sábado, 10 de setembro de 2022

O mundo lá fora

   A filha e o pai, apesar de morarem no mesmo apartamento, já não se viam há dias. Não que eles tivessem brigado, mas simplesmente os horários não eram compatíveis com encontros rotineiros. Ela, sempre ocupada com as coisas do trabalho, tentava resolver tudo pelo aparelho celular ou, no máximo, pelo computador, que parecia sempre ligado. O pai, no entanto, apesar de acordar bem cedo, demorava mais de hora na cama, talvez pensando nas coisas que não teve coragem de fazer até então.  

    Naquele domingo, entretanto, os dois se esbarraram na cozinha. O pai, com aquela mesma xícara de café na mão, olhou para os grandes olhos da filha. Aqueles cílios negros pareciam espantados com a fisionomia desgastada à sua frente. Ela levou um tempo para perceber que era aquele mesmo homem que, há poucas décadas, a levava nos ombros para a praia, logo ali. Trocaram um quase sorriso. 

    _ Quer? - o pai ofereceu a xícara.

   Os dois sentaram à mesa. Tomaram o café num silêncio quase soturno, se não fossem os raros tilintares das xícaras com os pires. Nenhuma palavra, enquanto o pai observava a ânsia da filha em digitar cada vez mais rápido no minúsculo teclado do aparelho celular. Ele chegou a pensar como é que ela conseguia fazer aquilo com tanta habilidade. Todavia, um estrondo, vindo lá debaixo da rua, os tirou do aparente transe. 

   Já na janela, pai e filha observavam o formigueiro de gente curiosa. Um acidente de carro, aparentemente sem vítimas. Vozes, vozes, vozes! Nada que pudesse ser realmente distinguível para os dois no parapeito lá em cima do edifício. Trocaram olhares, como há muito não faziam. Não precisaram balbuciar palavras. Abriram a porta do apartamento, pegaram o elevador e desceram. Passaram pela multidão, como se ela não existisse. De mãos dadas, rumaram para a praia, aquela mesma praia, que continuava ali perto, talvez saudosa daqueles dois. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O mundo lá fora" foi publicada pelo Notibras no dia 19/01/2023. Por solicitação da redação do jornal, o texto original foi alterado para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/09/o-mundo-la-fora.html
  • "O mundo lá fora" também foi publicado na Coletânea de Cronistas Contemporâneos 2023 pela editora Persona.
  • O conto "O mundo lá fora" faz parte da Antologia "Metamorfose: poesia e evolução", do Projeto Quatro Amigas (@quatroamigas), 2023.

9 comentários:

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    1. Muito, Rafael!!! E, infelizmente ou felizmente, não vivemos para sempre.

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  2. Mais um conto sensível e emocionante !! Gratidão meu amigo, por nós mostrar a celeridade da existência. Bela reflexão!!

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    1. Batista, meu querido amigo!!! Legal demais ler palavras tão incentivadoras!!! Beijão!!!

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  3. Não dá pra entender, pessoas morando no mesmo apartamento e se vendo tão pouco. Com a informática, o mundo tomou outro rumo, o comportamento das pessoas é outro. Muitas vezes, se tem algum tempo, mas ao invés de conversar, as pessoas preferem colocar a comunicação virtual em dias, responder pendências, dar alguma notícia íntima, fazer um pagamento e o tete-a-tete vai ficando para depois.
    Quando eu era criança, os dias pareciam maiores também.
    Hoje, a gente levanta de manhã, quando assusta, já é noite e amanhã eu falo com fulano, amanhã eu vejo fulano, amanhã eu espero fulano chegar e quando assusta, já passou a semana, o mês.
    Cada dia, mais longe ficamos uns dos outros, na mesma casa.
    É isso aí, meu amigo, é aproveitar uma brechinha, esquecer tudo e viver.

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  4. Salim, as pessoas estão cada vez mais vidradas nas máquinas e se esquecendo de trocar olhares. Forte abraço!!!

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  5. Maria Lúcia, amo seus comentários!!! Aliás, eles enriquecem demais o blog, pois tenho certeza de que outros leitores também leem as coisas maravilhosas que você escreve. Beijo enorme!!!

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  6. Dudu, suas crônicas desenham imagens no meu pensamento . São tão reais. Que possamos atravessar o acaso e aproveitar verdadeiramente o momento e seu infinito significado.

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    1. Andrea, agora você conseguiu arrancar algumas lágrimas dos meus olhos. Que coisa mais linda você escreveu! Muito obrigado!!! Beijão!!!

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