sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Jaime, o irmão que ninguém merecia ter

   

       Eu não sou tão jovem. Quer dizer, estou naquela fase quando preferimos evitar imbróglios desnecessários, mas que também não estamos dispostos a levar desaforo para casa. Melhor engolir alguns sapos para não estragar o humor e, obviamente, o coração agradece. O problema é que nem sempre consigo me conter diante de algumas situações, muitas das quais provocadas por meu querido e tão amado irmão do meio.

          Somos sete. Sim, isso mesmo! Sete parece conta de mentiroso, bem sei disso, mas Jaime, que fica exatamente no meio entre os mais velhos e os mais novos, tem a singular capacidade de me arrancar qualquer resquício de paciência com a sua notória ausência de sensatez. Um folgado, por assim dizer, ainda mais porque sempre foi o xodó da família, incluídos aí mamãe, papai e vovó Lourdes, que, beirando os cem, ainda paparica o sujeito, como menino fosse. 

          Aos 40 anos, sou proprietário de um pequeno comércio na Ceilândia, que é de onde tiro meu sustento e, graças a Deus, as finanças estão bem. Por conta disso, vou passar minhas primeiras férias em anos ao lado da esposa na praia. E, na semana passada, comuniquei o fato no almoço de domingo na casa dos meus pais, quando a família se reúne para manter os laços firmes. 

          Enquanto degustávamos o delicioso mexido de mamãe, eis que o sem-noção do meu irmão, sabendo que iria ficar fora por uma semana, se ofereceu para nos levar ao aeroporto com o meu carro. Bobo que não sou, ainda mais conhecendo a peste da família, tentei desconversar, mas Sandra, a minha mulher, deu corda.

          — Mas, Júlio, meu amor, e por que a gente não aceitaria esse favor?

          — Tá, vendo, Júlio, até a Sandra sabe que faço isso de coração.

          — Então, amor, aceita, vai!

          — Tá bom, tá bom!

          Para mau-entendedor, tudo poderia parecer lindo e perfeito, mas... Bem, mas o dono da proposta era o Jaime, justamente o maior cara de pau para os lados de cá. E, não tardou, o cordeiro se revelou o lobo da história. 

          Há pouco mais de três horas, Sandra e eu fomos de carro até o apartamento do meu irmão, pois ele iria nos levar até o aeroporto. Mal chegamos, ele nos recebeu com aquele sorriso que engana apenas  os inocentes, puros e bestas. 

            — Faço questão de ir dirigindo. Hoje serei o motorista de vocês.

            — Não precisa, Jaime.

            — Ah, amor, deixa o seu irmão nos levar. 

            — Tá bom!

            Durante o trajeto, eis que o Jaime me desferiu a primeira facada.

            — Júlio, andei pensando.

            — No quê?

           — Bem, já que vocês não vão precisar do carro, bem que eu poderia ficar com ele até vocês voltarem.

            — De jeito nenhum!

            — Ah, amor, o que tem? Vamos, deixe o carro com o seu irmão.

          Nem respondi, mas, a despeito da minha cara de contrariado, acabei acenando positivamente, apesar de lentamente, com a cabeça. Todavia, não pense você que a coisa ficou por aí. Pois você acredita que o cretino ainda me veio com mais uma? Sim, isso mesmo, a punhalada definitiva!

           — Júlio, mas você vai deixar com o tanque cheio, né?

          Antes que eu pudesse mandá-lo para aquele lugar, a Sandra pediu para ele parar em um posto logo adiante. Fiquei calado, mas com fumaça saindo pelas orelhas. E, para não estragar o dia, saquei meu cartão de crédito para pagar pela gasolina.

Seja como for, aqui estamos minha amada e eu no aeroporto de Brasília prestes a entrar no avião. A Sandra, que nunca viu praia na vida, parece criança diante de um pote de sorvete. Entretanto, só consigo pensar na volta, quando certamente irei esganar aquele espertalhão.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Jaime, o irmão que ninguém merecia ter" foi publicado por Notibras no dia 22/8/2025.
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quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Que tal uma dose de sarcasmo de vez em quando?

  

No fundo, mesmo que bem lá no fundo, todo mundo é triste. Tristeza é o nosso dia a dia, apesar da desfaçatez de buscar, sem qualquer pudor, essa ilusão que é a felicidade. Eunice, minha irmã, é uma romântica incurável. Vive fantasiando os momentos mais trágicos da vida como se fossem característicos de histórias épicas e, no final, tudo vai ficar bem porque é assim que deve ser.

          — Roberta, mas você nunca ri?

          — Óbvio que rio, Eunice. Rio dessa sua cara de marmota esperançosa.

          — Não sei como é que mamãe conseguiu parir duas criaturas tão diferentes.

          — E quem disse que ela pariu as duas? 

          — Como assim?

          — Ué, não te contaram?

          — Contaram o quê, Roberta?

          — Que você foi achada na rua.

          Minha irmã, sensível como ela só, não consegue evitar uma lágrima furtiva. Lágrima furtiva? Ih, cá estou usando repertório que, não duvido, Eunice costuma usar em cartas para algum namorado ou, pior, em poesias tolas. Como se alguém, em sã consciência, perderia tempo com isso...

          — Mas, Roberta, para alguém que só sai com homem bonito, você é bem depressiva.

          — E o que tem isso a ver, Eunice?

          — Ué, se eu fosse esse poço de melancolia, nem me importava se o cara não parecesse com o Denzel Washington. 

          — Ah, Eunice, não é porque a vida é puro desalento, que eu não possa me divertir com o sabor de sorvete mais saboroso. E você sabe que adoro chocolate, né?!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Que tal uma dose de sarcasmo de vez em quando?" foi publicado por Notibras no dia 21/8/2025.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Santana e o bico no bingo

    

  E o Santana, cuja aposentadoria parece que vai sair no próximo ano, arranjou um bico justamente na igreja que fica bem perto da delegacia. O agente de polícia, que conheceu o pastor nos tempos de menino, foi convidado para ajudar no bingo, que acontece invariavelmente nas noites de sexta-feira. O problema é que, não raro, o policial precisa dar as famosas escapadas do plantão para cumprir seu turno na paróquia. 

          Imagine você a cena quando o Santana, diante do colega Ricky Ricardo, chefe do plantão, tentava inventar mais uma desculpa, que, obviamente, não colava, ainda mais porque este já estava mais do que ressabiado com as artimanhas do gorducho. Outro que não engolia aquela lorota era o Pedrito, que, apesar de não tão antigo na corporação, há meses não caía nas lorotas do mais notório procrastinador da delegacia de Sobradinho.

          Se o Ricky não era tolo, também queria se ver livre daquela ladainha sem tamanho e, por isso, fingia que acreditava. Nem se dava ao trabalho de escutar o Santana. Virava-se de costas e, com a mão esquerda sacudindo acima da cabeça, dizia:

          — Tá, bom, Santana! Vá lá resolver as suas broncas, que o Pedrito e eu ficaremos aqui para combater o crime. 

          Não que houvesse algum delito em andamento, pelo menos ninguém havia noticiado um. Seja como for, a inutilidade do Santana era tão conhecida, que o ambiente até ficava descarregado quando ele se evadia.

          Assim que estava saindo da delegacia, Santana foi questionado pelo delegado Rupereta, que queria saber aonde iria o preguiçoso.

          — Ah, doutor, vou dar um pulo em casa, pois esqueci de colocar ração pro cachorro.

           — Cachorro? Não sabia que você tinha um cachorro.

           — Agora tenho.

           — E qual é a raça?

           — Raça? Ah, é desses comuns.

          Sem querer prolongar a conversa, o delegado foi jogar paciência no computador, enquanto o escrivão Gilmarildo se emocionava com as poesias do livro 'A verdade nos seres', do Daniel Marchi. Ele, em momento de devaneio, se imaginava poeta e, caso o talento não fosse suficiente, venderia coco na praia. 

          Mal chegou à igreja, Santana percebeu que o local estava apinhado de fiéis. O policial, apesar de ser péssimo em matemática, calculou que devia ter no mínimo umas 200 pessoas, quase todas com cartelas sobre as mesas dispostas pelo pátio. O pastor, assim que avistou o agente, o chamou.

           — Demorou, hein!

           — Tive que prender dois ladrões de carro, além de dar apoio em uma investigação de homicídio.

            — Sério?

            — E eu lá sou homem de mentira, Olegário?

            Obviamente, o religioso sabia que Santana não era amigo da verdade, mas preferiu aceitar as desculpas, mesmo porque o público estava ansioso para que o bingo começasse. O prêmio principal da noite era um frango assado e um garrafão de vinho barato. Os demais não passavam de bijuterias e frascos com água benta, que, na verdade, vinha da torneira do banheiro. Que fosse, já que o que importa mesmo é a fé. 

           Olegário, microfone na mão, anunciou que o bingo, finalmente, teria início. Foi aquela algazarra, até que, aos poucos, o público foi se acalmando. No entanto, a cada número anunciado, a plateia se dividia entre gritos de euforia, reclamações e, não raro, alguns palavrões ditos em pensamento. Que Deus os perdoasse, pois aquelas falhas eram por uma boa causa. 

            Nas próximas três horas, os ganhadores sorriam, os que não tiveram a mesma sorte apostavam que na próxima sairiam vitoriosos e, então, quase todos conviviam em aparente harmonia. Todavia, eis que a discórdia se instaurou justamente no instante em que a última pedra foi cantada. 

            — Trinta e três!

            — Ganhei! Ganhei! Ganhei!

            — Não pode ser, Aurora. Eu que ganhei.

            — Hum! Pois eu duvido, Laura!

           Cartelas devidamente conferidas, constatou-se que as duas mulheres eram as vencedoras. O problema é que nenhuma das duas queria dividir o prêmio. E não adiantaram as ponderações do pastor Olegário, já que as fiéis pareciam determinadas a ficar com o frango e o vinho. Não tardou, uma desferiu uma bofetada na outra, que respondeu em seguida. E lá foram as duas rolarem no chão, enquanto a multidão tentava apaziguar os ânimos. 

            Não se sabe quem foi, mas alguém telefonou para a delegacia e, poucos minutos depois, lá estavam os agentes Ricky Ricardo e Pedrito na igreja. Ânimos ainda exaltados, as duas brigonas foram conduzidas à delegacia quando, então, alguém percebeu que o prêmio da discórdia havia desaparecido. Procura daqui, procura dali, nem sinal.

             Quase duas horas depois, o delegado Rupereta conseguiu apaziguar a contenda entre Aurora e Laura. As duas mulheres se despediram da autoridade policial e, ainda envergonhadas pelo papelão, saíram da delegacia de mãos dadas como velhas amigas. Mais alguns minutos se passaram quando, então, apareceu o Santana caindo pelas tabelas de tão bêbado e arrotando aquele fedor azedo de frango assado parcialmente digerido.

              — Você está bem, Santana?

              — Ô, doutor, não sei por que fui arrumar um gato. Eita, bicho pra dar trabalho.

              — Gato? Ué, mas não era cachorro?

  • Momento Cultural: O conto "Santana e o bico no bingo" foi publicado por Notibras no dia 20/8/2025.
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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Dona Lalá e os imbecis que nos rodeiam

 Foi mais ou menos nessa época que vi minha avó pela última vez. Melhor, com vida, já que, dois ou três meses após, a encontrei no próprio velório repousando dentro de um caixão, com o semblante não aparentando resquícios de culpas. Não que fosse livre de pecados, mas vivera sob a própria pena, como se poetisa fosse, apaixonada por suas lutas, a despeito de opiniões de outrem, contrárias e, não raro, agressivas.

          Adelaide Fuoco, a dona Lalá, nunca se deixou intimidar por bravatas, que tentavam impor regras e tradições ao seu modo de pensar. Pelo contrário, eram os valentões que se acovardavam diante daquela mulher de pouco mais de metro e meio. Por conta disso, cresci ouvindo familiares e amigos dizerem que vovó enfrentou o que viesse pela frente com um pé nas costas.

          Vovó tinha um ditado que ainda guardo como lema de vida. E era dito com certa frequência, talvez para que os mais novos não se deixassem cair nas tolices ditas por indivíduos sem muito tutano: "Por mais que você seja diligente, não vai conseguir impedir que todos os imbecis se aproximem."

          Talvez por ironia do destino, tia Márcia tenha se casado justamente com Marcos, cuja inteligência parecia destoar da beleza. É verdade que o casório não durou mais do que meia década, mas o suficiente para me fazer entender que, não raro, coisas aparentemente coerentes são meras bobagens ditas e repetidas como dogmas.

          Vovó, tia Márcia, o marido e eu estávamos a caminho do circo, quando, antes de entrarmos no automóvel, um mendigo pediu alguns trocados. Tio Marcos tentou afastar o homem, mas minha avó tratou de retirar uma nota de cinco reais e a entregou para o pedinte, para desgosto do esposo da filha. E, assim que estávamos acomodados no veículo, ele não conseguiu ficar calado.

            — Dona Lalá, a senhora sabe que fez besteira, né?

            — Besteira? Como assim, Marcos?

            — Ué, a senhora deu dinheiro pra aquele vagabundo.

            — E você conhece aquele homem?

            — Não! 

            — Hum! Não conhece e sabe que ele é vagabundo?

            — E é o quê, então?

            — Não sei, mas você parece que sabe de tudo.

            — Dona Lalá, vou te falar uma coisa. Aquele tipo vai pegar o dinheiro que senhora deu e vai comprar drogas e se embebedar.

             — E daí?

             — E daí? A senhora ainda me fala e daí?

            — Marcos, aquele homem é adulto e vai fazer o que tem vontade com o dinheiro que dei pra ele. Se ele vai comprar pão, cerveja ou rasgar o dinheiro que dei, isso não é problema meu. As pessoas fazem o que quiser com os recursos que conseguem. E é assim que a vida é. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dona Lalá e os imbecis que nos rodeiam" foi publicado por Notibras no dia 19/8/2025.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Prevaricação e melancia

    

     Há coisas que nos reportam para fatos há tempos ocorridos. E foi o que aconteceu comigo na semana passada, quando precisei ir ao Setor Comercial Sul, aqui em Brasília, para resolver pendengas deixadas de lado até que, não podendo mais esticar a prevaricação, fui num misto de preguiça e culpa, sentimentos que desde sempre me são tão fiéis.

          Enquanto caminhava pelas calçadas apinhadas de gente, percebi um ambulante vendendo frutas. Na verdade, o que me chamou a atenção mesmo foi que ele, com a destreza de um profissional do ramo, fatiava uma melancia. Segui meu caminho e deixei o vendedor e sua banca para trás, mesmo porque queria resolver logo o que vinha adiando há praticamente dois anos. Mera confecção da carteira digital no conselho que regula a minha profissão. 

          Nem sei por que me dei a esse trabalho, já que pretendo me aposentar nos próximos meses. Seja como for, fiz o que a modernidade clama àqueles que querem se enquadrar aos novos tempos. Pois é, como se isso me colocasse nesse balaio de antenados, justamente eu, um notório, e não notável, diga-se de passagem, do ofício que escolhi ou, não descarto tal possibilidade, fui empurrado na longínqua juventude nos idos de 1973.

        Assim que meus gastos sapatos voltaram à calçada, avistei novamente o camelô. Pelo número reduzido de fatias de melancia sobre a bancada, percebi que, provavelmente, se tratava de pujante comerciante local. E, por mero impulso, fui até ele.

          — Bom dia! Quanto tá a melancia?

          — Bom dia! Cinco reais.

          Não sei se infância tem sabor, mas, caso tivesse, a minha seria que nem melancia. Sentávamos debaixo de uma árvore enquanto devorávamos uma inteirinha aos nacos, cujo sumo escorria pelos cantos das bocas felizes. Dias de melancia, invariavelmente, se tornavam noites assustadoras, pelo menos para mim.

           Morava em uma casa modesta, mas com três quartos enfileirados em um corredor que me parecia enorme. E, lá no fundo, o único banheiro. E sempre acordava de madrugada para fazer xixi, enquanto a escuridão era como se Deus estivesse de olhos fechados. Ou tomava coragem para enfrentar o medo ou, então, teria que aguentar as gozações na manhã seguinte quando descobrissem que havia molhado a cama. 

            Enquanto mordiscava a parte esbranquiçada da melancia, não consegui evitar sorrir e, como consequência, me engasguei.

             — O senhor está bem?

            — Sim, sim, estou. É que me lembrei de algo engraçado.

            Não quis revelar minhas memórias ao vendedor, que, certamente, teria coisas mais urgentes para se preocupar. Caminhei até a W3, peguei o Grande Circular e desci já próximo ao meu apartamento na Asa Norte. Mal abri a porta, minha esposa me recebeu com um beijo.

            — E aí, meu bem, conseguiu fazer a carteira digital?

            — Sim.

            — Deixa-me ver.

            Enquanto Arlete olhava a nova identidade no meu aparelho celular, voltei a pensar nos meus tempos de menino.

            — Comi melancia.

            — Que bom! Você quase não come fruta.

            — Ainda bem que dormimos na suíte.

            Minha mulher ficou sem entender essa parte. Talvez um dia, eu lhe conte.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Prevaricação e melancia" foi publicado por Notibras no dia 18/8/2025.
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domingo, 17 de agosto de 2025

Ludmila e a descoberta através do espelho

        Ludmila, desde que fizera implacável acordo do traseiro com o insensível pé do ex-namorado, andava na maior fossa. A tristeza era tamanha, que a mulher queria porque queria sumir do mapa. E desapareceu por um tempo, mesmo diante das súplicas das amigas Iranilde e Cristal, que não suportavam vê-la definhando sob os lençóis nas noites solitárias de Brasília. 

          É verdade que, em certas ocasiões, somos compelidos a agir que nem monge budista, mas Ludmila não suportou o isolamento além de um final de semana. Para ser mais exato, quando as estrelas já começaram a dar as caras no sábado, a mulher constatou que não queria se desapegar do desejo que sentia. E, talvez por impulso, começou a escrever algumas linhas sobre o próprio reflexo no amplo espelho do quarto. 

          Encantada pela própria beleza, despiu-se antes de prosseguir os versos, que se prolongaram por estrofes incertas. Nunca desconfiara que fosse poetisa, talvez porque jamais tivesse experimentado. Mas gostou. Ah, gostou tanto, que a vontade de ganhar o mundo se apoderou do seu ser, como se precisasse dividir aquele sentimento com alguém. 

            Foi por impulso que mandou uma mensagem para Iranilde e Cristal: 

E aí, pronta pro crime?

            As duas, que já estavam desacreditadas da pronta recuperação da amiga, responderam de imediato.

É pra já!

Só se for pra ontem!

            As três sem encontraram em concorrido bar na Asa Sul, ponto de possíveis paqueras. Entretanto, Ludmila, apesar das cantadas de alguns pretendentes, um ou dois até interessantes, preferiu se ater ao resultado da sua curta, mas profunda meditação. Curiosas, as colegas queriam saber o segredo de tamanha transformação.

            — Sabe, fiz uma poesia sobre meu corpo, minhas curvas e minha liberdade. 

            — Ah, que legal! Agora temos uma poeta entre nós.

            — Iranilde, não sei se sou poeta, mas expor tanta gostosura no papel me abriu os olhos para uma coisa.

        — E o que foi?

        — Quando estiver sozinha, sei me satisfazer muito bem.

  • Momento Cultural: O conto "Ludmila e a descoberta através do espelho" foi publicado por Notibras no dia 17/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/ludmila-e-a-descoberta-atraves-do-espelho/

sábado, 16 de agosto de 2025

Elvis não morreu

    

                 Acordou completamente grogue de sono naquele sábado, 16 de agosto de 2025. Levantou-se e se arrastou até o banheiro a fim de desaguar na privada, cuja tampa permanecia levantada desde que a esposa o abandonara por um praticante de artes marciais do Lago Sul. 

                Olhou-se no espelho e não conseguiu enxergar seus olhos azuis, já que eram castanhos, nem mesmo o topete, haja vista a calvície avançada. Os parcos cabelos, que ainda cismavam em se fazerem presentes, que um dia teriam sido completamente pretos, agora dividiam o espaço com fios brancos. Tentou dizer algo e, talvez pelo bocejo que lhe tomou, a voz tenha saído fina como de costume, bem distinta daquela rouquidão aveludada que nunca teve. 

               — Pois é, seu Elvis Presley, o senhor chegou aos 48 anos. Aposto que você nunca se imaginou tão velho assim.

               Apesar do autodesprezo, o sujeito, mesmo desgastado pelo tempo, não poderia ser considerado um idoso. Tivera uma infância boa, mas a adolescência foi terrível, pois carregava o peso de ser xará do mais famoso cantor de toda uma geração, sem contar que o gajo parecia cada vez mais vivo a cada dia. E, tentando se afastar daquela sina, chegou a se apresentar com outro nome.

                — João, mas pode me chamar de Johnny.

                — Johnny?

                — Sim, Johnny.

                E o nome pegou tanto, que começou a causar problemas, a ponto do nosso Elvis, não daquele outro mais famoso, precisar ser enfático e dar um basta:

                — Meu nome não é Johnny!

               Por falar em nome, recebeu o seu por mera fatalidade. Quer dizer, mera é modo de dizer, já que o inesquecível dia 16 de agosto de 1977 foi marcado por um cataclismo, quando um certo rapaz de costeletas, que já não era tão rapaz assim, resolveu aceitar o convite de extraterrestres e, então, deu o pinote da Terra. Há outras teorias, bem sabemos, todavia, nenhuma tão plausível como essa. 

               Mas voltemos ao exato momento em que o nosso Elvis estava diante do espelho. Ele deu mais uma olhada em seu reflexo, abaixou a cabeça e lavou o rosto com uma boa quantidade de água gelada. E, assim que retornou os olhos para o espelho, viu algo quase inacreditável, caso não tivesse acontecido exatamente como aconteceu. Pois é, lá estava ele com o famoso topete, aqueles olhos azuis penetrantes, alto, esbelto, belo que nem, que nem, que nem... Ah, sim, belo que nem o outro Elvis, aquele mesmo que fora abduzido por alienígenas há exatos 48 anos. 

              Elvis de frente para o próprio Elvis. Como seria possível, ninguém sabia. Entretanto, antes que ele pudesse refletir sobre aquela alucinação, o coração parou e, finalmente, Elvis estava morto. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Elvis não morreu" foi publicado por Notibras no dia 16/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/elvis-nao-morreu/
  • O conto "Elvis não morreu" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 30/3/2026.
  • https://www.notibras.com/site/elvis-nao-morreu-2/

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Parece mentira, mas é (quase) verdade

   

         Apesar das vestes surradas, Lúcia percebeu certa dignidade por detrás da barba grisalha daquele sujeito. Se lhe colocassem um terno de corte fino, certamente o confundiriam com um tipo respeitável do lugar. Devia ter pelo menos 60 anos, se bem que mendigos geralmente aparentam idade muito acima da real. Seja como for, era plausível que o homem já tivesse ultrapassado a barreira dos 50.

          — Bom dia!

          — Bom dia, senhora!

          — Me chame apenas de Lúcia. Como se chama?

          — Pedro, mas todos me conhecem como Pedoca.

          — Prefiro Pedro.

          Ele encarou aquela mulher, mas, antes que pudesse dizer algo, ela continuou.

          — Sorria.

          — O quê?

          — Sorria! 

          — Sorrir do quê, senhora?

          — Lúcia!

          — Lúcia.

          — Quero ver os seus dentes.

          — Por acaso você é dentista?

          — Não! Mas quero te propor um trabalho.

          — Que tipo de trabalho?

          — Preciso ver seus dentes pra ver se você serve.

          Sem alternativa, Pedro sorriu, enquanto Lúcia o observou com atenção.

          — Muito melhor do que eu supunha. Você começa hoje.

          — Mas o que vou fazer, dona?

          — Lúcia!

          — Que seja! Lúcia, o que vou fazer?

          — Acompanhe aquela mulher, que precisamos dar um trato nessa sua aparência. 

          — Olha aqui, Lúcia, não vou sair daqui até que eu saiba do que se trata. 

          Lúcia franziu a testa, não estava acostumada a ser desafiada, pelo menos não por gente daquele tipo. Sorriu, retirou duas notas graúdas de dentro da bolsa e as entregou ao moribundo, que não teve escolha a não ser aceitá-las de bom grado. 

          — Pode ficar tranquilo, Pedro. Você não vai ser preso. Pelo menos, não por isso. Agora vai. Conversaremos no final da tarde.

          O antigo relógio na parede já havia passado das dezessete horas quando Pedro, levado pelas mãos de Clarice, adentrou o escritório de Lúcia. Esta observou por alguns instantes o agora mais do que apresentável ex-maltrapilho.

         — Como sempre lhe digo, Clarice, nada como um banho de loja pra transformar um sapo em príncipe. 

            Pedro não sabia se ficava feliz ou contrariado por tal comentário. Sapo? Bem, ele sabia que, desde que foi viver nas ruas, sofreu certa metamorfose em virtude da precariedade de recursos. Todavia, sapo lhe pareceu ofensivo demais até para ele, tão acostumado com impropérios vindos de todos os lugares. Mesmo assim, preferiu se calar a criar imbróglios desnecessários, ainda mais porque Lúcia lhe entregou uma carteira de couro com uma boa quantidade de dinheiro.

            — Vamos, que já estamos atrasados. 

            — Ir pra onde, Lúcia?

            — Eu te explico no caminho. Aliás, quem paga a conta hoje é você.

            Pego de surpresa, Pedro colocou a mão no bolso, mas não teve ímpeto de descobrir a quantia que acabara de receber. Não se preocupou se seria suficiente, mesmo porque estava com moral elevado, já que passara por uma verdadeira transformação. Até riu, pois percebeu que acordara sapo, mas que agora, banho tomado, cabelo cortado, barba aparada e estômago saciado, mesmo que não tivesse se transformado em um príncipe, poderia entrar em qualquer recinto, que seria prontamente aceito como um igual. Ou quase.   

          No banco de trás do automóvel de luxo, Pedro sentiu o frescor vindo do ar-condicionado. Ajeitou a gravata, quando, então, foi puxado de volta de possíveis devaneios.

          — Pedro, estamos indo ao casamento da sua filha.

          — Filha? Não tenho filha.

          — Agora tem. O nome dela é Isabela. E o seu, pelo menos por esta noite, é Jorge Araújo. Consegue memorizar?

          — Consigo. Mas por que isso tudo? Posso saber?

          — Pode, claro! Afinal, você é o pai da noiva.

          Lúcia revelou que Isabela, sua ex-funcionária, que trabalhou como acompanhante durante quase cinco, havia tirado a sorte grande. A mulher iria se casar com um dos mais cobiçados herdeiros de Brasília, o jovem Rafael Bustamante. O casamento, no entanto, seria com separação total de bens, que era cláusula inegociável da contratante.

          — Sei que não é da minha conta, mas quem é a contratante?

          — A mãe do noivo.

          — Do jeito que essa mulher é esperta, não duvido nada que logo, logo descubra esse esquema.

         Lúcia deu uma sonora gargalhada diante da observação do homem. 

            — Você não tem medo dessa mulher descobrir?

            — Meu caro, ela que planejou tudo. Eu apenas estou tentando fazer com que tudo pareça crível. 

           O veículo estacionou em frente a um prédio na Asa Norte e, não tardou, surgiu Isabela. Ela tomou o lugar de Pedro, que passou para o banco da frente. 

            — Lúcia, que pai bonitão você me arrumou!

            — Fiz o melhor que pude, Bela.

          Pedro não deixou de notar como Isabela, a Bela, era realmente linda. Poucas vezes em seus 58 anos havia se deparado com uma mulher de beleza tão estonteante. 

            — Lúcia, se eu serei o pai da Bela, quem será a mãe?

            — Morreu.

            — Ah, desculpe. Não sabia.

            Nova gargalhada de Lúcia, agora acompanhada de uma da noiva.

            — Lúcia, você não tem jeito mesmo. 

            — Hum! Quer contar? Então, conte você!

            — Minha mãe é viva. Aliás, vivíssima, e cheia de saúde. Mas ela, como posso dizer isso, não se encaixa no perfil de mãe da noiva de um homem rico. Você me entende?

          Pedro percebeu que todo aquele teatro havia sido muito bem ensaiado, apesar do seu papel, certamente pensado detalhadamente por Lúcia, seria desempenhado por um ator principiante. Assentiu com a cabeça, enquanto ouviu os últimos detalhes sobre a peça que, não tardaria, iria ser encenada. 

         O casamento foi um acontecimento na capital do país. Várias personalidades locais compareceram. Pedro ficou surpreso com a própria atuação. Mas havia algo que não entendia. Por que, afinal, a agora sogra de Bela a havia escolhido para se casar com o filho? Certamente não faltavam pretendentes com um passado menos nebuloso.

          Deitado na confortável cama de um hotel na área central de Brasília, Pedro olhava para o teto. Parecia que estava vivendo um sonho, pelo menos naquele dia, quando acordara como há tantos anos sob a marquise do comércio local. Foi quando surgiu na porta do banheiro Lúcia, que, após se amarem, resolveu lhe revelar toda a história.

            Eleonora, mãe de Rafael, queria proteger a reputação do filho, que já andava na boca do povo. E, em comum acordo com a cria, foi decidido que um casamento seria o mais apropriado para sepultar de uma vez por todas qualquer fofoca. Que continuasse a viver a própria vida da melhor maneira, mas com discrição. E que o casal tivesse um herdeiro.

            — Tá, entendi, Lúcia. Mas por que a Eleonora escolheu justamente a Bela.

            Lúcia soltou mais uma das suas gargalhadas e, então, revelou.

          — Pedro, meu querido, a Bela é amante da Eleonora há quase dois anos. E ela a queria por perto, mesmo que na condição de nora.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Parece mentira, mas é (quase) verdade" foi publicado por Notibras no dia 15/8/2025.
  • https://www.notibras.com/site/parece-mentira-mas-e-quase-verdade/