quarta-feira, 26 de julho de 2023

Os Três Mosqueteiros

    

    Não faz muito tempo, fui convidado pelo José Seabra para enviar crônicas para serem publicadas pelo Notibras. Mandei uma, depois outra e a coisa foi ganhando uma proporção que não imaginei, mesmo porque se trata de um jornal que possui um quadro respeitável de profissionais. Só para destacar alguns, aqui estão Mathuzalém Júnior e Wenceslau Araújo. E essa história se passou justamente com eles, o Seabra e comigo.

    Eu poderia começar dizendo que não me lembro do dia em que isso aconteceu. No entanto, as minhas pernas ainda tremem só ao recordar da recente sexta-feira, 21/07/2023. É que o Seabra havia me convidado para tomar um café gourmet e, assim que cheguei a uma concorrida padaria da Asa Norte, eis que me deparei com três setentões gargalhando, como que despreocupados com os diversos clientes do local. 

    Timidamente me aproximei e fui recebido por um esfuziante Seabra, que, todo sorriso, me apresentou aos mestres da escrita Mathuzalém e Wenceslau. Gaguejando mais do que de costume, tentei passar a melhor impressão àquelas lendas vivas do Jornalismo. Procurei escolher as melhores palavras, que, obviamente, não vieram, pois estavam todas com os três à minha frente. 

    Conversa vai, conversa vem, procurei não queimar a língua. Aliás, mantive-a bem dentro da minha boca, que apenas abria para sorver mais um gole do meu fumegante café sem açúcar. Melhor assim, mesmo porque essa foi uma oportunidade de ouro para escutar tantos e tantos causos daquele trio. Um, em particular, vale a pena contar.

    Pois bem, segundo me lembro do que ouvi, lá estavam aqueles Três Mosqueteiros do Cerrado cobrindo um concorrido velório de uma figura muito importante da Brasília dos anos 1970, início dos 1980. Defunto devidamente enterrado, eis que o Seabra, talvez mais atento aos pormenores, percebeu que a viúva estava inquieta. 

    Perspicaz como ele só, logo ligou seu olfato de perdigueiro e, com um sinal quase imperceptível, chamou a atenção dos seus companheiros de labuta. Os três, chacoalhando suas calças boca-de-sino, foram ao encalço da viúva, que mal se despediu dos presentes e, apressada, entrou em um Galaxy preto. O veículo cantou pneu e, por pouco, não deixou os jornalistas para trás.

    Certos que estavam que a mulher seguiria direto para a mansão localizada no Lago Sul, quase caíram das tamancas quando perceberam que o luxuoso automóvel rumava para o Núcleo Bandeirante, famoso por seus motéis. E foi justamente em um deles que o Galaxy entrou. Diante de tamanho acontecimento, os três se sentaram em uma mesa de bar quase em frente àquele treme-treme e passaram o final de tarde, início da noite, madrugada adentro até o alvorecer esplêndido do astro-rei na capital. 

    Já perto do meio-dia, eis que o Galaxy desponta na saída daquele parque de diversões impróprio para menores. Não demorou, o veículo tomou a estrada adiante, mas logo pegou o primeiro retorno. Enquanto o carango passava diante dos olhos dos jornalistas, a viúva, talvez ciente de ser vigiada por aquela trupe, girou a manivela para descer o vidro e, em seguida, tascou um beijo na boca do motorista. 

        _ E vocês, obviamente, escreveram sobre isso.

        _ Não, Dudu. 

        _ Não? Mas por quê, Wenceslau?

        Nesse momento, os três olharam para mim e, em uníssono, quase gritaram.

        _ Dudu, o que acontece no Núcleo Bandeirante fica no Núcleo Bandeirante.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Os Três Mosqueteiros" foi publicada pelo Notibras no dia 26/07/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dudu-como-dartagnan-ouve-historia-dos-3-mosqueteiros/

Benjamin, o dorminhoco

    A gritaria tomava conta do parquinho, repleto de crianças correndo de um lado para o outro. Todas animadas por mais uma manhã ensolarada. Isto é, menos o pequeno Benjamin, que não descia do colo da mãe nem quando lhe ofereciam um algodão doce. Preferia o aconchego, pois gostava mesmo é de dormir. E como dormia aquele garoto!

    A mãe, preocupada com o comportamento do menino, até o levou ao médico. Este logo suspeitou de anemia falciforme. Mas que nada! As hemácias do pirralho eram mais circulares que um bambolê. Fizeram outros  exames no Benjamin, pensaram até que ele fosse autista ou sofresse de alguma doença rara. Ele era saudável. O doutor, para não ficar com cara de bobo, disse que o garoto sofria de preguiça crônica. A mãe, que precisava de um diagnóstico, ficou satisfeita com o que ouviu. 

    Benjamin cresceu um tanto, e a preguiça parece que aumentou em progressão geométrica. Nada parecia fazer com que ele se animasse, nem mesmo quando chegou o tempo da discoteca, quando todos os jovens da rua corriam para a pista de dança. E foi justamente nesse tempo em que o agora adolescente trocou os primeiros olhares com Clarice, uma bela garota de cílios tão negros, que todos os rapazes se esqueciam do resto. 

   Quase apaixonado, Benjamin até tentou lutar contra a própria natureza. Todavia, todas as vezes em que se esforçava para se animar a vestir a melhor roupa pro baile, eis que uma força ainda maior o puxava de volta para a cama. Quando muito, passava as tardes na sala, quase sempre esparramado no sofá. Mesmo assim, essa vontade irresistível de se manter deitado não foi o suficiente para impedi-lo de estudar, se formar e arrumar um excelente emprego em uma grande empresa de informática.

   Nem precisava sair de casa, pois resolvia todos os problemas de forma remota. Sentado em uma ampla poltrona toda acolchoada, o preguiçoso conseguiu triplicar o faturamento da empresa. Isso foi mais que bastante para lhe garantir o cobiçado posto de vice-presidente.

   Lá pelos 30, com dinheiro suficiente para uma vida inteira de luxo, Benjamin parecia um homem realizado. Mudara para uma ampla casa, repleta de cômodos, alguns até onde ele jamais havia colocado os pés.  Morava com a mãe, agora uma senhora de quase 70, que gostava de receber as amigas para o chá. 

    Foi justamente num desses eventos que Benjamin voltou a trocar olhares com a agora mulher de cílios negros. Clarice acompanhou a tia, que era amiga da mãe de Benjamin. Tomou chá com as velhas na ampla mesa no jardim cheio de flores exóticas, bem em frente à piscina em forma de violino. 

   Não se sabe como, mas Benjamin não resistiu ao charme daquela mulher e, então, foi lhe fazer companhia. Sorrisos daqui, sorrisos de lá, Clarice se sentiu atraída pelas olheiras daquele homem. De tão encantada, aceitou o convite de ir visitá-lo na semana seguinte. 

   Cada vez mais envolvidos, os pombinhos, agora enamorados, oficializaram o romance em uma grande festa. No dia seguinte embarcaram rumo para a maravilhosa João Pessoa, onde se hospedaram em um badalado hotel em frente à praia. Benjamin, percebendo a alegria da esposa, foi tomado de uma euforia e os dois se amaram até a manhã seguinte. 

    O casal despertou ainda abraçado. Tomaram o café da manhã ali mesmo naquela ampla cama. O barulho das ondas chegava aos ouvidos de Clarice e Benjamin. Ela se levantou e abriu a janela, o que fez com que aquele cheiro irresistível da maresia tomasse todo o quarto. A mulher desejou ir até a praia, pisar naquela areia branquinha, sentir a água nos pés. 

    _ Amorzinho, vamos dar uma voltinha?

    _ Hum... Prefiro fazer caminhada no travesseiro. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Benjamin, o dorminhoco" foi publicado pelo Notibras no dia 11/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/benjamin-o-sedentario-e-eterno-dorminhoco/

terça-feira, 18 de julho de 2023

Aloísio, o viúvo

 

   Aloísio, ao completar seus 90 anos, não conseguia enxergar motivos para comemorar. Há pouco havia perdido sua companheira por mais de meio século, que sucumbira ao câncer após anos de luta. Sozinho naquele amplo apartamento, mal recebia visitas, já que todos os últimos amigos padeciam de alguma enfermidade em decorrência de tamanha longevidade.

    Petrônio, o único que de vez em quando arriscava uma caminhada até a residência do Aloísio, muitas vezes nem se lembrava de algo para dizer. Não que fosse um ser desprovido de afeto ou empatia. Pelo contrário, até o próprio Aloísio seria capaz de sair em defesa do amigo. Essa falta de memória se devia ao Alzheimer, que nos últimos anos cismava em acompanhar o Petrônio. 

    Desanimado com tudo, Aloísio estava decidido a se matar. Mas esse seu intuito acabou por não se concretizar. É que o velho, de tão religioso, temia acabar indo pro inferno, assim como todos os suicidas. Abriu uma garrafa de vinho e perdeu os sentidos no amplo sofá da sala. 

    Acordou com uma ressaca daquelas. Há tempos não bebia tanto. Por um instante sentiu certo alívio da esposa ter morrido. Não que ela também não bebesse de vez em quando. Todavia, a velha não suportava quando o marido perdia a linha. 

    Levantou-se do sofá. Não que preferisse fazer outra coisa além de adormecer e nunca mais acordar. Mas a bexiga, tão envelhecida quanto ele, estava repleta. 

    Diante do vaso sanitário, Aloísio se esforçava para urinar. O líquido amarelo escorria fraco, alguns pingos caíram na borda da privada. Nada mais daqueles jatos firmes de décadas atrás. Nem puxando pela memória, o velho se recordava da última vez que havia usado suas partes para outras tarefas além de fazer xixi. 

    Resolvido o problema da bexiga repleta, Aloísio vasculhou a caixinha de medicamentos. Nada de analgésico para aliviar a dor de cabeça, que ainda persistia. Apesar de desanimado, teve coragem suficiente para pegar a carteira, calçar os sapatos e sair.

    A farmácia era logo ali. Entretanto, era dia de feira. Aloísio, mesmo a contragosto, teve que passar por aquela algazarra, quando ouviu algo que o animou. Eram duas senhoras, não mais de 60 anos, que conversavam animadas. 

     _ Quanto mais murcho, melhor!

   Aloísio estufou o peito e quase desfilou em frente daquelas duas. A  dor de cabeça parecia ter desaparecido por completo. Mal sabia o velho que aquelas mulheres estavam se referindo a jenipapo. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aloísio, o viúvo" foi publicada pelo Notibras no dia 27/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/ouvir-falar-de-jenipapo-murcho-eleva-moral/


quarta-feira, 12 de julho de 2023

Um carioca em Porto Alegre

    Sepúlveda despontou do útero da sua mãe ali na rua Bueno de Paiva, no pitoresco bairro do Méier, na esplendorosa cidade do Rio de Janeiro. Deu seus primeiros passos por ali mesmo, o que lhe garantiu o sotaque mais característico da Cidade Maravilhosa, muito diferente daquele dos que habitam a Zona Sul.

    Estufava o peito para falar de onde era: "Méier!!!" E assim prosseguia na sua saga de suburbano, com hábitos típicos como fazer aquela fezinha no bicho, batucar um samba com as pontas dos dedos no trem durante o trajeto pro trabalho, parar diante da banca de jornal para se inteirar das últimas notícias, até mesmo daquelas que não fariam a menor diferença na sua vida como, por exemplo,  que o protagonista da novela das oito havia flagrado a amada com outro na cama. 

   Ao chegar ao trabalho naquela segunda-feira, recebeu um comunicado da Aurora, sua colega de seção. O chefe queria falar urgentemente com ele. Sepúlveda, curioso como ele só, quis logo saber do que se tratava. Aurora, no entanto, disse que não fazia a menor ideia, já que o Amílcar, o chefe, não era de falar muito além do necessário. 

    O suburbano balançou a cabeça de um lado pro outro, até que, quase decidido, foi conferir o motivo pelo qual havia sido intimado. Parou diante da porta do Amílcar. Observou o verniz gasto e, indeciso, tomou coragem e deu dois leves toques na madeira. Entrou.

    A primeira coisa que notou foi o quadro bem à sua frente. Amílcar, um apaixonado por arte, não poupava esforços para adquirir obras de famosos pintores. Pois é, Sepúlveda estava diante de um Van Gogh! Quase original, é verdade! 

    A conversa demorou por volta de uma hora. Sepúlveda seria promovido a gerente de uma filial em Porto Alegre, que ele não fazia ideia de onde ficava. O homem, que era um exímio fazedor de contas, sempre tivera notas sofríveis em geografia. Seja como for, aceitou de pronto a missão, mesmo porque o salário iria mais que dobrar. 

  Não demorou muito, Sepúlveda e a esposa, Adelina, desembarcaram na rodoviária da capital gaúcha.  A princípio, ficaram surpresos, pois sentiram tanto calor, que foram obrigados a retirar os grossos casacos. Desconheciam que os verões de Porto Alegre eram como os do Rio de Janeiro. 

   Sepúlveda e Adelina foram morar no bairro Menino Deus, bem próximo da filial. Ele caminhava algumas centenas de metros até o trabalho todas as manhãs. Por sua vez, ela tentava se adaptar à nova rotina. Por volta do meio-dia, os dois almoçavam, enquanto Sepúlveda contava sobre as gírias gaúchas que aprendera com os subordinados. Os dois riam e, de brincadeira, repetiam algumas.

    _ Acho que vou lagartear o resto do dia.

    _ Pois estou pensando em adotar um cusco. 

    _ Capaz!

    De tanto caçoarem dos gaúchos, não tardou e já usavam tais palavras sem se darem conta. Todavia, Adelina, talvez por pudor, continuava chamando pão de pão. Afinal, não conseguia se acostumar com o nome usado pelos gaúchos para tal iguaria; cacetinho. 

    Apesar dos percalços da mudança para uma nova cidade, tudo parecia bem para o casal. Sepúlveda, cada vez mais entrosado com os companheiros de labuta, conseguiu aumentar o faturamento da firma. Adelina, por sua vez, fizera amizades, que lhe garantiram reduzir a saudade da Cidade Maravilhosa. 

    Tudo parecia bem, até que começou o rigoroso inverno porto-alegrense. Os dois sofreram horrores, mas Adelina começou a ficar deveras deprimida, até que, durante um almoço, reclamou com o marido. Queria porque queria voltar pro Rio de Janeiro. Ele ainda tentou convencê-la do contrário, mas nada tirava tal ideia da sua cachola. 

    _ Sepúlveda, quem gosta de frio é pinguim e picolé!

    No dia seguinte, a mulher fez as malas e retornou para o calor do Méier. Por algum tempo sentiu falta do amado. No entanto, a qualquer recaída, bastava recordar do gélido inverno de Porto Alegre para que o rosto de Sepúlveda fosse desaparecendo do seu coração. Depois de alguns meses, desapareceu por completo.

    Numa sexta-feira, lá estava o Sepúlveda finalizando mais uma grande negociação na filial, quando um colega de trabalho, o Asdrúbal, lhe convidou para um churrasco em sua casa no domingo. Ele aceitou de pronto. Asdrúbal fez questão que o chefe levasse a esposa. Sepúlveda, apesar de continuar com aquele sotaque carregado tão característico do Méier, já estava tão adaptado à cidade, que nem percebeu quando respondeu.

    _ Vou só.

    _ Por quê?

    _ Quebramos os pratos!

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Joca e Angelique

    Não se sabe ao certo se aquele homem havia encontrado aquela cachorra ou, então, se foi justamente o contrário. Isso, aliás, nem importa, já que, desde que um colocou os olhos sobre os olhos, algo parece os ter de tal forma, que era difícil imaginar que um dia haviam vivido separados, ainda mais depois de anos viajando pelas estradas em busca de trabalhos temporários.

    Joca, lá com seus quase 50, nem mais ligava se a enorme Angelique babasse todo o banco de seu carro. Não que no início tal característica da cadela não o incomodara, mas acabou percebendo que uma forte base de amizade é formada justamente assim. Pois é, amigos toleram as falhas dos amigos simplesmente porque são amigos. Ele, com certeza, também possuía lá as suas, mas estas jamais foram postas à mesa pela companheira babona.

    Beberrão sem muitas preferências, Joca não fazia cerimônia e, não raro, metia o pé na jaca. Angelique, mais sábia que o amigo, escondia as chaves da camionete. O homem nem questionava a companheira, mesmo porque não queria se encrencar, mais uma vez, com a lei. Acabava adormecendo no banco do carro, enquanto Angelique fazia a guarda.
    
    Ao amanhecer, o homem era despertado pelos raios solares e, antes que pudesse abrir os olhos, recebia várias lambidas no rosto. Joca soltava um arre, mas logo trocado por afagos. Era hora de tomar um belo café da manhã. E lá ia ele, acompanhado daquela ressaca, buscar algo para comer na vendinha mais próxima. 

   Apesar das inúmeras histórias vividas por aquela dupla, uma, talvez, seja a mais interessante. Pois bem, lá estava aquele homem entorpecido por mais uma bebedeira. Os vidros da camionete estavam fechados e, provavelmente por conta disso, a enorme cachorra deve ter se embriagado pelo hálito etílico do amigo. Ela adormeceu, enquanto a proteção daquela dupla ficou a cargo de algum anjo da guarda de plantão, caso houvesse um naquela cidadezinha do interior da Bahia.

        A velha camionete, estacionada sobre a proteção de uma linda mangueira, que ficava em frente à única agência bancária da cidade, fez com que Joca e Angelique prolongassem a soneca até mais tarde. Enquanto isso, quatro homens chegaram em outra camionete e estacionaram justamente ao lado. Três deles entraram no banco e, logo em seguida, saíram levando alguns malotes abarrotados de dinheiro. Jogaram tudo na caçamba do veículo e fugiram, muito antes da polícia chegar.

        Joca e a sua amiga acabaram despertando por conta da balbúrdia que se formou justamente ali. O homem soltou aquele arre costumeiro e, então, ligou a camionete e foi buscar outro local para continuar no mundo de Morfeu. Acabou pegando a estrada e só parou a mais de 200 quilômetros da pequena cidade. 

        Meteu a camionete numa estradinha de chão e, debaixo de uma árvore, dormiu até que a barriga começou a roncar mais alto que a Angelique. Era hora de comer. No entanto, a bexiga cheia lhe mostrou que havia uma necessidade mais urgente. 

    Saiu do carro e foi se aliviar atrás da caçamba quando, então, percebeu que haviam alguns malotes ali. Abriu um, abriu outro, abriu todos. O homem se viu rico. Tão rico, que nunca mais se ouviu falar dele nem da Angelique. Todavia, dizem por aí que continuam juntos, pois a velha camionete, vez ou outra, fica com todos os bancos cheios de baba.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Joca e Angelique" foi publicada pelo Notibras no dia 7/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/assalto-a-banco-deixa-desempregado-milionario/

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Café, o mendigo

 

    A única praça daquela cidade era salpicada por alguns bancos, a maioria quebrada. Nada de bustos de autoridades esquecidas ou de laguinho com chafariz enferrujado. O único monumento, se é que podemos chamar assim, era o velho Tomás, que quase ninguém conhecia pelo nome. Todos o chamavam de Café, pois o dito cujo nunca largava a gasta garrafa térmica. 

    Dependendo dos ânimos daquela gente, Café causava pena, repulsa ou medo. Nunca simpatia, nem mesmo pelos mais antigos, que haviam dividido as brincadeiras nos longínquos tempos de criança. Diziam que Café passara alguns anos na prisão, outros juravam que foi no hospício, tamanha a aparência de maluco.

      Se possuía ou não parentes, ninguém sabia ao certo. Talvez até tivesse um ou outro, mas nenhum fazia alarde de tal vínculo sanguíneo. Café vivia sozinho, sobrevivia às custas de míseras moedas atiradas numa enferrujada lata de goiabada. Graças a essa esmola, todos os dias passava na padaria da esquina. Comprava alguns pães e, quando muito, uma ou duas fatias de mortadela. Enchia o bucho.

     Fazia o café em uma pequena fogueira, que também o esquentava nas noites frias. Batizava o líquido preto com uma branquinha para, talvez, esquecer das agruras de outrora. Esse hábito, aliás, o fazia mais falante e, não raro, era cercado por curiosos, todos desejosos de escutar mais uma história do mendigo.

      Naquela noite, que a meteorologia prometia geada, meia dúzia se acomodou ao redor do Café. Não demorou, o maltrapilho começou a tagarelar sobre um antigo crime ocorrido no vilarejo ao lado. Um sitiante, que teria ficado louco, assassinara toda família a machadadas, poupando apenas o filho mais novo, ainda bebê. A verdade, segundo diziam, é que o tal homem havia simplesmente se esquecido do filho mais novo, que dormia tranquilamente no pequeno cesto ao lado do fogão a lenha. 

      Café gostava de observar os olhos arregalados da sua pequena plateia. Fazia pausas estratégicas, enquanto se servia de mais um gole da mistura na garrafa térmica. Sorria aquele sorriso de raros dentes, todos apodrecidos. Os poucos ouvintes que conseguiam encará-lo ficavam ainda mais assustados. Café parecia adorar essa situação. As pausas se tornavam ainda mais longas. Ele se deliciava com cada expressão de terror das pessoas.

        Logo após ouvirem o desfecho daquele banho de sangue ocorrido há décadas, todos voltaram para o aconchego de seus lares. O pobre Café, diante daquele fio de fogueira, tentava se manter aquecido com mais um gole. O moribundo perdeu os sentidos. Não se sabe se sonhou com o tempo em que ainda dormia em um cesto aquecido pelo calor do fogão a lenha. O certo é que o velho Café não resistiu àquela geada. Ninguém reclamou o corpo, que foi enterrado como indigente.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Café, o mendigo" foi publicada pelo Notibras no dia 19/07/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dar-um-jeito-na-vida-nem-todo-mundo-quer/
  • O conto "Café, o mendigo" faz parte da "Coletânea  de Contos de Terror 2024", da editora Persona.
       

sábado, 24 de junho de 2023

A fábula da vovó

     

    Minha avó possuía um nome relativamente esdrúxulo: Esther Stella. Além disso, ela adorava criar histórias, e eu, o neto mais apegado, adorava ouvir aquela voz tão doce. Apesar de tanta candura, diziam que ela era chegada a adivinhar o futuro. Hoje tenho quase certeza de que as pessoas estavam certas.

    Pois bem, uma dessas histórias contadas pela minha avó era sobre um antigo reino. E, como todas esses contos de fada, também começava com o tradicional "Era uma vez...". Por isso, deixemos as delongas de lado e vamos direto à tal fábula. E, por favor, imaginem aquela voz que me embalou por tantas e tantas vezes.

    Era uma vez um reino bem distante chamado Brazília. Sim, Brazília com "Z". E, como qualquer reino que se preze, possuía um rei. Todavia, não um rei alto, loiro, olhos azuis e lindo. Na verdade, era o oposto disso tudo, pois era baixinho, gordinho, zarolho e feio de dar dó. Seu nome? Enganeis I. 

    Aficionado desde sempre por circo, Enganeis I acabou se encantando por um velho palhaço chamado Bozo, que era casado com a dissimulada Micaela, com quem possuía duas filhas: as gêmeas Eva e Angélica. Como Enganeis I era rei, quis porque quis fazer uma festança em fevereiro e contratou os serviços do Bozo, que faria palhaçadas para os inúmeros convidados.

    E eis que chegou o grande dia. Lá estava o Bozo, montado em uma motocicleta, passeando pelo enorme picadeiro instalado no gigantesco jardim do palácio rodeado de buritis. A cada manobra de Bozo sobre a tal motocicleta, Enganeis I gargalhava embriagado com as peripécias do motoqueiro, ao mesmo tempo em que devorava as empadinhas estrategicamente postas ao seu lado. 

    Após a festança, Enganeis I e Bozo ficaram cada vez mais íntimos. Tanto é que, já em junho, famoso mês marcado por festas que homenageiam ícones do catolicismo, como Santo Antônio, São João e São Pedro, aquela amizade ainda perdurava. Por isso, o rei resolveu atender o pedido das gêmeas Eva e Angélica, que não eram fãs de santos. Por certo eram mais ligadas àquele dono de um rebanho que quebrava imagens santificadas. Dessa forma, Enganeis I, para agradar as duas meninas, decidiu fazer um baita carnaval, cheio de confetes e serpentinas. Fogueira que é bom, como reza a tradição, nada.

    Acabou o carnaval fora de época, veio julho, agosto, setembro e todos os meses daquele longínquo ano. Depois aconteceu a famosa festa pagã do ano seguinte, até que chegou a Semana Santa. Aliás, nessa época, Enganeis I mandava abrir os portões para seus súditos. 

    A ralé, esfomeada que era, correu no rumo do grande lago repleto de lindas carpas coloridas. Aquele povo todo, no entanto, teve a maior decepção da vida. Os peixes boiavam mortos sobre as águas, que emanavam um cheiro de podridão. Enquanto isso, Bozo, Micaela e as gêmeas fugiam em uma luxuosa carruagem puxada por lindos garanhões brancos.

    Curiosamente, a esposa do palhaço carregava uma sacola contendo 30 moedas de ouro. Quanto ao final, nem todos viveram felizes para sempre.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A fábula da minha avó" foi publicada pelo Notibras no dia 24/06/2023.
  • https://www.notibras.com/site/carnaval-fora-de-epoca-engana-e-pode-queimar-quem-pula-datas/

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O rega-bofe

     Tudo naquela casa era motivo de festa, seja pelo aniversário de alguém, seja por conta até do nascimento de mais uma ninhada da Bisnaga, a cachorrinha de pernas curtas e corpo roliço que adorava se deitar ao lado da Arlete, a matriarca da família. Durante tais eventos, toda a vizinhança era convidada. Quase ninguém faltava, mesmo porque a comida era farta até mesmo para os mais esfomeados.

      Diante de tamanha comilança, as filas dos banheiros se tornavam um inconveniente, ainda mais para as mulheres, que não tinham como levantar as saias ou abaixar as calças atrás das moitas do enorme jardim. Muito arriscado! Já os homens, quando a necessidade era apenas líquida, qualquer tronco das inúmeras árvores era o suficiente para esconder as vergonhas dos olhares mais curiosos. 

        Aquele rega-bofe era para comemorar a aprovação da Ritinha, a mais nova das netas de Arlete, no concorrido vestibular da UnB. Pois é, a garota, que mal havia completado 18 anos, estava prestes a se mudar para Brasília. Não que a distância fosse muita, pois o Distrito Federal, rodeado de muito Goiás e um tiquinho de Minas Gerais, não ficava longe da sua pequena cidade. 

      A jovem, talvez pela timidez, não parecia tão feliz com o seu feito. Já Agrísio, o pai, era todo orgulho. Era uma coisa de minha filha pra cá, minha filha pra lá, que até a esposa, Santinha, começou a ficar incomodada. Não que também não estivesse contente com a conquista da Ritinha, mas, assim como a filha, era reservada. 

        O rega-bofe já avançava para a metade, quando Agrísio, com os ânimos exaltados pelos inúmeros goles de cerveja e outras bebidas mais quentes, quis fazer o discurso de praxe. Foi prontamente impedido pela esposa, com a anuência da sogra. Até a Arlete sabia que o filho, quando estava tresloucado, precisava ser contido. Dessa forma, tomou-lhe a frente o Pompílio, um agregado da mais alta confiança da casa. 

      Todos os presentes se aproximaram para ouvir a palestra do Pompílio, que até poderia ter sido breve, caso não tivesse percebido o entusiasmo da matriarca. A cada frase dita, Arlete abria aquele sorriso de aprovação. Até a Ritinha, agarrada aos braços da mãe, pareceu gostar de tantos elogios, que nem ela sabia ser merecedora. Agrísio, emburrado no canto, compartilhava o mesmo anseio de grande parte da plateia. Não via a hora daquele falatório terminar. 

        Arlete cumprimentou Pompílio pelas belas palavras. Até ela, que era letrada, desconhecia um ou outro daquele amontoado de vernáculos. Todos aplaudiram o locutor oficial do momento e, rapidamente, retornaram para coisas mais interessantes: a abarrotada mesa de comes e bebes e, em especial, para aquela deliciosa feijoada. 

        Uma semana após aquele evento, o povo da rua ainda comentava a generosidade da velha. Agrísio continuava contrariado por ter sido calado pela própria mãe. Santinha andava chorosa pelos cantos de saudade da filha. Arlete, ao lado do agora quase inseparável Pompílio, parecia satisfeita com mais aquele evento bem-sucedido. Quanto à Bisnaga, a cachorrinha andava mal dos bofes. Talvez tenha comido algo indevido ou, então, aquilo era o prenúncio de uma nova gravidez. 

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Deusa e a bota de cano longo

   Aquela mulher, desde que havia percebido que atraía todos os olhares, não teve dúvida em afirmar diante do amplo espelho do seu quarto: "Sou uma deusa!"  O espelho, por sua vez, manteve-se mudo, mas poderia muito bem concordar, se tivesse voz, como aquele outro de certa história contada tantas e tantas vezes por aí.     

   Do alto de tamanha formosura, Deusarina, nome de batismo da moça, desfilava charme por onde passava. Os rapazes de Madureira a Cascadura disputavam, quase aos tapas, a atenção daquela belezura. Todavia, nenhum teve sucesso, a não ser o Afonso, um rapagão, alto, viril, pele bronzeada. Mas nada além de um ou dois beijos sorrateiros debaixo de uma mangueira, que insistia em crescer justamente no meio da calçada, toda estufada por conta das raízes que buscavam outros ares.

    O tempo correu, todos se esqueceram do verdadeiro nome da mulher, que passou a ser conhecida por algo mais condizente com toda aquela pulcritude: Deusa! E foi justamente assim que foi chamada por Oleúde, um herdeiro da Zona Sul. 

    _ Não precisa nem me falar qual é a sua graça. Só pode ser Deusa!

   A princípio, Deusa não entendeu o galanteio, imaginando que o rapaz era um adivinho. Talvez por isso, tenha se enamorado por ele. Não era do tipo interesseira, mas acabou se acostumando com os mimos que recebeu nos meses seguintes. Casaram-se, a despeito das diferenças socioeconômicas, que eram dissipadas sob os lençóis de 600 fios. 

    A lua de mel foi em Londres. E lá foram os pombinhos para as terras da Elizabeth, que ainda era viva, apesar de velha há tantas décadas. Oleúde, que já conhecia de cor e salteado cada rua da capital inglesa, fazia questão de apresentar os famosos monumentos para a amada. Esta, por sua vez, apesar de jamais ter passado da lição "The book is on the table", queria porque queria conversar com todo mundo. 

    _ Oleúde, meu amor, sei me comunicar com qualquer um. Já trabalhei no Mercadão de Madureira.

    O rapaz não se atrevia a discordar da amada, mesmo porque não poderia viver sem a luxúria que ela lhe proporcionava. Na verdade, talvez ele concordasse com Deusa, já que até naquelas terras tão distantes, onde os habitantes são conhecidos pela frieza com estranhos, os olhares de encanto eram constantes para aquela mulher deslumbrante. 

    E foi durante esses passeios que a Deusa ficou apaixonada por uma bota de cano altíssimo exposta na vitrine de uma luxuosa loja. Puxou o marido pelo braço, entrou no estabelecimento. Logo foi atendida por um vendedor. Ela começou a tagarelar e a gesticular para o tal homem. Este, no entanto, pareceu não entender, tamanha a sua cara de espanto. Oleúde tentou intervir, mas foi impedido pela esposa. Isso não foi empecilho para Deusa, que continuou a gesticular e a falar, até que o vendedor, cansado de tamanha loucura, resolveu sair de perto.

   Nisso, um homem, que também estava ali para comprar um calçado, presenciou toda aquela cena. Era um mineiro de Visconde do Rio Branco, que há tempos morava em Londres. Discreto como todo oriundo das Minas Gerais, aproximou-se do vendedor e, então, lhe explicou o que a tal mulher queria. 

    Nem Deusa nem Oleúde perceberam o breve interlúdio entre os dois homens. Tanto é que, quando o vendedor surgiu com a bota que a mulher desejava, ela, com um sorriso maior do que a própria cara, como se tivesse ganho sozinha na loteria, virou-se para o amado. 

    _ Não falei que ele tinha entendido?

  • Nota de esclarecimento: O conto "Deusa e a bota de cano longo" foi publicada pelo Notibras no dia 27/6/2023. Por uma solicitação da redação do jornal, foi feita pequena alteração no texto para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/the-book-is-on-the-table-and-the-boot-is-underneath/
  • Fui agraciado pela Academia Virtual de Autores Literários do Brasil com o certificado de cronista do mês de junho/2023 pelo conto "Deusa e a bota de cano longo".


quarta-feira, 31 de maio de 2023

O quadro torto

      As gerações se sucediam naquela família, que permanecia na mesma mansão isolada por muros elevados. A vizinhança há anos comentava sobre os misteriosos eventos que, de tempos em tempos, aconteciam por detrás daquela muralha de pedras tão antiga, onde os musgos lhe conferiam um ar ainda mais sombrio. 

     A enorme placa no portão dizia que aquela propriedade havia sido construída em 1884, mas muita gente insistia em afirmar, categoricamente, que datava do século XVII. Seja como for, todos sabiam que ali fora palco do crime que abalou toda uma época: o assassinato de Matilde Rossi, primeira esposa do Comendador Tommaso Giordano. 

     O casal não deixou herdeiros, já que Matilde, apesar de pronunciada gravidez, foi flagrada com outro na cama. Tommaso, num ataque de fúria, estrangulou a esposa, enquanto o amante, o belo Mattia, escapulia pela janela do majestoso sobrado. 

   O Comendador mandou construir um mausoléu de mármore sob uma araucária. O caixão, lacrado, foi depositado enquanto uma pequena plateia chorosa lamentava a perda precoce da senhora, que, até então, ninguém sabia ser adúltera. Quanto ao Mattia, não se sabe ao certo o que lhe aconteceu.

    Uma das versões é de que o amante, depois de fugir da alcova, fora encontrado após dois dias escondido em uma mata próxima. Após horas de tortura, seu corpo teria sido esquartejado e deixado para que as onças dessem cabo de suas carnes. Um triste fim para um rapaz tão formoso e apreciador de beijos, carinhos e afagos.

     Distinta história, no entanto, aponta para outra direção. Mattia, sabedor do que poderia lhe acontecer, teria fugido para o Rio de Janeiro. Segundo consta, o pé de pano foi acolhido por uma ou duas senhoras, talvez viúvas, e passou o tempo deitando-se em uma eterna vida de luxúria. 

   Como não poderia deixar de existir, uma versão mais simplória afirmava que o jovem havia retornado para a sua cidade natal, Paola, no extremo sul da Itália. Sem dinheiro para a passagem, Mattia teria trabalhado de ajudante de cozinha do vapor. Não se sabe ao certo seu destino a partir desse ponto. Todavia, não são raras as suposições de que ele teria se tornado o preferido de alguma ricaça.

    Apesar de pairar dúvidas sobre o destino de Mattia, parece certo o que teria acontecido com a pobre Matilde. Logo após retirar suas mãos do pescoço da esposa, Tommaso constatou que ela não apresentava mais sinais de vida. Nenhuma respiração, nenhum pulsar, apenas o corpo inerte, apesar de ainda morno. 

   O marido traído mandou chamar Francesco, homem de confiança. Sem alarde, contou-lhe somente o necessário. O machado foi primorosamente afiado e, num golpe certeiro, o empregado cortou a cabeça da adúltera. Esta foi posta em um saco de estopa e levada para o galpão. Em seguida, foi depositada em um enorme frasco de vidro com formol, que Tommaso havia guardado para suas experiências de conservação de restos de caças. 

     Após o enterro do corpo mutilado de Matilde, o Comendador ordenou que lhe trouxessem outra italianinha. O casório aconteceu em menos de um ano. Tiveram oito filhos, mas somente a única menina sobreviveu. Os sete varões morreram, um a um, de maneira misteriosa. 

     O primogênito caiu da janela do sobrado, a mesma janela por onde Mattia havia se livrado das garras do Comendador. Lorenzo, o segundo na linha de sucessão, teve o crânio esmagado por um enorme galho da araucária que fazia sombra na tumba de Matilde. O terceiro, o quarto e os demais também não escaparam. Todos mortos antes de completarem sete anos. 

     A pequena Giulia sobreviveu e, antes de completar 16, foi desposada por Giuseppe Esposito, um próspero comerciante. A felicidade do casal parecia completa com o nascimento do primeiro filho, Carluccio. Todavia, o menino não chegou aos seis meses. Foi levado por uma febre de mais de 40 graus.

     Giulia, apesar do enorme sofrimento, engravidou mais três vezes. Todos meninos, todos mortos antes dos sete. Até que, finalmente, veio a pequena Alice, única sobrevivente. Herdou tudo, cresceu formosa, casou-se. A sina continuou, pois apenas a única filha vingou. Todos os meninos morreram nos primeiros outonos. 

        O mistério continua pairando sobre aquela família. Ninguém sabe ao certo o real motivo por tantas tragédias. Há os que afirmem que a culpa disso tudo é daquele quadro, que ainda está na ampla sala de jantar. A moldura, de vez em quando, tomba para a esquerda, como se anunciando cada morte. É o rosto de uma bela mulher, cujos olhos parecem sonhar com o filho ainda no ventre. 
  • Nota de esclarecimento: O conto "O quadro torto" saiu na Coletânea Odisseia 2023 do Coletivo Fomento Literário.
  • O conto "O quadro torto" foi publicado pelo Notibras no dia 3/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/velha-mansao-do-entorno-tem-historia-de-arrepiar/
  • O conto "O quadro torto" foi publicado no Café Literário do Notibras no dia 4/2/2025.
  • https://www.notibras.com/site/o-quadro-torto/

        

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Estelionato amoroso

Galanteador

    Mesmo o enorme espelho do quarto era incapaz de captar tamanha soberba. Aquele homem de beleza algo acima da média sorria todos os sorrisos possíveis. Os ângulos eram caprichosamente observados, como se Arnaldo não os conhecesse de cor desde sempre. 

    Aos 47, lutava contra a balança quase diariamente para manter os exatos 82 kg distribuídos em 1,78 m, que se transformava em algo pouco além de 1,80 por conta das palmilhas especiais. Um charme, diria boa parte das mulheres do Distrito Federal. E como falava bem, tal qual conhecesse assuntos diversos, dos mais simples aos mais rebuscados. Não que isso fosse necessariamente verdade. Todavia, diante daquele rosto tão distinto, como alguém poderia desconfiar?

    Arnaldo, sentado à mesa na sacada, observava com atenção o obituário do jornal. Aliás, um hábito que herdou de sua falecida avó, mas com intenções diversas. Enquanto a finada tinha lá seus costumes mórbidos, Arnaldo buscava viúvas desamparadas e endinheiradas. Um cafajeste, alguns diriam. Entretanto, o gajo tinha lá uma boa desculpa para tal intento: "Eu ofereço meus serviços de qualidade em troca de  alguns mimos. Nada mais do que meros mimos."

    Não por acaso, a desamparada Ruth, viúva recente do finado Alberico, se sentiu compelida a retribuir tamanha devoção com um Rolex. Não que o Arnaldo tivesse pedido algo em troca de tantos afagos, beijos e carícias. Ele simplesmente não pode dizer não àquela mulher de duas dezenas de anos mais vivida. Ademais, o que era um Rolex diante de tamanha fortuna herdada por Ruth? Uma ninharia, creio que todos concordariam.

    Arnaldo sorriu diante do anúncio do falecimento de Afrânio Barreto, conhecido empresário do ramo de calçados. A viúva, Sarah, convidava para a despedida repentina do saudoso marido, que mal havia completado 70. O velório e o enterro seriam naquele mesmo dia, ali no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. 

    Diante de tais informações, ele fez uma breve busca na internet e, depois de fazer algumas anotações, tratou de se arrumar, pois o espetáculo estava próximo a começar. O arremate final foi justamente o caríssimo relógio dourado, tão bem ajustado no pulso esquerdo da ave de rapina.

Sarah, a desamparada

    Um séquito considerável dava o último adeus ao finado marido de Sarah, enquanto essa, totalmente desolada pela perda, era amparada por amigos e familiares. Foi justamente nesse ambiente tristonho que entrou Arnaldo. Ele observou o lugar e, com a maior desfaçatez, foi direto para o caixão. Encarou o defunto como se o conhecesse de longa data e, sem qualquer esforço, enxugou uma lágrima providencial que escorreu pela sua face deslavada. 

    A viúva, sentada logo ali, não deixou de notar aquela figura estranha até então. No entanto, tão distinto era o cavalheiro, que se deixou levar por devaneios, ainda mais quando Arnaldo depositou um lírio sobre o morto. Ela, apesar de nunca o ter visto, teve certeza de que já o conhecia, bem como ouvira falar muito bem dele pela própria boca do marido. 

    Arnaldo, que de vez em quando se surpreendia com a sua capacidade de convencimento, foi até Sarah, que já o olhava como se fossem amigos de longa data. Talvez para não contrariar a viúva, os presentes cumprimentavam aquele estranho com a maior naturalidade. Ele pegou a mão direita de Sarah e a levou até seus lábios dissimulados. Disse palavras que a mulher queria ouvir, enquanto a encarava, com o intuito de hipnotizá-la. Nem precisava de tamanho esforço, pois a viúva já parecia totalmente envolvida por aquele homem de aparência tão digna. 

        _ Desculpe, sei que já nos conhecemos, mas não me recordo do seu nome.

        _ Arnaldo Carvalho, às suas ordens.

        _ Sim, isso mesmo! O Afrânio me falava muito bem do senhor.

        A conversa durou alguns minutos, até que Arnaldo teve certeza de que havia fisgado a velha. Ele tirou um cartão do bolso do paletó e o depositou nas mãos trêmulas de Sarah. Ela apertou aquele pequeno pedaço de papel e, tímida, o guardou em sua bolsa. Arnaldo se afastou e foi para o canto oposto, de onde poderia entender melhor as relações do falecido com aquela gente. Sentimentos sinceros, mas também abutres se engalfinhavam ao redor do féretro.

        Após quase duas horas daquelas lamúrias, eis que a desolada mulher autorizou o enterro. Arnaldo, atento a tudo, logo se postou ao lado esquerdo do caixão. Fez questão de pegar a alça dianteira e, com a ajuda de mais cinco cavalheiros, ergueu o caixão em direção à cova. Aquele gesto não passou despercebido por Sarah, que, mesmo chorosa, se sentiu confortada por tamanha devoção de um fiel amigo do falecido se fazer presente durante a dolorosa partida. 

        O ataúde foi cuidadosamente depositado no fundo da tumba previamente preparada. Depois das rezas e com o consentimento de Sarah, o coveiro pegou a pá e colheu uma boa quantidade de terra. No entanto, antes que o homem prosseguisse, Arnaldo tomou-lhe a pá e, ele mesmo, depositou aquele conteúdo sobre o caixão do morto. Em seguida, sem se virar para o coveiro, entregou-lhe a pá. Seus olhos se mantinham conectados aos de Sarah, e assim se prosseguiram até que todos foram se dispersando. Arnaldo, com um leve aceno de cabeça, se despediu da viúva e foi embora, certo de que logo se veriam novamente.

Márcia

        Arnaldo despertou ao lado daquela beldade. Seu nome? Márcia. Uma bancária de seus 28 anos, vizinha de prédio do amante, ali na quadra 216, Asa Norte. Há tempos os dois se conheceram numa reunião de condomínio, mas começaram a sair juntos apenas no último mês. 

        Márcia, apesar do trabalho intenso, conseguia conciliar bem seu dia, pois estava adaptada à rotina. É verdade que a paixão por aquele homem consumia boa parte de seus pensamentos, mas nada que pudesse comprometer seu excelente desempenho como gerente do Banco do Brasil. 

        Por outro lado, Arnaldo mal encontrava tempo para desfrutar aquele sentimento que o havia pego de surpresa. Não que ele já não tivesse passado por algo parecido, mas isso havia acontecido quando ele era um vendedor de carros numa concessionária. Desde então, o homem passara a ganhar a vida de outra forma: satisfazendo suas clientes, que, quase sempre, não sabiam que estavam diante de um profissional da arte de ludibriar. 

        Há quase duas décadas no ramo, Arnaldo tivera dezenas de namoros, noivados e, pasmem, seis casamentos em cidades distintas espalhadas pelo país, até se fixar na capital, onde, segundo suas próprias palavras, era justamente ali que se encontrava o poder e, consequentemente, os lucros poderiam ser bem maiores. Bigamia, aliás, era o menor dos seus crimes. 

        Ele teria mentido para Márcia desde o primeiro encontro. Disse que era empresário do ramo de importação. Fluente em inglês, não despertou desconfiança na mulher, mesmo porque ela não teria motivos para duvidar. Por que ele iria mentir? Seja como for, Arnaldo e Márcia passaram a se amar sempre que possível. Todavia, durante dois ou três dias, ele precisava se ausentar, sempre a pretexto de viagens a negócios. 

        Tais compromissos, aliás, envolviam a mais nova cliente de Arnaldo: Sarah. Pois é, parece que a mulher mal teve tempo de se sentir enlutada pela perda do finado Afrânio. Totalmente fisgada, ela se entregou à luxúria nos braços daquele homem. Apaixonada como uma garota de lá seus 15, encheu o namorado de mimos. Temos que ser sinceros, pois Arnaldo cumpriu muito bem seu papel, retribuindo cada ganho com o suor de seu corpo sobre o da viúva. 

Elaine

        Além de Ruth, Sarah e mais quatro viúvas endinheiradas, Arnaldo acabara de arrumar uma nova cliente. Quer dizer, cliente era como ele as chamava, mas todas pensavam que eram únicas na vida daquele homem. Seja como for, a mais recente iludida tinha nome e sobrenome: Elaine Honda de Albuquerque.

        Apesar de não ser viúva, a mulher carregava uma característica comum com as outras: a solidão. Casada com um famoso empresário, Elaine passava semanas sozinha na enorme mansão do casal, localizada no Park Way. No entanto, por conta desses acasos da vida, ela conheceu o agora amante justamente quando ele estava acompanhado de outra cliente, a Laura, num famoso restaurante da cidade. 

        Bastou uma troca de olhares para que o novo casal se formasse. Arnaldo, confiante como ele só, deu um leve toque no quadril de Elaine, enquanto ela já ia embora. Acabou ficando para mais uma bebida. Tomou duas, não se sabe ao certo quantas outras. Tanto é que a própria Laura, inocente, pediu ao amado que deixasse a amiga em casa. 

        Arnaldo atendeu prontamente o pedido de Laura. Mal sabia ela que estava colocando uma raposa dentro do próprio galinheiro. Já naquele dia, Elaine, totalmente embriagada, ordenou que o pobre Arnaldo fosse direto para um motel. Amaram-se e adormeceram ali mesmo, até que, depois de horas, ele, como qualquer cavalheiro, cumpriu com a palavra e, finalmente, deixou a amiga de Laura em casa. 

       Elaine, além de mais atraente que Laura, começou a encher o amante de presentes. Talvez querendo acabar com o relacionamento dele com a amiga, ela chegou a lhe fazer um pequeno empréstimo de cem mil dólares, já que Arnaldo mentiu dizendo que todo o seu dinheiro estava aplicado na bolsa de valores.   

     Abarrotado de trabalho, Arnaldo foi obrigado a dar mais atenção para Elaine, até que o corpo começou a dar sinais de estafa. Ele precisava de umas férias e, por isso, mentiu para as clientes. O calhorda inventou que iria fazer uma viagem a negócios para São Paulo. Todas, por incrível que pareça, acreditaram na lorota.

        Arnaldo chegou ao seu apartamento já tarde da noite naquela sexta-feira. Exausto, mal tomou um banho quente, caiu na cama. Poderia ter dormido durante dois dias, mas foi despertado pelo barulho da campainha no dia seguinte, por volta das 16 h. Com a cara amarrotada, o homem ainda tentou sorrir para Márcia, que entendeu que ele precisava dormir. Ele a convidou para entrar e, então, os dois acabaram adormecendo na cama abraçadinhos, como dois adolescentes apaixonados. 

Brasília, pequena Brasília

        Uma das características da capital é que parece que todo mundo se conhece. Isso não é necessariamente verdade, mas não é raro alguém falar para beltrano que conhece cicrano e, por conta dessas coincidências que acontecem frequentemente em Brasília, todos se veem como membros de uma grande confraria. Este, aliás, foi um erro de Arnaldo, que imaginou que a capital, por ser a capital, fosse uma cidade grande. 

        Pois lá estava a Elaine na agência do Banco do Brasil, a mesma em que a Márcia trabalhava. Toda sorridente, a ricaça não conseguia esconder a satisfação de se encontrar apaixonada. Tanto é que a gerente se sentiu à vontade para fazer um comentário.

        _ A paixão nos deixa assim.

        _ Bota assim nisso!

        As duas mulheres sorriam, quando, então, Elaine se sentiu livre, leve e solta para mostrar uma fotografia da razão de tamanha felicidade. Foi um baque! Diante daquele rosto tão conhecido, eis que Márcia quase perdeu as estribeiras. Lá estava Arnaldo, o seu Arnaldo, todo sorridente com Elaine em seu colo. No entanto, profissional que era, atendeu a cliente da melhor forma possível. A endinheirada Elaine continuaria faturando às custas de aplicações bem orientadas pela gerente. 

        Enquanto guardava a sua fúria para si, as horas foram desenrolando de maneira vagarosa, até que, finalmente, chegou o momento de se despedir de mais um dia de trabalho. Desorientada, Márcia foi caminhando para casa. Milhões de pensamentos passavam pela mente em polvorosa. Ora decidia uma coisa, logo em seguida já pensava em fazer outra. Certa estava de que colocaria um fim naquilo tudo logo mais.

        Chegou ao prédio onde morava, passou pelo porteiro sem cumprimentá-lo, apesar de sempre ter sido tão cordial. Enfurecida, entrou no elevador e apertou o terceiro andar, apesar de residir no quinto. Tocou a campainha do apartamento de Arnaldo. Nada! Ainda esperou por alguns instantes, até que subiu as escadas, abriu a porta e entrou no seu apartamento. 

        Ainda estressada, Márcia resolveu tomar um banho. Tirou toda a roupa e a atirou no cesto. Entrou no chuveiro e, não suportando tamanha dor, se sentou sob a água que escorria e chorou. Chorou copiosamente em soluços.         

Um corpo que se cala

        Arnaldo chegou tarde ao seu apartamento. Exausto por mais uma noitada satisfazendo a insaciável Elaine. Ele até pensou em inventar uma desculpa para se desvencilhar daquela mulher, ainda mais porque ela requeria cada vez mais atenção. Todavia, ele não poderia tomar uma atitude dessas, pelo menos até encontrar outra cliente tão generosa. 

        Sentou-se na poltrona da sala, enquanto olhava sorridente para o medalhão de ouro cravejado com diamantes formando as letras A e E, entrelaçadas. Realmente era uma grande prova de que Elaine ainda poderia render bons frutos. Levantou-se, foi até o quarto, se postou diante do cofre escondido atrás de um quadro comprado na feira da Torre de Televisão. Digitou o código e, como se acostumado a fazer aquilo diversas vezes, jogou a joia no fundo do cofre e o trancou.

        Na cozinha, abriu a geladeira, pegou a garrafa de vinho tinto quase vazia, resultado de um jantar há poucos dias com Márcia. Pegou uma taça, despejou o líquido, deu um leve giro com a mão. Sentiu o aroma do vinho e, apaixonado que estava, brindou à amada. Pensou em ligar para ela, mas precisava descansar. 

        Foi até a sala, onde se sentou na poltrona. O corpo cansado, a mente em polvorosa. Realmente estava apaixonado por Márcia. Sorveu o líquido e, em seguida, depositou a taça sobre a mesinha de centro. Sem perceber, adormeceu por uma hora ou duas.

        O homem foi despertado pelo latido de um cachorro num prédio próximo. Por um instante, pensou em continuar dormindo. Desorientado, acabou se levantando e se dirigiu ao quarto. Retirou os sapatos e se esparramou na imensa cama, mas não conseguiu voltar a dormir. Seu pensamento se mantinha na amada. 

        Arnaldo olhou para o pulso e viu as horas no seu Rolex: quase seis da manhã. Ele sabia que a namorada se levantava cedo, pois gostava de ir à academia nas primeiras horas. Tomou coragem, calçou os sapatos e foi ao banheiro.

        Olhou no espelho a cara amassada por mais uma noite mal dormida. Lavou o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos. Tomado de desejo, foi até o apartamento de Márcia.

        Diante da porta, tocou a campainha. Não demorou, a gerente do Banco do Brasil abriu a porta. Seu olhar era de desprezo, algo que Arnaldo há muito não via no rosto de uma mulher. 

        _ O que foi? Aconteceu alguma coisa?

        _ Como você pode ser tão cretino?

        Arnaldo, por mais culpa que carregasse sobre os ombros, não poderia imaginar o que teria acontecido. Márcia lhe contou que havia visto uma fotografia dele com Elaine. O homem tentou explicar, mas nada parecia convencê-la.

        _ Some daqui! Nunca mais apareça!

        Pego de surpresa, ele ainda tentou convencer a mulher com uma história, mas não teve tempo suficiente para criar uma desculpa convincente. Márcia estava decidida. Desesperado, Arnaldo segurou firme o braço da amada. 

        _ Me solta!

        Tomado de angústia, Arnaldo insistiu. Márcia, para se ver livre daquele homem, lhe desferiu um tapa no rosto. Enfurecido, ele segurou forte o pescoço da mulher, que se viu sem ar. Márcia, olhos arregalados, aos poucos foi perdendo os sentidos. Após quase três minutos, seu corpo, já sem vida, caiu na entrada da sala. 

        Arnaldo, desesperado com o que havia acabado de fazer, ainda tentou reanimar a amada. Todavia, já era tarde. Márcia estava morta. Assassinada pelas mesmas mãos que a acariciaram por alguns meses. 

        Ele fechou a porta. Levou o corpo da amada para o sofá. Arnaldo chorou por um instante, até que percebeu que precisava encontrar uma saída para aquela situação. Pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia, que, a princípio, lhe pareceu a mais óbvia. Decidiu colocar fogo no apartamento. 

        Foi até a despensa, onde encontrou uma garrafa de álcool. Jogou sobre o sofá, depois pelas nas cortinas, na mesa da sala. Foi até o quarto, onde olhou a cama. Lembrou-se das vezes em que ele e Márcia haviam se amado ali. Não teve dúvida. Jogou o resto do líquido sobre a cama. Riscou um fósforo e, não demorou, as labaredas lhe esquentaram a face.

        Voltou para a sala. Incendiou tudo ao redor. Olhou pela última vez o rosto sem vida de Márcia. Saiu do apartamento, pegou as escadas, logo estava no seu apartamento. Foi até o quarto, onde quase desmaiou na cama. 

        Arnaldo nem percebeu os gritos desesperados dos moradores: "Fogo! Fogo!" Também não ouviu a sirene do carro de bombeiros. Quando finalmente despertou, era como se tivesse tido um pesadelo. No entanto, não demorou, lembrou-se do ocorrido. Ele havia assassinado Márcia.

Investigação policial

        Após os bombeiros apagarem o fogo, a polícia civil foi acionada. Um corpo carbonizado havia sido encontrado no apartamento. Assim que os agentes Pedro e Gustavo chegaram ao local, o porteiro, Edmundo, falou que a única moradora daquela unidade era Márcia Gomes dos Santos.  

        Os policiais questionaram se Márcia estaria passando por algum problema. Edmundo respondeu que a mulher era sempre alegre. Inclusive, de acordo com o porteiro, ela havia se envolvido com um dos moradores do prédio: Arnaldo, do 302. Enquanto a perícia criminal estava no local, Pedro e Gustavo foram até o apartamento de Arnaldo.

        Eles tiveram que tocar a campainha várias vezes, até que Arnaldo surgiu com uma toalha enrolada na cintura. Os policiais perguntaram se podiam entrar. O morador, com um sorriso cativante, os convidou a se sentarem no sofá. 

        _ O senhor conhecia a senhora Márcia?

        _ Conhecia? Como assim? Nós somos namorados.

        _ O senhor não soube?

        _ Soube o quê? O que aconteceu?

        _ O corpo da senhora Márcia foi encontrado hoje. O apartamento dela foi incendiado.

     Arnaldo, depois de décadas de prática, não demorou a ficar com o rosto consternado. Talvez verdadeiras, as lágrimas escorreram até tocarem nos cantos dos lábios. O gosto salgado o fez imaginar que houvesse cometido algum erro, que pudesse incriminá-lo. 

        _ O que aconteceu com ela?

        _ O senhor não pode nos dizer?

        _ Não sei. Tudo estava tão bem entre a gente. O que aconteceu, meu Deus?

       Os policiais se entreolharam. Gustavo, então, entregou um cartão para Arnaldo. Ele pediu ao morador que fosse no dia seguinte conversar com eles na delegacia, ali mesmo na Asa Norte. O homem pegou o cartão e, em seguida, se despediu dos policiais. 

        Assim que os dois homens saíram, fechou a porta. Inúmeros pensamentos passavam pela cabeça de Arnaldo. Ele precisava agir antes que seu crime fosse descoberto. Pensou em diversas possibilidades, mas nenhuma lhe pareceu totalmente adequada. 

        Foi até o quarto. Abriu a parte de cima do armário, de onde retirou uma mala de viagem. Colocou-a sobre a cama e a abriu. Foi até o cofre, digitou o código. Retirou todos os objetos. Os atirou dentro da mala. Catou algumas roupas e fez o mesmo. Iria fugir. Precisa fugir. 

Mariane, a vizinha 

        Mariane trabalhava numa delegacia na Ceilândia. De tão entretida com as inúmeras investigações, nem soube do incêndio ocorrido no prédio onde morava, justamente em um dos apartamentos do seu andar. Saiu do trabalho quando o relógio já anunciava quase 22 horas. 

        A agente suspirou, como se aliviada por mais um dia produtivo. Ela estava trabalhando num caso de uma quadrilha de estelionatários, que há tempos aplicava golpes na região. Mariane, assim que ligou o carro, pensou que, dentro de no máximo mais uma semana, concluiria seu relatório e, então, o entregaria para o delegado. Este, por sua vez, não teria dúvida em indiciar os criminosos. 

        Durante o trajeto, a mulher ligou o rádio. Não demorou, ouviu a notícia do tal incêndio ocorrido justamente no edifício onde morava. Ouviu o nome de Márcia Gomes dos Santos, mas não se lembrava dela. Quer dizer, tinha vaga recordação, mas não estava certa. Seja como for, a ansiedade de chegar logo a sua residência a fez pisar mais fundo no acelerador, apesar dos inúmeros radares na Estrutural.

        Assim que entrou na garagem subterrânea do seu prédio, sentiu o cheiro de queimado no ar. De pé em frente ao elevador, apertou insistentemente o botão, como se isso fosse fazê-lo ir mais rápido. Resolveu ir pelas escadas e, depois de vários degraus, finalmente chegou ao quinto andar. 

         Esbaforida, passou pela porta do apartamento de Márcia e, então, rumou para o seu, que ficava ao fundo do corredor. Entrou e foi ver se havia algum dano. Nenhum. Tudo indicava que o incêndio havia sido contido antes de se alastrar. 

        A policial buscou informações na internet e, então, ficou a par do ocorrido, isto é, das coisas que a polícia civil já havia informado para a imprensa. As investigações prosseguiriam. Em seguida, Mariane pensou que era melhor relaxar, pois teria muito trabalho no dia seguinte.

        Tomou um banho bem quente. Colocou uma camiseta velha e um short folgado. Com os cabelos enrolados em uma toalha, foi até a cozinha, onde preparou um chá de camomila. Mas, antes que levasse a xícara aos lábios, ela se lembrou que havia uma câmera na entrada do seu apartamento. 

        Mariane puxou as filmagens. Lá estava um homem em frente à porta do apartamento de Márcia. A policial já havia visto aquele rosto, sabia que era morador do edifício, mas não sabia seu nome. A agente baixou o arquivo para um pen drive e saiu de casa decidida a entregar aquelas filmagens na delegacia da Asa Norte, mesmo que já se passasse da meia-noite.

Perseguição fatal

        Mariane trocou de roupa e desceu de elevador até a garagem. Assim que abriu a porta do seu carro, percebeu que um homem estava colocando uma enorme mala no veículo logo adiante. Por um instante, ela não prestou muita atenção, até que, finalmente, a policial o reconheceu. Era o mesmo homem que aparecia nas filmagens. 

        A mulher, apesar de surpresa, tentou disfarçar, enquanto Arnaldo entrava no veículo e, apressado, saía do local. Mariane foi em seu encalço, pois percebeu que ele estava fugindo.  Ela, apesar de estar armada, sabia dos riscos da situação. Então, telefonou para a delegacia da Asa Norte. 

      Enquanto perseguia Arnaldo, Mariane foi informada pelo policial que a atendeu que os responsáveis pela investigação do caso eram os agentes Pedro e Gustavo. Ela entrou em contato com Pedro, que se prontificou a dar apoio para a colega.  Ele telefonou para Gustavo, que pulou da cama e, em menos de dez minutos, já estava dirigindo em direção às coordenadas que haviam sido informadas por Mariane.

       Arnaldo, já na altura do Eixão Sul, percebeu que estava sendo seguido. Ele acelerou, mas Mariane também fez o mesmo. O homem começou a suar, apesar do frio seco do inverno brasiliense. Temendo ser capturado, acabou perdendo o controle do veículo pouco tempo depois de sair da Asa Sul. Bateu nas grades do zoológico. 

        Atordoado, Arnaldo desceu do carro e pulou a cerca. Mariane telefonou para Pedro e o informou do ocorrido. Ele pediu para que ela o aguardasse. Gustavo chegou logo em seguida.

        Mais alguns minutos, Pedro estacionou próximo aos colegas. Os três pularam a cerca e entraram no zoológico. Enquanto isso, Arnaldo tentava se esconder no meio daquela escuridão, ao mesmo tempo em que alguns animais emitiam sons. 

        Os três policiais sacaram suas armas e começaram as buscas no local. Os três ligaram suas lanternas e tentavam iluminar o ambiente. Pedro, ao passar pelo fosso dos leões, tomou um susto, pois o rei dos animais rugiu tão alto, que parecia que estava logo atrás do policial. 

        Desesperado, Arnaldo sentiu que estava prestes a ser capturado quando, então, se viu diante de um enorme lago. Sem muitas opções, ele entrou na água e ficou apenas com parte da cabeça para fora, o suficiente para continuar respirando. Dali, ele podia avistar as luzes emitidas das lanternas a aproximadamente 300 metros. 

        Os pensamentos do fugitivo estavam a mil quando, então, sentiu uma pressão enorme na perna direita, que o arrastou para o fundo do lago. Era Dalila, a famosa jacaré-açu  que havia levado pânico à capital federal há poucos anos. O pobre homem não teve chance contra mais de cinco metros de força bruta. Foi devorado pelo enorme animal.

       Os policiais continuaram a busca por mais quase duas horas, quando, finalmente, decidiram retornar para os veículos. Já fora do zoológico, conversaram por mais algum tempo. Os três imaginaram que Arnaldo havia cruzado o zoológico e, então, evadido para algum local. Todavia, estavam certos de que, mais cedo ou mais tarde, ele seria capturado. Seja como for, já sabiam que Márcia havia sido assassinada.

        Os dias seguintes não revelaram o paradeiro de Arnaldo, apesar das inúmeras fotografias expostas pela mídia. Enquanto isso, na pequena ilha no meio do lago do zoológico, Dalila exibia um abdômen enorme, pois ainda estava digerindo os restos mortais do estelionatário amoroso. Logo ali ao lado, sob uma árvore, um macaco brincava com um relógio. Mas não qualquer relógio. Era um Rolex.

Fim

  • Nota de esclarecimento: O conto "Estelionato amoroso" foi publicado, em formato de folhetim, pelo Notibras entre os dias 16/05/2023 e 24/05/2023.
  • 1) https://www.notibras.com/site/arnaldo-galanteador-comecou-pelo-obituario/
  • 2) https://www.notibras.com/site/sarah-desamparada-cai-na-rede-do-sedutor/
  • 3) https://www.notibras.com/site/marcia-bancaria-cai-no-jogo-do-amante-farsante/
  • 4) https://www.notibras.com/site/elaine-viuva-de-marido-vivo-vira-a-nova-amante/
  • 5) https://www.notibras.com/site/brasilia-cidade-pequena-e-seu-lado-indecente/
  • 6) https://www.notibras.com/site/marcia-traida-rompe-e-vira-um-corpo-sem-vida/
  • 7) https://www.notibras.com/site/investigacao-policial-e-arnaldo-pensa-em-fuga/?fbclid=IwAR02Uykalj0RlG5O_c5yehXHDExwAJG8uPcL7h48odYhNxoa1BLHHeDUgcw
  • 8) https://www.notibras.com/site/investigacao-policial-e-arnaldo-pensa-em-fuga/
  • 9) https://www.notibras.com/site/dalila-reaparece-e-arnaldo-vira-sobremesa-no-zoo/