Valdete havia se casado antes dos 16, quando acabou engravidando do primeiro namorado, Carlos. Já com os filhos criados, pensou até em arrumar um emprego, mas foi desencorajada pelo marido, que gostava de ser o provedor. No entanto, o salário era curto para atender até mesmo as necessidades básicas.
Questão de honra resolvida,
Carlos sempre arrumava uma desculpa para suas escapadas. Não foi diferente
naquela véspera de carnaval, quando ele disse que precisava viajar a trabalho.
Valdete, talvez cansada do marido, gostou da ideia, mas fingiu tristeza.
— Você precisa mesmo ir, meu
amor?
— Minha flor, o chefe pediu.
E a gente está precisando dessa grana.
No sábado, a mulher
acordou sozinha na cama. Abriu os braços, se espreguiçou toda, sorriu para o
teto. Passaria um feriado sozinha. Nada de cozinhar, lavar, passar, varrer a
poeira pra calçada. Aos 40, estava finalmente se sentindo um pouco livre, mesmo
que tal liberdade tivesse prazo de validade.
Demorou a se levantar,
até que sentiu vontade de ouvir um samba na voz da sua favorita: Beth Carvalho.
Colocou "Vou festejar" e até arriscou uns passos, que resgatou das
longínquas memórias de um antigo baile, quando não passava de uma menina
espevitada ali mesmo em Madureira. Sambou!
No final da manhã,
xícara de café na mão, foi olhar o movimento da rua. Algumas pessoas
festejando, mas nada comparado às saudosas lembranças de Valdete. Bateu-lhe um
sentimento de nostalgia, como se tudo no passado fosse melhor. Talvez estivesse
certa, talvez fosse apenas o desejo de voltar a ter aquele corpinho de mocinha
na flor da idade. Não que ela não fosse atraente, pois ainda sabia se fazer
desejada.
Sentiu um pouco de
fome, preparou um sanduíche de queijo e presunto. Entediada, largou quase
metade no prato. Perambulou pela casa vazia. Sentou no sofá da sala, pegou uma
das almofadas ao lado e, carente, a abraçou bem forte. Acabou por adormecer ali
mesmo.
Valdete despertou com o som
de pagode vindo da rua. Levantou e, descalça, caminhou até a janela, de onde
pode vislumbrar um bloco de carnaval. Aqueles corpos felizes fizeram a mulher
querer participar daquele cortejo. A dúvida, porém, a impediu por alguns
instantes. Pois é, não demorou e lá estava a Valdete sambando toda sua alegria
reprimida por anos.
Como o tempo voa quando
estamos felizes, a noite logo chegou. O bloco ganhou vários outros adeptos,
entre os quais o Luiz, homem forjado ali mesmo no famoso bairro carioca. Viúvo,
desde então não conseguiu se firmar em relacionamento sério. Não que não
quisesse, pois não gostava de ficar pulando de galho em galho. Mas as tentações
eram tamanhas, que ele acabou se acostumando com a situação.
Lá pelas tantas, calhou
daqueles dois se encararem. Valdete, a princípio, desviou os olhos, mas logo
encarou aqueles olhos escuros do Luiz. Os dois sorriram, meio sem jeito, é
verdade. Seja como for, não demorou e estavam dançando bem pertinho, pertinho
até demais. Mas era carnaval e, por isso mesmo, estava tudo bem.
Não tardou e o "Deixa
disso!" se transformou no "Que beijo gostoso você tem!"
Terminaram a noite no pequeno apartamento do Luiz, onde se amaram até perderem
as forças para mais uma roda de samba.
No início da tarde, Valdete,
totalmente despida, despertou assustada, como se não se lembrasse de onde
estava. Luiz, bem à sua frente, lhe trazia uma bandeja com café, leite,
manteiga e algumas torradas. Ele sorriu, ela sentiu vontade de cair nos seus
braços novamente. E foi o que fez, enquanto o café esfriava na bandeja ao
lado.
Valdete e Luiz sambaram e se
amaram em todos os dias de carnaval, até que, já na manhã da quarta-feira de
cinzas, os dois se despediram. Promessas de que ainda se veriam, mas nem eles
sabiam se seriam cumpridas. Ela voltou para sua casa, onde seu marido não
tardou a chegar.
Carlos estava bronzeado,
como se tivesse passado esses dias na praia. A esposa não pareceu ligar, talvez
nem tenha percebido, pois seu pensamento estava envolvido nos braços de
Luiz.
— Minha flor, que olhar mais
triste é esse? Sentiu falta do seu Carlão?
— Você nem imagina o quanto,
meu amor!
- Nota de esclarecimento: O texto "Valdete e o carnaval" saiu na coletânea "E o Carnaval Voltou!" da editora Persona, de 2023. O texto de orelha de tal livro é de autoria de Eduardo Martínez.
- O conto "Valdete e o carnaval" foi publicado por Notibras em 10/2/2024.
- https://www.notibras.com/site/esposa-traida-cai-na-folia-como-nova-colombina/
- O conto "Valdete e o carnaval" da Coletânea Aconteceu num Carnaval, do Projeto Apparere da editora Perse, 2024.


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