Mesmo o enorme espelho do quarto era incapaz de captar tamanha soberba. Aquele homem de beleza algo acima da média sorria todos os sorrisos possíveis. Os ângulos eram caprichosamente observados, como se Arnaldo não os conhecessem de cor desde sempre.
Aos 47, lutava contra a balança quase diariamente para manter os exatos 82 kg distribuídos em 1,78 m, que se transformava em algo pouco além de 1,80 por conta das palmilhas especiais. Um charme, diria boa parte das mulheres do Distrito Federal. E como falava bem, tal qual conhecesse assuntos diversos, dos mais simples aos mais rebuscados. Não que isso fosse necessariamente verdade. Todavia, diante daquele rosto tão distinto, como alguém poderia desconfiar?
Arnaldo, sentado à mesa na sacada, observava com atenção o obituário do jornal. Aliás, um hábito que herdou de sua falecida avó, mas com intenções diversas. Enquanto a finada tinha lá seus costumes mórbidos, Arnaldo buscava viúvas desamparadas e endinheiradas. Um cafajeste, alguns diriam. Entretanto, o gajo tinha lá uma boa desculpa para tal intento: "Eu ofereço meus serviços de qualidade em troca de alguns mimos. Nada mais do que meros mimos."
Não por acaso, a desamparada Ruth, viúva recente do finado Alberico, se sentiu compelida a retribuir tamanha devoção com um Rolex. Não que o Arnaldo tivesse pedido algo em troca de tantos afagos, beijos e carícias. Ele simplesmente não pode dizer não àquela mulher de duas dezenas de anos mais vivida. Ademais, o que era um Rolex diante de tamanha fortuna herdada por Ruth? Uma ninharia, creio que todos concordariam.
Arnaldo sorriu diante do anúncio do falecimento de Afrânio Barreto, conhecido empresário do ramo de calçados. A viúva, Sarah, convidava para a despedida repentina do saudoso marido, que mal havia completado 70. O velório e o enterro seriam naquele mesmo dia, ali no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.
Diante de tais informações, ele fez uma breve busca na internet e, depois de fazer algumas anotações, tratou de se arrumar, pois o espetáculo estava próximo a começar. O arremate final foi justamente o caríssimo relógio dourado, tão bem ajustado no pulso esquerdo da ave de rapina.
Sarah, a desamparada
Um séquito considerável dava o último adeus ao finado marido de Sarah, enquanto essa, totalmente desolada pela perda, era amparada por amigos e familiares. Foi justamente nesse ambiente tristonho que entrou Arnaldo. Ele observou o lugar e, com a maior desfaçatez, foi direto para o caixão. Encarou o defunto como se o conhecesse de longa data e, sem qualquer esforço, enxugou uma lágrima providencial que escorreu pela sua face deslavada.
A viúva, sentada logo ali, não deixou de notar aquela figura estranha até então. No entanto, tão distinto era o cavalheiro, que se deixou levar por devaneios, ainda mais quando Arnaldo depositou um lírio sobre o morto. Ela, apesar de nunca o ter visto, teve certeza de que já o conhecia, bem como ouvira falar muito bem dele pela própria boca do marido.
Arnaldo, que de vez em quando se surpreendia com a sua capacidade de convencimento, foi até Sarah, que já o olhava como se fossem amigos de longa data. Talvez para não contrariar a viúva, os presentes cumprimentavam aquele estranho com a maior naturalidade. Ele pegou a mão direita de Sarah e a levou até seus lábios dissimulados. Disse palavras que a mulher queria ouvir, enquanto a encarava, com o intuito de hipnotizá-la. Nem precisava de tamanho esforço, pois a viúva já parecia totalmente envolvida por aquele homem de aparência tão digna.
_ Desculpe, sei que já nos conhecemos, mas não me recordo do seu nome.
_ Arnaldo Carvalho, às suas ordens.
_ Sim, isso mesmo! O Afrânio me falava muito bem do senhor.
A conversa durou alguns minutos, até que Arnaldo teve certeza de que havia fisgado a velha. Ele tirou um cartão do bolso do paletó e o depositou nas mãos trêmulas de Sarah. Ela apertou aquele pequeno pedaço de papel e, tímida, o guardou em sua bolsa. Arnaldo se afastou e foi para o canto oposto, de onde poderia entender melhor as relações do falecido com aquela gente. Sentimentos sinceros, mas também abutres se engalfinhavam ao redor do féretro.
Após quase duas horas daquelas lamúrias, eis que a desolada mulher autorizou o enterro. Arnaldo, atento a tudo, logo se postou ao lado esquerdo do caixão. Fez questão de pegar a alça dianteira e, com a ajuda de mais cinco cavalheiros, ergueu o caixão em direção à cova. Aquele gesto não passou despercebido por Sarah, que, mesmo chorosa, se sentiu confortada por tamanha devoção de um fiel amigo do falecido se fazer presente durante a dolorosa partida.
O ataúde foi cuidadosamente depositado no fundo da tumba previamente preparada. Depois das rezas e com o consentimento de Sarah, o coveiro pegou a pá e colheu uma boa quantidade de terra. No entanto, antes que o homem prosseguisse, Arnaldo tomou-lhe a pá e, ele mesmo, depositou aquele conteúdo sobre o caixão do morto. Em seguida, sem se virar para o coveiro, entregou-lhe a pá. Seus olhos se mantinham conectados aos de Sarah, e assim se prosseguiram até que todos foram se dispersando. Arnaldo, com um leve aceno de cabeça, se despediu da viúva e foi embora, certo de que logo se veriam novamente.
Márcia
Arnaldo despertou ao lado daquela beldade. Seu nome? Márcia. Uma bancária de seus 28 anos, vizinha de prédio do amante, ali na quadra 216, Asa Norte. Há tempos os dois se conheceram numa reunião de condomínio, mas começaram a sair juntos apenas no último mês.
Márcia, apesar do trabalho intenso, conseguia conciliar bem seu dia, pois estava adaptada à rotina. É verdade que a paixão por aquele homem consumia boa parte de seus pensamentos, mas nada que pudesse comprometer seu excelente desempenho como gerente do Banco do Brasil.
Por outro lado, Arnaldo mal encontrava tempo para desfrutar aquele sentimento que o havia pego de surpresa. Não que ele já não tivesse passado por algo parecido, mas isso havia acontecido quando ele era um vendedor de carros numa concessionária. Desde então, o homem passara a ganhar a vida de outra forma: satisfazendo suas clientes, que, quase sempre, não sabiam que estavam diante de um profissional da arte de ludibriar.
Há quase duas décadas no ramo, Arnaldo tivera dezenas de namoros, noivados e, pasmem, seis casamentos em cidades distintas espalhadas pelo país, até se fixar na capital, onde, segundo suas próprias palavras, era justamente ali que se encontrava o poder e, consequentemente, os lucros poderiam ser bem maiores. Bigamia, aliás, era o menor dos seus crimes.
Ele teria mentido para Márcia desde o primeiro encontro. Disse que era empresário do ramo de importação. Fluente em inglês, não despertou desconfiança na mulher, mesmo porque ela não teria motivos para duvidar. Por que ele iria mentir? Seja como for, Arnaldo e Márcia passaram a se amar sempre que possível. Todavia, durante dois ou três dias, ele precisava se ausentar, sempre a pretexto de viagens a negócios.
Tais compromissos, aliás, envolviam a mais nova cliente de Arnaldo: Sarah. Pois é, parece que a mulher mal teve tempo de se sentir enlutada pela perda do finado Afrânio. Totalmente fisgada, ela se entregou à luxúria nos braços daquele homem. Apaixonada como uma garota de lá seus 15, encheu o namorado de mimos. Temos que ser sinceros, pois Arnaldo cumpriu muito bem seu papel, retribuindo cada ganho com o suor de seu corpo sobre o da viúva.
Elaine
Além de Ruth, Sarah e mais quatro viúvas endinheiradas, Arnaldo acabara de arrumar uma nova cliente. Quer dizer, cliente era como ele as chamava, mas todas pensavam que eram únicas na vida daquele homem. Seja como for, a mais recente iludida tinha nome e sobrenome: Elaine Honda de Albuquerque.
Apesar de não ser viúva, a mulher carregava uma característica comum com as outras: a solidão. Casada com um famoso empresário, Elaine passava semanas sozinha na enorme mansão do casal, localizada no Park Way. No entanto, por conta desses acasos da vida, ela conheceu o agora amante justamente quando ele estava acompanhado de outra cliente, a Laura, num famoso restaurante da cidade.
Bastou uma troca de olhares para que o novo casal se formasse. Arnaldo, confiante como ele só, deu um leve toque no quadril de Elaine, enquanto ela já ia embora. Acabou ficando para mais uma bebida. Tomou duas, não se sabe ao certo quantas outras. Tanto é que a própria Laura, inocente, pediu ao amado que deixasse a amiga em casa.
Arnaldo atendeu prontamente o pedido de Laura. Mal sabia ela que estava colocando uma raposa dentro do próprio galinheiro. Já naquele dia, Elaine, totalmente embriagada, ordenou que o pobre Arnaldo fosse direto para um motel. Amaram-se e adormeceram ali mesmo, até que, depois de horas, ele, como qualquer cavalheiro, cumpriu com a palavra e, finalmente, deixou a amiga de Laura em casa.
Elaine, além de mais atraente que Laura, começou a encher o amante de presentes. Talvez querendo acabar com o relacionamento dele com a amiga, ela chegou a lhe fazer um pequeno empréstimo de cem mil dólares, já que Arnaldo mentiu dizendo que todo o seu dinheiro estava aplicado na bolsa de valores.
Abarrotado de trabalho, Arnaldo foi obrigado a dar mais atenção para Elaine, até que o corpo começou a dar sinais de estafa. Ele precisava de umas férias e, por isso, mentiu para as clientes. O calhorda inventou que iria fazer uma viagem a negócios para São Paulo. Todas, por incrível que pareça, acreditaram na lorota.
Arnaldo chegou ao seu apartamento já tarde da noite naquela sexta-feira. Exausto, mal tomou um banho quente, caiu na cama. Poderia ter dormido durante dois dias, mas foi despertado pelo barulho da campainha no dia seguinte, por volta das 16 h. Com a cara amarrotada, o homem ainda tentou sorrir para Márcia, que entendeu que ele precisava dormir. Ele a convidou para entrar e, então, os dois acabaram adormecendo na cama abraçadinhos, como dois adolescentes apaixonados.
Brasília, pequena Brasília
Uma das características da capital é que parece que todo mundo se conhece. Isso não é necessariamente verdade, mas não é raro alguém falar para beltrano que conhece cicrano e, por conta dessas coincidências que acontecem frequentemente em Brasília, todos se veem como membros de uma grande confraria. Este, aliás, foi um erro de Arnaldo, que imaginou que a capital, por ser a capital, fosse uma cidade grande.
Pois lá estava a Elaine na agência do Banco do Brasil, a mesma em que a Márcia trabalhava. Toda sorridente, a ricaça não conseguia esconder a satisfação de se encontrar apaixonada. Tanto é que a gerente se sentiu à vontade para fazer um comentário.
_ A paixão nos deixa assim.
_ Bota assim nisso!
As duas mulheres sorriam, quando, então, Elaine se sentiu livre, leve e solta para mostrar uma fotografia da razão de tamanha felicidade. Foi um baque! Diante daquele rosto tão conhecido, eis que Márcia quase perdeu as estribeiras. Lá estava Arnaldo, o seu Arnaldo, todo sorridente com Elaine em seu colo. No entanto, profissional que era, atendeu a cliente da melhor forma possível. A endinheirada Elaine continuaria faturando às custas de aplicações bem orientadas pela gerente.
Enquanto guardava a sua fúria para si, as horas foram desenrolando de maneira vagarosa, até que, finalmente, chegou o momento de se despedir de mais um dia de trabalho. Desorientada, Márcia foi caminhando para casa. Milhões de pensamentos passavam pela mente em polvorosa. Ora decidia uma coisa, logo em seguida já pensava em fazer outra. Certa estava de que colocaria um fim naquilo tudo logo mais.
Chegou ao prédio onde morava, passou pelo porteiro sem cumprimentá-lo, apesar de sempre ter sido tão cordial. Enfurecida, entrou no elevador e apertou o terceiro andar, apesar de residir no quinto. Tocou a campainha do apartamento de Arnaldo. Nada! Ainda esperou por alguns instantes, até que subiu as escadas, abriu a porta e entrou no seu apartamento.
Ainda estressada, Márcia resolveu tomar um banho. Tirou toda a roupa e a atirou no cesto. Entrou no chuveiro e, não suportando tamanha dor, se sentou sob a água que escorria e chorou. Chorou copiosamente em soluços.
Um corpo que se cala
Arnaldo chegou tarde ao seu apartamento. Exausto por mais uma noitada satisfazendo a insaciável Elaine. Ele até pensou em inventar uma desculpa para se desvencilhar daquela mulher, ainda mais porque ela requeria cada vez mais atenção. Todavia, ele não poderia tomar uma atitude dessas, pelo menos até encontrar outra cliente tão generosa.
Sentou-se na poltrona da sala, enquanto olhava sorridente para o medalhão de ouro cravejado com diamantes formando as letras A e E, entrelaçadas. Realmente era uma grande prova de que Elaine ainda poderia render bons frutos. Levantou-se, foi até o quarto, se postou diante do cofre escondido atrás de um quadro comprado na feira da Torre de Televisão. Digitou o código e, como se acostumado a fazer aquilo diversas vezes, jogou a joia no fundo do cofre e o trancou.
Na cozinha, abriu a geladeira, pegou a garrafa de vinho tinto quase vazia, resultado de um jantar há poucos dias com Márcia. Pegou uma taça, despejou o líquido, deu um leve giro com a mão. Sentiu o aroma do vinho e, apaixonado que estava, brindou à amada. Pensou em ligar para ela, mas precisava descansar.
Foi até a sala, onde se sentou na poltrona. O corpo cansado, a mente em polvorosa. Realmente estava apaixonado por Márcia. Sorveu o líquido e, em seguida, depositou a taça sobre a mesinha de centro. Sem perceber, adormeceu por uma hora ou duas.
O homem foi despertado pelo latido de um cachorro num prédio próximo. Por um instante, pensou em continuar dormindo. Desorientado, acabou se levantando e se dirigiu ao quarto. Retirou os sapatos e se esparramou na imensa cama, mas não conseguiu voltar a dormir. Seu pensamento se mantinha na amada.
Arnaldo olhou para o pulso e viu as horas no seu Rolex: quase seis da manhã. Ele sabia que a namorada se levantava cedo, pois gostava de ir à academia nas primeiras horas. Tomou coragem, calçou os sapatos e foi ao banheiro.
Olhou no espelho a cara amassada por mais uma noite mal dormida. Lavou o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos. Tomado de desejo, foi até o apartamento de Márcia.
Diante da porta, tocou a campainha. Não demorou, a gerente do Banco do Brasil abriu a porta. Seu olhar era de desprezo, algo que Arnaldo há muito não via no rosto de uma mulher.
_ O que foi? Aconteceu alguma coisa?
_ Como você pode ser tão cretino?
Arnaldo, por mais culpa que carregasse sobre os ombros, não poderia imaginar o que teria acontecido. Márcia lhe contou que havia visto uma fotografia dele com Elaine. O homem tentou explicar, mas nada parecia convencê-la.
_ Some daqui! Nunca mais apareça!
Pego de surpresa, ele ainda tentou convencer a mulher com uma história, mas não teve tempo suficiente para criar uma desculpa convincente. Márcia estava decidida. Desesperado, Arnaldo segurou firme o braço da amada.
_ Me solta!
Tomado de angústia, Arnaldo insistiu. Márcia, para se ver livre daquele homem, lhe desferiu um tapa no rosto. Enfurecido, ele segurou forte o pescoço da mulher, que se viu sem ar. Márcia, olhos arregalados, aos poucos foi perdendo os sentidos. Após quase três minutos, seu corpo, já sem vida, caiu na entrada da sala.
Arnaldo, desesperado com o que havia acabado de fazer, ainda tentou reanimar a amada. Todavia, já era tarde. Márcia estava morta. Assassinada pelas mesmas mãos que a acariciaram por alguns meses.
Ele fechou a porta. Levou o corpo da amada para o sofá. Arnaldo chorou por um instante, até que percebeu que precisava encontrar uma saída para aquela situação. Pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia, que, a princípio, lhe pareceu a mais óbvia. Decidiu colocar fogo no apartamento.
Foi até a despensa, onde encontrou uma garrafa de álcool. Jogou sobre o sofá, depois pelas nas cortinas, na mesa da sala. Foi até o quarto, onde olhou a cama. Lembrou-se das vezes em que ele e Márcia haviam se amado ali. Não teve dúvida. Jogou o resto do líquido sobre a cama. Riscou um fósforo e, não demorou, as labaredas lhe esquentaram a face.
Voltou para a sala. Incendiou tudo ao redor. Olhou pela última vez o rosto sem vida de Márcia. Saiu do apartamento, pegou as escadas, logo estava no seu apartamento. Foi até o quarto, onde quase desmaiou na cama.
Arnaldo nem percebeu os gritos desesperados dos moradores: "Fogo! Fogo!" Também não ouviu a sirene do carro de bombeiros. Quando finalmente despertou, era como se tivesse tido um pesadelo. No entanto, não demorou, lembrou-se do ocorrido. Ele havia assassinado Márcia.
Investigação policial
Após os bombeiros apagarem o fogo, a polícia civil foi acionada. Um corpo carbonizado havia sido encontrado no apartamento. Assim que os agentes Pedro e Gustavo chegaram ao local, o porteiro, Edmundo, falou que a única moradora daquela unidade era Márcia Gomes dos Santos.
Os policiais questionaram se Márcia estaria passando por algum problema. Edmundo respondeu que a mulher era sempre alegre. Inclusive, de acordo com o porteiro, ela havia se envolvido com um dos moradores do prédio: Arnaldo, do 302. Enquanto a perícia criminal estava no local, Pedro e Gustavo foram até o apartamento de Arnaldo.
Eles tiveram que tocar a campainha várias vezes, até que Arnaldo surgiu com uma toalha enrolada na cintura. Os policiais perguntaram se podiam entrar. O morador, com um sorriso cativante, os convidou a se sentarem no sofá.
_ O senhor conhecia a senhora Márcia?
_ Conhecia? Como assim? Nós somos namorados.
_ O senhor não soube?
_ Soube o quê? O que aconteceu?
_ O corpo da senhora Márcia foi encontrado hoje. O apartamento dela foi incendiado.
Arnaldo, depois de décadas de prática, não demorou a ficar com o rosto consternado. Talvez verdadeiras, as lágrimas escorreram até tocarem nos cantos dos lábios. O gosto salgado o fez imaginar que houvesse cometido algum erro, que pudesse incriminá-lo.
_ O que aconteceu com ela?
_ O senhor não pode nos dizer?
_ Não sei. Tudo estava tão bem entre a gente. O que aconteceu, meu Deus?
Os policiais se entreolharam. Gustavo, então, entregou um cartão para Arnaldo. Ele pediu ao morador que fosse no dia seguinte conversar com eles na delegacia, ali mesmo na Asa Norte. O homem pegou o cartão e, em seguida, se despediu dos policiais.
Assim que os dois homens saíram, fechou a porta. Inúmeros pensamentos passavam pela cabeça de Arnaldo. Ele precisava agir antes que seu crime fosse descoberto. Pensou em diversas possibilidades, mas nenhuma lhe pareceu totalmente adequada.
Foi até o quarto. Abriu a parte de cima do armário, de onde retirou uma mala de viagem. Colocou-a sobre a cama e a abriu. Foi até o cofre, digitou o código. Retirou todos os objetos. Os atirou dentro da mala. Catou algumas roupas e fez o mesmo. Iria fugir. Precisa fugir.
Mariane, a vizinha
Mariane trabalhava numa delegacia na Ceilândia. De tão entretida com as inúmeras investigações, nem soube do incêndio ocorrido no prédio onde morava, justamente em um dos apartamentos do seu andar. Saiu do trabalho quando o relógio já anunciava quase 22 horas.
A agente suspirou, como se aliviada por mais um dia produtivo. Ela estava trabalhando num caso de uma quadrilha de estelionatários, que há tempos aplicava golpes na região. Mariane, assim que ligou o carro, pensou que, dentro de no máximo mais uma semana, concluiria seu relatório e, então, o entregaria para o delegado. Este, por sua vez, não teria dúvida em indiciar os criminosos.
Durante o trajeto, a mulher ligou o rádio. Não demorou, ouviu a notícia do tal incêndio ocorrido justamente no edifício onde morava. Ouviu o nome de Márcia Gomes dos Santos, mas não se lembrava dela. Quer dizer, tinha vaga recordação, mas não estava certa. Seja como for, a ansiedade de chegar logo a sua residência a fez pisar mais fundo no acelerador, apesar dos inúmeros radares na Estrutural.
Assim que entrou na garagem subterrânea do seu prédio, sentiu o cheiro de queimado no ar. De pé em frente ao elevador, apertou insistentemente o botão, como se isso fosse fazê-lo ir mais rápido. Resolveu ir pelas escadas e, depois de vários degraus, finalmente chegou ao quinto andar.
Esbaforida, passou pela porta do apartamento de Márcia e, então, rumou para o seu, que ficava ao fundo do corredor. Entrou e foi ver se havia algum dano. Nenhum. Tudo indicava que o incêndio havia sido contido antes de se alastrar.
A policial buscou informações na internet e, então, ficou a par do ocorrido, isto é, das coisas que a polícia civil já havia informado para a imprensa. As investigações prosseguiriam. Em seguida, Mariane pensou que era melhor relaxar, pois teria muito trabalho no dia seguinte.
Tomou um banho bem quente. Colocou uma camiseta velha e um short folgado. Com os cabelos enrolados em uma toalha, foi até a cozinha, onde preparou um chá de camomila. Mas, antes que levasse a xícara aos lábios, ela se lembrou que havia uma câmera na entrada do seu apartamento.
Mariane puxou as filmagens. Lá estava um homem em frente à porta do apartamento de Márcia. A policial já havia visto aquele rosto, sabia que era morador do edifício, mas não sabia seu nome. A agente baixou o arquivo para um pen drive e saiu de casa decidida a entregar aquelas filmagens na delegacia da Asa Norte, mesmo que já se passasse da meia-noite.
Perseguição fatal
Mariane trocou de roupa e desceu de elevador até a garagem. Assim que abriu a porta do seu carro, percebeu que um homem estava colocando uma enorme mala no veículo logo adiante. Por um instante, ela não prestou muita atenção, até que, finalmente, a policial o reconheceu. Era o mesmo homem que aparecia nas filmagens.
A mulher, apesar de surpresa, tentou disfarçar, enquanto Arnaldo entrava no veículo e, apressado, saía do local. Mariane foi em seu encalço, pois percebeu que ele estava fugindo. Ela, apesar de estar armada, sabia dos riscos da situação. Então, telefonou para a delegacia da Asa Norte.
Enquanto perseguia Arnaldo, Mariane foi informada pelo policial que a atendeu que os responsáveis pela investigação do caso eram os agentes Pedro e Gustavo. Ela entrou em contato com Pedro, que se prontificou a dar apoio para a colega. Ele telefonou para Gustavo, que pulou da cama e, em menos de dez minutos, já estava dirigindo em direção às coordenadas que haviam sido informadas por Mariane.
Arnaldo, já na altura do Eixão Sul, percebeu que estava sendo seguido. Ele acelerou, mas Mariane também fez o mesmo. O homem começou a suar, apesar do frio seco do inverno brasiliense. Temendo ser capturado, acabou perdendo o controle do veículo pouco tempo depois de sair da Asa Sul. Bateu nas grades do zoológico.
Atordoado, Arnaldo desceu do carro e pulou a cerca. Mariane telefonou para Pedro e o informou do ocorrido. Ele pediu para que ela o aguardasse. Gustavo chegou logo em seguida.
Mais alguns minutos, Pedro estacionou próximo aos colegas. Os três pularam a cerca e entraram no zoológico. Enquanto isso, Arnaldo tentava se esconder no meio daquela escuridão, ao mesmo tempo em que alguns animais emitiam sons.
Os três policiais sacaram suas armas e começaram as buscas no local. Os três ligaram suas lanternas e tentavam iluminar o ambiente. Pedro, ao passar pelo fosso dos leões, tomou um susto, pois o rei dos animais rugiu tão alto, que parecia que estava logo atrás do policial.
Desesperado, Arnaldo sentiu que estava prestes a ser capturado quando, então, se viu diante de um enorme lago. Sem muitas opções, ele entrou na água e ficou apenas com parte da cabeça para fora, o suficiente para continuar respirando. Dali, ele podia avistar as luzes emitidas das lanternas a aproximadamente 300 metros.
Os pensamentos do fugitivo estavam a mil quando, então, sentiu uma pressão enorme na perna direita, que o arrastou para o fundo do lago. Era Dalila, a famosa jacaré-açu que havia levado pânico à capital federal há poucos anos. O pobre homem não teve chance contra mais de cinco metros de força bruta. Foi devorado pelo enorme animal.
Os policiais continuaram a busca por mais quase duas horas, quando, finalmente, decidiram retornar para os veículos. Já fora do zoológico, conversaram por mais algum tempo. Os três imaginaram que Arnaldo havia cruzado o zoológico e, então, evadido para algum local. Todavia, estavam certos de que, mais cedo ou mais tarde, ele seria capturado. Seja como for, já sabiam que Márcia havia sido assassinada.
Os dias seguintes não revelaram o paradeiro de Arnaldo, apesar das inúmeras fotografias expostas pela mídia. Enquanto isso, na pequena ilha no meio do lago do zoológico, Dalila exibia um abdômen enorme, pois ainda estava digerindo os restos mortais do estelionatário amoroso. Logo ali ao lado, sob uma árvore, um macaco brincava com um relógio. Mas não qualquer relógio. Era um Rolex.
Fim
- Nota de esclarecimento: O conto "Estelionato amoroso" foi publicado, em formato de folhetim, pelo Notibras entre os dias 16/05/2023 e 24/05/2023.
- 1) https://www.notibras.com/site/arnaldo-galanteador-comecou-pelo-obituario/
- 2) https://www.notibras.com/site/sarah-desamparada-cai-na-rede-do-sedutor/
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- 4) https://www.notibras.com/site/elaine-viuva-de-marido-vivo-vira-a-nova-amante/
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- 6) https://www.notibras.com/site/marcia-traida-rompe-e-vira-um-corpo-sem-vida/
- 7) https://www.notibras.com/site/investigacao-policial-e-arnaldo-pensa-em-fuga/?fbclid=IwAR02Uykalj0RlG5O_c5yehXHDExwAJG8uPcL7h48odYhNxoa1BLHHeDUgcw
- 8) https://www.notibras.com/site/investigacao-policial-e-arnaldo-pensa-em-fuga/
- 9) https://www.notibras.com/site/dalila-reaparece-e-arnaldo-vira-sobremesa-no-zoo/
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