Pois bem, o nome do nosso herói, que não tinha superpoderes
nem a fisionomia dos galãs de Hollywood, era Noel. Ele, no entanto, apesar da
aparente falta de atrativos, conquistava as mulheres, inclusive algumas
distintas senhoras casadas, apenas com a sua capacidade única de juntar um
monte de palavras, que encantava toda a cidade do Rio de Janeiro. Sim, o gajo
era compositor. Aliás, o maioral quando o assunto era samba!
E lá estava o Noel, que andava enrabichado por uma tal
Ceci, tomando aquele banho caprichado para se encontrar com a amada. A moça,
segundo me consta, era muito requisitada por todos cavalheiros distintos da
cidade, desejosos de carinhos e afagos, logo ali na Lapa, bairro boêmio. Entretanto, apesar da profissão malvista pela parte feminina da sociedade, o nosso
sambista parecia não se importar com as fofocas.
De banho tomado, toalha felpuda enrolada na cintura, lá foi
o Noel para o seu quarto. Tratou logo de vestir a sua samba-canção, enquanto
vasculhava o armário à procura da mais bela camisa de cetim. Qual foi a sua
surpresa ao descobrir que todas haviam sumido, inclusive aquela que comprara na
quinta-feira ali mesmo na loja do seu José, na esquina com a Teodoro da Silva.
O rapazola, mais que depressa, pôs a boca no trombone.
Questionou a dona Marta, sua mãe. Esta, por sua vez, a princípio, se fez de
desentendida. Não queria entrar em atrito com o filho, que sabia era turrão.
Mas não adiantou, pois Noel saiu do quarto quase como veio ao mundo, caso não
fosse por aquela samba-canção. A velha deu-lhe de ombros, como a se preocupar
com a teia de uma aranha que há muito se alojara bem no alto do lustre da
sala.
Com uma visão privilegiada, o aracnídeo a tudo observava.
Com certeza tentando imaginar o que era aquela algazarra lá embaixo. Já
conhecia aqueles dois humanos de outros carnavais. Todavia, não se lembrava de
ter visto aquele rapaz em tão poucas vestes. Quis até se fazer de tímida e, por
um instante, virou os quatro pares de olhos para o teto. Isso não durou muito,
nada além de alguns míseros segundos.
Mais poderosa até que o veneno de suas quelíceras, a
curiosidade aguçou aquela aranha. Agora, sem o menor pudor, voltou todos seus
olhos lá para baixo. Para os mais atentos, poder-se-ia dizer, sem medo de
cometer qualquer exagero, que aquela aranha apresentava um sorriso. Sim, um
sorriso! Não um sorriso vulgar. Mas daqueles que emolduram os rostos dos
cínicos.
Noel, alheio a tudo que acontecia bem acima de sua cabeça,
estacou diante da sua genitora. Essa o observou de cima a baixo, com aquele ar
de superioridade que todas as mães sabem que possuem. Não adiantou. O filho,
intransigente, começou a reclamar.
— Senhora
minha mãe, cadê minhas camisas?
— Mandei
todas pro tintureiro.
— Todas?
— Sim!
Todas estavam com marcas de batom.
— Marquei
com a Aracy. Vou lhe mostrar um novo samba.
Dona Marta pareceu não dar ouvidos ao filho, que
insistiu na contenda:
— Senhora
minha mãe, mas com que roupa eu vou?
Bem, não se sabe se essa história realmente aconteceu ou, então, é mais um fruto da vasta imaginação popular. Seja como for, dizem, foi daí que o Noel tirou a ideia para um dos seus sambas mais famosos.
- Nota de esclarecimento: O conto "O namorado de Vila Isabel" foi publicado pelo Notibras no dia 16/10/2023.
- https://www.notibras.com/site/noel-sob-teia-de-aranha-procura-roupa-para-sair/
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