Caminhamos até a estação Cardeal Arcoverde, onde pegamos o metrô para a Central do Brasil. Ali, tomamos o trem para o bairro tão cantado em sambas. Finalmente descemos em Madureira, naquela muvuca tão própria desse lugar encantador. O sorriso da minha mulher tomou-lhe toda a face, que ficou ainda mais bonita.
Enquanto descíamos a rampa para a calçada, a Dona Irene torcia o pescoço pra cá, pra lá, pra todos lugares, pois queria captar toda aquela aura local. Confesso que até eu, que já perambulei inúmeras vezes por aquelas ruas, também estava muito empolgado. Ir à Madureira é como ir a uma roda de samba, ou seja, por mais que você tenha ouvido aquelas músicas, não tem como deixar de arriscar uns passinhos ou, ao menos, dar umas batucadas com as pontas dos dedos.
Depois de batermos perna pela região, a minha esposa disse que queria conhecer o famoso Mercadão de Madureira. É que eu havia lhe dito que lá havia até bode para vender, coisa que ela queria ver de perto. Pra quê? Assim que entramos nesse misto de shopping e feira, parece que a Dona Irene foi picada pela mosca do consumismo. Comprou tanta coisa, que encheu várias sacolas. Obviamente, eu que as levei, pois a minha mulher não queria estragar as unhas, lindamente pintadas de vermelho, sua cor preferida.
No entanto, ainda faltava o tal bode. Subimos para o segundo andar do Mercadão, onde, finalmente, a minha esposa se deparou com um pequeno rebanho de caprinos em um cercadinho. Ela ficou apaixonada justamente por um cabritinho malhado. Os olhos castanho-escuros dele fitaram os lindos olhos da Dona Irene, que, por sua vez, se voltaram para os meus. Um medo me correu por toda a espinha, pois conheço muito bem a minha amada.
Ela queria porque queria levar aquele lindo filhote para casa! Isso deve ter durado alguns milésimos de segundo, mas me pareceram horas, até que, graças aos sábios deuses do samba, a minha alma gêmea teve um relampejo de serenidade e, olhando bem dentro daqueles olhos do bodinho, disse: "Eu não posso te levar pra casa, mas não fique triste. Alguém vai te comprar e você vai viver em um lindo quintal cheio de capim bem verdinho".
No caminho de volta, sentados no banco do trem, olhei para a Dona Irene, que segurou firme a minha mão. Ela nada me disse, mas senti que a sua profecia logo iria se realizar. Por isso, enquanto escrevo esta crônica, estou certo de que o nosso amigo, hoje certamente um lindo bode, vive uma vida repleta de grama tenra e verdinha.
- Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene em Madureira" foi publicada por Notibras no dia 14/11/2023.
- https://www.notibras.com/site/visita-podia-dar-bode-mas-ficou-em-outras-compras/
Madureira, aí, Madureira!
ResponderExcluirPra mim, ir ao Rio de Janeiro e não ir ao Mercadão de Madureira, não foi ao Rio de Janeiro.
Da última vez que fui, não fui à Madureira e ficou faltando algo.
Pra mim, são sagrados: Madureira e o São Januário.
Leve Dona Irene ao São Januário, ela vai gostar.
Saudades, Dudu...
Maria Lúcia, Madureira é tudo de bom mesmo!!! Quanto à São Januário, já fui com a Dona Irene inclusive para ver jogo (Vasco x Palmeiras). Ela adorou!!! Até fiz um texto sobre esse dia, que foi muito tenso por conta da comemoração do gol do Palmeiras em plena torcida do Vasco. Beijo na testa!!!
ExcluirPois é, dona Irene queria levar um bodinho. Alfredo queria levar um jegue. Quando fomos ao Piauí, chegou a consultar a empresa aérea sobre a possibilidade, o que foi negado, não podiam transportar animal de porte grande. Chegando em Brasília, contou a história para várias pessoas, lastimando, todo triste. Qual não foi a sugere quando, no seu aniversário, ganhou um jegue do seu amigo, Sr Geraldo. Na chácara, ao ganhar algum animal, de presente, o bichinho recebia o nome de quem fez a doação, lógico, o jeguinho recebeu o nome de Geraldo, e viveu longos anos conosco. Era meu grande amigo, respondia a todas minhas chamadas, com aquele sonoro rim rom....
ResponderExcluirNota:::::...onde se lê::sugere,,, ,considere "surpresa"
ExcluirIraci, obviamente eu me lembro muito bem do Geraldo! Lindo demais!!!
ExcluirO gostoso do Rio é o subúrbio, tem que levar dona irene no cacique de ramos, no pagode de Xerém onde a gente realmente vê o carioca.
ResponderExcluirE agora em 2022 não pode faltar ir no bar do Omar, lá é o melhor lugar do universo kkkk
Hugo, isso mesmo!!! E pretendemos ir ao bar do Omar, que é, com certeza, um dos maiores apoiadores do Presidente Lula! Abração!!!
ExcluirMuito legal, crônica, Madureira (que infelizmente não conheço), o cabritinho e o casal...
ResponderExcluirE que o cabritinho encontre tudo aquilo que Dona Irene desejou pra ele!
Anísio, Madureira é um dos locais mais legais do Rio. Ainda hoje pensamos naquele cabritinho. Muito obrigado, mais uma vez, pela leitura e comentário! Forte abraço!!!
ExcluirAdoro seus textos!!! Me divirto
ResponderExcluirQue legal ler isso!!! Fico muito feliz mesmo!!! Abraço bem apertado!!!
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