a senhora não tá perparada pra vida.

          — Hum, pois, sim! Eu é que não estou pre-pa-ra-da? Pois me parece que é justamente o senhor o desprevenido.

          — Como mamãe sempre dizeu lá em casa, a vida é uma sopa, mas tem gente que só sabe usar galfo. E se ela dizeu isso, eu também dizo e tenho dizido! 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Falta de tato" foi publicado por Notibras no dia 12/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/lourdes-maria-impaciente-se-coca-ao-ouvir-muitas-razoes-do-seu-pobrema/

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Martinha, a colorada de última hora

          Martinha, maranhense de Caxias, aos 18 rumou para a grande São Paulo, não tanto por necessidade, foi para acompanhar o irmão. Na metrópole, acabou por ser empurrada pelos companheiros de labuta a torcer para o Corinthians. No entanto, não se interessava por futebol, até que, por um desses acasos da vida, foi convidada para assistir à comentadíssima estreia do Sócrates pelo Timão. 

      Na falta de melhores amores, namorou em preto e branco por pouco mais de uma década. Sem arroubos de felicidade, resolveu buscar novos horizontes. Talvez o litoral, pensou. Talvez. Pois bem, foi o que Martinha decidiu numa tarde típica, quando a garoa chorava as lágrimas dos solitários de Sampa. 

      A mulher, poucos dias antes de completar 30, se mudou para o Rio de Janeiro, onde começou a namorar o Valdir, um fanático torcedor do Vasco da Gama. Não tardou, já estava de casório marcado. Não que tivesse que correr antes da barriga despontar, haja vista ter tomado todos os cuidados severamente aprendidos com a mãe. Era por pura vontade de formar a própria família, cheia de crianças correndo pelo quintal da casa no subúrbio carioca. 

      Aos 32, Martinha deu à luz pela primeira vez. Uma menina, que ganhou o nome de Salete. Dois anos após, veio um menino, que recebeu o mesmo nome do pai. Mais dois anos, nasceu a pequena Doroteia, cujo parto complicado veio acompanhado da infertilidade da mulher. Nada mais de enjoos por conta de gravidez. Com o dinheiro curto, até que Martinha se sentiu mais que satisfeita com a prole. Estava de bom tamanho. 

      Salete e o irmão, influenciados pelo entusiasmo do pai, logo se viram cruz-maltinos. Quanto à pequena Doroteia, numa noite sombria de relâmpagos e trovões, decidiu ser torcedora do Botafogo. Pois é, talvez, a caçula fosse dessas que encontram felicidade no sofrimento. Seja como for, dos pais aos filhos, todos viviam uma vida em preto e branco.

    O tempo correu ligeiro. Martinha, quase setentona, sentada na varanda, buscou recordações dos filhos, agora todos crescidos, cada qual no seu canto. Rosto firme, tentou recolher uma lágrima que já se encontrava à beira dos lábios. Não queria que o marido percebesse tamanha tristeza. Dissimulado, o homem fingiu que nada notara, ao mesmo tempo em que lhe lançou uma proposta: "Quer conhecer Porto Alegre?"

       Não foi no mesmo dia nem na semana seguinte, mas não passou de mês. Tomaram um leito para a capital gaúcha numa noite sem estrelas. O casal, talvez por conta da aventura, se viu enamorado novamente e, caso não fosse pelo local impróprio, certamente avançaria todos os sinais durante a viagem. Todavia, promessas não faltaram. 

       O ônibus, finalmente, chegou à rodoviária de Porto Alegre. Exaustos, Martinha e Valdir só pensavam em descansar os corpos castigados pela longa viagem. Pegaram um táxi e rumaram para o hotel. Apesar de longe de casa, dormiram o sono dos justos naquela cama estranha. 

        A mulher foi a primeira a se levantar no dia seguinte. A princípio, estranhou o lugar, até que a ficha caiu e ela se lembrou de que estava em outra cidade. Curiosa, ela foi até a janela, abriu as cortinas e se deparou com um estádio de futebol bem ao fundo. Percebendo que o marido havia despertado, ela o questionou. 

       — Valdir, o que é aquilo lá?

       — Ah, é o Beira-Rio.

       — Beira o quê?

       — Beira-Rio, o estádio do Internacional.

       — Quero conhecer!

      Os dois velhos tomaram um belo café da manhã. Em seguida, Valdir chamou um táxi e foi realizar o desejo da amada. Não demorou, o casal desembarcou diante daquela construção enorme. Passaram pela estátua do Fernandão e rumaram para o museu do Inter. 

     O homem, vascaíno que era desde criança, ainda tentou ser indiferente à grandeza do time vermelho e branco. Não conseguiu, ainda mais depois que descobriu que um dos grandes ídolos da história do Inter havia sido o Tesourinha, que também teve passagem gloriosa pelo Vasco. Quanto à Martinha, até onde se sabe, deixou para trás aquela vida em preto e branco e, desde então, só enxerga Colorado.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Martinha, a colorada de última hora" foi publicado por Notibras no dia 11/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/conheca-martinha-a-colorada-de-ultima-hora/

Amigos díspares

    

          Creio que todos possuem aquele amigo covarde, que prefere dar uma boiada para não entrar numa briga e, ao contrário daquela frase popular, também oferece outra boiada para sair de qualquer pendenga. Pois bem, no meu caso, o inimigo da coragem sou eu. Afinal, para que arrumar confusão, se a vida sem hematomas é tão mais prazerosa?

          Meu amigo Júlio é uma figura interessante. Ele, ao contrário de mim, é metido com essas coisas de artes marciais, enquanto sou afeito a esportes mais lúdicos como, por exemplo, adedanha. E, apesar dos gostos tão discrepantes, somos amigos desde os remotos tempos de criança, quando brincávamos no balanço ou na gangorra do parque no final da rua. Aliás, a mesma rua onde ainda residimos.

          Após tantos anos de convívio, o Júlio parece que não me conhece muito bem. É que, na semana passada, aconteceu algo conosco. Quer dizer, o lance ocorreu com ele, enquanto eu fui apenas um mero expectador de mais uma insanidade do meu amigo. Pois bem, lá estávamos nós dois no boteco do seu Aurélio, aqui mesmo no bairro, quando o instinto de galo de briga do Júlio não se conteve dentro das penas. 

          Dois trogloditas, desses que parecem que não saem da academia, ao passarem pela nossa mesa, deram aquela encarada. Para piorar a situação, um dos caras ainda esbarrou, certamente sem querer, na cadeira do Júlio, que não gostou. Pra quê? Ele quis porque quis tirar satisfação com aqueles homens muito maiores do que a maioria de nós, meros mortais. 

          Tentei trazer algo que meu amigo parece desconhecer, que é aquela dita cuja da razão. Não adiantou, pois ele tentou me convencer a acompanhá-lo naquela contenda sem qualquer sentido.

          — Vamos lá, cara!

          — Pra quê?

          — Vai deixar barato essa provocação?

          — Olha que o barato pode sair caro.

          — Tu é mesmo um frouxo, Roberto!

          — Não sou frouxo, Júlio. Apenas tenho noção da força que não possuo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Amigo díspares" foi publicado por Notibras no dia 11/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/julio-brigao-e-contido-pelo-pacificador-roberto/
  • O conto "Amigos díspares" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 17/2/2026.
  • https://www.notibras.com/site/amigos-dispares/

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O velho, o ipê e o novo amor

    

         Eustáquio, aos 74 anos, percebeu que já havia chegado o dia de guardar o luto pela perda da companheira de uma vida, que partira por conta desses acasos que, não raro, nos tomam por assalto. Há quase dois anos, ao atravessar a avenida mais movimentada da cidade, a velha teve um piripaque e caiu dura. Por sorte, o caminhão que vinha logo ali freou a tempo de não esmagar o frágil corpo da defunta. 

          Bizarrices à parte, o viúvo precisou abraçar a própria sina, já que ninguém o faria por ele. Não que fosse solitário, sem parentes e amigos. Não! Um ou outro gato pingado aparecia de vez em quando para visitá-lo, mas nada que durasse mais do que um par de horas, quando muito. Ademais, Eustáquio, por vontade ou teimosia, cismava em se manter distante da praça, onde os idosos costumavam gastar o pouco tempo que lhes restava em infindáveis partidas de dominó.

          Disposto a não entregar os pontos, abriu as janelas do apartamento sem pilotis na antiga quadra da Asa Sul. Olhou em volta e, então, se deparou com um ipê florido de amarelo. Foi o estopim para empurrar o homem para a rua. Quem sabe, naquele dia, não encontraria algum motivo para continuar respirando o ar seco de Brasília?

          Já na calçada, Eustáquio rumou para a padaria, onde resolveu se sentar numa mesa ao canto. Pediu uma xícara de café e dois pães de queijo. Enquanto aguardava pelas iguarias, notou uma senhora em outra mesa. Tentou puxar pela memória o nome da mulher, mas seu pensamento foi logo interrompido pela garçonete, que lhe serviu.

          Enquanto sorvia o café e mordiscava o pão de queijo, Eustáquio, do nada, se lembrou do nome da conhecida. Veridiana! Sim, um nome incomum por esses tempos repletos de Júlias e Carolinas. Seja como for, o sujeito tratou de se levantar e ir dar um olá para a amiga.

          O cumprimento logo se tornou prosa das boas. Eustáquio pediu mais duas xícaras de café e biscoitos sortidos para degustar com a companhia, que se revelou receptiva. E, por quase dois meses, a padaria se tornou ponto de encontro daqueles dois.

          Viúvos que eram, Veridiana e Eustáquio resolveram tentar a sorte e marcaram de assistir a um filme na tarde de quarta-feira, quando os cinemas são mais vazios. Era o prenúncio de que algo além de café e biscoitos sortidos pudesse vir a acontecer. Todavia, somente o tempo poderia afirmar.

            No dia combinado, Eustáquio, provavelmente inspirado pelas flores do ipê-amarelo que havia visto há algum tempo, resolveu vestir a camisa da seleção brasileira. Bermuda branca com bolsos para todos os lados, tênis e meias soquete e, para completar o visual, os óculos escuros de certa marca italiana. E lá foi o coroa para o prédio da amada, de onde pegariam um táxi até o cinema.

          Veridiana, assim que avistou o quase namorado se aproximando, fez cara de espanto. Eustáquio parece que não percebeu a fisionomia contrariada da mulher, até que aconteceu o seguinte interlúdio.

            — Por favor, Eustáquio! Não vá me dizer que você só tinha essa camisa?

            — Não gostou?

            — Óbvio que não!

            — Ué, por quê?

            — Você está parecendo um ovo estrelado.

domingo, 8 de setembro de 2024

Mentecapto até no sobrenome

     

       Pascácio e Pacóvio, cujo parentesco era nenhum, pareciam gêmeos, tamanha a coincidência do sobrenome que carregavam: Mentecapto. Coincidência ou artimanha do destino, aqueles dois estultos, que, dependendo do ângulo obtuso, poderiam ser facilmente confundidos por néscios, gastavam os ouvidos alheios com bobices sem tamanho. 

          Não se sabe ao certo se Pascácio e Pacóvio eram ineptos por natureza ou, então, a natureza os havia feito ignaros para que os dois tivessem uma sobrevida. Como mamãe sempre disse, sortudos são os tolos que desconhecem a própria tolice. Nem precisam buscar algo que não possuem e, por isso mesmo, são facilmente adestráveis.

          Mas não pense você que Pascácio e Pacóvio não possuíam utilidade. Aqueles dois eram ideais para o sistema se manter firme. Aceitavam tudo sem contestar, pois o mundo sempre fora daquele jeito e, reclamar, só traria problemas.

          O óbvio é óbvio. Deus ajuda quem madruga. Herança é meritocracia. O trabalho engrandece o homem. Pra que dar baculejo em branco, se as estatísticas mostram que só preto é bandido? 

          Senta! Sentou. Deita! Deitou. Rola! Rolou. Morto! Morreu. Deixou saudade.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Mentecapto até no sobrenome" foi publicado por Notibras no dia 8/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pascacio-e-pacovio-gemeos-apenas-no-sobrenome/

sábado, 7 de setembro de 2024

Pouco estudo, muito aprendizado

    

        Vovó não tinha muito estudo, mal sabia ler e escrever, mas era danada de ouvido. Captava aquilo que julgava ser importante e deixava o que era asneira de lado. Por conta de tamanha sapiência, era comum gente estudada ir procurá-la para consultas sobre a vida.

          Eu, que sempre fui a neta mais próxima, tive a oportunidade de presenciar alguns conselhos que minha avó dava para esse povo culto. Uma dessas pessoas era a dona Helenice, professora de química aqui em Recife. A mulher, de tantas vezes que me encontrava na casa de vovó, não raro, me trazia bolo de rolo.

          Quando a campainha tocava, era sempre eu que corria para abrir a porta. É verdade que, na maioria das vezes, não era a dona Helenice. Não importava, pois vovó sempre me disse para não perder a esperança. Aliás, quando ela me dizia isso, não era em relação aos mimos que a professora me dava, mas a todos os momentos que parecem tão ruins, que não conseguimos enxergar uma saída.

          — Ritinha, quando tudo parece perdido, ouça o canto de um passarinho, vá soprar bolhas de sabão, olhe pela janela, que logo você vai perceber que tudo tem solução. E, caso não encontre, está tudo bem. A vida tem dessas coisas.

          Só de recordar essas palavras da minha avó, me bate uma saudade danada. Todavia, voltemos à dona Helenice, que, naquele dia, estava se sentindo deplorável. Tanto é que meteu a mão na bolsa, retirou meu bolo de rolo e me entregou sem nem sequer me olhar nos olhos. Vovó, que não era boba, tratou de dar um abraço na amiga e a levou para a cozinha, onde foi preparar um chá de erva-cidreira.

          Enquanto a água fervia, a mulher desandou a falar sobre a culpa que sentia por não ter conseguido criar os filhos como o marido e ela planejaram. Maria Augusta, a primogênita, não queria fazer faculdade, mas se meter nessa vida incerta de atriz. Quanto ao Felipe, que sempre disse querer ser advogado que nem o pai, agora andava com ideia de se tornar veterinário. 

          Chá servido, dona Helenice bebericou e, com aquele olhar repleto de desolação, buscou as palavras da velha sábia. Não tardou, elas vieram para aplacar o coração aflito da professora, que saiu aquecido. O que vovó disse? Ainda me lembro.

            — Helenice, minha querida, a vida não é linha de montagem.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Pouco estudo, muito aprendizado" foi publicado por Notibras no dia 7/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/vo-apesar-do-pouco-estudo-tem-muito-aprendizado/

Marcio Petracco e o chá de corda

        

        Se aconteceu assim, não posso afirmar, mas creio que é tão boa história, que vale a pena contá-la, independentemente de verdades e mentiras. Afinal, como tudo que ocorre na vida, esses são os temperos que a tornam mais atrativa aos ouvidos curiosos, aflitos para não perder nem uma nota sequer. 

          Por falar em nota, que seja um dó ou um mi, quiçá um ré ou um si, lá estávamos o meu grande amigo Marcio Petracco e eu no cachorródromo do Tesourinha, aqui em Porto Alegre. Ele, famoso pelo virtuosismo musical, especialmente quando empunha a sua frenética guitarra nos palcos espalhados por este país; eu, um mero ajuntador de palavras, que, de vez em quando, consegue arrancar aquele sorriso faceiro da minha amada Dona Irene. 

          Segundo as críveis palavras do Marcio, ele, ainda guri de fraldas, passou por uma experiência que, certeira que nem flecha de Robin Hood, definiu seu destino. É que um notório violeiro gaúcho, de nome a ser preservado neste texto para salvaguardar a sua memória, talvez esquecida pelos displicentes de plantão, pousou na residência da família do meu companheiro de fartas prosas curiosas. Em todo caso, iremos chamá-lo de, vejamos, Telmo. 

          Gaúcho como tantos outros, o nosso Telmo era apreciador de chimarrão e, por conta desse hábito, gostava de carregar uma boa quantidade de erva no alforje. No entanto, o gajo também possuía um hábito que, com o passar dos anos, parece que se perdeu em algum canto: colocar as quarta, quinta e sexta cordas do violão em água quente para retirar a sujeira e deixar o som mais nítido. 

          E lá estavam o Telmo e os pais do Marcio agarrados numa prosa e degustando a erva especial. O músico, como de costume, retirou aquelas três cordas do violão e as deixou em infusão a quente dentro de uma xícara. Papo vai, papo vem, ouviu-se o choro do Marcio, talvez despertado pelo frio naquele junho de 1969.

          A mamãe do meu amigo, orelhas atentas que nem graxaim-do-campo, foi tomar conta da cria. A mulher tentou fazer com que a criança voltasse para o berço, mas o moleque estava mais agitado do que pianista de cabaré. Não teve jeito e, então, a dona da casa pegou o rebento no colo e voltou para continuar a prosa com o marido e a visita. 

          A conversa estava tão boa, que os adultos não perceberam quando o Marcio, certamente atraído pela xícara com as cordas, a derrubou sobre seu rosto. Por sorte, aquela quentura já se havia se transformado em agradável morno. Seja como for, o meu amigo acabou ingerindo boa quantidade do chá de corda e, parece, ficou inebriado por aquele sabor.   

No ano seguinte, mais precisamente no aniversário de dois anos do Marcio, dia 26 de janeiro de 1970, o pirralho começou a dedilhar um violão de lata de goiabada e não parou mais. E, como ele próprio gosta de dizer, sua ligação com a música é por causa daquele chá de cordas do Telmo. Se é verdade, não posso afirmar. No entanto, é assim que as lendas são forjadas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Marcio Petracco e o chá de corda" foi publicado por Notibras no dia 7/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/marcio-petracco-aprendeu-cedo-bebendo-cha-para-limpar-cordas-de-violao/

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Desassossegada até dizer chega

    

          Desassossegada? Enervada? Estressada? Certamente tudo isso e mais um tanto de inquietude, irritação e até frustração, que, nem com reza brava, davam conta do que era a perturbada Salete. A mulher, além de não levar a vida na maciota, atazanava a do marido, sem contar os respingos que, certeiros que nem flechas de Robin Hood, atingiam quem se atrevesse a cruzar seu caminho. 

           Quem não gostava da atitude da resmungona era justamente quem mais a conhecia. Martinha, que sofrera nove longos meses com a filha na barriga, penou muito mais quando a espevitada veio ao mundo. Mãe de primeira viagem, chegou a imaginar que tamanha sina era por conta de algo terrível acontecido em vidas passadas. Teria ela grudado chiclete na cruz? Antes tivesse criado o cinto de castigada. Quanto martírio por míseros minutos de luxúria.

           Martinha, sem ter a quem recorrer além do esposo, tratou de dividir a provação de criar a rebenta. Nada que fizesse a cria mais palatável, pois seria malcriada mesmo com as melhores babás. Diante de tal encruzilhada, o casal nem recorreu àquelas palmadas tão aclamadas naqueles tempos. Se o pau já havia nascido torto, não seriam chineladas que o fariam direito. Seja como for, parece que tal pensamento surtiu certo efeito, pois Salete, apesar do gênio terrível, sempre teve extremo amor pelos pais. 

           Não entendam carinho como forma de apaziguar uma mente nervosa. Não mesmo! Ih, esquece! Se a Salete se sentisse disposta a travar batalhas por ninharias, não se dava ao trabalho de parar diante da luta, ainda mais quando a guerra fosse das grandes. E o que aconteceu foi justamente naquele sagrado dia que boa parte das famílias ao redor do mundo se reúne para destilar veneno entre os seus. Sim, isso mesmo, no Natal. 

           Sem papas na língua nos dias comuns, não seria justamente nessa data especial que a Salete recolheria a peçonha para poupar a parentada. E tratou de atirar o engasga-gato para todos os lados, pois, segundo seu próprio pensamento, de água benta o mundo já estava calejado. No entanto, a despeito de todo sortilégio de impropérios, nenhum desconhecido pelos familiares, de tão acostumados com a rabugice da Salete, eis que a Martinha parece não ter gostado de algo que a filha disse sobre o Agnaldo, o genro.

           — Salete, minha filha, como é que você trata o seu marido assim? 

           — Mãe, deixa quieto, que me resolvo com o Agnaldo.

           — Deixo, não! Você deveria viver em paz com o seu esposo!

           — Mamãe, se eu quisesse paz, teria me casado com uma pomba branca.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Desassossegada até dizer chega" foi publicado por Notibras no dia 6/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/salete-se-quisesse-paz-casaria-com-pomba-branca/

O último romântico do Menino Deus

   

        Não sei se o romantismo saiu de moda ou se deu apenas uma cochilada. No entanto, para aqueles de ouvidos aguçados, ainda há espaço para seresteiros que se aventuram debaixo de janelas nas noites frias em Porto Alegre. 

          Pois bem, conheço um cavaleiro solitário, cujo violão é seu companheiro inseparável nessa estrada incerta da música. Seu nome? Daniel Da Getúlio. Não que Getúlio seja sobrenome, mas sim porque é justamente na avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, que o nosso herói costuma desfilar sua figura esbelta, cabelos grisalhos e bigode de responsa, como dizem os mais jovens. 

          Minha esposa, a famosa Dona Irene, costuma dizer que o Daniel é o último romântico do Menino Deus. É até algo curioso, pois o nosso bairro faz fronteira justamente com outro, Cidade Baixa, que é puro rock and roll. Inclusive é lá que mora outro músico gaúcho de talento invulgar, o meu amigo Marcio Petracco.

          Mas deixemos de lado o bairro do Marcio e voltemos ao Menino Deus, que respira romantismo com as músicas autorais do Daniel. Ele é a prova viva de que a capital gaúcha oferece espaço para vários gêneros musicais, inclusive às melodias que, outrora, embalaram o país através das vozes da saudosa Rádio Nacional. Obrigado, Daniel Da Getúlio!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O último romântico do Menino Deus" foi publicado por Notibras no dia 6/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/daniel-da-getulio-ultimo-romantico-do-menino-deus/

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

A banca do Guima

     

            As coisas que acontecem aqui no bairro talvez sejam como as que ocorrem por aí ou em qualquer outro lugar. Se bem que acho difícil ter outra banca de jornal que nem a do Guimarães, vulgo Guima. Não que seja uma banca muito diferente das que conheço ou que já passei em frente. Por lá os jornais ficam pendurados ou em pilhas, assim como aquele monte de revistas, algumas com tarjas pretas para não espantar a freguesia ou, então, para atiçar outros tantos a mexerem nos bolsos e comprá-las por módicos reais. 

          O que torna o local especial é justamente o público. Aparece cada figura, que, não raro, me pergunto se um tipo ou outro não saiu da doentia imaginação de um roteirista desses filmes B. E, por conta dessas peculiaridades, o Guima não perdoa e sai colocando apelido em todo mundo.

 Um deles é um velho quase gagá, que só conheço por Bin Laden. Não creio que ele seja um terrorista, mas a alcunha deve ser porque o cara é bem alto, magro e meio encurvado. Aliás, com essa curvatura toda, já até pensei em um apelido mais apropriado: Pipa. Se bem que alguém poderia supor que fosse por causa daqueles barris de conhaque ou outra bebida. Melhor Bin Laden mesmo.

          Meio distraído, Bin Laden, não raro, esquece a carteira, o isqueiro ou o maço de cigarros na banca. Mas o que aconteceu anteontem não foi por causa de esquecimento, e sim por excesso de lembrança. É que o coroa, inocente, puro e besta, acabou se confundindo e pegou as chaves da banca. 

          Na hora, ninguém percebeu essa atrapalhada. Foi só quando a noite adentrou a rua que o Guima se deu conta do ocorrido. Procura daqui, procura dali e até de acolá, ele começou a se desesperar. Como é que iria fechar o comércio e poder ir para o lar, doce lar sem precisar se preocupar com os ladrões da região? Foi aí que ele se lembrou que o local tem câmeras.

          Após quase uma hora correndo a filmagem do dia, Guima se deparou com o Bin Laden pegando o chaveiro sobre o balcão e o colocando no bolso da calça de tergal. No entanto, o problema não estava resolvido. É que o Guima não sabia onde o velho morava. E agora? 

          Pensamento a mil, Guima se lembrou de algo que, era possível, poderia ser a ponta de uma investigação. É que ele tinha anotado no caderninho de devedores o número do telefone do Gavião. Desse modo, lá foi o Guima virar as páginas até que encontrou o tal número. Ligou e, após algumas tentativas frustradas, conseguiu falar com o cliente.

          — Boa noite, Guima! Não sei onde o Bin Laden mora, mas acho que o Doutor Pocotó sabe.

          — Tem o telefone dele?

          — Não tenho, mas sei que ele mora na rua da Forca. Só não sei o número.

          — Valeu! Vou dar meus pulos.

          Sem melhores alternativas, lá foi o Guima para a tal rua. Precavido que era, antes pegou o Zé Boião, antigo freguês, que passava naquela hora em frente à banca. 

          — Zé Boião, preciso da sua ajuda. Toma conta da banca, pois tenho que achar o Bin Laden. Ele pegou as minhas chaves.

          Guima ligou a lambreta e cometeu todas as infrações possíveis no trânsito caótico de Salvador. Chegou ao local, mas precisava descobrir onde é que o Doutor Pocotó morava. Perguntou para inúmeras pessoas que caminhavam, até que uma senhora, cuja aparência lembrava a da Dona Canô, indicou um local.

          — Moço, não conheço nenhum Doutor Pocotó, mas, pelas características, deve ser o seu Gumercindo. Ele mora ali naquela casa da esquina.

          E lá foi o Guima tocar a campainha da tal residência. Não demorou, um homem gordo e careca abriu a porta. Era o Doutor Pocotó, ou melhor, o seu Gumercindo. Por sorte, ele sabia onde Bin Laden residia: rua do Paraíso, que ficava ali perto.

          De volta para a lambreta envenenada, Guima não demorou a estacionar em frente à casa do Bin Laden. Este, envergonhado pelo transtorno causado, entregou as chaves para o dono da banca, que teve que recusar o prolongamento da prosa, pois precisava liberar o Zé Boião.

          Guima acelerou ainda mais a lambreta e, já na esquina, percebeu que o Zé Boião estava sentado na cadeira em frente à banca, latinha de cerveja numa das mãos, pacote de salgadinhos na outra. O dono da banca não teve como reclamar pelo prejuízo causado pelo vigilante de última hora, que, antes de se despedir, tratou de colocar debaixo do braço uma daquelas revistas com tarja preta.

          — Guima, se precisar, é só chamar!

  • Nota de esclarecimento: O conto "A banca do Guima" foi publicado por Notibras no dia 5/9/2024.
  • https://www.notibras.com/site/bin-laden-poe-guima-dono-da-banca-em-confusao/