quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Zé Dadá, o invencível

        O homem, da sacada da casa de dois andares, ali no Menino Deus, observava o neto, não mais de 10 anos, entretido com joguinhos no aparelho celular. Do nada, quase sem querer, começou a resmungar com seus botões, até que o moleque desviou os olhos da telinha e os manteve firmes aos do avô. Apesar de menino, sabia que daquela boca saíam histórias interessantes. Na verdade, quase sempre. Por isso, tratou logo de aprumar as orelhas para não perder uma palavra que fosse. 

    Zé Dadá era afamado em briga. Não perdia uma. Era murro daqui, chute dali, cabeçada acolá, sobrava rabo de arraia pra todo lado. Pobre adversário, se fosse esperto, caía logo para não apanhar mais. Um olho roxo, um dente quebrado, uma costela partida, tudo era troféu de guerra, mesmo que perdida. Afinal, com Zé Dadá, ninguém podia.

    De boca em boca, os feitos do brigão logo chegaram aos ouvidos de toda a Caxias, terra de Gonçalves Dias. Não demorou, até a polícia evitava cruzar o caminho do Zé Dadá. Isso porque o povo não respeita policial que toma tapa na cara.

      A despeito de tamanho temor, havia um rapazola franzino chamado Raimundo, que dizia não tremer que nem vara verde como tantos ali. Ele levantou o braço e, com a voz mais apagada do que a própria covardia, disse: "Se ninguém tem coragem de enfrentar o Zé Dadá, eu enfrento!" Pra quê? Isso foi cair justamente nos ouvidos do Zé Dadá, que logo quis saber quem era o tal atrevido.  

    A notícia correu toda a cidade, especialmente entre os alunos do Colégio Caxiense, onde o Raimundo penava para passar em matemática. Diante de tantas contas complicadas, chegou a desejar que a luta contra o brigão se desse o mais rápido possível. Antes a cabeça rachada que quebrar a cuca com tantos números. 

    A luta foi marcada. Dali a três dias, lá no Largo de Santa Luzia, que ficava atrás do Caxiense. Em vez de futebol, o lugar seria palco da batalha mais esperada desde que Lampião passou pelo município, fato este que jamais aconteceu. Entre lendas e verdades, o tempo voou, especialmente para o pequeno Raimundo, que já pensava em se escafeder pelo mato, tamanho seu arrependimento por sua irracional impulsividade. Por que diacho ele havia erguido o braço, quando ninguém mais esperava por nada além de um ato de contida covardia?

    O local estava abarrotado, saindo gente pelo ladrão. Até o padre, dizem, teria feito sua fezinha. Obviamente que apostara toda a oferenda do mês no Zé Dadá. Afinal, não dá para brincar com o dinheiro divino sem ter certeza do resultado. 

    De um lado, surgiu o grande Zé Dadá. Perto de 1,80 m, quase 80 kg de puro músculo. Já sem camisa, desfilou no círculo de entusiasmada plateia. Ficou ali por quase cinco minutos à espera do desafiante, que ainda pensava em fugir. No entanto, acabou sendo empurrado para o meio da arena. 

    Raimundo suava frio, apesar dos quase 40 graus. As mãos tremiam, enquanto os dedos tentavam desabotoar a camisa branquinha. Ele não queria sujá-la. Se chegasse em casa com a roupa encardida, teria que enfrentar a fúria de sua mãe. Tomou coragem, apanharia do Zé Dadá, mas manteria o couro livre do açoite certeiro da genitora.

    Apesar de franco favorito, Zé Dadá não estava acostumado a enfrentar um adversário tão atrevido. Como é que aquele magricela teve coragem de desafiá-lo? Seria ele um lutador experiente? Saberia dar golpes ainda desconhecidos pelo campeão dos campeões de Caxias? Ou seria apenas mais um pobre coitado morto de fome? Olha essas costelas finas que nem gravetos secos. Seja como for, tais dúvidas pairavam pela mente ligeira de Zé Dadá.

    O público gritava. Todos queriam ver o sangue jorrar longe. Os oponentes se estudavam, a cautela tomava cada atitude daqueles dois, até que, num gesto ligeiro como bote de louva-deus, Zé Dadá acertou em cheio a fuça do pobre Raimundo. Caiu de bunda! Pensou em revidar, mas a prudência falou mais alto. Zé Dadá partiu para cima com o intuito de dar cabo do adversário, mas logo surgiu a turma do deixa-disso, que apartou a contenda. Foi a deixa para que Raimundo abrisse uma brecha no meio da multidão e se evadisse do local. 

    O derrotado ficou três dias com o nariz inchado. Temendo que sua mãe descobrisse a surra que havia levado, o rapaz passou todo esse tempo evitando encará-la. Não queria apanhar outra vez. Conseguiu, não se sabe como. Talvez a mãe já soubesse de tudo e, piedosa como ela só, não quis causar mais sofrimento ao filho. Nenhuma palavra sobre o acontecido. 

    Após quase uma semana da surra em praça pública, Raimundo desejou ser amigo do seu algoz. Encontrou o grandalhão, que repousava debaixo de uma mangueira. Trocaram poucas palavras, o suficiente para que as coisas se acertassem. Satisfeito com a audácia do adversário, o campeão aceitou quase que de pronto tal proposta. Tornaram-se amigos ou, ao menos, mantiveram uma diplomática relação de respeito mútuo pelos anos seguintes. 

    O avô, assim que terminou a história, percebeu que o neto, totalmente encantado, o encarava. Os dois sorriram, enquanto o aparelho celular parecia ter sido esquecido no canto. 

    — Vô, que coincidência!

    — O quê?

    — O Raimundo tem o mesmo nome do senhor.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Zé Dadá, o invencível" foi publicado pelo Notibras no dia 30/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/raimundo-atrevido-deixa-briga-com-nariz-quebrado/
  • O conto "Zé Dadá, o invencível" faz parte da 43ª edição da Revista LiteraLivre.
  • https://drive.google.com/file/d/1Pjsw0lKy356144o1kqxLX8jVFItxuQNo/view
  • https://www.calameo.com/read/005409554061acc809479
  • O conto "Zé Dadá, o invencível" faz parte do livro "EDUARDO MARTÍNEZ E OUTROS AUTORES Projeto Literatura na escola PROJETO LITARATURA NA ESCOLA 1".
  • https://www.calameo.com/books/006803069f3f5db711eee
  • O conto "Zé Dadá, o invencível" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 9/3/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=78988

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Quatro meninos numa fazenda

    

O Chevette vermelho, quase saído de fábrica, despejou aquelas quatro crianças, nenhuma acima dos 10 anos, nas vastas terras da fazenda Recanto das Amendoeiras, no município de Aparecida do Taboado, Mato Grosso do Sul. Elas mal ouviram a promessa do tio sobre ir buscá-las antes do final do dia. Correram desembestadas, tamanha a ânsia de colocarem em prática os planos maquinados na noite anterior. 

    Nenhum adulto à vista, Pedro, os gêmeos Rafael e Rogério e o miúdo Serginho, neto do falecido proprietário daquela vastidão, correram para o riacho mais próximo. Só de cueca, a meninada mergulhava e voltava à superfície na velocidade da própria imaginação. Nenhum contou o tempo, mesmo porque ninguém se lembrava das cobranças da escola. Estavam de férias.

    Sol a pino, Pedro foi o primeiro a sentir os clamores do estômago. Saiu da água e foi em direção à mochila, que havia deixado sob a copa de uma aroeira. Achou a mochila, mas não o pacote de biscoito que pensava que estava lá. Não gastou tutano para tentar adivinhar o que teria acontecido. Talvez um macaco mais atrevido tenha surrupiado tudo, sem deixar migalhas pro faminto. 

    O garoto tratou logo de voltar para o riacho, onde encontrou os primos na maior algazarra. Energia é o que parecia não faltar àquela trupe. Embrenhou-se naquela brincadeira até que, todos exaustos, tombaram às margens, ao mesmo tempo em que a tarde já começava a se despedir, dando boas-vindas à Lua. 

    Esfomeados que estavam, foram procurar algo para rechear os buchos. Rumaram para o galinheiro, onde, por sorte, encontraram alguns ovos. Cada um catou o que cabia em suas pequenas mãos. Em seguida, foram em direção à antiga casa. No entanto, por azar, portas e janelas estavam fechadas. 

    Os guris, sem ideias melhores nas cacholas, quebraram os ovos e os devoraram crus. Não que gostassem daquilo, mas a fome era tamanha, que não tiveram escolha. Aquilo acabou por se tornar algo divertido, apesar das caretas. Encararam a gosma como uma verdadeira iguaria, a única de que dispunham. 

    Logo veio a noite, nada do tio voltar. Será que ele havia se esquecido dos sobrinhos? Pedro, talvez o mais preocupado, começou a pensar em algo para se protegerem de possíveis animais, especialmente de onças, tão comuns naquela região. Foi aí que percebeu uma luz há quase um quilômetro. Vinha da casa do velho João, caseiro da fazenda. 

    Decidido a buscar abrigo, Pedro convenceu os primos a rumarem para a residência do homem. Os quatro juntaram-se como se fossem uma amálgama humana e começaram a caminhar. De vez em quando, um chirriá de uma coruja os fazia ainda mais grudados, enquanto apressavam os passos.

    Os meninos, finalmente, chegaram à casa do velho João. Pedro, sempre à frente, bateu palmas. Nada. Chamou pelo velho. Nada. Esmurrou a porta. Nada. O menino foi acompanhado pelos companheiros e, assim, insistiram em palmas, ao mesmo tempo em que começaram a gritar. 

  Depois de quase desistirem, eis que a porta de madeira começou a ranger. A garotada, olhos arregalados, temeram pelo pior. Entretanto, para alívio dos garotos, surgiu a figura do João, mais barbado do que de costume. Mas era ele, um rosto conhecido. Mesmo assim, Pedro questionou o velho sobre a demora. 

    — É que ele vive batendo à minha porta.

    — Ele quem? - quis saber Pedro.

    — O seu Sérgio.

    — Ué, mas meu avô já morreu há quase dois anos - disse o pequeno Serginho.

    — Pois é, sei disso. Mas ele ainda perambula por aqui. 

O Rebento

    Hoje pela manhã, já na saída de mais uma das inúmeras consultas da minha amada, a Dona Irene, ela se vira para mim e diz que queria tomar café. Descemos o elevador com aquele sorriso nos lábios, enquanto o silêncio toma conta do local. É que a minha mulher, após conversar com a sua obstreta, decidiu que o parto não passaria do dia dois de setembro.

    Já na calçada, fomos andando até a esquina e entramos na cafeteria de costume aqui em Porto Alegre. Pedi o café com leite da minha esposa, enquanto fiquei, como sempre, no café preto sem açúcar, A atendente ainda me pergunta se vou querer adoçante, oportunidade que lhe respondo com a mesma frase que guardo na ponta da língua: "De doce já basta a vida!" Ela sorri.

    Enquanto o pedido não vem, a Dona Irene aperta minha mão, como querendo dizer que, agora, temos uma data para a chegada da nossa Maria Luiza, que não para de chutar de dentro da barriga. Talvez teremos uma nova Marta. Quem sabe? 

    Impossível não me lembrar das minhas outras duas, hoje já crescidas. A mais velha já é advogada, enquanto a mais nova, que logo será a do meio, faz Biotecnologia na USP. A despeito de não ser pai de primeira viagem, a sensação é única. A Dona Irene diz que sou mais babão que o Chengulo, o meu buldogue. 

    O pedido chega. A futura mamãe degusta a iguaria que ela tanto adora. Levo um tempo para tocar no meu café, talvez ainda inebriado por saber a data que a nossa menina vai nascer. Aliás, será a primeira gaúcha da família em mais de um século, pois o último foi meu avô materno, que era da cidade de Rio Grande, mas que, logo aos seis anos, foi morar no Rio de Janeiro. 

    Assim que voltamos para a calçada, o meu telefone toca. Era o editor do Notibras, o José Seabra, me lembrando que ainda não havia lhe enviado a crônica de amanhã. Isso foi a deixa para me atentar para uma coisa, que até então passara despercebida. É que licença-paternidade dá direito a tudo, ou melhor, a quase tudo, bem como não me livra da obrigação de cronista, que é escrever diariamente. Obrigado, caçulinha! Você me ajudou nessa. Espero que o meu chefe goste.
  • Nota de esclarecimento: A crônica "O Rebento" foi publicada pelo Notibras no dia 24/08/2023. Por uma solicitação da redação do jornal, foi feita pequena alteração no texto.
  • https://www.notibras.com/site/chegada-da-herdeira-vira-tema-para-cronica-diaria/

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Amor de verão

    Lavínia e Otacílio haviam se visto pela primeira vez há pouco mais de um mês. O rapaz, apesar de ter se encantado pela moça logo de cara, não parecia ter sido correspondido. Nem por isso, ele deixara de tentar a sorte, pois não era do tipo que desistia facilmente, ainda mais diante de uma paixão, mesmo que de verão.  

    A garota estava enamorada por outro, que lhe parecia muito mais atraente. Para ser sincero, creio que até o próprio Otacílio concordaria, já que o Dimas era o que se poderia ser chamado de pedaço de mau caminho. Seja como for, lá estavam a Lavínia e o bonitão aos beijos cada vez mais atrevidos no último banco do ônibus a caminho de Cabo Frio, onde passariam o feriado prolongado de carnaval. 

    Assim que o coletivo chegou à rodoviária da famosa cidade da Região dos Lagos, o casal, eufórico, quis porque quis descer logo para continuar o namoro, que prometia, em local mais apropriado, longe de olhares curiosos. E foi o que os dois fizeram. Pegaram um táxi ali mesmo e rumaram para a casa alugada na praia do Peró. Amaram-se como dois jovens apaixonados!

   A noite foi tomando conta do ambiente. Lavínia vestiu-se pela primeira vez desde que chegara àquele local. Otacílio, com seus músculos salientes, a tomou no colo e a beijou pela enésima vez. Teve ímpeto de despi-la novamente, mas o som do animado bloco de carnaval vindo lá de fora o fez desistir. Colocou sua fantasia de pirata e puxou a amada para rua, onde pretendiam pular durante as próximas horas.

    Voltaram para a alcova quando o astro rei anunciava os primeiros raios. Ainda tiveram ânimo para se amarem uma vez antes de adormecerem abraçadinhos sobre o lençol, cada vez mais testemunha daquele amor. A despeito dos milhares de pessoas que desfrutavam a linda praia bem em frente, naquele quarto só era possível escutar a respiração exausta de Lavínia e Dimas. 

    Despertaram com tanta fome, que devoraram aquele macarrão com salsicha como se fosse a melhor das iguarias. Os dois se beijaram com a boca borrada de molho de tomate e, se dependesse dele, fariam amor ali mesmo na cozinha. Lavínia, entretanto, puxou o namorado para o conforto do sofá, onde os dois se entregaram àquela paixão sem limites. Ou quase.

    O dia foi virando noite, a noite se transformou em novo amanhecer, até que chegaram os derradeiros momentos da festa mais popular do Brasil. O casal, não querendo deixar aqueles momentos se esvaírem, continuava firme no baile bem diante da praia do Peró. Inúmeros jovens compartilhavam daquele desejo. 

    A festa insistia em prosseguir, quando a Lavínia, apertada para fazer xixi por conta das inúmeras cervejas, foi até o banheiro. Aliviou-se como uma deusa sentada no trono. Toda sorridente, quis voltar para os fortes braços do amado. No entanto, para a sua surpresa e desgosto, eis que lá estava o Dimas aos beijos e abraços com outra. 

    Sem fazer cena, a garota foi chorar suas lágrimas diante do mar. Ela não conseguia acreditar que o seu namorado, o amor da sua vida até então, fosse capaz de traí-la. Chorou por quase uma hora sentada naquela areia fria, até que, mexendo no seu aparelho celular, encontrou o número do Otacílio. Lavínia mal se lembrava do rosto do rapaz. Nem por isso conseguiu evitar o impulso de telefonar para ele, que atendeu quase ao primeiro toque. 

    _ Lavínia?

    _ Sim.

    _ Tudo bem? 

    _ Não.

    _ O que houve? Onde você está?

    _ Estou em Cabo Frio, olhando a praia. Mas é quase como se o mar não fosse o mesmo sem você.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Amor de verão" foi publicada pelo Notibras no dia 21/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/lavinia-traida-busca-um-novo-amor-no-mar/


 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

O mistério dos ovos desaparecidos

    Um mistério ronda a delegacia onde o Santana está lotado. No entanto, aparentemente, não se trata de um crime cometido por um bandido qualquer, como bem disse o investigador do caso, inspetor Rogério Lima: "Estamos no encalço do mais ardiloso criminoso da história desta circunscricional. "

    Vamos aos fatos sobre esse terrível delito. Trata-se de um furto de uma dúzia de ovos do tipo extra grande, que havia sido depositado inocentemente no aconchego do interior de uma geladeira. No entanto, tal geladeira não é uma qualquer, como poderia supor, erroneamente, o(a) nobre leitor(a). É que ela se encontra na seção de investigações de crimes gravíssimos: homicídios e latrocínios. Isso tudo leva a crer que o salafrário gosta de provocar a onça com vara curta. 
    
    Pois bem, mas esse ardiloso bandido possui um modus operandi peculiar, pois, ao que tudo indica, também deseja instigar os ânimos dos policiais, já que fez questão de deixar a caixa de ovos vazia pendurada na mesma sala. Esse ardil, no entanto, talvez seja o prenúncio do seu fim, como bem afirmou o inspetor Lima: "O nosso alvo possui um ego maior que melancia. Vamos trabalhar para ver até onde ele consegue escapar. Vamos dar corda pro pilantra. Mais cedo ou mais tarde, ele vai acabar se enforcando."

    Entre ovos, melancias e cordas, alguns suspeitos já foram intimados. Na verdade, os alvos são policiais da própria delegacia, entre os quais se encontra o Santana, notório apreciador do alimento produzido pelo esforço descomunal das galinhas. Entretanto, como o capacitado Lima lembrou, todos são inocentes até que se prove o contrário. Ou não! Seja como for, o criminoso já ganhou a sugestiva alcunha de Teiú, uma espécie de lagarto famosa por ser apreciadora de ovos.

    Apesar de não fazer parte do quadro de policiais da delegacia, a senhora Sissi, que trabalha no local como auxiliar de limpeza, também foi intimada. Não na condição de suspeita, haja vista seu longo e ilibado histórico. Ela é testemunha crucial.

  Parece que o depoimento de Sissi trouxe grande aporte de revelações. É que, segundo a competentíssima profissional, houve movimentação além do normal de um dos suspeitos, justamente o Santana. Segundo consta nos autos, ele teria tentado apagar suas digitais da geladeira. No entanto, tal feito se tornou sem efeito, haja vista a perícia criminal já ter passado pelo local e colhido cada uma das marcas deixadas pelo Teiú. 

     O inspetor Lima, sempre atento aos menores detalhes, lembrou que cacoetes não podem ser usados como indícios de autoria. Entretanto, ele está de olho na situação, mesmo porque Santana configura entre os mais prováveis suspeitos, ainda mais por conta de inquietantes atitudes. E, para surpresa do próprio Lima, após alguns dias, eis que Sissi pediu para conversar novamente com ele.

    A despeito de estar ocupado com outros casos, o investigador prontamente atendeu a senhora Sissi. As revelações, nesse dia, foram quase confissão de autoria. Não por parte da nobre profissional, mas pela de um conhecido policial, que a teria coagido. Lima, já querendo limar o suposto autor, teve pensamentos gritantes: "Coagir testemunha no curso das investigações é crime gravíssimo!"

      De tão assustada com a situação, foi necessário um copo d'água para acalmar o coração de Sissi, que palpitava em ritmo de Fórmula 1. Todavia, sentindo-se acolhida pelo investigador, ela se tranquilizou e revelou que o Santana a havia procurado logo após o primeiro depoimento. De pistola em punho, o suspeito, com a desculpa de tentar retirar um caroço de feijão entre os dentes, teria dito: "Dona Sissi, não sei se a senhora sabe, mas em boca fechada não entra mosquito." 

       Passadas algumas semanas, parece que o caso esfriou. Ninguém mais fala sobre o assunto, mesmo porque todos cansaram de aguardar pelo laudo pericial. Todavia, parece que ele nunca chegará. Isso porque, dizem, o Santana teria, furtivamente, entrado na sala do perito e surrupiado o laudo, que, fatalmente, o incriminaria. 

        O clima na delegacia continua o mesmo, apesar da geladeira, agora, ostentar um cadeado. Sissi, mesmo se sentindo coagida pelos olhares lançados pelo Santana, ainda prepara um delicioso café, bem como distribui sorrisos por onde anda. Ela sabe que nem todos os crimes são desvendados, mas ainda acredita na competência da polícia.

        Por sua vez, o inspetor Lima, verdadeiro perdigueiro, não desistiu de desvendar esse mistério, que empesteou com fedor de ovo podre todo o ambiente. Ele providenciou uma armadilha para pegar o lagartão astuto: colocou uma caixa de ovos pendurada numa parede bem próxima ao suspeito-mor, que parece andar desconfiado com tamanha oferta. Ademais, foram colocadas câmeras estrategicamente posicionadas na direção da armadilha para que, a qualquer movimento do comedor de ovos, o investigador possa, finalmente, dar o bote. 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

A minha vizinha da frente

 

                Hoje acordei com vontade de escrever, mas me faltam memórias para tal. Saudade de um tempo em que corria por este bairro de onde saí tão jovem. Tinha lá meus 18 quando, por sorte, passei no concurso do Banco do Brasil. Há tanto tempo, que todos os meus amigos me invejaram, tamanho que era o salário naquela época. O pessoal na rua comentava: "Você viu? Pois é, o Quinzinho, filho da dona Eulália, passou pro Banco do Brasil."

                    Como consequência desse sortilégio, fui tomar posse em uma cidadezinha lá do interior de Minas Gerais, tão distante desta em que agora me encontro. Fui, mas com a promessa de retornar em poucos anos. Tal jura, no entanto, só fui cumprida há pouco mais de dois meses, quando aqui estou com meus quase 70.

                  Durante o longo período de bancário, trabalhei com afinco e, aos poucos, fui galgando cargos até que, quase 20 anos após, cheguei ao invejado posto de gerente geral da agência. Todos me conheciam como senhor Oliveira. Todos! Desde o mais graúdo investidor até os que sobreviviam com meros vinténs. 

                    De tão afamado me tornei, o próprio presidente do Banco do Brasil veio me pedir para não me aposentar quando completei meu tempo de serviço. Comovido com tamanha honraria, fiquei por mais alguns anos. Na verdade, agora que estou em tal situação, não preciso mais viver sob a fumaça da hipocrisia. Fiquei por conta da sensação de poder, além, é óbvio, pelas inúmeras regalias, sem contar o salário muito maior do que eu poderia gastar. 

                    Os anos seguintes foram talvez os mais incríveis da minha vida. E, se não foram, são os que ainda pululam minha mente. Jantares regados a iguarias, noites em quartos de hotéis cinco estrelas, sempre muito bem acompanhado por mulheres lindas, mesmo que recompensadas por notas graúdas, que não me fizeram falta. 

                    Aos 66, conheci Sandra, que tinha lá seus 38. Linda, linda, linda! Não sei o que ela viu em mim, já que era de uma família mais abastada do que todo o dinheiro que eu poderia ganhar trabalhando no mais alto posto do Banco do Brasil por mais de um século. Seja como for, nos envolvemos e, de tão apaixonados, resolvemos comemorar nosso primeiro ano juntos. 

                    Viajamos para Paris, onde ficamos hospedados no Ritz. Passeamos pela famosa cidade, fomos a museus e todos os passeios possíveis durante oito dias, até que Sandra pôs na cabeça que queria realizar um antigo sonho: sobrevoar Paris num balão. Apesar do flagrante pavor, pois não nasci com asas, decidi acompanhar a minha amada.  

                   Foi numa quarta-feira quando tudo aconteceu. Contratamos um baloeiro, que nos orientou sobre o voo. Tudo parecia maravilhoso, até para mim. Comecei a me soltar quando, de repente, aquela enorme bola cheia de gás começou a rodopiar pelo céu da capital francesa e, desesperados com as labaredas cada vez mais próximas, pulamos quando estávamos há pouco mais de 20, 30 metros do chão. 

                    O baloeiro, que até hoje não sei o nome, e minha Sandra tiveram morte instantânea. Eu, por sorte ou azar, sobrevivi, apesar de múltiplas fraturas, incluindo três vértebras cervicais, que me deixaram paralisado do pescoço para baixo. 

                    Depois de quase dois anos de fisioterapia, retornei para esta antiga casa, herança da minha falecida mãe, dona Eulália. Passo o dia inteiro deitado numa cama cheia de controles, que consigo acionar com um canudo preso à minha boca. Meu maior divertimento, o único na verdade, é observar a minha linda vizinha, que costuma sair de casa e se sentar numa dessas cadeiras de praia na calçada.

                    Minha vizinha, de vez em quando, cumprimenta alguém que passa, com um sorriso, que me chega aos olhos como o mais lindo que conheci. Mas ela parece preferir se entreter com seu aparelho celular. Não sei se ela já me viu ou se sabe da minha existência. Todavia, ainda me resta uma última esperança, provavelmente a única que me faz querer viver: descobrir o seu nome.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Os Três Mosqueteiros

    

    Não faz muito tempo, fui convidado pelo José Seabra para enviar crônicas para serem publicadas pelo Notibras. Mandei uma, depois outra e a coisa foi ganhando uma proporção que não imaginei, mesmo porque se trata de um jornal que possui um quadro respeitável de profissionais. Só para destacar alguns, aqui estão Mathuzalém Júnior e Wenceslau Araújo. E essa história se passou justamente com eles, o Seabra e comigo.

    Eu poderia começar dizendo que não me lembro do dia em que isso aconteceu. No entanto, as minhas pernas ainda tremem só ao recordar da recente sexta-feira, 21/07/2023. É que o Seabra havia me convidado para tomar um café gourmet e, assim que cheguei a uma concorrida padaria da Asa Norte, eis que me deparei com três setentões gargalhando, como que despreocupados com os diversos clientes do local. 

    Timidamente me aproximei e fui recebido por um esfuziante Seabra, que, todo sorriso, me apresentou aos mestres da escrita Mathuzalém e Wenceslau. Gaguejando mais do que de costume, tentei passar a melhor impressão àquelas lendas vivas do Jornalismo. Procurei escolher as melhores palavras, que, obviamente, não vieram, pois estavam todas com os três à minha frente. 

    Conversa vai, conversa vem, procurei não queimar a língua. Aliás, mantive-a bem dentro da minha boca, que apenas abria para sorver mais um gole do meu fumegante café sem açúcar. Melhor assim, mesmo porque essa foi uma oportunidade de ouro para escutar tantos e tantos causos daquele trio. Um, em particular, vale a pena contar.

    Pois bem, segundo me lembro do que ouvi, lá estavam aqueles Três Mosqueteiros do Cerrado cobrindo um concorrido velório de uma figura muito importante da Brasília dos anos 1970, início dos 1980. Defunto devidamente enterrado, eis que o Seabra, talvez mais atento aos pormenores, percebeu que a viúva estava inquieta. 

    Perspicaz como ele só, logo ligou seu olfato de perdigueiro e, com um sinal quase imperceptível, chamou a atenção dos seus companheiros de labuta. Os três, chacoalhando suas calças boca-de-sino, foram ao encalço da viúva, que mal se despediu dos presentes e, apressada, entrou em um Galaxy preto. O veículo cantou pneu e, por pouco, não deixou os jornalistas para trás.

    Certos que estavam que a mulher seguiria direto para a mansão localizada no Lago Sul, quase caíram das tamancas quando perceberam que o luxuoso automóvel rumava para o Núcleo Bandeirante, famoso por seus motéis. E foi justamente em um deles que o Galaxy entrou. Diante de tamanho acontecimento, os três se sentaram em uma mesa de bar quase em frente àquele treme-treme e passaram o final de tarde, início da noite, madrugada adentro até o alvorecer esplêndido do astro-rei na capital. 

    Já perto do meio-dia, eis que o Galaxy desponta na saída daquele parque de diversões impróprio para menores. Não demorou, o veículo tomou a estrada adiante, mas logo pegou o primeiro retorno. Enquanto o carango passava diante dos olhos dos jornalistas, a viúva, talvez ciente de ser vigiada por aquela trupe, girou a manivela para descer o vidro e, em seguida, tascou um beijo na boca do motorista. 

        _ E vocês, obviamente, escreveram sobre isso.

        _ Não, Dudu. 

        _ Não? Mas por quê, Wenceslau?

        Nesse momento, os três olharam para mim e, em uníssono, quase gritaram.

        _ Dudu, o que acontece no Núcleo Bandeirante fica no Núcleo Bandeirante.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Os Três Mosqueteiros" foi publicada pelo Notibras no dia 26/07/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dudu-como-dartagnan-ouve-historia-dos-3-mosqueteiros/

Benjamin, o dorminhoco

    A gritaria tomava conta do parquinho, repleto de crianças correndo de um lado para o outro. Todas animadas por mais uma manhã ensolarada. Isto é, menos o pequeno Benjamin, que não descia do colo da mãe nem quando lhe ofereciam um algodão doce. Preferia o aconchego, pois gostava mesmo é de dormir. E como dormia aquele garoto!

    A mãe, preocupada com o comportamento do menino, até o levou ao médico. Este logo suspeitou de anemia falciforme. Mas que nada! As hemácias do pirralho eram mais circulares que um bambolê. Fizeram outros  exames no Benjamin, pensaram até que ele fosse autista ou sofresse de alguma doença rara. Ele era saudável. O doutor, para não ficar com cara de bobo, disse que o garoto sofria de preguiça crônica. A mãe, que precisava de um diagnóstico, ficou satisfeita com o que ouviu. 

    Benjamin cresceu um tanto, e a preguiça parece que aumentou em progressão geométrica. Nada parecia fazer com que ele se animasse, nem mesmo quando chegou o tempo da discoteca, quando todos os jovens da rua corriam para a pista de dança. E foi justamente nesse tempo em que o agora adolescente trocou os primeiros olhares com Clarice, uma bela garota de cílios tão negros, que todos os rapazes se esqueciam do resto. 

   Quase apaixonado, Benjamin até tentou lutar contra a própria natureza. Todavia, todas as vezes em que se esforçava para se animar a vestir a melhor roupa pro baile, eis que uma força ainda maior o puxava de volta para a cama. Quando muito, passava as tardes na sala, quase sempre esparramado no sofá. Mesmo assim, essa vontade irresistível de se manter deitado não foi o suficiente para impedi-lo de estudar, se formar e arrumar um excelente emprego em uma grande empresa de informática.

   Nem precisava sair de casa, pois resolvia todos os problemas de forma remota. Sentado em uma ampla poltrona toda acolchoada, o preguiçoso conseguiu triplicar o faturamento da empresa. Isso foi mais que bastante para lhe garantir o cobiçado posto de vice-presidente.

   Lá pelos 30, com dinheiro suficiente para uma vida inteira de luxo, Benjamin parecia um homem realizado. Mudara para uma ampla casa, repleta de cômodos, alguns até onde ele jamais havia colocado os pés.  Morava com a mãe, agora uma senhora de quase 70, que gostava de receber as amigas para o chá. 

    Foi justamente num desses eventos que Benjamin voltou a trocar olhares com a agora mulher de cílios negros. Clarice acompanhou a tia, que era amiga da mãe de Benjamin. Tomou chá com as velhas na ampla mesa no jardim cheio de flores exóticas, bem em frente à piscina em forma de violino. 

   Não se sabe como, mas Benjamin não resistiu ao charme daquela mulher e, então, foi lhe fazer companhia. Sorrisos daqui, sorrisos de lá, Clarice se sentiu atraída pelas olheiras daquele homem. De tão encantada, aceitou o convite de ir visitá-lo na semana seguinte. 

   Cada vez mais envolvidos, os pombinhos, agora enamorados, oficializaram o romance em uma grande festa. No dia seguinte embarcaram rumo para a maravilhosa João Pessoa, onde se hospedaram em um badalado hotel em frente à praia. Benjamin, percebendo a alegria da esposa, foi tomado de uma euforia e os dois se amaram até a manhã seguinte. 

    O casal despertou ainda abraçado. Tomaram o café da manhã ali mesmo naquela ampla cama. O barulho das ondas chegava aos ouvidos de Clarice e Benjamin. Ela se levantou e abriu a janela, o que fez com que aquele cheiro irresistível da maresia tomasse todo o quarto. A mulher desejou ir até a praia, pisar naquela areia branquinha, sentir a água nos pés. 

    _ Amorzinho, vamos dar uma voltinha?

    _ Hum... Prefiro fazer caminhada no travesseiro. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Benjamin, o dorminhoco" foi publicado pelo Notibras no dia 11/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/benjamin-o-sedentario-e-eterno-dorminhoco/

terça-feira, 18 de julho de 2023

Aloísio, o viúvo

 

   Aloísio, ao completar seus 90 anos, não conseguia enxergar motivos para comemorar. Há pouco havia perdido sua companheira por mais de meio século, que sucumbira ao câncer após anos de luta. Sozinho naquele amplo apartamento, mal recebia visitas, já que todos os últimos amigos padeciam de alguma enfermidade em decorrência de tamanha longevidade.

    Petrônio, o único que de vez em quando arriscava uma caminhada até a residência do Aloísio, muitas vezes nem se lembrava de algo para dizer. Não que fosse um ser desprovido de afeto ou empatia. Pelo contrário, até o próprio Aloísio seria capaz de sair em defesa do amigo. Essa falta de memória se devia ao Alzheimer, que nos últimos anos cismava em acompanhar o Petrônio. 

    Desanimado com tudo, Aloísio estava decidido a se matar. Mas esse seu intuito acabou por não se concretizar. É que o velho, de tão religioso, temia acabar indo pro inferno, assim como todos os suicidas. Abriu uma garrafa de vinho e perdeu os sentidos no amplo sofá da sala. 

    Acordou com uma ressaca daquelas. Há tempos não bebia tanto. Por um instante sentiu certo alívio da esposa ter morrido. Não que ela também não bebesse de vez em quando. Todavia, a velha não suportava quando o marido perdia a linha. 

    Levantou-se do sofá. Não que preferisse fazer outra coisa além de adormecer e nunca mais acordar. Mas a bexiga, tão envelhecida quanto ele, estava repleta. 

    Diante do vaso sanitário, Aloísio se esforçava para urinar. O líquido amarelo escorria fraco, alguns pingos caíram na borda da privada. Nada mais daqueles jatos firmes de décadas atrás. Nem puxando pela memória, o velho se recordava da última vez que havia usado suas partes para outras tarefas além de fazer xixi. 

    Resolvido o problema da bexiga repleta, Aloísio vasculhou a caixinha de medicamentos. Nada de analgésico para aliviar a dor de cabeça, que ainda persistia. Apesar de desanimado, teve coragem suficiente para pegar a carteira, calçar os sapatos e sair.

    A farmácia era logo ali. Entretanto, era dia de feira. Aloísio, mesmo a contragosto, teve que passar por aquela algazarra, quando ouviu algo que o animou. Eram duas senhoras, não mais de 60 anos, que conversavam animadas. 

     _ Quanto mais murcho, melhor!

   Aloísio estufou o peito e quase desfilou em frente daquelas duas. A  dor de cabeça parecia ter desaparecido por completo. Mal sabia o velho que aquelas mulheres estavam se referindo a jenipapo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aloísio, o viúvo" foi publicada pelo Notibras no dia 27/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/ouvir-falar-de-jenipapo-murcho-eleva-moral/


quarta-feira, 12 de julho de 2023

Um carioca em Porto Alegre

    Sepúlveda despontou do útero da sua mãe ali na rua Bueno de Paiva, no pitoresco bairro do Méier, na esplendorosa cidade do Rio de Janeiro. Deu seus primeiros passos por ali mesmo, o que lhe garantiu o sotaque mais característico da Cidade Maravilhosa, muito diferente daquele dos que habitam a Zona Sul.

    Estufava o peito para falar de onde era: "Méier!!!" E assim prosseguia na sua saga de suburbano, com hábitos típicos como fazer aquela fezinha no bicho, batucar um samba com as pontas dos dedos no trem durante o trajeto pro trabalho, parar diante da banca de jornal para se inteirar das últimas notícias, até mesmo daquelas que não fariam a menor diferença na sua vida como, por exemplo,  que o protagonista da novela das oito havia flagrado a amada com outro na cama. 

   Ao chegar ao trabalho naquela segunda-feira, recebeu um comunicado da Aurora, sua colega de seção. O chefe queria falar urgentemente com ele. Sepúlveda, curioso como ele só, quis logo saber do que se tratava. Aurora, no entanto, disse que não fazia a menor ideia, já que o Amílcar, o chefe, não era de falar muito além do necessário. 

    O suburbano balançou a cabeça de um lado pro outro, até que, quase decidido, foi conferir o motivo pelo qual havia sido intimado. Parou diante da porta do Amílcar. Observou o verniz gasto e, indeciso, tomou coragem e deu dois leves toques na madeira. Entrou.

    A primeira coisa que notou foi o quadro bem à sua frente. Amílcar, um apaixonado por arte, não poupava esforços para adquirir obras de famosos pintores. Pois é, Sepúlveda estava diante de um Van Gogh! Quase original, é verdade! 

    A conversa demorou por volta de uma hora. Sepúlveda seria promovido a gerente de uma filial em Porto Alegre, que ele não fazia ideia de onde ficava. O homem, que era um exímio fazedor de contas, sempre tivera notas sofríveis em geografia. Seja como for, aceitou de pronto a missão, mesmo porque o salário iria mais que dobrar. 

  Não demorou muito, Sepúlveda e a esposa, Adelina, desembarcaram na rodoviária da capital gaúcha.  A princípio, ficaram surpresos, pois sentiram tanto calor, que foram obrigados a retirar os grossos casacos. Desconheciam que os verões de Porto Alegre eram como os do Rio de Janeiro. 

   Sepúlveda e Adelina foram morar no bairro Menino Deus, bem próximo da filial. Ele caminhava algumas centenas de metros até o trabalho todas as manhãs. Por sua vez, ela tentava se adaptar à nova rotina. Por volta do meio-dia, os dois almoçavam, enquanto Sepúlveda contava sobre as gírias gaúchas que aprendera com os subordinados. Os dois riam e, de brincadeira, repetiam algumas.

    _ Acho que vou lagartear o resto do dia.

    _ Pois estou pensando em adotar um cusco. 

    _ Capaz!

    De tanto caçoarem dos gaúchos, não tardou e já usavam tais palavras sem se darem conta. Todavia, Adelina, talvez por pudor, continuava chamando pão de pão. Afinal, não conseguia se acostumar com o nome usado pelos gaúchos para tal iguaria; cacetinho. 

    Apesar dos percalços da mudança para uma nova cidade, tudo parecia bem para o casal. Sepúlveda, cada vez mais entrosado com os companheiros de labuta, conseguiu aumentar o faturamento da firma. Adelina, por sua vez, fizera amizades, que lhe garantiram reduzir a saudade da Cidade Maravilhosa. 

    Tudo parecia bem, até que começou o rigoroso inverno porto-alegrense. Os dois sofreram horrores, mas Adelina começou a ficar deveras deprimida, até que, durante um almoço, reclamou com o marido. Queria porque queria voltar pro Rio de Janeiro. Ele ainda tentou convencê-la do contrário, mas nada tirava tal ideia da sua cachola. 

    _ Sepúlveda, quem gosta de frio é pinguim e picolé!

    No dia seguinte, a mulher fez as malas e retornou para o calor do Méier. Por algum tempo sentiu falta do amado. No entanto, a qualquer recaída, bastava recordar do gélido inverno de Porto Alegre para que o rosto de Sepúlveda fosse desaparecendo do seu coração. Depois de alguns meses, desapareceu por completo.

    Numa sexta-feira, lá estava o Sepúlveda finalizando mais uma grande negociação na filial, quando um colega de trabalho, o Asdrúbal, lhe convidou para um churrasco em sua casa no domingo. Ele aceitou de pronto. Asdrúbal fez questão que o chefe levasse a esposa. Sepúlveda, apesar de continuar com aquele sotaque carregado tão característico do Méier, já estava tão adaptado à cidade, que nem percebeu quando respondeu.

    _ Vou só.

    _ Por quê?

    _ Quebramos os pratos!

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Joca e Angelique

    Não se sabe ao certo se aquele homem havia encontrado aquela cachorra ou, então, se foi justamente o contrário. Isso, aliás, nem importa, já que, desde que um colocou os olhos sobre os olhos, algo parece os ter de tal forma, que era difícil imaginar que um dia haviam vivido separados, ainda mais depois de anos viajando pelas estradas em busca de trabalhos temporários.

    Joca, lá com seus quase 50, nem mais ligava se a enorme Angelique babasse todo o banco de seu carro. Não que no início tal característica da cadela não o incomodara, mas acabou percebendo que uma forte base de amizade é formada justamente assim. Pois é, amigos toleram as falhas dos amigos simplesmente porque são amigos. Ele, com certeza, também possuía lá as suas, mas estas jamais foram postas à mesa pela companheira babona.

    Beberrão sem muitas preferências, Joca não fazia cerimônia e, não raro, metia o pé na jaca. Angelique, mais sábia que o amigo, escondia as chaves da camionete. O homem nem questionava a companheira, mesmo porque não queria se encrencar, mais uma vez, com a lei. Acabava adormecendo no banco do carro, enquanto Angelique fazia a guarda.
    
    Ao amanhecer, o homem era despertado pelos raios solares e, antes que pudesse abrir os olhos, recebia várias lambidas no rosto. Joca soltava um arre, mas logo trocado por afagos. Era hora de tomar um belo café da manhã. E lá ia ele, acompanhado daquela ressaca, buscar algo para comer na vendinha mais próxima. 

   Apesar das inúmeras histórias vividas por aquela dupla, uma, talvez, seja a mais interessante. Pois bem, lá estava aquele homem entorpecido por mais uma bebedeira. Os vidros da camionete estavam fechados e, provavelmente por conta disso, a enorme cachorra deve ter se embriagado pelo hálito etílico do amigo. Ela adormeceu, enquanto a proteção daquela dupla ficou a cargo de algum anjo da guarda de plantão, caso houvesse um naquela cidadezinha do interior da Bahia.

        A velha camionete, estacionada sobre a proteção de uma linda mangueira, que ficava em frente à única agência bancária da cidade, fez com que Joca e Angelique prolongassem a soneca até mais tarde. Enquanto isso, quatro homens chegaram em outra camionete e estacionaram justamente ao lado. Três deles entraram no banco e, logo em seguida, saíram levando alguns malotes abarrotados de dinheiro. Jogaram tudo na caçamba do veículo e fugiram, muito antes da polícia chegar.

        Joca e a sua amiga acabaram despertando por conta da balbúrdia que se formou justamente ali. O homem soltou aquele arre costumeiro e, então, ligou a camionete e foi buscar outro local para continuar no mundo de Morfeu. Acabou pegando a estrada e só parou a mais de 200 quilômetros da pequena cidade. 

        Meteu a camionete numa estradinha de chão e, debaixo de uma árvore, dormiu até que a barriga começou a roncar mais alto que a Angelique. Era hora de comer. No entanto, a bexiga cheia lhe mostrou que havia uma necessidade mais urgente. 

    Saiu do carro e foi se aliviar atrás da caçamba quando, então, percebeu que haviam alguns malotes ali. Abriu um, abriu outro, abriu todos. O homem se viu rico. Tão rico, que nunca mais se ouviu falar dele nem da Angelique. Todavia, dizem por aí que continuam juntos, pois a velha camionete, vez ou outra, fica com todos os bancos cheios de baba.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Joca e Angelique" foi publicada pelo Notibras no dia 7/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/assalto-a-banco-deixa-desempregado-milionario/

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Café, o mendigo

 

    A única praça daquela cidade era salpicada por alguns bancos, a maioria quebrada. Nada de bustos de autoridades esquecidas ou de laguinho com chafariz enferrujado. O único monumento, se é que podemos chamar assim, era o velho Tomás, que quase ninguém conhecia pelo nome. Todos o chamavam de Café, pois o dito cujo nunca largava a gasta garrafa térmica. 

    Dependendo dos ânimos daquela gente, Café causava pena, repulsa ou medo. Nunca simpatia, nem mesmo pelos mais antigos, que haviam dividido as brincadeiras nos longínquos tempos de criança. Diziam que Café passara alguns anos na prisão, outros juravam que foi no hospício, tamanha a aparência de maluco.

      Se possuía ou não parentes, ninguém sabia ao certo. Talvez até tivesse um ou outro, mas nenhum fazia alarde de tal vínculo sanguíneo. Café vivia sozinho, sobrevivia às custas de míseras moedas atiradas numa enferrujada lata de goiabada. Graças a essa esmola, todos os dias passava na padaria da esquina. Comprava alguns pães e, quando muito, uma ou duas fatias de mortadela. Enchia o bucho.

     Fazia o café em uma pequena fogueira, que também o esquentava nas noites frias. Batizava o líquido preto com uma branquinha para, talvez, esquecer das agruras de outrora. Esse hábito, aliás, o fazia mais falante e, não raro, era cercado por curiosos, todos desejosos de escutar mais uma história do mendigo.

      Naquela noite, que a meteorologia prometia geada, meia dúzia se acomodou ao redor do Café. Não demorou, o maltrapilho começou a tagarelar sobre um antigo crime ocorrido no vilarejo ao lado. Um sitiante, que teria ficado louco, assassinara toda família a machadadas, poupando apenas o filho mais novo, ainda bebê. A verdade, segundo diziam, é que o tal homem havia simplesmente se esquecido do filho mais novo, que dormia tranquilamente no pequeno cesto ao lado do fogão a lenha. 

      Café gostava de observar os olhos arregalados da sua pequena plateia. Fazia pausas estratégicas, enquanto se servia de mais um gole da mistura na garrafa térmica. Sorria aquele sorriso de raros dentes, todos apodrecidos. Os poucos ouvintes que conseguiam encará-lo ficavam ainda mais assustados. Café parecia adorar essa situação. As pausas se tornavam ainda mais longas. Ele se deliciava com cada expressão de terror das pessoas.

        Logo após ouvirem o desfecho daquele banho de sangue ocorrido há décadas, todos voltaram para o aconchego de seus lares. O pobre Café, diante daquele fio de fogueira, tentava se manter aquecido com mais um gole. O moribundo perdeu os sentidos. Não se sabe se sonhou com o tempo em que ainda dormia em um cesto aquecido pelo calor do fogão a lenha. O certo é que o velho Café não resistiu àquela geada. Ninguém reclamou o corpo, que foi enterrado como indigente.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Café, o mendigo" foi publicada pelo Notibras no dia 19/07/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dar-um-jeito-na-vida-nem-todo-mundo-quer/
  • O conto "Café, o mendigo" faz parte da "Coletânea  de Contos de Terror 2024", da editora Persona.
       

sábado, 24 de junho de 2023

A fábula da vovó

     

    Minha avó possuía um nome relativamente esdrúxulo: Esther Stella. Além disso, ela adorava criar histórias, e eu, o neto mais apegado, adorava ouvir aquela voz tão doce. Apesar de tanta candura, diziam que ela era chegada a adivinhar o futuro. Hoje tenho quase certeza de que as pessoas estavam certas.

    Pois bem, uma dessas histórias contadas pela minha avó era sobre um antigo reino. E, como todas esses contos de fada, também começava com o tradicional "Era uma vez...". Por isso, deixemos as delongas de lado e vamos direto à tal fábula. E, por favor, imaginem aquela voz que me embalou por tantas e tantas vezes.

    Era uma vez um reino bem distante chamado Brazília. Sim, Brazília com "Z". E, como qualquer reino que se preze, possuía um rei. Todavia, não um rei alto, loiro, olhos azuis e lindo. Na verdade, era o oposto disso tudo, pois era baixinho, gordinho, zarolho e feio de dar dó. Seu nome? Enganeis I. 

    Aficionado desde sempre por circo, Enganeis I acabou se encantando por um velho palhaço chamado Bozo, que era casado com a dissimulada Micaela, com quem possuía duas filhas: as gêmeas Eva e Angélica. Como Enganeis I era rei, quis porque quis fazer uma festança em fevereiro e contratou os serviços do Bozo, que faria palhaçadas para os inúmeros convidados.

    E eis que chegou o grande dia. Lá estava o Bozo, montado em uma motocicleta, passeando pelo enorme picadeiro instalado no gigantesco jardim do palácio rodeado de buritis. A cada manobra de Bozo sobre a tal motocicleta, Enganeis I gargalhava embriagado com as peripécias do motoqueiro, ao mesmo tempo em que devorava as empadinhas estrategicamente postas ao seu lado. 

    Após a festança, Enganeis I e Bozo ficaram cada vez mais íntimos. Tanto é que, já em junho, famoso mês marcado por festas que homenageiam ícones do catolicismo, como Santo Antônio, São João e São Pedro, aquela amizade ainda perdurava. Por isso, o rei resolveu atender o pedido das gêmeas Eva e Angélica, que não eram fãs de santos. Por certo eram mais ligadas àquele dono de um rebanho que quebrava imagens santificadas. Dessa forma, Enganeis I, para agradar as duas meninas, decidiu fazer um baita carnaval, cheio de confetes e serpentinas. Fogueira que é bom, como reza a tradição, nada.

    Acabou o carnaval fora de época, veio julho, agosto, setembro e todos os meses daquele longínquo ano. Depois aconteceu a famosa festa pagã do ano seguinte, até que chegou a Semana Santa. Aliás, nessa época, Enganeis I mandava abrir os portões para seus súditos. 

    A ralé, esfomeada que era, correu no rumo do grande lago repleto de lindas carpas coloridas. Aquele povo todo, no entanto, teve a maior decepção da vida. Os peixes boiavam mortos sobre as águas, que emanavam um cheiro de podridão. Enquanto isso, Bozo, Micaela e as gêmeas fugiam em uma luxuosa carruagem puxada por lindos garanhões brancos.

    Curiosamente, a esposa do palhaço carregava uma sacola contendo 30 moedas de ouro. Quanto ao final, nem todos viveram felizes para sempre.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A fábula da minha avó" foi publicada pelo Notibras no dia 24/06/2023.
  • https://www.notibras.com/site/carnaval-fora-de-epoca-engana-e-pode-queimar-quem-pula-datas/

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O rega-bofe

     Tudo naquela casa era motivo de festa, seja pelo aniversário de alguém, seja por conta até do nascimento de mais uma ninhada da Bisnaga, a cachorrinha de pernas curtas e corpo roliço que adorava se deitar ao lado da Arlete, a matriarca da família. Durante tais eventos, toda a vizinhança era convidada. Quase ninguém faltava, mesmo porque a comida era farta até mesmo para os mais esfomeados.

      Diante de tamanha comilança, as filas dos banheiros se tornavam um inconveniente, ainda mais para as mulheres, que não tinham como levantar as saias ou abaixar as calças atrás das moitas do enorme jardim. Muito arriscado! Já os homens, quando a necessidade era apenas líquida, qualquer tronco das inúmeras árvores era o suficiente para esconder as vergonhas dos olhares mais curiosos. 

        Aquele rega-bofe era para comemorar a aprovação da Ritinha, a mais nova das netas de Arlete, no concorrido vestibular da UnB. Pois é, a garota, que mal havia completado 18 anos, estava prestes a se mudar para Brasília. Não que a distância fosse muita, pois o Distrito Federal, rodeado de muito Goiás e um tiquinho de Minas Gerais, não ficava longe da sua pequena cidade. 

      A jovem, talvez pela timidez, não parecia tão feliz com o seu feito. Já Agrísio, o pai, era todo orgulho. Era uma coisa de minha filha pra cá, minha filha pra lá, que até a esposa, Santinha, começou a ficar incomodada. Não que também não estivesse contente com a conquista da Ritinha, mas, assim como a filha, era reservada. 

        O rega-bofe já avançava para a metade, quando Agrísio, com os ânimos exaltados pelos inúmeros goles de cerveja e outras bebidas mais quentes, quis fazer o discurso de praxe. Foi prontamente impedido pela esposa, com a anuência da sogra. Até a Arlete sabia que o filho, quando estava tresloucado, precisava ser contido. Dessa forma, tomou-lhe a frente o Pompílio, um agregado da mais alta confiança da casa. 

      Todos os presentes se aproximaram para ouvir a palestra do Pompílio, que até poderia ter sido breve, caso não tivesse percebido o entusiasmo da matriarca. A cada frase dita, Arlete abria aquele sorriso de aprovação. Até a Ritinha, agarrada aos braços da mãe, pareceu gostar de tantos elogios, que nem ela sabia ser merecedora. Agrísio, emburrado no canto, compartilhava o mesmo anseio de grande parte da plateia. Não via a hora daquele falatório terminar. 

        Arlete cumprimentou Pompílio pelas belas palavras. Até ela, que era letrada, desconhecia um ou outro daquele amontoado de vernáculos. Todos aplaudiram o locutor oficial do momento e, rapidamente, retornaram para coisas mais interessantes: a abarrotada mesa de comes e bebes e, em especial, para aquela deliciosa feijoada. 

        Uma semana após aquele evento, o povo da rua ainda comentava a generosidade da velha. Agrísio continuava contrariado por ter sido calado pela própria mãe. Santinha andava chorosa pelos cantos de saudade da filha. Arlete, ao lado do agora quase inseparável Pompílio, parecia satisfeita com mais aquele evento bem-sucedido. Quanto à Bisnaga, a cachorrinha andava mal dos bofes. Talvez tenha comido algo indevido ou, então, aquilo era o prenúncio de uma nova gravidez.