sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O café e a avó

 

    A minha relação com o café não é de hoje, mas também não posso dizer que sempre foi apaixonada. Ainda me lembro quando a minha avó pegava a garrafa térmica e dava uma sutil chorada sobre a minha xícara repleta de leite. Ficava aquele tom marrom bem clarinho, o gosto era agradável ao meu paladar infantil, talvez por compartilhar mais esse momento ao lado daquela mulher tão encantadora aos meus olhos. 

    Já na adolescência, abandonei por completo o café. Não gostava nem daquelas balas com esse sabor. Aliás, não conseguia entender como é que alguém gostava daquilo. Não sei se é por causa da busca por novos caminhos ou, então, simplesmente por causa do turbilhão de hormônios. E foi assim por  mais alguns anos, até que me tornei funcionário do Banco do Brasil, ali em Copacabana. Voltei a tomar café, um café ruim, mais doce que rapadura, provavelmente para fazer uma social com os colegas. Seja como for, deixei de ignorar esse hábito tão brasileiro. 

    Lá em casa, o pó durava um tempão. Pra falar a verdade, eu até sabia fazer, pois havia visto tantas e tantas vezes a minha avó preparando. Todavia, creio que não tinha feito uma vez sequer. Até que um dia, não sei por que carga d'água, cismei em preparar um pouco. 

    Lá fui eu atrás daqueles filtros de papel pelos armários da cozinha. Achei, mas a caixa estava mofada. Desci e fui ao mercado, quase em frente ao edifício onde morava, na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo. 

    Procurei pelas prateleiras e, quando eu já estava indo em direção ao caixa, meus olhos se fixaram naqueles coadores de pano. A imagem da minha avó logo me veio à mente e quase joguei os tais filtros de papel pro alto. Obviamente, não fiz isso. 

    Peguei o coador de pano, que me encorajou a buscar pelo café mais adequado para aquela ocasião. Foi aí que percebi que a variação dos preços era enorme! Mesmo assim, escolhi a que mais me agradou, talvez influenciado pela bela imagem de grãos inteiros e torrados do rótulo.

    Corri de volta, entrei na cozinha quase esbaforido. Coloquei a água para ferver, enquanto admirava aquele coador. Abri a embalagem do café e senti aquele aroma que tanto me lembrava a minha avó. 

    Momentos depois, lá estava eu na sacada, com uma xícara nas mãos, sentindo aquele quentinho inebriar meu coração. Sorvi um pouco do líquido preto, ao mesmo tempo em que meus olhos, saudosos, se fechavam. O café estava sem açúcar. Aliás, de doce já basta a vida!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O café e a avó" foi publicada por Notibras no dia 6/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/vida-doce-como-e-nao-precisa-de-acucar-na-xicara/

    

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Desejamos ser Elza

    Não há como negar que a Elza Soares nos incomoda! Ela tem aquela mania de atacar justamente os nossos preconceitos mais arraigados, aqueles mesmos que cismamos em gritar aos quatro cantos que não os possuímos. E essa mulher sempre foi assim, como se sentisse prazer em nos desconcertar.

    Queremos nos libertar quando a vemos. Queremos soltar a nossa voz, quando apreciamos sua arte. Apesar disso, ela nos incomoda! Ah, como podemos dar espaço para uma mulher daquelas? Mulher preta! Será que ela não sabe o seu lugar? 

    A Elza já era para ter sido eliminada da nossa memória há tempos! Mas lá está ela, com aquele olhar que nos persegue, que não nos deixa escapar. Somos presas fáceis, pois nos encantamos como Garrinchas que somos, hipnotizados por essa voz rascante, que nos rasga por completo. 

   Lá estamos nós, diante dessa preta favelada! Queremos nos libertar das amarras dessa sociedade hipócrita, que tenta empurrar nossos olhos para alguma recatada. Todavia, desejamos dar vazão ao que sentimos lá no fundo e, por isso, buscamos sempre essa tal Elza Soares, mulher despojada de vergonhas, num país repleto de desejos reprimidos. 

    Elza, tão calejada das pauladas da vida, não se intimida com nada. Que venham brucutus em grupo! Aliás, ela bem sabe que esses tipos só são o que são quando estão juntos. Elza ri de todos eles, pois, para quem já enfrentou bala de canhão, isso é como mais um passeio na praça ou na esquina. Qualquer esquina! Ela conhece todas!

    Não há como negar que a matéria pereceu, como foi noticiado para o mundo no dia 20 de janeiro de 2022. No entanto, a imensurável contribuição dessa tal Elza permanecerá por aqui por gerações e gerações, que, caso sejam sábias, beberão dessa fonte inesgotável de teimosia. Teimosia de viver, pois a Elza Soares nada mais é que a própria teimosia, a mais pura teimosia de persistência em continuar viva, apesar das infrutíferas tentativas de apagar essa luz, que emana da sua voz: Rrrrrrrrrrrrrrrrr!!!

  • Nota de esclarecimento: O texto "Desejamos ser Elza" foi publicado pelo Notibras no dia 07/05/2023.
  • https://www.notibras.com/site/essa-moca-tao-diferente-que-reinventou-o-som/

    

sábado, 22 de janeiro de 2022

Luizinho, o marido ciumento

  Luiz Carlos, o Luizinho, casado com Chris, era um homem muito ciumento. Apesar de confiar plenamente na mulher, não conseguia controlar esse sentimento que o consumia. Fez terapia, diversas, inúmeras sessões com psicólogos. Apesar daquelas centenas de reais gastos, Luizinho ainda sofria com os papelões que fazia. Além disso, Chris já não aguentava tanto barraco do marido.

    Certo dia, lá estava o casal no clube. Ele com aquela sunga verde limão, como se tivesse algo notável a ser mostrado. Pura propaganda enganosa! Ela, discreta, em seu maiô azul marinho. Os dois, apesar dos contrastes evidentes, pareciam o par perfeito. Os filhos, uma menina e um menino, completavam aquela cena clássica de propaganda de margarina. Que felicidade!

    Pois, nesse mesmo dia, Luizinho não conseguiu controlar os nervos ao notar que a sua amada estava de papo com um outro homem. E lá foi ele tomar satisfação, aproximou-se e perguntou: 

    _ Que conversa comprida é essa?

    Mas, antes mesmo que a Chris pudesse explicar, o tal amigo abriu um sorriso maior que a própria boca e disse:

    _ Amiga, então é esse o seu bofe? Que gato!!!

    Esse mico parece que surtiu mais efeito que todas aquelas visitas ao psicólogo. Dizem que o Luizinho ficou todo envergonhado e, por algum tempo, passou mais tempo pensando naquele constrangimento, que, por quase dois meses, não teve mais crises de ciúme. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Luizinho, o marido ciumento" foi publicado por Notibras no dia 29/12/2023. 
  • https://www.notibras.com/site/luizinho-cai-na-real-ao-ser-definido-como-bofe/

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A Rosa de Escrava Isaura

    Nos primeiros anos de 1990, morei na rua Barão da Torre, esquina com a Vinícius de Moraes, em Ipanema. E foi nessa época que aconteceu uma situação engraçada. Lá estávamos a minha mulher, mãe da minha filha mais velha, e eu na agência do Banco do Brasil, ali na rua Joana Angélica, bem em frente à Praça Nossa Senhora da Paz. 

    Eu estava entretido mexendo no caixa eletrônico, quando a minha esposa foi conversar com uma mulher ao lado. Na hora não percebi quem era, mas, assim que acabei de sacar dinheiro, percebi que era a atriz Léa Garcia, que, fiquei sabendo naquele momento, estava atuando em uma novela. Como não acompanho novelas desde o final dos anos 1970, não tinha conhecimento sobre isso. No entanto, sabia muito bem quem era a Léa. Afinal, ela teve um papel de destaque na novela Escrava Isaura, versão de 1976.

    Enquanto a minha esposa falava que era muito fã do trabalho da famosa atriz, esta sorria aquele sorriso largo de quem está muito feliz pelo reconhecimento do público. Eu me aproximei das duas e falei:

    _ Você é a Rosa!

    _ Sim! A Rosa era ótima!

    _ Ótima? Ela era má pra caramba!

    A Léa riu do meu comentário, que tinha tom de brincadeira. Obviamente que a Rosa era a melhor personagem daquela novela. E, como a Léa disse muito bem: "A Rosa era ótima!!!"

  • Nota de esclarecimento: A crônica "A Rosa de Escrava Isaura" foi publicada pelo Notibras no dia 19/08/2023.
  • https://www.notibras.com/site/rosa-de-escrava-isaura-era-otima-como-ma/

    


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Dois meninos na praia do Peró

    Provavelmente, você, que não andou nos anos 1970 pela belíssima praia do Peró, em Cabo Frio-RJ, nem desconfie que por lá era possível montar uma barraca e ficar dias sem ver uma alma viva. E foi durante esse período meio riponga que aconteceu essa pitoresca história que, por causa do longo tempo decorrido, talvez não tenha acontecido exatamente como vou lhe contar. 

    Os dois meninos, 10 e 8 anos, logo cedo saíram da barraca fincada na areia e foram escovar os dentes na água salgada, onde as ondas espumavam aos seus pés. Era um momento de angústia, especialmente para o mais novo, que fazia careta com a sensação do sal na hora de enxaguar a boca. Mas logo os dois voltavam a atenção para as enormes possibilidades do dia. 

    O mais velho, para garantir um dia ensolarado, pegou um galho logo ali e riscou "SOL" na areia, não muito longe da água. Ele havia dito para o irmão que, se as ondas chegassem até a palavra escrita, faria um lindo dia de sol. 

    O pirralho se sentou ao lado do maior e os dois ficaram aguardando até que a força da maré apagasse a palavra. Uma chegou pertinho, mas logo retornou ao mar. Ficaram 15, 20 minutos, até que, finalmente, Netuno cuspiu tão forte, que pegou os dois desprevenidos. Os meninos ficaram com os fundilhos molhados e cheios de areia. Mas não ligaram. Mais um dia ensolarado estava garantido!

    O sol ficou tão forte, que as águas do mar refletiam a sua luz em direção àqueles meninos, que tinham que apertar os olhos para enxergarem melhor. Eles foram caminhando ao longo da areia, às vezes davam um mergulho aqui e ali, até que o mais velho resolveu pegar um pouco de areia e mirou bem nas costas do irmão. Plaft!!! Pegou em cheio! O menor, que era muito resmungão, tentou fazer o mesmo. Ele catou um punhado de areia molhada e foi correndo atrás do mais velho, que corria entre as ondas aos seus pés. Plaft!!! Lá estava a vingança concluída! 

    O menor começou a gargalhar, a boca bem escancarada! O maior, ligeiro como um coelho, pegou outro tanto de areia e atirou de volta, enquanto o mais novo continuava rindo do feito. Plaft!!! A areia acertou em cheio a cara do mais novo, sendo que boa parte entrou na sua boca. 

    O sol, que continuava firme, talvez tenha sido o motivo daquela brincadeira ou, então, tenha ofuscado os olhos do menino mais novo, que lá foi, choroso, limpar a boca com a água salgada da praia do Peró. Salgada, é verdade, mas que, ainda hoje, traz lembranças doces para aqueles dois.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Dois meninos na praia do Peró" foi publicado por Notibras no dia 2/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/historia-dos-meninos-e-o-desenho-que-garante-dia-ensolarado/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Fla x Flu e o Super-Homem no metrô

    A minha mulher ainda não conhecia o Maracanã e, então, fomos até as Laranjeiras comprar ingressos para o Fla x Flu, que aconteceria na noite do dia 09/06/2019. Há muitos anos, eu também não visitava esse lendário palco do futebol e, por isso, me animei, mas não tanto como a Irene, que é apaixonada pelo esporte bretão, bem como torcedora, daquelas bem chatas, do Palmeiras. 

    Lá estávamos diante daquele monumento, que fora erguido para a Copa de 1950. Muita gente, a maioria flamenguista, como o esperado. Afinal, o torcedor do Fluminense não é muito de sair do conforto do seu sofá, ainda mais quando o adversário é o grande favorito. 

   Passamos pela roleta, subimos as rampas de acesso, eu notei as lanchonetes, agora bem mais agradáveis, bem como os banheiros, incrivelmente limpos. Logo de cara pensei que o Maracanã havia melhorado desde a última vez. Todavia, quando realmente entramos naquela redoma onde os milhares de torcedores ficam, veio uma das maiores decepções que senti. O que fizeram com o Maracanã? Gente, isso é crime de lesa-pátria das chuteiras! 

    Sumiram as arquibancadas, a geral já havia desaparecido há anos. Aquele monte de cadeiras postas em um ângulo péssimo para ver o campo por completo, haja vista as enormes placas de propaganda. Aquilo ali poderia ser tudo, menos o enorme templo em que eu havia conhecido desde meus tempos de criança, quando fui levado pelas mãos vascaínas do meu pai.

    A minha esposa e eu nos sentamos ao lado de um casal com algumas crianças. A esposa do cara parecia muito apaixonada pelo Flamengo, pois não parava de gritar "BRUNO HENRIQUE!!!", que poderia, caso fosse em outras épocas, ser chamado de ponta-esquerda. Aliás, um ponta-esquerda à la Paulo César Caju! O jogo foi seguindo, sem grandes emoções. Quando a bola chegava próximo à lateral de onde estávamos, tínhamos que adivinhar o que estava acontecendo, pois as placas tampavam a nossa visão. Mas relevamos isso, afinal, não dava para ficar reclamando da situação. Até que chegou um cara vendendo pipoca em um balde de plástico. Dez reais!!! Saquei uma nota e paguei por aquele monte de milho estourado. 

   A fã do Bruno Henrique cutucou o marido e disse que também queria um balde de pipoca. No entanto, devido ao elevado preço, ele titubeou por um instante, mas acabou pagando pela mercadoria, vendida a preço de ouro, para não entrar em conflito com a amada. Essa situação não passou despercebida pela minha esposa: "Ingresso caro, sem arquibancada, sem geral, pipoca aos olhos da cara, o futebol virou produto pra rico". Para combinar com esse desalento, o placar apenas confirmou a falência do futebol: zero a zero.

    Na saída do estádio, telefonei para o meu grande amigo Antonio Manoel, pois iríamos nos encontrar, dali a pouco, num bar em Copacabana. Eu lhe disse que chegaríamos em no máximo meia hora. Já no metrô, fiquei em pé, enquanto a minha mulher estava sentada à minha frente. Logo em seguida, um rapaz, com a blusa do Super-Homem, ficou ao meu lado. Talvez você não entenda por que fiz o que fiz em seguida, mas provavelmente você não é do Rio. Pois bem, eu cutuquei de leve o rapaz e tivemos o seguinte interlúdio, talvez só possível na Cidade Maravilhosa.

    _ Ei, por que você não veio voando?

    _ Sabe o que é? Hoje eu tive que salvar o mundo outra vez e estou cansado. Por isso preferi pegar o metrô.

    Essa breve conversa com esse rapaz, com certeza também carioca, levou um pouco daquela tristeza que senti com o que fizeram com o maior estádio de futebol do planeta. O Rio precisa de mais pessoas como esse Super-Homem do metrô carioca!

  • Nota de esclarecimento: "A crônica "Fla x Flu e o Super-Homem no metrô" foi publicada pelo Notibras no dia 23/4/2023.
  • https://www.notibras.com/site/primeiro-fla-flu-e-igual-valisere-ate-nas-bolinhas/

      


domingo, 16 de janeiro de 2022

Questão de matemática


   Marina, tímida, trabalhava numa empresa média, com instalações não muito grandes, onde trabalhavam pessoas medianas, um chefe medíocre, mas que se sentia o último biscoito do pacote. Gilberto era o seu nome. Parecia aqueles tipos saídos diretamente da mente do Nelson Rodrigues. Não porque fosse esquisito, pois, ao contrário, era bem comum, talvez parecido com você, provavelmente igual a mim.

   O chefe, simplesmente por ser chefe, naturalmente era bajulado por quase todos. Quase! Marina, até pela própria timidez, não ousava nem olhá-lo nos olhos, enquanto seus colegas soltavam sonoras gargalhadas, todas forçadas, quando Gilberto contava aquelas piadinhas que conhecemos há séculos. Todavia, lá estavam os companheiros de labuta da Marina, todos fazendo cara de surpresa pelo final surpreendente daquela mais nova anedota, sempre uma que aquele nosso tio inconveniente cisma em contar nos típicos churrascos de família.

  Numa reunião de final de ano, quando todos já queriam ir embora, até mesmo aqueles maiores bajuladores do Gilberto, eis que este insiste em contar uma nova piada. 

    _ Os amigos foram jogar bola e havia um monte de camisas com as numerações. Aí, um amigo joga a camisa 8 para outro e pergunta se ele gostava daquela. Então, o amigo pega, olha o número 8 e responde que só não gostaria se ela fosse três vezes maior. Entenderam? Três vezes maior! Vinte e quatro!

    Todos na sala começam a rir forçosamente, menos a Marina. Esta, incomodada com a piada preconceituosa, não consegue conter a ânsia de vomitar algumas palavras e, encarando o seu chefe pela primeira vez, diz:

    _ Além de ser uma piadinha sem graça e homofóbica, há um erro grotesco de matemática. O número três vezes maior que o oito é o 32.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Questão de matemática" foi publicado por Notibras no dia 12/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/marina-timida-desmascara-o-chefe-homofobico/

sábado, 15 de janeiro de 2022

Meu país, Copacabana!!!

          Os meus amigos mais próximos sabem que eu nasci em Botafogo, morei em Botafogo e não teria como também não ser Botafogo. Todavia, migrei para o bairro ao lado, Copacabana. Aliás, bairro é muito pouco para esse lugar tão diversificado. Copa vai muito além de ser o mais famoso bairro do Rio. Tudo acontece em Copacabana! Tudo mesmo!!!

          Tem gente que prefere Ipanema, que é mais chique ou, então, o Leblon, ainda mais elitizado. Outros falam que a Barra da Tijuca é que é melhor. Gosto é gosto, mas esses outros bairros (sim, são bairros e nada mais) parecem que não possuem vida própria. Todos eles necessitam de algo que os impulsionem.

          Copacabana tem o seu próprio motor, que seja até de vapor, isso não importa. E essa força propulsora dá vida a esse lugar mágico, onde milhares de pessoas diariamente se esbarram nas ruas, seja a caminho da praia, seja rumo ao trabalho, seja apenas para bater perna. E não há lugar no mundo onde se bata perna com tanta energia como em Copacabana. Ah, isso é uma das coisas mais incríveis que acontecem por aqui.

          À noite, Copacabana continua única. Para os que a visitam pela primeira vez, pode parecer que se trata de outro lugar. No entanto, para nós, copacabanenses de coração, essa luxúria é outra faceta desse local. As lantejoulas nas esquinas refletem os faróis dos carros, enquanto senhoras passeiam com seus cães.

Logo ali nas areias da praia, grupos diversos se divertem jogando bola ou, então, tomam mais um chope ao som de um cavaquinho ou de uma batucada. Copacabana é bastante sonora! E que me desculpem os outros lugares, mas Copa é Copa! Todos os caminhos, no Rio, levam a Copacabana!

          Os artistas da noite, depois de uma longa jornada de expediente, mostram múltiplos talentos sobre os palcos dos bares, das boates, das ruas. E as pessoas daqui, cada qual no seu ritmo, embalam e são embaladas pelos movimentos das ondas do mar, de onde é emanado aquele cheiro maravilhoso da maresia. 

          Ah, como eu adoro esse aroma!!! Todas essas coisas se entrelaçam nesse mosaico de cores tão incomuns. Isso tudo me faz lembrar das palavras do meu avô: "Copacabana é o pior bairro do Rio. Mas também é o melhor!" 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Meu país, Copacabana!!!" foi publicada por Notibras no dia 31/7/2024.
  • https://www.notibras.com/site/princesinha-do-mar-essa-praia-e-cheia-de-luz/

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Santana e o rato

 

    O delegado havia programado uma operação no centro. Todos estavam certos de que fariam uma limpa naqueles becos fétidos. E lá estava o Santana, com umas batatinhas fritas em um saquinho, entediado por mais esse trabalho noturno. Ele pensava apenas no grande sofá, puído pelos inúmeros anos de preguiça, na sala em frente à televisão.

    _ Pessoal, hoje vamos acabar de uma vez por todas com a bandidagem!

    Todos escutavam as palavras do delegado. Alguns mais atentos, outros nem tanto e, por fim, o Santana fuçava a última batatinha no fundo do saquinho. Ele apenas pensava que deveria ter comprado mais uma porção de batatinhas, pois aquelas não preencheram nem o buraco do dente. Ah, Santana, como você é guloso!

    As viaturas saíram animadas da delegacia. Algumas regras de trânsito foram deixadas de lado. Ah, mas polícia pode! Mesmo que isso leve certo perigo à população. Mas o que essas criaturas estão fazendo a essa hora na rua? Cidadão de bem fica em casa! Toque de recolher! De volta para o curral!

    Lá pelas tantas, após horas sem nem um crime sequer desmantelado pela tropa antes eufórica, o delegado resolveu tentar uma derradeira busca em um beco escuro. E lá foram todos atrás do chefe. Passaram por uma lixeira enorme, de onde sentiram um cheiro horrível de podre. Continuaram e, mais adiante, se depararam com alguns moribundos, cercados por baratas, que tentavam dormir. 

    Todos os policiais, armas em punho, se preparavam para dar o bote naquela trupe, segundo eles, de altíssima periculosidade. No entanto, um disparo os despertou para a realidade. O Santana, que ainda estava ao lado da enorme lixeira, havia dado um tiro. Ele tentou acertar um rato, que correu assustado, mas, graças aos deuses do esgoto, ileso. Enquanto o delegado encerrava ali mesmo a operação, o roedor foi contar para os companheiros mais essa atrapalhada do Santana.

Pessoas felizes

 

   João havia nascido em uma família pobre. Todos eram pobres, alguns até muito pobres. Ele também cresceu nessa família pobre, já que ninguém conquistou muitos degraus na escalada para a fortuna. Uma prima, bem distante, teria conseguido um emprego em uma repartição pública. Todavia, João nem a conhecia, só ouvira falar. Talvez, ele pensasse, essa prima fosse apenas invenção da família para se apegar a uma esperança, mesmo que inalcançável.

    — Larga esse cachorro, João! Olha a sua roupa cheia de pelo!

    O menino não tinha coragem de encarar a mãe, abaixava a cabeça e a torcia levemente para encontrar os acolhedores olhos da avó, sentada ao fundo em uma cadeira com um último pedaço de pão dançando na boca vazia de dentes. A velha, com um leve gesto da sua face enrugada, levava aconchego ao coração do menino.

    João ia para a escola logo cedo, voltava com a barriga roncando na hora do almoço. Nem isso o impedia de gastar alguns minutos no quintal com o Popoco, o cachorro da família. Esse tempo o distraía tanto, que nem mais se lembrava da fome que sentiu durante a última aula.

    — Larga esse cachorro, João! Vai lavar as mãos pra comer!

    Ele obedecia, mas não antes de segurar, com suas mãos encardidas, a cabeça do Popoco e lhe dizer: "Depois a gente brinca mais".

    O tempo passou depressa, o Popoco, já praticamente sem dentes como a avó, ainda esperava pelo João voltar para casa. Os dois passavam algum tempo juntos, mas não tanto como nos idos de criança. As mãos do João, agora grandes, continuavam a segurar a cabeça do Popoco: "Depois a gente brinca mais".

    A avó e o Popoco não tardaram para deixar aquela família. Isso aconteceu praticamente na mesma época. O João, de uma só vez, havia perdido o seu companheiro de travessuras de longa data e aqueles olhos que sempre apaziguaram as angústias do seu coração.

   João conheceu Aurora, que trabalhava praticamente ao seu lado. Os dois saíram algumas vezes e, poucos meses após, já estavam morando juntos. A moça ficou grávida da Maria, que nasceu logo no início de março. Não tardou, a menina já corria pelo quintal, o mesmo quintal em que, certa época, o Popoco e o João também se divertiram.

    Foi num fim de tarde de uma sexta-feira que aquela bolinha de pelos chegou nos braços do João. Maria correu para ver o que era aquela coisa que se mexia nas mãos do pai. A menina e o cachorrinho criaram uma conexão logo de cara. Passaram a brincar todos os dias no quintal.

    — Larga esse cachorro, Maria! Vai lavar as mãos pra comer! - dizia a mãe.

    A menina buscava os olhos do pai, que lhe sorria. Ele sabia, como a sua avó um dia lhe contou com o seu olhar: Há dois tipos de pessoas no mundo: as infelizes e aquelas que têm pelos na roupa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Stones, Elvis e Alceu

        Cresci nos anos 1970 e 1980, quando o rock and roll ainda era o grande ritmo que embalava boa parcela da população. Obviamente que havia o samba, a bossa nova, a MPB, mas o rock era a grande estrela nas mentes dos jovens. Falar algo assim hoje em dia talvez pareça estranho, ainda mais depois que ouvi, há alguns anos, que um colega de trabalho não gostava de rock.

Aliás, ele, que estava conversando com outros funcionários, foi até bem específico em relação a um artista: "Odeio o Raul Seixas!" Isso soou tão sem sentido para mim, mas continuei sem participar desse debate. Simplesmente mantive os olhos na tela do computador, simulando que estava lendo algo.

          No entanto, a história que vou contar aconteceu em 2006, quando The Rolling Stones se apresentaram para mais de um milhão de pessoas nas areias da praia de Copacabana. Pois bem, lá estávamos a minha filha e eu. A multidão era tamanha, que, durante alguns momentos do show, tive que colocá-la nos meus ombros. Ela adorou a situação, pois era uma garotinha de nove anos curtindo umas das maiores bandas de rock da história, composta por aqueles músicos que embalaram boa parte da minha vida. 

          Foi legal. Gostei. Mas sem exclamações. Não sei se os Stones estavam cansados de tocar as mesmas coisas durante muitos anos ou, então, eu que já não fazia parte daquela plateia. Tudo me pareceu tão artificial, extremamente técnico, mas não disse isso para a minha filha, pois ela estava tão eufórica. Tanto é que, logo após os Stones cantarem "Satisfaction" e se despedirem, a minha filha quis telefonar para a minha mãe. Achamos o primeiro orelhão.

          — Vó, advinha quem a gente viu agora!

          — Não faço a menor ideia. Quem?

          — Os Stones, vó! 

          — Ah, que legal. 

          — Os Stones são bem legais, vó!

          — É, eles são legais. Mas o Elvis é bem melhor!

          A minha filha depois me falou o que a minha mãe tinha dito. Provavelmente, o Elvis fosse mesmo melhor. Não sei. Mas, algum tempo depois, presenciei o maior show da minha vida, quando vi uma apresentação do Alceu Valença. Posso afirmar, e que me desculpem os Stones, mas o Alceu me fez acreditar, ali na lona de Vista Alegre, que ele é bem melhor.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Stones, Elvis e Alceu" foi publicada por Notibras no dia 30/7/2024.
  • https://www.notibras.com/site/stones-e-elvis-sao-magicos-mas-alceu-tem-a-cartola/

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Do Céu ao Inferno

     Há pouco, aquele homem havia se separado. Aliás, a ex-esposa não o queria mais e, então, ele acabou se mudando para um pequeno apartamento em Copacabana. Cabisbaixo, cismava em se olhar no espelho, onde só enxergava um maltrapilho ao fundo. Não que fosse muito feio, até que tinha um rosto agradável, o corpo relativamente em forma. Era todo tristeza!

    Às vezes, evitava o elevador, a despeito de morar no nono andar. Preferia ir pelas escadas, onde as chances de se esbarrar com alguém eram bem menores, quase ínfimas. Já bastava o olhar do zelador quando ele entrava pela portaria do edifício. "Ele sabe que levei um baita pontapé no traseiro!", pensava.

    Todas as manhãs, o gajo saía cedo de casa, caminhava até o ponto de ônibus, onde quase sempre encontrava um colega de trabalho. De tanto conversarem, os dois se tornaram amigos. Conversavam durante o trajeto, tanto de ida, como de volta do emprego. 

    O amigo falava mais, apesar de não gostar de acordar àquela hora da manhã, quando normalmente o humor não era dos melhores. Já no retorno para Copacabana, parecia mais animado, pois gostava de ir para algum barzinho ali mesmo. Sempre chamava o abandonado pela ex-mulher, que todas as vezes declinava do convite. 

    Pouco antes das 6 h, lá estava o moribundo saindo de casa para iniciar a sua rotina, quando, de repente, a porta do elevador se abre. Uma mulher deslumbrante surge à sua frente. Ela sorri e diz: "Bom dia, bonitão!" Ele a cumprimenta com um sorriso. Ela lhe pergunta se ele mora ali. Ele apenas aponta para a porta ao fundo do corredor. "Hum, é bom saber!" Ela abre a porta quase ao lado da dele e desaparece.

    Ele entra no elevador, ainda surpreso pelo ocorrido, leva um tempo para apertar o botão da portaria. Finalmente, após tantos dias, tantos meses, parece que seu coração voltou a bombear aquele sangue amargurado. Seu corpo está vivo novamente. "Que mulher!!!", ele diz quase alto.

    Lá estava o amigo entrando no ônibus. Ele corre e consegue também entrar. Sentam-se um ao lado do outro bem ao fundo. O amigo nota o seu rosto agora todo sorriso.

    _ O que houve? Foi picado pela mosquinha azul da felicidade?

    _ Cara, você não vai nem acreditar!

    _ Desembucha logo!

    _ Quando eu estava saindo de casa, a minha vizinha saiu do elevador e ficou dando em cima de mim. A maior gata!!!

    _  Por acaso ela estava de saia?

    _ Tava!

    _ O rosto pintado?

    _ Sim! Uma maquiagem linda!

    _ E ela estava chegando em casa?

    _ Sim! 

    _ Hum! Uma mulher bonita, de saia, toda maquiada, chegando a essa hora da manhã em casa, em Copacabana...

    Não foi precisou mais nada para que o homem percebesse o que o amigo queria dizer.

    _ Puxa, você é um destruidor de sonhos!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Do Céu ao Inferno" foi publicado por Notibras no dia 5/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/rapaz-separado-cruza-com-gata-que-era-gp/

    

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Sonia Clair, a diva de Copacabana

 

    Eu a conheci em outubro de 2001, quando fui transferido para o DEREG, que era um depósito do Banco do Brasil localizado bem na entrada da favela Kelson, na Penha Circular, um bairro do Rio de Janeiro. Não me recordo exatamente como foi, mas lembro que ela se aproximou e, muito simpática, me deu as boas-vindas. Ela me lançou aquele sorriso e, assim, me disse que se chamava Neném. Muito tempo depois, soube que o seu nome era outro: Sonia Clair.

   Apesar de trabalharmos no mesmo setor, praticamente não tínhamos muito tempo para conversar, já que eu passava a maior parte do expediente dentro do escritório, enquanto ela ficava na parte da conferência dos materiais que seriam despachados para as diversas dependências do Banco do Brasil espalhadas pelo país. Todavia, isso não foi empecilho para que, de vez em quando, trocássemos um "Oi! Tudo bem? Como vai?"

    Depois de algum tempo, voltei a morar em Copacabana, mesmo bairro onde a Sonia residia. Então, logo em seguida, pegamos o mesmo ônibus de volta para casa. Eu havia entrado primeiro, mas não a tinha visto até que ela, esbaforida, também subiu os degraus do coletivo. Eu a cumprimentei quando ela ainda estava na roleta pagando a passagem. No entanto, para a minha surpresa, ela não se sentou ao meu lado, mesmo o lugar estando vazio. Ela se sentou na outra fileira de cadeiras, quase na mesma direção. Eu lhe perguntei por que não se sentara comigo. Ela apenas sorriu, meio constrangida talvez. Eu me levantei e fui me sentar ao lado dela, já que o assento ao lado também estava vago. 

    Fiz-lhe a mesma pergunta, quando ela finalmente me respondeu que nem todos os colegas gostavam de ficar na companhia dela fora do banco. Essas palavras me fizeram sentir vergonha dessas situações horríveis da vida. A sociedade, muitas vezes, nos torna hipócritas, pois nos faz insistir em comportamentos deprimentes. 

    Eu, que já admirava a Sonia, naquele momento quis ser seu amigo. Não sei se consegui, mas fiz questão de enaltecê-la sempre que estávamos juntos. Inclusive depois de alguns anos, quando saí do Banco do Brasil e me mudei de cidade. 

    Quando voltava para o Rio, sempre perguntava por ela e, quando tínhamos sorte, a encontrávamos. E, numa dessas viagens, a minha esposa, a famosa Dona Irene, acabou conhecendo a minha amiga. Lembro-me muito bem desse dia, quando ela se apresentou: "Prazer, Sonia!" A minha esposa, assim como grande parte das pessoas que tiveram o enorme prazer em conhecê-la, ficou encantada com a Sonia. Aliás, Sonia Clair!!! Mulher!!! Preta!!! Poderosa!!!

Sonia Clair, eu, Antonio, Irene e Lindy
  • Nota de esclarecimento: A crônica "Sonia Clair, a diva de Copacabana" foi publicada por Notibras no dia 25/1/204.
  • https://www.notibras.com/site/sonia-clair-a-verdadeira-diva-de-copacabana/

    

domingo, 9 de janeiro de 2022

Vasco da Gama, um gigante contra o racismo

    Os meus amigos sabem que eu nasci em Botafogo, morei em Botafogo e sou Botafogo. No entanto, isso jamais me impediu de admirar a história do Vasco da Gama, que é, sem sombra de dúvida, o time que mais lutou contra o racismo no Brasil. No Rio, o Gigante da Colina é, com certeza, o verdadeiro time do povo. Aquele outro, que fica na Gávea, é o time da massa. Aliás, massa é aquilo que pode ser moldado à forma que os governantes desejam, ou seja, é facilmente manipulada. Já os vascaínos, geralmente, são pessoas combatentes, que se posicionam a favor das minorias. 

    Quando penso no Vasco, a primeira figura que me vem à mente não é nenhuma das lendas que passaram pelo time: Ademir Menezes, Roberto Dinamite, Edmundo, Barbosa, Vavá, Romário... Todos esses e muitos mais tiveram passagens gloriosas por essa agremiação, é verdade. Todavia, desde a primeira vez que fui ao Maracanã com meu pai, que era vascaíno, ele me apontou para um cara meio fora de forma, mas que parecia ter muito mais disposição e agilidade que muitos atletas: "Aquele lá é o Santana!"

    O Santana, o Pai Santana, um homem preto sempre vestido de branco, parecia ser mais importante que a maior estrela em campo, o Dinamite, naquela primeira vez que eu o vi. A torcida o saudava com gritos eufóricos. Todos ali amavam aquele homem, que era o massagista do Vasco. Aliás, massagista é muito pouco para tudo o que o Santana representava para o time. Ele era o amuleto, o curandeiro, o presidente, o papa, o dono da bola, sei lá. Todos no Maracanã sabiam quem era o cara. Até mesmo a torcida adversária sabia quem ele era.

    Não dá para separar o Santana do Vasco ou, então, o Vasco do Santana. Até hoje não sei onde um termina e o outro começa. Talvez formem uma amálgama, um só corpo. Provavelmente seja por conta disso que, toda vez que vou ao Maracanã, até para assistir ao meu Botafogo contra outro adversário que não o Gigante da Colina, eis que ainda consigo enxergar aquela figura antológica correndo de um lado para outro. Ouço o grito das torcidas enaltecendo esse ser humano incrível, digo até imortal, que faz parte da história do Rio de Janeiro.

    Para terminar, nem sei se o Santana já jogou bola. Talvez fosse até proibido de jogar, pois ninguém teria coragem de tomar a bola dele. Não que ele tivesse sido um craque, pois creio que nem soubesse fazer umas embaixadinhas. Todavia, todos o respeitavam! Todos!!! Aquele homem só poderia ter sido mesmo vascaíno, pois no Vasco, todos sabemos de longa data, as coisas são diferentes. Ali, o racismo não se cria! E todos aqueles que amam e conhecem o futebol sabem disso! Respeitem o Vasco!!! 

    

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Vasco da Gama, um gigante contra o racismo" foi publicado pelo Notibras no dia 02/05/2023.
  • https://www.notibras.com/site/vasco-pode-perder-jogo-mas-derrota-racismo/
  • A crônica "Vasco da Gama, um gigante contra o racismo" faz parte da Coletânea Racismo. Até quando? do projeto Apparere, 2023. 
  • https://certificados.perse.com.br/generate_certificate.php




Gamão do Povão

 


    O meu genro, acreditem ou não, é um inveterado torcedor do Gama. Isso mesmo!!! E lhe digo mais: é muito comum vê-lo com a verdíssima camisa desse que é o maior campeão do campeonato candango, carinhosamente chamado de Gamão do Povão ou, também, pelo nome do seu mascote, Periquito. Pois, da mesma forma que essa ave que emite sons que podem irritar algumas pessoas, especialmente quando estão aos bandos, também já incomodou muito os ditos times grandes do Brasil durante os anos 1990.

  Para aqueles que não sabem, o Periquito nasceu em uma das inúmeras cidades satélites, chamada de Gama. No entanto, após um preconceituoso comentário que dizia que os torcedores ou eram porteiros ou empregadas domésticas, que tentou desprestigiar a torcida do Periquito, houve uma identificação ainda maior com o povo candango. Daí, muitas pessoas afirmarem, dentre as quais o meu genro, que o Gama é o verdadeiro time do povo. Isso, aliás, realça ainda mais as diferenças com outro time de Brasília, famoso pelos pesados investimentos financeiros, cujo dono é um notório empresário e político, haja vista a sua prisão ter sido noticiada pela imprensa nacional.

    O Gama é, portanto, conhecido também por ser o time da resistência, já que, apesar das dificuldades financeiras, possui um patrimônio inestimável, que é a sua torcida, a maior da capital do país. Aliás, não é apenas em números que os torcedores do Periquito se destacam, mas também pelo amor demonstrado pelo clube. Por isso, não é raro um visitante encontrar alguém usando uma camisa do Gama em Brasília. Isso mostra outra faceta dessa famosa agremiação candanga, a paixão que ela desperta. Definitivamente, o Periquito é o Gamão do Povão!








sábado, 8 de janeiro de 2022

A bicicleta do Leo

 

          A história que vou contar aconteceu na longínqua década de 1990, quando eu nem imaginava que um dia iria trabalhar no Notibras, pois cursava Medicina Veterinária na Rural (UFRRJ) com os meus amigos Almeidinha (também conhecido na época como Orelha) e Leo (vulgo Mineiro). Este havia comprado, por uma bagatela, uma bicicleta mais surrada do que moleque travesso, mas que o ajudava a transpor as enormes distâncias entre os diversos institutos e o bandejão. Bandejão (bandex), para quem não sabe, é como ainda hoje é conhecido o refeitório, que fica próximo aos alojamentos dos alunos.

          Um dia, lá estávamos o Leo, o Almeidinha, o Miracema (Ricardo) e eu almoçando no bandex. Em seguida, fomos conversar debaixo da árvore, onde o Leo havia deixado a sua bicicleta, mas ela, para desespero do dono, não estava mais lá. 

        O Leo ficou deveras histérico, começou a procurá-la, mas nada. Tudo indicava que a bicicleta do meu amigo havia sido furtada. E olha que ele sempre a prendia com uma corrente e um cadeado. Só que o Leo passava a corrente apenas no quadro e na roda traseira, não prendia em algum objeto fixo.

          Não deu outra, o Leo foi direto registrar um boletim de ocorrência na delegacia, que fica na cidade. Nós três fomos para a aula lá no Instituto de Veterinária (I.V.). O professor já estava praticamente nos finalmente, quando o Leo apareceu todo esbaforido para não perder a chamada. Ele deu uma cutucada no Almeidinha e disse:

— O policial lá na delegacia me falou que vai descobrir quem roubou a minha bicicleta. Disse que o gatuno não vai ficar impune.

O Almeidinha ficou ouvindo o nosso amigo falando pelos cotovelos, todo empolgado com o que o policial havia lhe dito. 

          Depois da aula, todos fomos para a frente do I.V., onde o Almeidinha não aguentou e, finalmente, revelou:

— Leo, eu que peguei a sua bicicleta. Ela está guardada no alojamento. Isso é pra você aprender a prender direito a sua bicicleta.

Todos nós rimos muito, e o Leo, meio sem graça, disse:

— Só podia ter sido você mesmo, Almeidinha!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "A bicicleta do Leo" foi publicada por Notibras no dia 19/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/a-bicicleta-do-leo/

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A difícil luta contra a burrice

 

  Não estou aqui para defender se o Elvis é ou não merecedor de título de rei do rock and roll. Na verdade, penso que isso é uma tremenda bobagem. Mas quero usar um pouco da história desse cara extremamente talentoso, que, apesar das inúmeras bobagens que fez na sua vida, soube tomar a decisão certa em determinados momentos cruciais da história recente da humanidade.

    Ainda na década de 1950, o Elvis incentivou milhões de jovens a se vacinarem contra a poliomelite, que matava dezenas de milhares de pessoas todos os anos nos Estados Unidos. Isso mesmo, aquele rapaz, que ficou famoso mexendo os quadris, ajudou a combater essa terrível doença. Ele não foi um pesquisador sobre enfermidades, não fez curso superior ou conheceu o Albert Sabin. No entanto, mesmo ainda tão jovem, jamais pôs em dúvida a Ciência. E, ciente da sua influência sobre a juventude, não se omitiu da importância em ficar ao lado do que era certo.

    Hoje, em pleno século XXI, acompanhamos, pasmos, o Bozo e a sua trupe falando um bando de bobagens aos quatro ventos. Ministros da Saúde adiando vacinas, um pior que o outro. O tenista número um da atualidade, Novak Djokovic, destilando asneiras sobre um suposto direito de não se vacinar. Ele não tem o direito de não se vacinar! Não mesmo! Parabéns, Austrália, pela deportação dele! Ele não vive sozinho neste planeta!  Aliás, este nosso maltratado mundo precisa mais de pessoas que fiquem do lado certo da história. E, se o Elvis não morreu, provavelmente foi porque se vacinou!

Jojô, a menina serelepe

 

        A menina corria serelepe pela casa dos avós. Ela acabara de saber que iria passar o próximo domingo na companhia dos tios no clube. "Se aquieta, Maria Alice!", a avó tentava conter o arroubo de alegria da neta, que parecia não prestar atenção naquelas palavras, talvez, sem sentido, ainda mais para ela, que era filha única e necessitava, mais que a maioria, da companhia de outras crianças.

        Já no sábado, ela foi dormir na casa da tia. Ela já queria acordar no dia seguinte e ir logo pro clube. Ansiosa como ela só, não pregava os olhos. Rolava tanto na cama, que a tia, preocupada, colocou um colchão no chão para proteger a criança, caso caísse. O tio, no outro quarto, também estava eufórico com o dia seguinte. Ele não era menino há décadas, mas agia como tal sempre que a mulher avisava que iriam ao clube. Adorava piscina! Coisa de menino.

        A Maria Alice e o tio foram os primeiros a levantarem no dia seguinte e já foram preparar as coisas. A tia levantou mais tarde, abriu a cortina do quarto e olhou o céu cinza. Levantou-se ainda com preguiça, calçou os chinelos e foi ao banheiro. Depois foi ver o que a sobrinha e o marido estavam aprontando. Encontrou-os tomando café. A menina, com um grande naco de pão na boca, sorria com todos aqueles dentes de criança. O marido bebia aquele café preto com algumas gotas de adoçante. 

        — Não vai dar pra irmos ao clube. 

        — Por quê, tia? - a menina abriu tanto a boca, que quase deixou aquele resto de pão cair.

        — O tempo está ruim. 

        A Maria Alice voltou o rosto para o tio, esperançosa de um alento. Ela acreditava nas palavras dele, que sempre vinha com pontas de esperança.

        — No clube é diferente! Sempre tem sol! - o tio disse olhando para a sobrinha. 

        O rosto da menina voltou a sorrir. A tia, que conhecia bem o marido, tentou sorrir, mas aquele humor azedo, amigo de praticamente todas as manhãs, não a impediu de torcer a boca e disse:

        —Que história maluca é essa de que no clube não chove?

        — Você não sabia? Ih, Maria Alice, ela não sabia disso!

        — Tia, todo mundo sabe disso!

        Terminaram de comer, a tia se levantou e foi para a sala, onde se sentou no sofá, pegou o controle ao lado e ligou a enorme televisão. Parecia determinada a passar um bom tempo ali. No entanto, logo a menina a puxou pelo braço.

        — Vamos, tia! 

        — Se aquieta, Maria Alice! - a tia repetiu as mesmas palavras da sua mãe.

      A menina, quase chorando, buscou os olhos do tio, na esperança de que ele a salvasse daquele momento desesperador, tão angustiante, mas que muitos adultos já se esqueceram. Ele se sentou perto da esposa, a abraçou, lhe deu um beijo carinhoso na face esquerda. Nada disse, simplesmente colocou a mão sobre a dela, que desligou a televisão e foi se arrumar.

        Poucos minutos depois, talvez uns 10 ou 15, que pareceram horas para a menina, lá estavam todos dentro do carro. O portão automático da garagem se abriu e o veículo tomou a rua, quase deserta. Mal chegaram no final da rua, começou a chover. Uma chuva forte!

        — Tá chovendo! Vamos voltar! 

        — Tia, no clube sempre faz sol!

        A chuva parecia não querer dar trégua, cada vez mais forte. Mas lá ia o tio dirigindo o veículo, a mulher com cara de poucos amigos ao lado, a Maria Alice, atrás, ia confiante nas palavras do tio. Faltava não mais que um quilômetro para chegarem ao destino quando, de repente, lá estava um céu iluminado pelo astro-rei. O tio simplesmente se virou para a esposa, que sorriu. Ele observou, pelo retrovisor, o rosto da sobrinha, que estava radiante.

        Assim que entraram no clube, colocaram as bolsas numa mesa embaixo de uma barraca e foram direto fazer exame para poderem entrar na piscina. Cada um ganhou uma pulseira. A menina e o tio correram para a piscina, enquanto a tia caminhou a passos lentos para a barraca, onde pediu uma caipirinha e se espreguiçou.

        A Maria Alice e o tio, agora mais menino que nunca, brincaram na piscina. Era uma alegria radiante, que se espelhava no rosto daqueles dois. Crianças! Coisas de crianças! Elas vivem um mundo mais divertido, que a grande maioria dos adultos nem sequer se lembram que existe.

        Após algumas horas, a tia foi até a piscina, onde se juntou àquelas duas crianças, que ainda estavam com o maior pique. Ela passou passou alguns minutos se refrescando naquela água, talvez um pouco mais fria que o esperado. 

        — Maria Alice, você precisa comer alguma coisa.

        — Ah, tia, não estou com fome!

        — Você tem que comer alguma coisa! Vou pedir alguma coisa pra gente agora. 

        A tia se dirigiu à lanchonete. A menina e o tio ficaram ali na piscina. O pedido chegou, a tia foi até a grade que cercava a piscina e acenou para os dois, que acataram a ordem. Emburrados, saíram da piscina, mas logo o sorriso voltou aos olhos daquelas duas crianças: Batata frita!

        Comeram tanto, mas logo quiseram voltar pra piscina. A tia disse que não, que deveriam aguardar um pouco. Aguardaram e aguardaram. Aqueles minutos lentos como lesmas, fizeram a menina olhar para a outra piscina, logo ali ao lado. Um mundaréu de pirralhos correndo de um lado para outro, escorregando pelo tubo de plástico até as águas rasas.

        — Tia, posso ir?

        — Vai lá. Mas cuidado!

        A menina correu mais do que nunca. No entanto, chegou timidamente na piscina, entrou como se pedisse permissão. Mas isso não durou mais do que meros segundos. Logo uma outra menina a chamou para entrarem naquele tubo de plástico e escorregarem. Eufóricas, subiram as escadas, desceram escorregando, subiram as escadas novamente, desceram, subiram, desceram... Não sei quantas vezes ficaram ali. Criança não se aquieta mesmo!

        Enquanto isso, o tio já havia ido e voltado da piscina duas ou três vezes. Agora, sentado debaixo da barraca, ouvia a esposa contando as notícias. De vez em quando eles comentavam sobre os ocorridos, até que apareceu a Maria Alice, com uma das mãos na testa e cara de choro. Nenhuma lágrima! Até para chorar, a menina era tímida. A tia, muito preocupada, lhe perguntou o que havia acontecido, no que ela respondeu que, durante uma das subidas das escadas, deu um encontrão com um menino. Testa com testa! Isso dói! Como dói!!! 

        A Maria Alice disse que o menino saiu chorando da piscina e foi direto para a mãe. O tio se levantou e foi pegar um pouco de gelo na lanchonete para colocar no galo que já despontava na cabeça da menina. Ao retornar, enrolou o gelo numa blusa e pediu para a Maria Alice ficar segurando bem em cima do galo.

        — Sabia que eu vi a mãe do menino chorão procurando por você? Ela perguntava pra todo mundo: você é a Maria Alice? 

        — Vamos embora, tio! Ela vai me bater!

        — Vai nada! Basta mudar o seu nome. Você quer se chamar como?

        A menina pensou brevemente e disse que gostava de Joelita, que era o nome da sua professora. Então, o tio começou a chamar a Maria Alice de Joelita. Dessa forma, a Maria Alice, agora Joelita, ficou mais tranquila e, mesmo com aquele galo enorme querendo cantar, ela achou graça de tudo e começou a rir, até que chegou a hora de irem embora. 

        Os tios da Joelita a deixaram na casa da avó, onde os pais a pegariam mais tarde. Ela ficou com aquela pulseirinha durante muito tempo, apesar dos protestos dos pais. A Joelita, depois de um tempo, deixou de ser chamada por esse nome. É que o seu tio começou a chamá-la de Jojô. Aquele galo já sumiu faz tempo. Mas o apelido continua. Na família, todos sabem quem é a Jojô. 

        A menina corria serelepe pela casa dos avós. Ela acabara de saber que iria passar o próximo domingo na companhia dos tios no clube. "Se aquieta, Maria Alice!", a avó tentava conter o arroubo de alegria da neta, que parecia não prestar atenção naquelas palavras, talvez, sem sentido, ainda mais para ela, que era filha única e necessitava, mais que a maioria, da companhia de outras crianças.

            Já no sábado, ela foi dormir na casa da tia. A minina já queria acordar no dia seguinte e ir logo para o clube. Ansiosa como ela só, não pregava os olhos. Rolava tanto na cama, que a tia, preocupada, colocou um colchão no chão para proteger a criança, caso caísse. O tio, no outro quarto, também estava eufórico com o dia seguinte. Ele não era menino há décadas, mas agia como tal sempre que a mulher avisava que iriam ao clube. Adorava piscina! Coisa de menino.

            A Maria Alice e o tio foram os primeiros a levantar no dia seguinte e já foram preparar as coisas. A tia levantou mais tarde, abriu a cortina do quarto e olhou o céu cinza. Levantou-se ainda com preguiça, calçou os chinelos e foi ao banheiro. Depois foi ver o que a sobrinha e o marido estavam aprontando. Encontrou-os tomando café. A menina, com um grande naco de pão na boca, sorria com todos aqueles dentes de criança. O marido bebia aquele café preto com algumas gotas de adoçante. 

            — Não vai dar pra irmos ao clube. 

            — Por quê, tia? - a menina abriu tanto a boca, que quase deixou aquele resto de pão cair.

            — O tempo está ruim. 

            A Maria Alice voltou o rosto para o tio, esperançosa de um alento. Ela acreditava nas palavras dele, que sempre vinha com pontas de esperança.

            — No clube é diferente! Sempre tem sol! - o tio disse olhando para a sobrinha. 

        O rosto da menina voltou a sorrir. A tia, que conhecia bem o marido, tentou sorrir, mas aquele humor azedo, amigo de praticamente todas as manhãs, não a impediu de torcer a boca e disse:

            —Que história maluca é essa de que no clube não chove?

            — Você não sabia? Ih, Maria Alice, ela não sabia disso!

            — Tia, todo mundo sabe disso!

            Terminaram de comer, a tia se levantou e foi para a sala, onde se sentou no sofá, pegou o controle ao lado e ligou a enorme televisão. Parecia determinada a passar um bom tempo ali. No entanto, logo a menina a puxou pelo braço.

            — Vamos, tia! 

            — Se aquieta, Maria Alice! - a tia repetiu as mesmas palavras da sua mãe.

          A menina, quase chorando, buscou os olhos do tio, na esperança de que ele a salvasse daquele momento desesperador, tão angustiante, mas que muitos adultos já se esqueceram. Ele se sentou perto da esposa, a abraçou, lhe deu um beijo carinhoso na face esquerda. Nada disse, simplesmente colocou a mão sobre a dela, que desligou a televisão e foi se arrumar.

            Poucos minutos depois, talvez uns 10 ou 15, que pareceram horas para a menina, lá estavam todos dentro do carro. O portão automático da garagem se abriu e o veículo tomou a rua, quase deserta. Mal chegaram no final da rua, começou a chover. Uma chuva forte!

            — Tá chovendo! Vamos voltar! 

            — Tia, no clube sempre faz sol!

            A chuva parecia não querer dar trégua, cada vez mais forte. Mas lá ia o tio dirigindo o veículo, a mulher com cara de poucos amigos ao lado, a Maria Alice, atrás, ia confiante nas palavras do tio. Faltava não mais que um quilômetro para chegarem ao destino quando, de repente, lá estava um céu iluminado pelo astro-rei. O tio simplesmente se virou para a esposa, que sorriu. Ele observou, pelo retrovisor, o rosto da sobrinha, que estava radiante.

            Assim que entraram no clube, colocaram as bolsas numa mesa embaixo de uma barraca e foram direto fazer exame para poderem entrar na piscina. Cada um ganhou uma pulseira. A menina e o tio correram para a piscina, enquanto a tia caminhou a passos lentos para a barraca, onde pediu uma caipirinha e se espreguiçou.

         A Maria Alice e o tio, agora mais menino que nunca, brincaram na piscina. Era uma alegria radiante, que se espelhava no rosto daqueles dois. Crianças! Coisas de crianças! Elas vivem um mundo mais divertido, que a grande maioria dos adultos nem sequer se lembra de que existe.

        Após algumas horas, a tia foi até a piscina, onde se juntou àquelas duas crianças, que ainda estavam com o maior pique. Ela passou alguns minutos se refrescando naquela água, talvez um pouco mais fria que o esperado. 

            — Maria Alice, você precisa comer alguma coisa.

            — Ah, tia, não estou com fome!

            — Você tem que comer alguma coisa! Vou pedir alguma coisa pra gente agora. 

            A tia se dirigiu à lanchonete. A menina e o tio ficaram ali na piscina. O pedido chegou, a tia foi até a grade que cercava a piscina e acenou para os dois, que acataram a ordem. Emburrados, saíram da piscina, mas logo o sorriso voltou aos olhos daquelas duas crianças: Batata frita!

          Comeram tanto, mas logo quiseram voltar pra piscina. A tia disse que não, que deveriam aguardar um pouco. Aguardaram e aguardaram. Aqueles minutos lentos como lesmas, fizeram a menina olhar para a outra piscina, logo ali ao lado. Um mundaréu de pirralhos correndo de um lado para outro, escorregando pelo tubo de plástico até as águas rasas.

        — Tia, posso ir?

        — Vai lá. Mas cuidado!

        A menina correu mais do que nunca. No entanto, chegou timidamente na piscina, entrou como se pedisse permissão. Mas isso não durou mais do que meros segundos. Logo uma outra menina a chamou para entrarem naquele tubo de plástico e escorregarem. Eufóricas, subiram as escadas, desceram escorregando, subiram as escadas novamente, desceram, subiram, desceram... Não sei quantas vezes ficaram ali. Criança não se aquieta mesmo!

        Enquanto isso, o tio já havia ido e voltado da piscina duas ou três vezes. Agora, sentado debaixo da barraca, ouvia a esposa contando as notícias. De vez em quando eles comentavam sobre os ocorridos, até que apareceu a Maria Alice, com uma das mãos na testa e cara de choro. Nenhuma lágrima! Até para chorar, a menina era tímida. A tia, muito preocupada, lhe perguntou o que havia acontecido, no que ela respondeu que, durante uma das subidas das escadas, deu um encontrão com um menino. Testa com testa! Isso dói! Como dói!!! 

        A Maria Alice disse que o menino saiu chorando da piscina e foi direto para a mãe. O tio se levantou e foi pegar um pouco de gelo na lanchonete para colocar no galo que já despontava na cabeça da menina. Ao retornar, enrolou o gelo numa blusa e pediu para a Maria Alice ficar segurando bem em cima do galo.

        — Sabia que eu vi a mãe do menino chorão procurando por você? Ela perguntava pra todo mundo: você é a Maria Alice? 

        — Vamos embora, tio! Ela vai me bater!

        — Vai nada! Basta mudar o seu nome. Você quer se chamar como?

        A menina pensou brevemente e disse que gostava de Joelita, que era o nome da sua professora. Então, o tio começou a chamar a Maria Alice de Joelita. Dessa forma, a Maria Alice, agora Joelita, ficou mais tranquila e, mesmo com aquele galo enorme querendo cantar, ela achou graça de tudo e começou a rir, até que chegou a hora de irem embora. 

        Os tios da Joelita a deixaram na casa da avó, onde os pais a pegariam mais tarde. Ela ficou com aquela pulseirinha durante muito tempo, apesar dos protestos dos pais. A Joelita, depois de um tempo, deixou de ser chamada por esse nome. É que o seu tio começou a chamá-la de Jojô. Aquele galo já sumiu faz tempo. Mas o apelido continua. Na família, todos sabem quem é a Jojô.