sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Avó sapiente

    

        A velha, assim que abriu a porta, notou que a neta, no viço dos 19 anos, estava acabrunhada no sofá. Olhos marejados, a garota tentou disfarçar passando o dorso das mãos no rosto. Para tornar o teatro mais convincente, simulou um espirro, que soou tão falso, que até ela riu.

          — Ah, vó, essa poeira tá atacando de novo a minha alergia.

          — Que poeira, Maria Tereza?

          — Acho que vou passar um pano na casa.

          A avó encarou a parenta e sorriu.

          — Namorado?

          — O que?

          — Tá assim por causa do namorado?

          — Não, vó!

          — Tá bom, mas não precisa gritar. Sou velha, mas ainda não sou surda.

          — Desculpa, vó.

          — Vem cá e me dá um abraço.

          Maria Tereza, enlaçada, recostou o rosto entre os seios da matriarca. Não tardou, desandou a chorar. 

          — Vó, isso não é justo!

          — Do que você tá falando, minha filha?

          — Mamãe.

          — O que tem a sua mãe?

          — Ela não entende as minhas vontades.

          — Todas temos as nossas vontades, Maria Tereza.

          — É que a minha mãe fala que não sou uma boa cristã, pois não cumpro com os ensinamentos da Bíblia. Que não posso viajar sozinha com o Francisco, pois não somos casados.

          — Posso te falar uma coisa?

          — Pode.

          — Não se sinta culpada. Religião é um imenso self-service. 

          — Como assim, vó?

          — É que você se serve com o que te apetece e ignora o resto. 

          A menina olhou para o rosto enrugado da avó e as duas se abraçaram por mais um tempo.

          — Ah, vó, muito obrigada! Só a senhora mesma pra me fazer sorrir.

          — Vó é pra isso, Maria Tereza.

          A jovem agradeceu novamente e, quando já ia se despedir, voltou os olhos para a idosa, que lhe disse:

          — Só mais uma coisinha, minha filha.

           — O que, vó?

           — Lembre-se de se proteger.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Avó sapiente" foi publicado por Notibras no dia 8/11/2024.
  • https://www.notibras.com/site/maria-tereza-queixosa-aprende-mais-uma-sobre-saidinha-com-namorado/

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Amor e discórdia

       

          Soraia e Adriano, a despeito de quase duas décadas juntos, ainda conseguiam sentir fagulhas da fogueira que os tomou quando jovens. Para quem os conhecia, era nítido o amor do homem pela esposa, que até concordava, mas gostava de provocar intriga para não deixar a peteca cair. Dessa forma, um "Te amo!" era algo raro de sair dos lábios da mulher.

         — Enquanto o Adriano adoça a sobremesa, sou eu que jogo sal no almoço - Soraia costumava falar para as amigas. 

          Nessa mistura de sabores, aqueles dois pareciam se entender. Tanto é que, até onde se tem notícias, nunca se ouviu um "ai" do sujeito, mesmo porque todas as discussões eram eternos monólogos da Soraia. Livre, leve e solto, Adriano era o tipo que levava ao pé da letra a música de Eri do Cais e Serginho Meriti, cantada pelo Zeca Pagodinho: "Deixa a vida me levar (vida, leva eu)..."

          Sempre na busca por alguma discórdia, Soraia tratou de colocar câmeras escondidas em todos os cômodos do apartamento do casal. Ela queria pegar alguns podres do marido, que devia ter ao menos unzinho. Afinal, ninguém é perfeito neste mundo de Deus. E não seria justamente o Adriano exceção à regra. Ou seria?

          Soraia inventou uma desculpa para passar a manhã fora de casa. Voltaria na hora do almoço. Como era domingo, os pombinhos costumavam comer lá pelas duas horas da tarde. A cozinha naquela manhã seria toda do Adriano, que abraçou a ideia de preparar estrogonofe de camarão.

          Depois de bater perna pelas ruas, eis que Soraia chegou ao lar, doce lar, quando o esposo já estava arrumando os talheres sobre a mesa. Para enfeitar, o danado ainda arrumou um lindo vaso com duas rosas vermelhas entrelaçadas. Ela pendurou a bolsa no gancho da porta e foi ao banheiro lavar as mãos. 

          Diante do espelho, ela se questionou:

        —O que será que o Adriano aprontou?

     Como não recebeu resposta satisfatória, retornou à sala, onde o marido a serviu. O casal degustou aquela iguaria.

          — Está do seu gosto, amorzinho?

          — Hum... Um pouco mais de sal seria bom.

          Adriano fez menção de se levantar, mas foi contido pela esposa.

          — Deixa! Eu pego!

        Na cozinha, ela ainda guardava o gosto da primeira garfada: ”Que delícia! O desgraçado sabe mesmo cozinhar.” Retornou para a mesa e se sentou.

          — E o sal, minha vida?

          — Me lembrei que o cardiologista falou pra eu diminuir o sal. Pressão alta. Lembra?

           — É verdade. Você está certa, meu bem.

          Passaram o resto do dia juntos. Assistiram quase toda a primeira temporada de uma série argentina, "Meu querido zelador", com o astro Guillermo Francella. Enquanto Adriano gargalhava, Soraia simulava um sorriso aqui, outro ali. 

          Lá pelas dez da noite, o casal foi se deitar. Adriano adormeceu logo em seguida, momento em que a mulher aproveitou para olhar a gravação das câmeras instaladas por toda a residência. Para sua surpresa, o marido levantava e abaixava a tampa do vaso para fazer xixi. Ao som de Cauby Peixoto, dançava abraçado a uma fotografia dela. Varria todo o apartamento e passava pano e, para piorar, ainda lavava a louça melhor do que Rita, a empregada. 

           Já desistindo de buscar algo que comprometesse a conduta ilibada do esposo, eis que Soraia abriu aquele sorriso. Sorriso mudo, é verdade, mas apenas para não acordar o Adriano, que roncava ao seu lado. Finalmente, ela havia encontrado o que tanto procurava: um deslize do cônjuge. Pois não é que o dito cujo bebia leite direto da caixinha?  

              Ah, agora, ela tinha um trunfo.  Sábia que era, saberia usá-lo no momento oportuno. Soraia virou-se para o lado e disse bem baixinho: 

              — E como ronca o pilantra!

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Vida de cão

  

          Tenho cá meus três, quatro anos. Na verdade, não sei direito, pois a vida nas ruas não me permite contar o tempo. Preciso garantir o prato de todos os dias, mesmo que seja algum resto que os ditos humanos, tão generosos comigo, deixam nas latas de lixo.  Quer dizer, a maioria parece me ignorar, enquanto outros fazem questão de demonstrar todo o asco que sentem quando passam por mim.

          Quem eu sou? Não tenho nome, porém, se você me chamar, olho desconfiado, mas, dependendo da sua intenção, dou alguns passos em sua direção e me deixo acariciar por suas mãos. Em outros casos, saio que nem um cachorro desembestado pelas ruas da cidade. 

        Um cachorro! Justamente o que sou. Vira-lata de quinta geração, como mamãe sempre me disse, embora ela sempre afirmasse que tínhamos linhagem de nobres, que obviamente se perdeu ao longo de cruzamentos indevidos. De lá para cá, a coisa desembestou, que é difícil imaginar que corre em minhas veias sangue de Dogue de Bordeaux. 

           O meu humano preferido é o Ivanildo, parece que dorme na rua há muito tempo. Apesar de não ter muita coisa para dar, ele me oferece o que me conforta mais o coração: amor. Isso sem falar nas inigualáveis coxinhas que sempre ganhamos quando fazemos ponto em frente à padaria do Rogério. Não sei se por causa dos meus doces olhos castanhos ou, então, por conta das ataduras que cobrem metade da perna do meu amigo. 

           Certa feita, uma dona armou o maior barraco com o Ivanildo. Falou um monte naquela voz com que humanos estão acostumados: gritaria. O meu companheiro nem deu ouvidos e me chamou para um canto. Mal sabia eu que aquela mulher estava falando de mim.

             Alguns dias se seguiram, e a tal senhora retornou, agora acompanhada de uma trupe, e me levou à força para um local cheio de outros cachorros, gatos, alguns cavalos e até um jegue. Fui obrigado a tomar quatro banhos por mês. Fiquei cheirando a rosas. Um horror! Logo eu, que só tomava banho quando chovia. Sem falar naquele rango sem sabor.  

               Não sei se foi saudade do Ivanildo ou das coxinhas, mas fugi depois de quase um ano. Corri de volta para a rua, que é o meu lugar. Não encontrei o Ivanildo. Talvez aquelas pessoas o tenham levado para uma prisão que nem a que eu fiquei. Seja como for, ainda aguardo pela volta do meu parceiro, que deve estar sentindo muita saudade das coxinhas e do meu nariz gelado.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Uma conversa com o Raul

    

        Acordei para vomitar. Peguei um balde e chamei o Raul até onde não podia mais.  Certamente a minha mulher ouviu, mas seria indelicado pedir para que ela enfiasse o dedo na minha goela. Na manhã seguinte, tivemos a seguinte conversa:

            — Vomitei.

            — Eu ouvi. Bebeu?

            — Não bebo. Você sabe que não bebo.

            — Sei disso... Mas bebeu?

            — Você só deve estar de brincadeira, Maria Lúcia.

            Minha esposa sabe que só a chamo pelo nome composto quando estou enfezado.

            — Sabe o Joaquim?

            — Que Joaquim?

            — O marido da Anelise.

            — Sei. O que tem ele?

            — Ele também não bebe.

            — E daí?

            — Daí que bebeu e vomitou durante toda a noite de sábado.

            — Mas eu não bebo!

            — Ele também não bebia.

            — Já vi que você tirou o dia pra me torrar a paciência.

            — Teve diarreia?

            Quando já ia responder que não, eis que me deu um revertere na barriga e corri para o banheiro a tempo de salvar o resquício da minha dignidade.

            Após provocar todos os sons inimagináveis, finalmente me senti aliviado. Aproveitei e tomei uma ducha. Voltei para o quarto, e a minha esposa, com aqueles olhos repletos de pena de mim, profetizou.

                — Virose!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Uma conversa com o Raul" foi publicada por Notibras no dia 5/11/2024.
  • https://www.notibras.com/site/340180-2/

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Adágio e seu ouvido absoluto

   

       Adágio Allegro, desde menino, fora diagnosticado com algo raro. Não que fosse doença, porém, após alguns anos, passou a deixar a mãe colérica. Acredite ou não, o moleque havia nascido com ouvido absoluto. Isso mesmo! Absoluto!

          Por conta de tal característica, Adágio conseguia não somente distinguir todos os sons, mas também apontar, certeiro como as flechas impossíveis de Robin Hood, a nota musical. Todavia, não pense você que o menino falava apenas "dó". Não mesmo!  Tacava logo "dó menor sustenido!"

          De tão afamado ficou, alguém teve a providencial ideia de apelidá-lo de Diapasão. A princípio, Adágio ficou furioso e, dizem, só parou de berrar quando percebeu o som do próprio choro em si bemol menor. No final das contas, acabou gostando da alcunha, que percebeu ser sua sina. 

          Já aos 10 anos, Adágio havia se tornado músico respeitado na banda do bairro. Tocava de tudo, desde flauta até trombone, passando por trompete e clarinete. Clarinete, sim, senhor! O guri era um prodígio. 

          Aos 12, não teve jeito de segurar o ímpeto do pirralho. Queria porque queria ser o maestro. E quem seria besta em não acatar tal desejo? Afinal, Afonso, que há quase seis décadas comandava aquela trupe, estava sem forças para manter a batuta firme. Resultado: aposentaram o velho. 

          Nas mãos firmes de Adágio, a antes banda de bairro, agora havia se transformado em uma orquestra. A fama correu a cidade inteira, até que chegou aos ouvidos do prefeito e, em seguida, aos do governador. Todos desejavam tirar uma casquinha da fama daquele prodígio. Diziam até que havia gente importante do exterior querendo levá-lo embora. 

          Pois foi justamente nesse tempo em que o governador, em conluio com o prefeito, pensou numa ideia quase infalível para manter Adágio na região. Uma namorada! Sim, isso mesmo! Isso porque, até onde se sabia, o rapaz, agora com 20 anos, estava solteiro. Solteiro e desimpedido.

          Os políticos inventaram um concurso de beleza para, assim, escolher a futura namorada de Adágio. Obviamente, ninguém sabia que aquele evento era para tal. Seja como for, houve centenas de inscrições, mesmo porque a premiação não era das piores e, além disso, a vencedora receberia um troféu, sem contar a faixa de rainha da beleza. 

          Para encurtar a história, o concurso aconteceu logo no mês seguinte. As finalistas, uma mais linda do que a outra, se esforçaram além da conta. Entre loiras e morenas, ganhou a única ruiva. Jéssyka! Uma belezura!

          Dois dias após a coroação, Jéssyka foi convidada para uma recepção no amplo salão da sede do governo estadual. A moça, assim como todas as rainhas, foi ladeada por algumas damas de companhia, que foram escolhidas pelo governador, que, esperto que só, mandou trazer as quatro últimas colocadas no concurso. Dessa forma, pensou, a beleza da rainha ficaria ainda mais evidente. 

          Adágio também foi convidado para a festança. Ele, além de comandar a orquestra naquele evento, iria se sentar à mesa com a rainha da beleza. Tudo arranjado, era questão de tempo para que os dois pombinhos se sentissem atraídos um pelo outro. 

          Conversa vai, conversa vem, Adágio, sempre com os ouvidos atentos, parece não ter gostado da voz esganiçada de Jéssyka. Ademais, a rainha da beleza também parecia ter outros interesses além de manipuladores de batutas. Dava até para ouvir os pensamentos do governador e do prefeito, que, antes confiantes, agora carregavam só lamúrias. 

          Jéssyka, cuja soberba lhe havia subido à cabeça, decidiu se levantar e ir embora. Aquela situação era uma afronta para uma rainha. Não uma rainha qualquer, diga-se de passagem. Rainha da beleza! Pois se levantou e, apenas com um olhar para as suas damas, disse para que todas a acompanhassem. E foi o que fizeram, mas ocorreu um incidente com a Berenice, justamente a última colocada do concurso. 

          Assim que a Berenice ergueu seu corpo ligeiramente roliço, eis que se ouviu um som vindo do seu orifício mais ao sul. Imediatamente, olhares repreendedores surgiram de todos os lados. A moça, sem ter onde enfiar o rosto de tão envergonhada, foi salva por Adágio, que ficou encantado. Tanto é que, após seis meses de namoro, os dois ficaram noivos e, parece, vão se casar no próximo ano. 

          Percebo que você ainda está aqui me lendo. Na certa, está curioso para saber como é que o Adágio salvou a Berenice daquele imbróglio. Pois bem, eis as palavras do gajo:

— Nem mesmo um saxofone consegue fazer um fá sustenido tão bonito. 

domingo, 3 de novembro de 2024

O profeta a lápis

      

       Gervásio, tipo devoto que era, tinha o maior medo de ser descoberto. Não que ele roubasse ou matasse ou cometesse algum outro crime, isto é, pelo menos não aqueles que constam do Código Penal. No entanto, se seus atos não poderiam ser julgados pela justiça do homem, ele não tinha tanta certeza em relação ao julgamento divino.

          O pecado do sujeito era a paixão por escrever contos repletos de maldades. Mas não pense você que fossem histórias depravadas, mas de terror. Aliás, não era exatamente em terror que se encaixaria suas preferências. Horror seria a palavra mais apropriada, tamanho o banho de sangue e atrocidades. 

          O contista também não gostava de teclar suas tramas, seja no computador, seja até mesmo na antiga Remington, relíquia herdada do avô. Preferia fazer apontamentos a lápis em folhas soltas, que eram trancadas aos calhamaços no fundo do armário de ferro no galpão, repleto de quinquilharias, da propriedade. 

          Dono da padaria mais frequentada do bairro, Gervásio logo percebeu que tinha jeito com o público. Tanto é que, não tardou, começou a frequentar com mais perseverança a igreja. Não que fosse assim tão religioso, era mais situação de aprender melhor com o pastor Ulisses como manejar os fiéis. De tão sagaz, logo se tornou um dos oradores e, dali a pouco, líder do louvor.    

          Tamanha eloquência, Gervásio começou a causar inveja no pastor, que percebeu que as ovelhas, as suas ovelhas, e por quem ele havia tanto lutado, estavam mais interessadas nas palavras do seu substituto. Por isso, Ulisses, que andava econômico nos cultos, começou a esticá-los até onde a voz permitia. 

          Fumante inveterado, o pregador andava quase sem fôlego e com a voz tão maltratada, que as palavras quase não eram entendidas pelos fiéis. Por conta desse imprevisto, ele não teve escolha e cedeu cada vez mais espaço para Gervásio, que tomou gosto pela coisa. 

          Nessas idas e vindas do titular da igreja, eis que o substituto, talvez na ânsia de se apossar de vez do púlpito, resolveu colocar o nome do adversário em seus contos. Obviamente, seria personagem com destino não muito feliz. Lápis e papel na mão, começou a escrever sofregamente.

            "... e assim, Ulisses, não suportando mais a dor de continuar vivendo, resolveu se encontrar com a morte. Pegou a faca mais cega na gaveta cheia de aranhas da cozinha e começou a cortar a própria garganta. A dor foi tamanha, mas Ulisses sabia que suicídio era pecado e, por isso, penitenciava-se à dor lancinante, enquanto o sangue jorrava pela parede e o piso..."

           Após o ponto final, Gervásio se sentiu tão regozijado, que adormeceu sem se dar conta. Acordou na manhã seguinte, quando constatou que havia perdido a hora de abrir a padaria. Saltou da cama para tomar um banho ligeiro, mas não o fez, pois, ao passar pelo banheiro, gostou do reflexo do seu rosto no espelho. Sorriu. Que os clientes ficassem sem pão naquele dia!

          Preparou o costumeiro café sem açúcar de todas as manhãs e foi degustá-lo na varanda. Ficou por ali até esvaziar a garrafa térmica. Quando já ia se levantar, uma procissão chorosa surgiu carregando um caixão. Gervásio conhecia aquela gente e foi em sua direção. Nem foi preciso perguntar.

                — O pastor Ulisses, irmão Gervásio.

                — O que tem ele, irmã Cremilda?

                — Uma tragédia!

               Em soluços, a mulher não conseguiu dizer o que teria acontecido, até que Lucrécia, talvez a única com nervos firmes, desembuchou.

                — O pastor Ulisses se matou. Cortou a garganta com a navalha enquanto fazia a barba. Sangue pra todo lado. Não há cristão que resista àquela sangria toda, irmão Gervásio.

               Gervásio, que já havia aprendido as artimanhas da desfaçatez, conseguiu esconder a felicidade atrás da estampa de lamúrias. Tudo fingimento. Conseguiu enganar a todos. 

                     Tomada pela emoção, as pessoas arrastaram Gervásio para o velório. Cínico como ele só, aceitou a missão de proferir as últimas palavras para o morto. 

                O discurso foi longo e comoveu a plateia. Não restava dúvida de que Gervásio, ou melhor, o pastor Gervásio seria o líder religioso daquela chusma. E foi o que aconteceu a partir de então.

                Gervásio, há quase seis meses no novo ofício, decidiu terceirizar a padaria, já que logo percebeu que a nova mercancia era mais rentável. O problema foi que Lucrécia, que de boba não tinha nem a cara, notou que a soma dos dízimos havia diminuído consideravelmente. Não por causa das doações, que até aumentaram. A situação era outra.

             A mulher, que enfrentava qualquer um à unha, foi ter uma conversa com o pastor. O salafrário tentou desconversar, mas foi encurralado. Apavorado, não tinha outra solução a não ser recorrer ao dom de selar o destino dos que cruzavam seu caminho. 

                    Gervásio, assim que chegou ao lar, doce lar, tratou de pegar papel e lápis. Não tardou, já tinha um conto prontinho.

                ",,, descuidada que era, talvez pela cachaça de má qualidade, Lucrécia, na sacada do apartamento 603, onde residia desde que enviuvou, tropeçou. Pobre mulher, despencou do sexto andar. Espatifou o crânio, miolos espalhados pela calçada..."

           O pastor adormeceu como um anjo. Sonhou, é verdade, tamanho o sorriso estampado no rosto ao despertar. Todavia, não conseguiu se recordar do que havia sonhado. Olhou o relógio e percebeu que já havia passado das dez horas. Tratou de tomar uma ducha antes de tomar o costumeiro café sem açúcar. 

                 Vestiu um terno preto na certeza de que iria fazer a oração no velório da finada irmã Lucrécia. Pegou a bíblia sobre a mesa da sala e saiu. Que Deus tivesse piedade daquela pobre alma, pois do pastor não deveria esperar nada além do que palavras jogadas ao vento. 

                 Gervásio estranhou a falta de procissão na rua. Será que o corpo da inimiga não havia sido encontrado? Improvável! Ele tinha escrito que os miolos estariam espalhados pela calçada. Impossível tamanha cena passar despercebida.

               Decidido a desvendar aquele mistério, foi até o edifício onde morava a mulher que já deveria ter se tornado defunta. Na calçada, a calçada onde ao menos as manchas de sangue ainda deveriam estar por ali, Gervásio nada encontrou, a não ser cacos de vidro, certamente do copo de cachaça da irmã Lucrécia.

            Inconformado, o sujeito olhou para a sacada do apartamento da adversária. Só teve tempo de arregalar os olhos. Lucrécia despencou do sexto andar. Por sorte, lá estava o pastor, que amorteceu a queda da mulher, que, por milagre, se salvou praticamente ilesa. Quanto ao pastor Gervásio, ele não pode ver seus miolos espalhados na calçada. Que cena horripilante!

sábado, 2 de novembro de 2024

1977

      

        Pois é, enquanto pairam dúvidas se o Brasil vai ou não para a próxima Copa, eis que o meu companheiro de Notibras, o impagável Wenceslau Araújo, há alguns dias, me veio com essa:

          —Edu, creio que o Japão será uma pedreira na próxima Copa do Mundo.

          — O Japão?

          — Pois é, o Japão. Tudo por conta da passagem do Zico por lá.

          Creio que o Wenceslau e eu, que somos quase da mesma geração, caso não fosse por uma década ou mais, nunca veremos o Japão ganhar uma Copa. Mas o que ele me disse me reportou ao meu tempo de menino, quando o Zico ainda corria pelos gramados do Maracanã. É que eu, lá pelos idos de 1977, acreditava piamente que ele e o Roberto Carlos fossem a mesma pessoa.  

          E antes que alguém diga que sou um louco, faço questão de lembrá-lo de que, naquele tempo, eu estava com 10 anos, e as imagens da televisão não eram tão nítidas como são hoje. Mas eis que a minha esposa, a famosa Dona Irene, passou agora aqui e deu aquela esticada de pescoço sobre meu texto.

          — O Wenceslau bebeu? Que mané Japão vai ser pedreira o quê? E que história é essa do Zico ser o Roberto Carlos? Melhor apagar isso, Edu, antes que alguém diga que você endoidou de vez.

          — Amorzinho, acho que a Malulinha está te chamando.

          — Edu, você sabe muito bem que a Malulinha está na creche. Você a levou. Aliás, você está bem? 

          — Tô.

          — Hum, você pode comprar um xarope pra mim? A minha garganta está arranhando.

          Vida de escritor não é fácil. As pessoas pensam que os pensamentos são guardados em gavetas no cérebro. Se forem, já perdi um monte no meio das pilhas de roupa. Seja como for, preciso ir à farmácia antes que a terceira guerra aconteça justamente aqui no meu lar, doce lar. 

          Finalmente de volta, preciso relembrar o que escrevi. O ano era 1977... Caramba, quanto tempo! Parece que essa época nem existiu! Se eu falar para as minhas filhas, elas vão achar que estou ficando biruta, pois não irão acreditar que eu já tive 10 anos, isso em 1977. E que nessa época ninguém imaginava que um dia os LPs se tornariam obsoletos, que a Gelato iria falir...

Ainda me lembro das pessoas falando que um dia os Beatles iriam tocar juntos novamente. Não, isso foi mais tarde, pois, nessa época, eu nem sabia o que eram, ou melhor, o que havia sido os Beatles. Aliás, de música, eu só conhecia "O dia em que a Terra parou",  "Eu nasci há dez mil anos atrás", ambas do Raul Seixas, além de uma ou outra do Martinho da Vila, de quem meu pai era fã. 

          Também tinha "Jailhouse rock", que um cara se esgoelava na vitrola lá de casa, e me causava arrepios. Depois fui saber o seu nome, mas isso também gerou mais uma confusão na minha mente. É que a minha mãe, ainda em 1977, teve o seguinte interlúdio comigo.

          — Você viu?

          — O quê?

          — O Elvis morreu.

          — Qual deles?

          — Como assim? Ué, só existe um Elvis!

          — Sério?

          — Você está bem?

          — Mas não são dois?

          — Óbvio que não!

          — Pelo que sei, tem aquele dos filmes e aquele outro que usa roupa branca... O que tem o cabelo grande e aquelas coisas nas orelhas.

          — Costeletas!

          — Que nem as que a vovó faz?

          — Sua avó faz costelas!

          — Eu gosto.

          — De costeletas?

          — Das costelas da vovó.

          Por falar na minha avó, seus pais eram calabreses, que é a região do bico da Itália. Por isso, lá em casa, sempre torcíamos para a seleção italiana quando o Brasil não estava em campo. Mas vovó era apaixonada mesmo pelo Botafogo. Até hoje pairam dúvidas por que me tornei botafoguense, se foi por influência dela ou, então, pelo espírito contestador.

          Como meu pai dizia, enquanto o Vasco é o time do povo; o Fluminense, da elite; e o Flamengo, da massa; os rebeldes torcem pro Botafogo. Que seja assim, mesmo porque papai era um homem sábio e entendia das coisas. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "1977" foi publicada por Notibras no dia 2/11/2024.
  • https://www.notibras.com/site/viagem-no-tempo-com-wenceslau-vai-de-elvis-a-japao-campeao/

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Quase um dia como outro qualquer

Não são todos os dias, mas quase sempre acordo de boa. Ao contrário da minha irmã, não tenho filhos, não tenho marido, não tenho cachorro, não tenho nem mesmo uma mísera planta para me preocupar. É verdade que, não raro, eu me descabelo com as contas para pagar no final do mês. Tudo por conta das vitrines das lojas, que me atiçam o desejo de consumir qualquer bobagem. 

          Por sorte, ganho o suficiente para tais mimos. Também faço questão de fazer duas ou três viagens anuais, sem contar aquelas escapadelas para locais aqui perto. Sou uma privilegiada, como podem perceber, e até gosto de falar para a minha irmã: 

          —Desculpa aí!

          Ou, se preferir, aprendi uma recentemente com o marido da minha grande amiga, a Dona Irene. Ele, toda vez que me conta algo legal que conquistou, fecha a mão esquerda, mas com o dedo mindinho se mexendo que nem minhoquinha, e solta essa: 

          — Morde aqui de inveja!

          Hoje, ao contrário da maior parte dos dias, não acordei de bom humor. Mesmo assim, jurei que guardaria todo o meu azedume na gaveta. E estava me saindo dignamente bem, até que resolvi ir ao supermercado.

          Mal cheguei, coloquei algumas coisas no carrinho. Quase chegando ao caixa, vi aquelas roscas de polvilho. E lá fui pegar uma. Gente, por que estou mentindo? Peguei logo três. Nisso, um senhor, que devia estar beirando os 90 anos, puxou conversa comigo.

          — Ei, moça, isso é bom?

          — Ah, eu gosto.

           — Não perguntei se você gosta, mas se é bom.

          Não sei o que me deu, mas na hora me lembrei do gesto do marido da Dona Irene e, então, fiz uma versão nada politicamente correta. Fechei a mão, é verdade, mas, em vez de ficar mexendo meu dedo mindinho, dei aquela estirada no maior de todos. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Quase um dia como outro qualquer" foi publicado no Notibras no dia 1º/11/2024.
  • https://www.notibras.com/site/quase-um-dia-como-outro-qualquer-nao-fosse-um-chato/