quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Tereza, Armandinho e o angu

   Adolescência é uma fase complicada para praticamente todos os mortais e, na verdade, não foi muito diferente para Tereza, pouco mais rechonchuda que a maioria, óculos fundo de garrafa, além das bochechas repletas de erupções conhecidas vulgarmente como espinhas. No entanto, a despeito de tais percalços, ela não tirava os olhos do Armandinho, que, caso desejasse ser ator, poderia facilmente interpretar qualquer galãzinho de seriado infantojuvenil.

    Veja você o que aconteceu certo dia! Pois lá estava a Tereza na festinha de formatura da turma, jogada num canto, como se tivesse sido esquecida ali. Ninguém a notava, muito menos o Armandinho, que recebia todos os olhares femininos, além de despertar a inveja nos rapazes. 

    Seja como for, pela primeira vez em toda sua existência, Tereza criou coragem para, finalmente, ir ao encontro ao seu amado. E foi! Foi mesmo, mas tudo aconteceu como o previsto por quase todos, menos pela pobre garota. Gente, que fora a Tereza levou! Além de caras e bocas, o Armandinho ainda foi cruel, como praticamente todo adolescente sabe ser.

    _ Se enxerga, cara de pipoca!

   Todos caíram na gargalhada, o que contribuiu ainda mais para aumentar o posto de herói da galera. Tanto é que esse foi o assunto do dia seguinte, da semana inteira, quase perdurante pelo restinho do ano. O trauma foi tão grande, que Tereza desejou sumir do mapa. Não necessariamente do mapa, mas daquela rua. Por sorte, acabou passando no vestibular e até mudou de cidade. 

   Os anos se passaram, levando consigo aquelas marcas terríveis da adolescência. Tereza, agora com seus pouco mais de 30 anos, havia montado sua própria empresa de construção civil. Transformara-se numa mulher muito bonita, ainda mais porque o dinheiro havia dado uma forcinha para a natureza. Tereza poderia ser chamada de mulher que para qualquer trânsito. Se bem que essa frase não é a mais apropriada para se dizer em São Paulo, onde ela morava, já que o trânsito por lá, de tão caótico, vive parado.

   Os dias corriam ligeiros na capital paulista, mas nem por isso Tereza deixava de curtir as noites de sexta-feira. Aliás, ela tinha até uma frase pronta para essas ocasiões: "Preciso desopilar o fígado!" E foi justamente numa dessas saídas, na casa de uma amiga, que ela acabou reencontrando sua paixonite dos tempos de escola. Tereza logo o reconheceu, já que não havia mudado tanto assim. Na verdade, ela pensou: "Não é que o filho da mãe está ainda mais bonito!"

    Tereza fez questão de ser notada pelo seu antigo colega de sala. E foi! Tanto é que foi ele quem se aproximou, como se fosse um caçador certo de que iria se dar muito bem diante daquela caça tão formosa. Trocaram olhares sorridentes. "Não me lembrava que esse cretino tinha dentes tão lindos", pensou Tereza. 

    Passaram a noite toda praticamente conversando a sós. Ele, obviamente, parecia não a reconhecer. Ela, por sua vez, não fez a menor questão que ele soubesse. E, já na hora dos últimos batimentos cardíacos da festa, o irresistível Armandinho pegou suavemente a delicada mão de Tereza, ao mesmo tempo em que lhe lançou aquele olhar penetrante.

    _ Quer esticar a noite no meu apartamento?

    _ Garoto, se você não aproveitou quando o angu estava quente, agora é que não dá mesmo!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tereza, Armandinho e o angu" foi publicado pelo Notibras no dia 06/06/2023. Por solicitação da redação do jornal, o texto foi adaptado para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/armandinho-querido-angu-se-come-quente/

terça-feira, 27 de setembro de 2022

José, Pedro e o mar

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   Dizem que essa história aconteceu nos anos 1960. E, segundo me foi contada, ocorreu no Rio de Janeiro, que havia perdido o posto de capital para Brasília. Seja como for, lá estavam aqueles dois amigos conversando sobre as grandes oportunidades na nova cidade cercada por todos os lados de Goiás e mais Goiás, além de um tiquinho de Minas Gerais. 

  José queria porque queria se mudar para Brasília, enquanto Pedro cismava em manter os pés bem fincados na Cidade Maravilhosa. Essa conversa se arrastou por mais de ano, até que o amigo aventureiro fez uma proposta irrecusável. 

  _ Pedro, consegui emprego pra nós dois em Brasília. Vamos ganhar o triplo e ainda vão dar um terreno pra cada um de nós.

  _ Vou não!

  _ Mas por que não, homem de Deus?

  _ Lá não tem mar. Sou pescador, gosto de jogar tarrafa! 

  • Nota de esclarecimento: O conto "José, Pedro e o mar" foi publicado por Notibras no dia 20/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/emprego-fica-na-vontade-porque-brasilia-nao-tem-mar/

A menina, o velho e os ratos

    A menina era tão aficionada pelo avô, que chegava a largar o aparelho celular por alguns instantes, enquanto o velho contava infinitas histórias sobre os tempos antigos. E, de tão antigos, ela chegava a duvidar, por um momento, que esses idos realmente pudessem ter existido. No entanto, isso não era motivo para que ela não continuasse mantendo aqueles olhos enormes fascinados pelo dono daquele rosto incrivelmente enrugado.

    De todas modernidades daquele tempo tão distante, o velho enaltecia o rádio. Pois é, o rádio! Era justamente através dele que as notícias chegavam. Ouvidos de todas as classes sociais grudados naquela caixinha falante. A menina tentava imaginar o cenário, mas não conseguia entender como é que todos sobreviviam sem os avanços tecnológicos dos últimos anos. 

    _ Vô, mas como é que as pessoas conseguiam viver sem internet? Vocês não sentiam falta?

    _ Que nada! Era uma vida muito boa! A gente saía chutando ratos pelas ruas. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A menina, o velho e os ratos" foi publicado por Notibras no dia 29/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/quem-nao-tem-cao-nem-internet-chuta-ratos/

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Minha madrinha, Elvis e eu

   Essa história que vou lhe contar aconteceu logo após um acidente automobilístico que sofri no longínquo ano de 1996 na avenida Brasil, no Rio. Para ser mais exato, o fato ocorreu no dia 16 de agosto daquele ano. Como resultado, quebrei os dois braços, a perna direita, o nariz, mandíbula e maxilar, além de ter perdido um pedacinho da parte lateral da língua. Quanto ao carro, foi direto para o ferro velho. 

    Pois bem, lá estava eu no hospital, todo remendado, com gessos espalhados pelo corpo. Meus queridos padrinhos, a Marilda e o Celso, foram me fazer uma visita. Eles pareciam aflitos, ainda mais ela, que sempre foi extremamente carinhosa comigo. Então, aqueles mimos estavam levantando meu ânimo, até que a Marilda solta essa.

    _ Meu filho, olha que coisa legal!

    Eu, que quase não conseguia pronunciar um ai, tamanha a dor que ainda sentia por conta das fraturas, apenas olhei para o sorriso da minha madrinha, que emendou essa.

    _ Você bateu de carro no mesmo dia em que o Elvis desencarnou.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Minha madrinha, Elvis e eu" foi publicada pelo Notibras no dia 16/08/2023.
  • https://www.notibras.com/site/acidente-com-velho-carro-tem-fraturas-e-corta-lingua/?

As aventuras do tio Biba

 

    Ubiratan Rocha era um desses tipos austeros, que passam facilmente a ideia de ilibação total. Todos o tinham em mais alta consideração, ainda mais porque, pelo menos nos últimos quase 30 anos, Ubiratan tenha sido visto praticamente apenas de terno de linho fino, sempre impecável, com esmero até na hora de manter os vincos. 

    Do alto do seu quase 1,90 m, lá vinha o Ubiratan, que nas festas da família sempre era visto com certa admiração até pelos mais novos. Afinal, ele, que era carinhosamente conhecido como tio Biba, sempre trazia nos bolsos do paletó guloseimas, que eram disputadas quase a tapas pelas crianças. Era uma loucura aquela situação, como se fossem piranhas querendo cada qual seu naco. 

    Pedrinho, talvez o sobrinho mais curioso daquela trupe devoradora de doces, sempre quis seguir os passos, aparentemente gloriosos, do tio Biba. Pois é, ele também desejava ser aviador. Não um simples piloto, mas um como o seu herói, que, segundo rezava as vastas histórias, já tivera seu próprio avião durante a juventude. 

    De todas as histórias que havia escutado, a que mais gostava era sobre as inúmeras viagens que o tio Biba havia feito para os Estados Unidos desde o início dos anos 1970 até meados dos 1990.  Isso até que, certo dia, quando o Pedrinho cresceu e, finalmente, teve uma conversa mais aprofundada com o pai sobre o tio Biba.

    _ Pai, me conta mais sobre as aventuras do tio Biba.

    _ O que você quer saber?

    _ Fale sobre as viagens que ele fazia para os Estados Unidos.

    _ Ah, tá! Nesse tempo, o tio Biba fazia até quatro viagens por mês para a terra do tio Sam.

    _ Tudo isso? 

    _ Sim! É que nessa época ele contrabandeava aves daqui para lá - finalmente contou o pai, que logo percebeu os olhos de total incredulidade do filho. Antes o segredo não tivesse sido revelado.

  • Nota de esclarecimento: O conto "As aventuras do tio Biba" foi publicado pelo Notibras no dia 31/05/2023.
  • https://www.notibras.com/site/aventuras-do-tio-biba-eram-contrabando-de-aves/

Honório e Hilário, os irmãos sovinas

    Honório era homem de negócios, vivia atribulado, pois não conseguia deixar de pensar no que seria o próximo dia, já que a situação do país, como de costume, não andava promissora. Seu irmão, Hilário, apesar de toda austeridade quase idêntica, parecia levar uma vida pouco mais suave. Tal suavidade, no entanto, parecia, de certa maneira, total desregramento aos olhos do Honório.

   Enquanto o Honório contava os centavos, apenas as somas pouco mais significativas pareciam interessar o Hilário. Não que este fosse pródigo, mas tentava olhar o mundo como algo onde também existissem momentos para certa luxúria, como, por exemplo, enamorar-se por um belo par de pernas de vez em quando. E, apesar dessa ínfima desavença, os dois se davam muito bem, desde que os lucros auferidos no mês vigente fossem maiores que os do anterior. 

    Certo dia, lá estava o Hilário conferindo os ganhos do dia. As cédulas eram colocadas de um lado, as moedas, que já não eram tantas, permaneciam espalhadas do outro. Tudo dentro dos conformes, como diriam alguns, até que o Honório, todo ressabiado, chegou.

    _ O que você está fazendo com o nosso dinheiro?

    _ Ué, estou contando.

    _ Hum...

    _ O que deu em você? Não confia em mim?

    _ Hilário, meu irmão, confio apenas nos meus dentes e, mesmo assim, eles me mordem a língua.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Honório e Hilário, os irmãos sovinas" foi publicada pelo Notibras no dia 12/02/2023. A pedido da redação do jornal, o texto sofreu leve alteração para que se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/honorio-e-hilario-os-irmaos-sovinas-do-recanto/

Nazinha, a minha primeira chefe no Banco do Brasil

   Trabalhei no Banco do Brasil por quase duas décadas, sendo que tomei posse em uma agência em Copacabana. Foi lá que tive o prazer de conhecer uma das pessoas mais divertidas, a Maria de Nazareth de Paula, ou simplesmente Nazinha. 

    Todos que trabalhávamos com a Nazinha sentávamos em mesas justapostas, sendo que ela se ficava na cabeceira. Um enorme cinzeiro, cuidadosamente colocado à frente da minha chefe, recebia várias pontas de cigarro durante o expediente. Isso foi bem antes da lei que proibia fumar em ambientes fechados. E, se isso parece um absurdo hoje em dia, na época era extremamente natural. 

    A Nazinha era a nossa gerente de equipe, assim como também existiam outros que também faziam função similar em outros ambientes da agência. Além desses cargos de chefia, havia o de gerente geral, que era exercido pelo Vasco. Este, de vez em quando, se dirigia até a nossa sala e conversava com a minha chefe, que geralmente era consultada para resolver algum problema. 

  Ela, apesar de possuir uma posição hierárquica inferior, parecia conhecer mais sobre todo o funcionamento da agência. Assim, a Nazinha, quase sempre, atendia o Vasco com urbanidade, mas nem sempre. É que, de vez em quando, ela estava abarrotada de serviço e, então, falava: "Vasco, não me enche o saco agora!" Ele, invariavelmente, retornava cabisbaixo para sua sala.

    Essa situação me deixava de olhos arregalados e, certa vez, ousei questionar a minha chefe.

    _ Nazinha, por que você fala assim com o Vasco? Ele é o gerente geral! 

    _ Dudu, eu brigo apenas com quem eu gosto!

    _ Ah, então, você me ama!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Nazinha, a minha primeira chefe no Banco do Brasil" foi publicada por Notibras no dia 11/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/nazinha-a-chefe-que-brigava-com-quem-amava/

sábado, 17 de setembro de 2022

Ambrósio, o Rambo brasileiro

    Dizem que essa história aconteceu durante um curso de sobrevivência ministrado em uma certa polícia civil brasileira. Pois bem, não sei se isso realmente aconteceu da forma que irei contar, mas imagino que a minha versão seja bem mais interessante que a do suposto acontecimento. Isto é, se isso tenha mesmo acontecido, o que não duvido nem um pingo, bem como também não acredito em outro tanto. 

    Seja como for, o professor se chamava Ambrósio da Silva Pinto, mas todos o conheciam como Stallone. Isso mesmo! Stallone!!! Tudo porque, desde que havia assistido ao filme "Rambo - Programado para matar", Ambrósio se identificou tanto com o tal herói, que fez de tudo para que todos o passassem a chamar de Stallone, sobrenome do astro Sylvester. De tanto insistir, conseguiu o seu intento. 

    Mas voltemos ao curso. Lá estava o Ambrósio, ou melhor, o Stallone, reiniciando a aula depois de um intervalo. Todos os alunos, uns 30, sentados ao redor. Tudo parecia bem, até que o professor observou uma aluna, a Roberta, com um copinho de café. Ríspido, Stallone logo a repreendeu.

    _ Pessoas morreram por isso, senhora Roberta! Pessoas morreram!!!

    A mulher não conseguiu captar por todo aquela bronca. Afinal, qual era o problema de se tomar um cafezinho enquanto prestava atenção à aula? No entanto, o professor, ainda não satisfeito com a situação, continuou.

    _ Turma, vamos esperar que a senhora Roberta acabe de tomar o café!

    Entretanto, ela não se deu por vencida e continuou a bebericar cada gole com gosto de vitória sobre o truculento professor. Stallone, esbaforindo de raiva, se sentiu afrontado por aquela quase garota magrela. Todos os alunos, olhos arregalados, torciam pelo desfecho daquela contenda, até que o Santana bocejou uma bocejada maior até do que a sua barriga tão proeminente. 

    _ Boceja de boca fechada, Santana! - Stallone repreendeu o soneca da turma.

    Tudo parecia resolvido, até porque a Roberta já havia terminado o seu café. Todavia, Stallone, não querendo ficar por baixo, insistiu.

    _ Já posso retomar a aula, senhora Roberta?

    _ Professor, não sei se já te falaram, mas o Vietcongue deu uma baita duma surra no Rambo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Ambrósio, o Rambo brasileiro" foi publicado pelo Notibras no dia 13/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/professor-machao-cai-ao-ouvir-sobre-vietcongues/

sábado, 10 de setembro de 2022

O mundo lá fora

A filha e o pai, apesar de morarem no mesmo apartamento, já não se viam há dias. Não que eles tivessem brigado, mas simplesmente os horários não eram compatíveis com encontros rotineiros. Ela, sempre ocupada com as coisas do trabalho, tentava resolver tudo pelo aparelho celular ou, no máximo, pelo computador, que parecia sempre ligado. O pai, no entanto, apesar de acordar bem cedo, demorava mais de hora na cama, talvez pensando nas coisas que não teve coragem de fazer até então.  

            Naquele domingo, entretanto, os dois se esbarraram na cozinha. O pai, com aquela mesma xícara de café na mão, olhou para os grandes olhos da filha. Aqueles cílios negros pareciam espantados com a fisionomia desgastada à sua frente. Ela levou um tempo para perceber que era aquele mesmo homem que, há poucas décadas, a levava nos ombros para a praia, logo ali. Trocaram um quase sorriso. 

            — Quer? - o pai ofereceu a xícara.

             Os dois sentaram à mesa. Tomaram o café num silêncio quase soturno, se não fossem os raros tilintares das xícaras com os pires. Nenhuma palavra, enquanto o pai observava a ânsia da filha em digitar cada vez mais rápido no minúsculo teclado do aparelho celular. Ele chegou a pensar como é que ela conseguia fazer aquilo com tanta habilidade. Todavia, um estrondo, vindo lá debaixo da rua, os tirou do aparente transe. 

            Já na janela, pai e filha observavam o formigueiro de gente curiosa. Um acidente de carro, aparentemente sem vítimas. Vozes, vozes, vozes! Nada que pudesse ser realmente distinguível para os dois no parapeito lá em cima do edifício. Trocaram olhares, como há muito não faziam. Não precisaram balbuciar palavras. Abriram a porta do apartamento, pegaram o elevador e desceram. Passaram pela multidão, como se ela não existisse. De mãos dadas, rumaram para a praia, aquela mesma praia, que continuava ali perto, talvez saudosa daqueles dois. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O mundo lá fora" foi publicada pelo Notibras no dia 19/1/2023. Por solicitação da redação do jornal, o texto original foi alterado para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/saudades-da-prainha-reaproxima-pai-e-filha/
  • "O mundo lá fora" também foi publicado na Coletânea de Cronistas Contemporâneos 2023 pela editora Persona.
  • O conto "O mundo lá fora" faz parte da Antologia "Metamorfose: poesia e evolução", do Projeto Quatro Amigas (@quatroamigas), 2023.
  • O conto "O mundo lá fora" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 13/5/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=80789

domingo, 28 de agosto de 2022

O velho, o café e o mendigo

    O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

    Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

    Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

    O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

    Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

  Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

    A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: "Peço a Deus que estique o tempo do senhor!"

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ibrahim Sued e a minha juventude

    Aqueles que me conhecem sabem que eu trabalhei no Banco do Brasil durante 17 anos, sendo que tomei posse numa antiga agência chamada Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Pois foi justamente nessa minha primeira lotação que passei a atender o Ibrahim Sued, que foi praticamente o inventor da antes badalada coluna social. 

    O cara era grandão, passadas largas, sorriso fácil. Os cabelos azulados, os olhos maiores que a própria face. Ele, como de costume, sempre ia ao banco após a agência estar fechada. Afinal,  alguns clientes possuem certas regalias. E, muitas vezes, eu o recebia, pois, nesse tempo, era um dos últimos funcionários a ir embora. 

    De tanto atender o Ibrahim, acabou havendo uma intimidade pouco além da normalmente existente entre clientes que se dirigem a um banco e os funcionários. Tanto é que, não raro, ele me contava sobre algumas perspectivas da própria existência. De todas essas conversas, uma em especial me marcou.

    _ Dudu, a velhice é uma merda!

    _ Que isso! Você está muito bem!

    _ Que nada! Tá tudo caído por aqui! 

    Eu apenas o observava, talvez sorrindo, enquanto ele prosseguia.

    _ Dudu, você sabe que eu tenho muita grana, né?

    _ É, sei sim. 

    _ Pois é, Dudu, se eu pudesse, trocaria toda essa grana pela sua juventude.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Ibrahim Sued e a minha juventude" foi publicada por Notibras no dia 30/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/ibrahim-teve-quase-tudo-menos-vida-de-mathuzalem/

    

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

O ex-marido, o amante e os biscoitos

 

          Cardoso, apesar de separado há mais de dois anos de Laura, havia se comprometido a pagar o aluguel dela. Não por bondade, diga-se de passagem, mas por culpa. Sim, isso mesmo! Culpa! Pura culpa! É que, enquanto casados, ela o pegou a plenos pulmões sobre Luana, a vizinha de não mais que duas dezenas de primaveras. 

         Por coincidência ou não, Laura arrumou um quarto e sala bem em frente ao armarinho de Cardoso. De tão em frente que bastava um pequeno levantar de olhos do homem para avistar o lar da sua ex-esposa, que, de vez em quando, cismava em deixar as cortinas escancaradas. Talvez por economia, já que todos no bairro reclamavam do aviltante preço da energia elétrica. 

          Certo dia, lá estava o Cardoso recostado na parede externa da loja, coçando sua barriga saliente de um típico quarentão. De vez em quando, passava uma ou outra anca que despertava seu sorriso de cobiça, mas, talvez tomado pela mesma culpa que o obrigava a bancar o aluguel de Laura, ele tentava se recompor e, sem se preocupar com qualquer discrição, voltava o olhar para a janela do outro lado da rua. E foi justamente nesse instante que ele deu de cara com Laura sendo sufocada por um beijo voluptuoso do Gilmar, que nada mais era do que o rapazola que trabalhava na sorveteria ao lado. 

          Um grito de horror escapuliu das profundezas da garganta de Cardoso, enquanto ele tentava empurrar o próprio corpo até o outro lado da rua. Algumas pessoas que passavam se assustaram, enquanto outras direcionaram seus olhos curiosos para a indiscrição dos pombinhos, que ainda se mostravam alheios à fúria do comerciante. 

          O dedo insistente do Cardoso não parava de apertar o botão do interfone do apartamento 101. Isso, aliás, foi o que fez com que aquelas duas línguas dessem trégua naquela batalha sem fim e, então, Laura foi ver quem era. Não fazia ideia e, toda saltitante, foi atender o chamado desesperado.

          — Alô!?

          — Laura, abra essa porcaria agora!

          — Cardoso, o que você quer?

          — Abra logo essa droga! 

          — Olha que vou chamar a polícia!

          No entanto, antes que essa conversa pudesse dar frutos adocicados, Cardoso jogou o corpanzil sobre a porta, que não resistiu. Esbaforido, ele subiu as escadas, enquanto, lá no apartamento, o franzino Gilmar abotoava as calças, ao mesmo tempo em que avaliava se valia a pena tentar uma fuga nada honrosa pela janela. Todavia, logo foi convencido pelas insistentes batidas na porta do apartamento e, dessa forma, preferiu o voo de não mais que três metros à surra que, certamente, o aguardava. 

          Laura gritava sem saber se por causa das violentas batidas na sua porta ou, talvez, pela fuga cinematográfica do Gilmar. Aliás, uma fuga em que ele era não apenas o astro do filme, mas também o próprio dublê. Ela correu até a janela, quando viu que o amado havia sido algemado por Santana, policial da delegacia do bairro. O agente da lei, sem estar a par da situação, supôs que o amante era, na verdade, um gatuno. O policial conduziu bravamente o suposto larápio para a delegacia, onde o apresentou, quase de imediato, ao delegado.

          Sentado à ampla mesa na sala quase gélida por conta do ar condicionado localizado na parede ao lado, o delegado pegou um dos biscoitos amanteigados que havia recebido como agrado do dono da padaria da esquina. Entretanto, antes que pudesse levá-lo à boca, ouviu uma gritaria sem fim vinda do balcão da delegacia. Santana e o delegado foram ver o motivo de tanto escândalo, quando constataram que se tratava do ex-casal Laura e Cardoso, que já era bem conhecido daquele ambiente tão acostumado a registrar crimes. 

          Enquanto a autoridade policial tentava entender o porquê do escândalo, Gilmar, que havia ficado na sala do delegado, apesar de algemado, se levantou e foi até a caixa de biscoitos. Debruçou-se sobre ela e começou a degustar aquela iguaria. Comeu todos, já que precisava recompor as energias gastas nos longos e apaixonados beijos e, principalmente, pela fuga digna do Zorro. E, assim que ouviu os sapatos estalando no chão frio do corredor, recompôs-se, cinicamente, na cadeira, como se nada tivesse acontecido.

          Era o Santana, que havia sido ordenado soltar o suposto gatuno, que, agora, todos sabiam, era nada mais do que o novo amor da Laura. O policial, sem dizer nem uma palavra sequer, retirou as algemas dos pulsos do quase adolescente Gilmar. Em seguida, ordenou:

          — Pode ir embora!

          O rapaz nem se deu ao trabalho de perguntar alguma coisa. Tratou logo de sair daquele ambiente e, ao passar pela entrada da delegacia, quase foi agredido por Cardoso, que teve que ser contido por outros policiais. Em seguida, o delegado voltou para sua sala, onde flagrou o Santana, com as pontas dos dedos embebidas em saliva, tentando buscar as migalhas que ainda restavam na caixa de biscoitos amanteigados. 

          — Santana, que droga é essa? Além de prender o cara errado, você ainda acabou com todos os meus biscoitos!

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Ninica e minha vida corrida

 

    Houve um tempo em que a minha vida era tanta correria, que a última coisa que eu conseguia desfrutar era um dia de descanso. Nessa época, eu fazia medicina veterinária na Rural (UFRRJ) durante o dia inteiro, de onde corria direto pro Banco do Brasil. Saía do trabalho quando a madrugada já não era nenhuma menina e, então, ia pra casa, onde mal conseguia tirar uma ou duas horas de sono, pois precisava correr de volta pra assistir às aulas. 

    Quando chegava sexta-feira, já sabia que seria o último dia de estudo e trabalho, mesmo que tudo fosse se repetir na semana seguinte. Isso, aliás, me trazia uma sensação de bem-estar, como se meu corpo já estivesse programado para desligar disso tudo para, assim que chegasse ao lar, doce lar, pudesse tomar um banho e me esparramar na cama, sem hora pra acordar. Que sensação maravilhosa era aquela!

    Pois bem, lá estava eu sonhando os sonhos mais lindos, quando, depois de um tempo, percebo alguém sobre meu peito, que não parava de futucar meu nariz. Ainda cismo em tentar não dar atenção para aquilo, já que os meus sonhos pareciam muito mais aconchegantes. Todavia, aqueles insistentes dedos miúdos não me davam trégua. 

    Finalmente abro os olhos e, então, a primeira coisa que vejo é o sorriso de poucos dentes da minha filha, a Ninica, que, no auge dos seus quase dois anos, diz eufórica: "Acordou! Vamos à praia?"

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Filho da ninhada

 

    Já mencionei que fui funcionário do Banco do Brasil por quase 17 anos, onde conheci algumas das figuras mais engraçadas. Uma dessas foi o Braga, vulgo Piu-Piu, que inclusive foi homenageado em meu primeiro romance, "Despido de ilusões". Nessa época, apesar de não trabalharmos na mesma equipe, ficávamos sentados praticamente um em frente ao outro. Por isso, não eram raros os momentos de descontração.

    Certo dia, lá estava o Braga tentando explicar algo para o Rodrigo, que era um estagiário recém chegado. Apesar de novo no setor, logo se formou uma forte interação entre os dois, que viviam fazendo piada um com o outro. Todavia, nem sempre eu prestava atenção nas tretas deles, mesmo porque o meu trabalho envolvia algumas contas, que, apesar de não muito complexas, necessitava de certa concentração. De repente, o Braga aumenta um pouco o tom da voz.

    _ Rodrigo, presta atenção, moleque doido! Já te expliquei isso três vezes!

    _ Tô prestando, Braga! Já peguei o filho da ninhada.

    _ O quê? 

    _ Filho da ninhada! Ou vai me dizer que você não sabe o que é isso, mané?

    O Braga soltou aquela sonora gargalhada, ao mesmo tempo em que olhou pra mim.

    _ Viu essa, Dudu? Filho da ninhada!!! 

    Apenas sorri, enquanto os dois se engalfinhavam, mas sem perderem a esportiva. Só me lembro que depois os dois se levantaram e foram tomar café na cantina. A última coisa que ouvi foi o Braga, quase gritando, falando:

    _ Rodrigo, é fio da meada!!!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Filho da ninhada" foi publicada por Notibras no dia 13/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pintinho-novo-no-bb-confunde-coletivo-de-papeis/

domingo, 24 de julho de 2022

Triste fim da vaca de um chifre

   Já escrevi uma história que aconteceu comigo nos meus longínquos tempos de estudante de medicina veterinária lá na Rural (UFRRJ), quando fui até Piraí/RJ na fazenda da mãe do meu amigo Almeidinha para retirar o chifre (na verdade, todos os bovídeos possuem cornos) quebrado de uma vaca, e ela acabou ficando com apenas um. Pois bem, recentemente, passeando pelo Mercado Público aqui em Porto Alegre, parece que acabei encontrando a dita cuja, ou melhor, a sua cabeça pendurada em uma fachada de uma das lojas.

   A princípio, nem notei, pois sou meio distraído. Mas a minha mulher (a maravilhosa Dona Irene) me cutucou no braço e disse: "Dudu, aquela ali pendurada não é a tal vaca que você deixou com apenas um chifre?" Quase caí pra trás com a surpresa e, confesso, profunda tristeza, pois sempre imaginei que a minha primeira paciente vaca teria tido um destino mais feliz.  

  Imediatamente liguei para o Almeidinha, que me disse que a vaca de um chifre havia falecido de causas naturais há alguns anos. Ela tinha sido enterrada em uma enorme cova na propriedade. Todavia, após alguns dias, o próprio Almeidinha, cavalgando pela área, constatou que alguém ou alguma coisa havia mexido no jazigo. Ele, segundo suas próprias palavras, quase caiu do cavalo, já que percebeu que o corpo em decomposição estava lá, mas uma parte não: justamente a cabeça. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Triste fim da vaca de um chifre" foi publicada pelo Notibras no dia 14/09/2023.
  • https://www.notibras.com/site/morreu-que-triste-fim-morreu-com-so-um-chifrim/

    

    


quinta-feira, 14 de julho de 2022

A menina singular

 

    A menina, desde bem menininha, sempre pareceu alheia a tudo e a todos ao seu redor, como se buscasse algo muito além. A mãe não suportava aquela situação, pois desde sempre aprendeu o que era certo e o que não era tanto, já que fora adestrada com rigor pela própria mãe, que também fora condicionada pela avó. 

    Sentada numa pedra lisa, a menina fixava os grandes olhos de um lindo tom castanho, cílios enormes, como se fossem cortinas tentando esconder seus pensamentos. Outras crianças corriam ao seu redor, numa gritaria sem fim, sorrisos largos e ingênuos, quase inocentes. Ela, todavia, demonstrava desinteresse, mas ninguém conseguia afirmar se era isso mesmo que acontecia. 

    A mãe, que tomava uma xícara de café com uma velha senhora, que ali chegara há pouco tempo, não tirava os olhos da menina. Inconformada com a imobilidade da filha, desabafou com a convidada, que já havia notado a singularidade da garota.

    _ Cabeça-de-vento!!!

    _ Cabeça que venta não é cabeça-de-vento.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A menina singular" foi publicado por Notibras no dia 24/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/crianca-que-planta-semente-colhe-bons-frutos/

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Sarah, Astolpho e a Sophia com ph

  Sarah, mulher de seus quase 60, era do tipo que praticamente só conhecia o caminho de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Mal saía para comemorações e, quando o fazia, sempre era acompanhada por Astolpho, o marido pouco mais velho e extremamente ciumento. Ela até que gostava desse sentimento, pois se sentia amada como nenhuma outra. 

  Certo dia, lá estava a Sarah, que era gerente de um banco, atendendo uma cliente. Esta nem havia chegado aos 30, o que era facilmente percebido pela cútis de quase menina. Seu nome? Bem, seu nome era Sophia. Isso mesmo, Sophia com ph, como gostava de frisar. Ela havia se dirigido ao banco para resolver burocracias de cadastro, já que o divórcio a fez novamente com nome de solteira: Sophia Maria de Almeida, agora sem o França. 

    Enquanto mexia no computador para alterar o nome da cliente, Sarah percebeu a fotografia de tela do aparelho celular de Sophia, que o havia colocado sobre a mesa. Não podia acreditar no que estava diante de seus olhos, que se arregalaram até que as pupilas quase explodissem. No entanto, profissional que era, completou o atendimento e, logo em seguida, comunicou a um colega que precisaria ir embora, pois não estava se sentindo muito bem.

    Já em casa, encontrou Astolpho preguiçosamente recostado no amplo sofá da sala. Ela passou direto por ele, que ainda pediu uma cerveja. Sarah, pacientemente, foi até a cozinha, abriu a geladeira, pegou a tal latinha e a entregou ao marido. Em seguida, ela foi até o quarto, de onde, minutos após, saiu com uma enorme mala abarrotada de roupas. Voltou para a sala, onde Astolfo dava o seu último gole na bebida. 

    _ Que mala é essa? Vai viajar?

    _ Não! Eu não!!! Quem vai é você, seu cretino! - disse Sarah, ao mesmo tempo em que abriu a porta da rua e atirou a mala na calçada. 

    Astolpho, sem nada entender, perguntou o que era aquilo tudo. Sarah, quase calmamente, falou da fotografia que havia visto no  aparelho celular da Sophia, aquela que tinha ph no nome. Pois é, o Astolpho aparecia dando um apaixonado beijo nos lábios carnudos da cliente da Sarah. Ele ainda tentou explicar, mas nada convencia Sarah, que começou a xingar o traidor. 

    _ Sarah, meu amor, você está pegando muito pesado comigo!

    _ Astolpho, pesado é hipopótamo!!!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Sarah, Astolpho e Sophia com ph" foi publicado por Notibras no dia 4/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/sarah-traida-por-astolpho-e-a-namorada-sophia/

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Asfilófio, o filósofo de banheiro

    Asfilófio acordou com o estridente anúncio do despertador. Hora de levantar! Abriu os olhos remelentos, esfregou a cara amarrotada, bocejou e sentiu o desagradável odor do seu próprio bafo. Precisava escovar os dentes e a língua, esbranquiçada de tanto ficar muda durante a madrugada. 

   Já em frente ao espelho do banheiro, tentava se encarar, mas a imagem refletida não era das melhores. Melhor seria voltar para cama e se esquecer de tudo. Não seria prudente! Precisava tomar coragem para outra segunda-feira! Que dia deprimente! 

    Depois da terceira xícara de café, Asfilófio pareceu mais disposto e, finalmente, saiu de casa. Os passos não eram tão rápidos, talvez pela repulsa da imagem do trabalho. Sentiu o delicioso aroma da maresia, que o convidava para um mergulho no mar, mas esse pensamento foi interrompido por um esbarrão de um transeunte. Dividido entre sua cama e a praia de Copacabana, acabou mesmo por ir até a repartição onde trabalhava. Que droga!

   Mal entrou, percebeu dois colegas ouvindo um terceiro, que discursava euforicamente. Asfilófio quase não notava os significados das palavras, apenas ouvia o ruído estridente daquela voz, que o irritava desde sempre. Até que o tal palestrante levantou o tom e pronunciou, quase teatralmente: "Tudo é uma questão de hermenêutica!" 

    Asfilófio, assim como os outros dois ouvintes, ficou boquiaberto. Ele nunca havia ouvido essa palavra esquisita. Mas, antes que pudesse tentar descobrir, uma pontada bem lá no fundo da sua barriga anunciava que ele necessitava urgentemente de um banheiro.

    Sentado no vaso sanitário, Asfilófio não fazia a menor ideia do que era aquilo que seu colega havia dito. No entanto, enquanto esvaziava o conteúdo dos seus intestinos, não teve a menor dúvida: "Tudo é uma questão de movimentos peristálticos!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Asfilófio, o filósofo de banheiro" foi publicado pelo Notibras no dia 18/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/escrituras-fazem-servidor-ter-crise-peristaltica/

domingo, 3 de julho de 2022

Dona Irene, a cola e Deus

   A minha esposa, a Dona Irene, possui tantas histórias, que eu poderia apenas escrever sobre essas situações, muitas delas hilárias. Aliás, a que vou contar hoje é do tempo em que a minha mulher nem sonhava em se casar, pois ainda era uma menininha de trancinhas que, quase obrigada pela mãe, frequentava a igreja. Nessa época, ela precisava fazer algumas provas sobre o cristianismo e, como quase sempre foi muito estudiosa, além de ter uma memória privilegiada, devorava a bíblia até com certa facilidade.

    Chegavam as provas, lá ia a menina Dona Irene com a segurança de quem iria acertar tudo. E ela estava mesmo certa, pois sempre recebia uma estrelinha dourada na parte superior do teste. No entanto, o Robertinho, seu amigo de turma, tinha porque tinha que tirar uma nota bem alta para que não fosse reprovado. 

    Por isso, durante a última prova do semestre, lá estava o Robertinho logo atrás da carteira da minha futura esposa. Já o pastor, crente de que todos na sala seriam extremamente honestos, deixou o ambiente e foi tomar um café. Não deu outra, a Dona Irene, em sua versão miniatura, passou aquela cola caprichada pro Robertinho, que tirou dez e foi aprovado até com certo louvor.

    Pois é, mais de uma década após esse ocorrido, lá estava a Dona Irene, agora na versão grandinha, me contando essa passagem de sua infância. Até que lhe fiz uma pergunta.

    _ Ué, mas você não me disse que Deus sempre está de olho em tudo?

    _ Ah, fiz tão bem feito, que Ele nem reparou. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene, a cola e Deus" foi publicada pelo Notibras no dia 14/5/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dona-irene-a-cola-durante-a-prova-e-o-olho-de-deus/

Deuzivaldo, o barrigudo deprimido

 

    Deuzivaldo, perto de completar 60 anos, há muito acostumara com o seu esdrúxulo nome. Na verdade, a palavra mais adequada é que ele, depois de tanto tempo sendo chamado por Deuzivaldo, Deuzi ou até mesmo Valdo, parecia acostumado com aquilo. No entanto, uma coisa que o irritava era aquela barriguinha proeminente, ainda mais depois de ter sido abandonado pela mulher, que o trocou por uma versão mais jovem chamada Paulo Douglas.

   De tão deprimido, Deuzi resolveu procurar ajuda psicológica. Marcou a primeira consulta para a semana seguinte. Muito ansioso, começou a comer desenfreadamente, como se aquilo lhe trouxesse algum alívio. No entanto, já na véspera do tão esperado dia em frente ao Dr. Gilmar, eis que ele se olha, completamente despido, no espelho logo depois de tomar banho. Impossível não soltar um "Que droga de barriga!"

    Já no consultório, o psicólogo, muito atencioso, convida o Deuzi a se deitar no divã. Este se estica todo, coloca os pés para o alto e, em seguida, começa a tagarelar sobre a sua situação calamitosa. Vez por outra, ele menciona a tão incômoda protuberância abdominal, até que não lhe restam palavras de lamúrias, mas apenas um triste olhar direcionado ao Dr. Gilmar, na ânsia de um alento. 

    _ Deuzivaldo, a vaidade, muitas vezes, é a única força que nos faz levantar.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Deuzivaldo, o barrigudo deprimido" foi publicada pelo Notibras no dia 2/3/2023.
  • https://www.notibras.com/site/deuzivaldo-um-barrigudo-sem-forcas-para-pensar/

sábado, 2 de julho de 2022

Santana, o terrorista

    O Santana chegou à delegacia com os bofes pra fora como de costume. No entanto, parecia ainda pior, já que de sua enorme pança emanavam sons que indicavam uma verdadeira batalha entre as enzimas digestivas e a quantidade descomunal de churrasco consumida na noite anterior. Foi uma comilança, com direito até a maionese não muito confiável, ainda mais depois de tantas horas fora da geladeira. As inúmeras latinhas de cerveja, às vezes quente, completaram o caótico prognóstico.

    Assim que passou pelo delegado, foi informado sobre a reunião, que já iria começar. O Santana recebeu essa notícia com cara de poucos amigos, se é que ele possuía algum. Seja como for, tratou logo de se dirigir à sala, onde outros policiais já haviam tomado conta de todas as cadeiras disponíveis. Irritado, ele encostou o corpanzil numa das paredes. 

    Não demorou muito, o delegado entrou no recinto, onde colocou uma pasta de documentos sobre a mesa. Cumprimentou brevemente os presentes e, quando ia começar a falar sobre o assunto daquele encontro, eis que o Santana deixa cair no chão um enorme chaveiro. 

    Todos voltam os olhares para o policial desastrado, que se curvou para pegar as chaves. De repente, um gigantesco estrondo sai do traseiro do Santana, empesteando rapidamente todo o ambiente. Imediatamente, o delegado, quase sufocado, salvou a todos daquela catástrofe.

    _ Reunião encerrada!

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Fifa World e o futebol na rua

    Mal chegou do trabalho, o pai avistou o filho em frente ao computador. De tão entretido com o jogo de futebol na tela, o garoto nem percebeu quando o pai se aproximou. O homem, que ainda carregava a maleta, estacou justamente ao lado do pivete, que não parava de mexer insistentemente no controle remoto.

    _ Oi, filho!

    O menino, sem tirar os olhos da partida, respondeu quase mudo, que o pai imaginou ter ouvido.

    _ Isso aí dá pra jogar de dois?

    O garoto pareceu não ter escutado o homem, que ainda insistia em chamar-lhe a atenção, como se enciumado por ter sido deixado em segundo plano.

    _ Ei, filho, isso aí dá pra jogar de dois?

    _ Peraí, pai! Agora não dá pra falar agora!

   O homem, finalmente, desistiu e pousou a maleta sobre o móvel da sala. Ele se dirigiu ao quarto, onde pegou uma toalha e foi tomar banho.

  Já na mesa, com o prato bem à sua frente, conversava com a esposa. Trivialidades de mais um dia em que ambos tiveram dias exaustivos nos respectivos empregos, até que foram interrompidos pelo desabafo do filho.

    _ Droga!!!

    O garoto, até que enfim, se levantou e foi se juntar aos pais.

    _ Pai, você já ganhou no Fifa World?

    _ O que é isso?

    _ Ué, o jogo que eu estava brincando agora.

    _ Ah, não! No meu tempo de criança, a gente brincava de bola na rua. Todo mundo descalço.

    _ Sério? E qual era a graça disso?

    _ Ah, era divertido! Ainda mais porque todo mundo lá na rua tinha o dedão do pé sem tampo. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Fifa World e o futebol na rua" foi publicada pelo Notibras no dia 12/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/fifa-world-e-vida-de-pe-descalco-no-futebol-de-rua/

O conselho da Dona Irene

             Apesar de conviver há tanto tempo com a Dona Irene, não canso de me surpreender com as suas tiradas. A última aconteceu na semana passada, quando estávamos brincando com a Belchior e a Clarinha, as nossas filhas de focinho achatado nascidas em Brasília, num parquinho aqui em Porto Alegre. Nisso, chegou uma outra dona de cachorro, que sentou bem pertinho de onde estávamos. Era uma garota, não mais do que vinte anos. Não demorou muito, a minha mulher puxou conversa, pois adora trocar experiências com aqueles que possuem cães

          — Qual é o nome do seu?

          — Lambreta. E das suas?

          — Belchior e Clarinha. 

          — Elas já brigaram?

          — Não, elas são bem de boa. E o Lambreta?

          — Ah, de vez em quando, ele estranha um ou outro cachorro. Mas estou pensando em fazer um curso de adestramento para aprender algumas coisas sobre comportamento. 

          — Ah, legal! Você trabalha com o quê?

          — Então, fui demitida na semana passada. 

          — Nossa, que chato, hein!

          — Pois é, a minha mãe fala que eu preciso nortear a minha vida.

          — Creio que é melhor você nordestear, que dá muito mais certo.

          Detalhe: a Dona Irene é piauiense.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O conselho da Dona Irene" foi publicado por Notibras no dia 2/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/o-dia-em-que-dona-irene-sugeriu-que-caminho-do-norte-da-vida-e-o-nordeste/