segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Santana, o pregador e o ateu

    Lá estava o Santana em mais um dia caótico na delegacia. Gente falando a todo vapor pelos cotovelos, como se aquilo fosse uma filial da bolsa de valores. Ele, que já chegava com ânimo de ir embora, levantou o gordo traseiro e se arrastou até a cozinha. Mal entrou, viu o Guilherme, um policial recém chegado naquela delegacia. 

    _  Qual é mesmo o seu nome, cana?

    _ Guilherme. 

    _ Hum... Deus deve estar com raiva hoje, você não acha?

    _ ...

    Como Guilherme apenas abaixou os olhos, Santana, usando todo seu tirocínio policial, ficou com a pulga atrás da orelha.

    _ Você não acredita em Deus, né?

    _ Tenho que voltar lá pra frente. Muita gente pra atender hoje.

    O dia se arrastou com a lentidão de uma lesma com cola nos pés. Obviamente que lesma não possui pés e, por isso mesmo, os ponteiros do relógio pregado à parede pareceram ainda mais vagarosos. E, já no finalzinho do expediente, eis que alguns policiais entram na delegacia com um homem algemado, que gritava aos quatro cantos que ele era da igreja. Isso, aliás, fez com que despertasse no Santana um certo desejo de vingança contra o Guilherme. Ele se aproximou do preso, que havia sido colocado em um banquinho de cimento no canto.

    _ Você é da igreja mesmo?

    _ Sim, senhor!

    _ Tá vendo aquele cara ali no balcão? Pois é, ele é ateu.

    Nisso, o preso lançou um olhar de consternação contra o Guilherme, que a princípio nem percebeu, assim que o homem começou a citar algum trecho da bíblia. O policial não deu muita trela, até que a ladainha continuou. 

    _ Como é que você pode não acreditar no Nosso Senhor Jesus Cristo, irmão?

    Santana, que a tudo assistia, tentava conter as gargalhadas. Então, Guilherme se levantou, como se fosse em direção ao pregador. Mas, antes que desviasse para a mesinha do café, disse para o preso, sem mesmo fitá-lo.

    _ Se estou aqui, é simplesmente porque é meu trabalho.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Santana, o pregador e o ateu" foi publicada pelo Notibras no dia 4/1/2023.
  • https://www.notibras.com/site/santana-o-sisudo-o-pregador-preso-e-o-ateu/

sábado, 8 de outubro de 2022

Amâncio, o sisudo

   Amâncio já não era tão jovem há tempos, desde que deixou de frequentar os primeiros anos na escola. Não que tenha iniciado com mais de seis, mas é que sempre teve aquele jeito de velho, inclusive quando lhe ofereciam alguma guloseima. Cara amarrada, passou por toda a vida acadêmica sem trocar um sorriso com alguém, seja Maria, seja José, seja Maria José, seja José Maria. Tornou-se um sisudo ou, talvez, já tenha nascido desse jeito, pois nem a mãe se lembrava de um momento de satisfação mesmo quando ela o colocava para mamar no peito.  

 Casou-se como tantos outros, simplesmente por conveniência. Josefina se aproximou, ele não a desejou, mas também não a repeliu. Tiveram quatro filhos por hábito que apenas ela tanto insistia nas noites frias da pequena cidade serrana. Se dependesse dele, ela estaria intocada, se bem que isso já havia acontecido com outrem. Tanto faz, pois esse seria apenas um detalhe sem importância, como todos os demais aos olhos do Amâncio, que miravam o nada. 

   As crianças cresceram, formaram seus próprios pares, alguns desfeitos adiante, outros sustentados à custa de perseverança. Netos vieram, até um bisneto, fruto de um namorico às escondidas, ali mesmo naquele jardim da ampla residência do agora sisudo patriarca da família, cada vez mais numerosa. Não sorria, não chorava, não parecia se importar com a própria existência. 

    Aposentou-se do serviço no banco, onde havia ido e voltado nos últimos quase 50 anos. Seus antigos colegas o consideravam um caladão. Estavam todos certos, pois Amâncio mal proferia uma palavra além das necessárias. 

    Economista de formação, levava esse hábito até para sua vida social. Nada de termos sem uma função prática. Era simplesmente "Bom dia. O caso é esse..." Por que ele iria entrar em uma esfera além dessa? Para Amâncio, não fazia qualquer sentido falar algo do tipo "Bom dia! Como vai o senhor? Como vai a família? Pois bem, estudei o seu caso profundamente na noite anterior e, então, percebi que o melhor caminho seria..."

  Direto! Econômico! Livre dessas amarras que nos prendem à sociedade. Gostava da solidão, pelo menos é o que sempre imaginou. Todavia, começou a sentir saudade do tempo em que estava no ventre da sua mãe e se percebeu só. Pela primeira vez nos seus quase 77 anos, lá estava o Amâncio com esse sentimento de solidão. De tão abandonado se sentiu, que chegou a abandonar-se por completo ao abandono.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Amâncio, o sisudo" foi publicado por Notibras no dia 9/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/homem-calado-se-entrega-ao-proprio-abandono/

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Dona Irene, o filme e a confissão

   Uma das frases que mais ouço da minha mulher, a Dona Irene, é "Tenho certeza de que não foi comigo que você viu isso!" Pois bem, lá estávamos ela, a minha filha (a Ninica) e eu assistindo a mais um filme, quando iniciamos a seguinte conversa.

    _ Amorzinho, nós já vimos esse filme!

  _ Tenho certeza de que não foi comigo que você viu isso!

  Depois que o filme acabou, a Dona Irene e eu fomos passear com as nossas buldogues. Caminhávamos tranquilamente, de mãos dadas como o mais apaixonado dos casais, até que ela se virou para mim e, finalmente, confessou.

  _ Dudu, a gente viu mesmo aquele filme. Eu me lembrei quando aqueles dois tentaram fugir pela floresta.

  Diante dessa baixa de guarda, fui incisivo e perguntei a ela por que não havia dito isso enquanto assistíamos ao filme. Pois é, a minha amada sorriu e disse algo que me surpreendeu.

   _ E você acha mesmo que eu iria dar o braço a torcer na frente da Ninica?

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene, o filme e a confissão" foi publicada pelo Notibras no dia 8/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dona-irene-o-filme-e-a-confissao-escondida-da-ninica/

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

O neto, a avó e o mercurocromo

    Essa história, dizem, aconteceu quase no final dos anos 1970, início dos 1980. Frederico Carlos de Alcântara Gomide Neto foi o nome que aquele mirrado guri recebeu assim que aquelas palmadas certeiras no seu enrugado bumbum o fizeram chorar. Não um choro qualquer, mas daqueles que fez o hospital inteiro ouvir.  O pai, cambaleando das pernas, quase foi ao chão, se não fosse o providencial amparo da robusta enfermeira. 

    Assim que chegou àquele amplo apartamento, foi recebido pela avó, ainda mais coruja que a própria mãe. "Que rapagão mais lindo! Vai ser presidente do Brasil!". Alheio a tudo isso, Frederico Carlos bocejou o bocejo dos que já estão de barriga cheia e só quis se encolher, todo quentinho, naquele berço repleto de penduricalhos. 

    O menino cresceu rechonchudo, bochechas de buldogue birrento. "Que bico mais lindo é esse?", dizia a avó, que adorava mimar o neto. Afinal, enquanto os pais tentam educar, é tarefa mais que nobre dos avós deseducarem. E a velha fazia isso com uma perfeição virginiana. Se o moleque quisesse hambúrguer no almoço, que lhe dessem hambúrguer; se quisesse pizza no jantar, não custava nada lhe satisfazer mais esse desejo.

    Certa feita, eis que a empregada, ao trocar mais uma das inúmeras fraldas do garoto, cometeu um erro crasso. Ela o chamou de Fred. Pra quê? A avó quase voou no pescoço da pobre coitada: "O nome dele é Frederico Carlos de Alcântara Gomide Neto!" Diante de tal falta gravíssima, a empregada foi mandada embora por justa causa. "Justíssima!!!", repetia a velha. 

    Quando chegou o décimo aniversário do pirralho, houve aquela festança. Alguns coleguinhas, todos rigorosamente selecionados, compareceram ao grande evento. Tudo, tudinho mesmo, parecia correr dentro do esperado, até que o Frederico Carlos, após tropeçar no tapete persa quase autêntico da ampla sala, deu com a testa na mesa. Na verdade, nem chegou a abrir um talho maior do que alguns míseros milímetros, quase sem sombra de sangue, mas foi um chororô além da conta. 

    A mãe e a avó correram para socorrer o quase nocauteado menino, enquanto o pai foi ligeiro até o banheiro para pegar algo para passar na ferida. Assim que ele retornou, ouviu o protesto da avó: "Merthiolate não, que arde! Traga o mercurocromo!" O homem, agora mais esbaforido que nunca, voltou ao banheiro para pegar o tal medicamento. 

    Logo a testa do Frederico Carlos estava toda vermelha de tanto mercurocromo. E foi assim que ele foi para a escola nos dias seguintes e, já na sexta-feira, o Frederico Carlos de Alcântara Gomide Neto só continuou existindo para a sua avó. De resto, todos passaram a chamá-lo de Fred Mercúrio.

  • Nota de esclarecimento: O conto "O neto, a avó e o mercurocromo" foi publicado por Notibras no dia 4/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/o-neto-a-avo-e-o-mercurocromo-que-nao-arde/

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Almerinda, a empregada doméstica

   

    Almerinda foi enxotada da cama pela própria culpa por dormir demais naquele dia. Não que fossem tantas horas de sono, pois mal havia chegado do trabalho na noite anterior, após mais de duas horas tentando manter as pestanas atentas enquanto se equilibrava, em pé, no meio daquele monte de gente chamado povo, que se apertava no ônibus. No entanto, não há espaço para descanso além da conta para quem labuta em troca do mínimo.

    Já nem se lembrava de um dia em que não fosse tamanha correria. Não tinha tempo nem para ela, esmalte nas unhas era luxo. Um desperdício! Vivia a lavar louça, chão, roupa, toda sujeira feita por outros. Desde sempre foi assim, até na aurora da vida, quando era puxada pela mão apressada da mãe até a casa dos patrões. Acabou por tomar o lugar dela, já que, infartada, a velha mal conseguia se levantar da cama ao lado.

    Aos 30, continuava solteira, sem filhos, a mãe para cuidar. Alguns namoricos breves, que, por raros minutos, davam ao corpo sofrido um pouco de alegria. Enquanto a água do café esquentava, procurou se lembrar do último. Correu os meses para trás, mas, antes que pudesse recordar do derradeiro beijo, percebeu que a água já havia fervido. Preparou o café, cortou o pão dormido, passou um pouco de margarina. Não fez menção de reclamar do simplório dejejum, só conhecia aquele.  

  Passos apertados a levaram para o ponto de ônibus, onde tantos outros idênticos aguardavam o coletivo, que já apontava na esquina, cambaleando entre buracos na rua, como se fosse um capoeirista, que tentava impedir um chute ali, um soco acolá. Como de costume, Almerinda não conseguiu um lugar para se sentar. Foi em pé, a mão firme no ferro, junto a tantas outras. Os passageiros, de tão grudados, pareciam uma massa, que, aos solavancos, era carregada e despejada ao longo do caminho. 

    Quase duas horas em pé fizeram Almerinda fechar os olhos e cochilar, talvez na tentativa de sonhar. Não havia sonho para sonhar. Não naquela vida! Vida? Foi despertada por um "Dá licença!" Encolheu o corpo sofrido ainda mais, enquanto uma senhora tentava passar. Bocejou ao mesmo tempo em que percebeu que deveria descer dali a dois pontos. Foi se espremendo para chegar o mais próximo da saída. 

    Não demorou muito, foi despejada na rua, onde caminhou mais alguns passos até chegar ao edifício cheio de grades. O porteiro logo a reconheceu, acionou o botãozinho de salvo conduto, que abriu passagem para a empregada do apartamento 901. Almerinda cumprimentou o funcionário com um sorriso não convincente, ao mesmo tempo em que ele disse: "O elevador de serviço está quebrado".

    Para não enfrentar olhares de desaprovação, ela tomou a decisão de encarar os inúmeros lances de escada. Chegou quase esbaforida. Tocou a campainha, ao mesmo tempo em que tomou ciência das horas: 6h05! Cinco minutos atrasada! A patroa, irritada, abriu a porta e, já de costas para a empregada, disse: "Quem acorda cedo toma água fresca, Almerinda!"

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Petrolino e a derrota esmagadora do seu time

 

    Petrolino Augusto dos Anjos Filho, devoto de Nossa Senhora, tentava levar uma vida em paz, apesar do temperamento, de vez em quando, lhe saltar do peito e começar a destilar todo aquele rancor engasgado. Todavia, naquela manhã, enquanto chacoalhava um tanto de água no rosto, olhou-se no espelho e prometeu a si próprio que manteria a calma, apesar das já esperadas provocações por conta da derrota esmagadora do seu time de coração: 5 x 1, de virada, contra o maior rival. 

   Já em frente ao portão, aprumou-se todo antes de pisar na calçada. As pernas, teimosas, pareciam estacar. Foi preciso certo esforço mental para que Petrolino conseguisse finalmente dobrar o quarteirão e, mais algumas centenas de metros, chegar ao trabalho. 

    Mal entrou, foi cumprimentado pelos vastos sorrisos dos colegas, a maioria torcedora do algoz. Sério, até mesmo carrancudo, o pobre torcedor conseguiu atravessar aquele verdadeiro corredor polonês e, já na sua saleta, observou a janela. Deu uma olhadela, mas não gostou do que viu: umas cinco ou seis pessoas caminhando com as cores rivais. No entanto, para Petrolino, aquilo parecia uma multidão.

   Voltou-se para sua mesa e pensou, quase em voz alta, até como uma forma de esquecer aquela humilhação: "Petrolino, foco no trabalho!" E foi justamente o que tentou fazer, apesar dos flashes que vinham e iam, vez ou outra, durante toda manhã. Tanto é que nem percebeu quando deu a hora do almoço, de tão entretido estava com um serviço prometido para dali a dois dias. Foi preciso um dos colegas avisá-lo, mas Petrolino, absorto no que fazia, respondeu que iria logo após. 

    Ao chegar ao restaurante de costume, percebeu o grupo do trabalho sentado à mesa de sempre. Acenou com a mão, enquanto passava pela fila do self-service. Um pouquinho de arroz, feijão, aquela saladinha no canto, um bom pedaço de carne e aquela montanha de farofa. Depois foi se sentar com seus sorridentes companheiros de labuta.

    A despeito das gargalhadas e dos vastos comentários sobre a devastadora vitória do time da maioria, Petrolino buscava manter o pensamento naquela iguaria diante dos seus olhos. Tentava sentir o gosto do arroz misturado ao feijão, do cabinho da alface esmagado pelos seus dentes, da carne malpassada que descia aos nacos pela goela. 

    Tudo parecia bem, até que o Júlio, certamemte o mais exaltado, começou a puxar um coro de chacota daquela goleada histórica, que, aos olhos de Petrolino, deveria ser esquecida. Com a boca que acabara de receber uma generosa garfada de farofa, ele se levantou e começou a soltar cobras e lagartos. Aquela chuva de farofa fez com que todos ficassem embasbacados, até que a Susana, talvez a mais ponderada da mesa, olhou para Petrolino e disse: "Moço, onde você foi com essa bicicleta sem freio?"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Petrolino e a derrota esmagadora do seu time" foi publicado pelo Notibras no dia 19/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/petrolino-sofre-com-goleada-esmagadora/

Dona Irene, eu, a estrada e o biscoito de polvilho

    Uma das coisas que a Dona Irene e eu amamos é pegar a estrada, quando, então, quase sempre, nos embrenhamos por caminhos outros além do destino. Isso torna nossas viagens mais longas, porém, muito mais divertidas, já que temos a oportunidade de visitar lugares que talvez nunca imaginaríamos conhecer. 

    Outra característica das nossas aventuras é que preferimos sair de madrugada, quando o silêncio do trânsito nos tira logo da cidade e nos coloca na estrada, muitas vezes tão escura, que, se desligássemos os faróis, não conseguiríamos enxergar nem um palmo à nossa frente. Esse ambiente, aparentemente assustador, nos conforta, pois ali estamos apenas nós dois, longe das preocupações do dia a dia.

   Enquanto enfrentamos cada quilômetro, bebemos aquele delicioso café na mesma xícara, que esquenta o friozinho na barriga. A minha mulher até se torna mais falante, me conta alguma piada ou uma história engraçada, o que me mantém alerta ao volante. Ela também me fala que daqui a tantos quilômetros passaremos por tal cidade, depois por aquela outra, e vamos indo, até que o majestoso astro rei lança seus primeiros raios. 

    É justamente nessa hora em que a Dona Irene gosta de dar uma esticada nas pernas e fazer seu dejejum. Pela manhã, ela costuma ter um apetite voraz, ao contrário de mim, que fico apenas no cafezinho. Aproveito para abastecer o carro e lavar o rosto. Depois vou ver como as coisas estão saindo com a minha esposa, quando quase sempre a encontro com um monte de pacotes de biscoito de polvilho. De tantos, mal consigo ver seu lindo rosto. Pego todas aquelas coisas, quase ao mesmo tempo em que ela me manda segurar uma garrafa grande de água. Ela paga tudo e voltamos para estrada.

    Não demora muito tempo, já ouço uns barulhinhos de algo sendo mastigado ao lado, enquanto a mão da minha mulher me empurra um biscoito de polvilho na boca. Tento resistir, digo que não quero, mas a Dona Irene não está nem aí para as minhas vontades e, então, acabo aceitando, quase de bom grado, aquele presente. Só um, digo, mas que nada. Ela vai me empurrando outro e mais outro e tantos mais, que nem sei como dizer não. E vamos nessa, às vezes necessitando de um bom gole d'água para fazer toda aquela massa descer goela abaixo. 

    Lá pelas tantas, a minha amada resolve colocar uma música e, com sua linda voz, canta com os lábios bem próximos aos meus ouvidos. Ela me tasca um beijo na bochecha e, com as duas mãos como se tivessem segurando um microfone, solta aqueles agudos que fariam até esses cantores de heavy metal ficarem enciumados. E vamos assim, até chegarmos ao destino ou a outro qualquer. Isso não importa, pois estamos juntos, seja aqui, ali ou acolá. Invariavelmente, o carro fica puro farelo. Mas nem ligamos!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene, eu, a estrada e o biscoito de polvilho" foi publicada por Notibras no dia 20/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/dona-irene-eu-a-estrada-e-o-biscoito-de-polvilho/


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O dom de Joaquim

  

    Joaquim, que não era bom na escola, que não era o craque nas peladas da rua, que tinha horror só de pensar que talvez um dia terminasse como seu pai, um reles ajudante de pedreiro, desde cedo fora embalado por sonhos grandiosos. De tão grandiosos, seu rosto, nem bonito nem feio, sempre carregava aquele sorriso deveras cativante, que encantava a todos, até mesmo a ranzinza Gertrudes, que resmungava inclusive da própria rabugice. 

  Sem qualquer talento aparente, Joaquim se deparou com aquele que supera todos os outros: a arte de enganar. Dessa forma, passou a aplicar pequenos golpes aqui, outros pouco mais elaborados ali, até que quase foi pego no flagra acolá, quando tentou tirar uma grana justamente da Gertrudes. Não que ela tenha percebido ou, se percebeu, pareceu não se importar, já que Joaquim lhe fazia a vez de benquisto nas noites solitárias. Todavia, Danilo, irmão de sangue da dita cuja, percebeu a intenção do moleque e, certo dia, o chamou para uma conversa no canto.

    Pastor de igreja, Danilo vivia viajando em seu velho Fusca pelas pequenas cidades da região, onde professava a mais santa palavra para as pobres almas perdidas. Entretanto, ao invés de reprimendas, Joaquim só ouviu elogios. Sim, isso mesmo! Efusiva admiração! 

    _ Você tem um dom, meu filho! E, por isso, você precisa agradecer ao Nosso Senhor Jesus Cristo!

    Joaquim, que a princípio não entendeu aquelas palavras, nem por isso deixou de apreciá-las. Afinal, ele tinha um dom, e esse havia sido um presente do próprio Jesus Cristo! Nada de mexer com tijolos e cimento! Sua vida seria bem diferente daquela sofrida diariamente pelo seu pai, que precisava labutar em eterna humilhação para conseguir o mínimo para não morrer de fome.

    O pastor Danilo passou a dedicar parte do seu tempo a ensinar as artimanhas do ofício a seu novo pupilo, que demonstrou um talento bem acima do esperado. Desse modo, logo nas semanas seguintes, lá estava o Joaquim, agora renomeado Pastor Richard, acompanhando o seu mestre. 

    As viagens prosseguiram, alcançaram cidades mais distantes, os fiéis se multiplicaram. E, logo que principiou o segundo ano de tanta correria, lá estava aquele agora homem feito, que há pouco esquentava os solitários lençóis da Gertrudes, sentado no banco de trás, enquanto o seu motorista particular conduzia aquele luxuoso automóvel pelas estradas. Tudo fruto daquele dom vindo diretamente lá de cima!

  • Nota de esclarecimento: O conto "O dom de Joaquim" foi publicado pelo Notibras no dia 17/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/don-juan-acha-caminho-da-fortuna-pregando/

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Tereza, Armandinho e o angu

   Adolescência é uma fase complicada para praticamente todos os mortais e, na verdade, não foi muito diferente para Tereza, pouco mais rechonchuda que a maioria, óculos fundo de garrafa, além das bochechas repletas de erupções conhecidas vulgarmente como espinhas. No entanto, a despeito de tais percalços, ela não tirava os olhos do Armandinho, que, caso desejasse ser ator, poderia facilmente interpretar qualquer galãzinho de seriado infantojuvenil.

    Veja você o que aconteceu certo dia! Pois lá estava a Tereza na festinha de formatura da turma, jogada num canto, como se tivesse sido esquecida ali. Ninguém a notava, muito menos o Armandinho, que recebia todos os olhares femininos, além de despertar a inveja nos rapazes. 

    Seja como for, pela primeira vez em toda sua existência, Tereza criou coragem para, finalmente, ir ao encontro ao seu amado. E foi! Foi mesmo, mas tudo aconteceu como o previsto por quase todos, menos pela pobre garota. Gente, que fora a Tereza levou! Além de caras e bocas, o Armandinho ainda foi cruel, como praticamente todo adolescente sabe ser.

    _ Se enxerga, cara de pipoca!

   Todos caíram na gargalhada, o que contribuiu ainda mais para aumentar o posto de herói da galera. Tanto é que esse foi o assunto do dia seguinte, da semana inteira, quase perdurante pelo restinho do ano. O trauma foi tão grande, que Tereza desejou sumir do mapa. Não necessariamente do mapa, mas daquela rua. Por sorte, acabou passando no vestibular e até mudou de cidade. 

   Os anos se passaram, levando consigo aquelas marcas terríveis da adolescência. Tereza, agora com seus pouco mais de 30 anos, havia montado sua própria empresa de construção civil. Transformara-se numa mulher muito bonita, ainda mais porque o dinheiro havia dado uma forcinha para a natureza. Tereza poderia ser chamada de mulher que para qualquer trânsito. Se bem que essa frase não é a mais apropriada para se dizer em São Paulo, onde ela morava, já que o trânsito por lá, de tão caótico, vive parado.

   Os dias corriam ligeiros na capital paulista, mas nem por isso Tereza deixava de curtir as noites de sexta-feira. Aliás, ela tinha até uma frase pronta para essas ocasiões: "Preciso desopilar o fígado!" E foi justamente numa dessas saídas, na casa de uma amiga, que ela acabou reencontrando sua paixonite dos tempos de escola. Tereza logo o reconheceu, já que não havia mudado tanto assim. Na verdade, ela pensou: "Não é que o filho da mãe está ainda mais bonito!"

    Tereza fez questão de ser notada pelo seu antigo colega de sala. E foi! Tanto é que foi ele quem se aproximou, como se fosse um caçador certo de que iria se dar muito bem diante daquela caça tão formosa. Trocaram olhares sorridentes. "Não me lembrava que esse cretino tinha dentes tão lindos", pensou Tereza. 

    Passaram a noite toda praticamente conversando a sós. Ele, obviamente, parecia não a reconhecer. Ela, por sua vez, não fez a menor questão que ele soubesse. E, já na hora dos últimos batimentos cardíacos da festa, o irresistível Armandinho pegou suavemente a delicada mão de Tereza, ao mesmo tempo em que lhe lançou aquele olhar penetrante.

    _ Quer esticar a noite no meu apartamento?

    _ Garoto, se você não aproveitou quando o angu estava quente, agora é que não dá mesmo!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Tereza, Armandinho e o angu" foi publicado pelo Notibras no dia 06/06/2023. Por solicitação da redação do jornal, o texto foi adaptado para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/armandinho-querido-angu-se-come-quente/

terça-feira, 27 de setembro de 2022

José, Pedro e o mar

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   Dizem que essa história aconteceu nos anos 1960. E, segundo me foi contada, ocorreu no Rio de Janeiro, que havia perdido o posto de capital para Brasília. Seja como for, lá estavam aqueles dois amigos conversando sobre as grandes oportunidades na nova cidade cercada por todos os lados de Goiás e mais Goiás, além de um tiquinho de Minas Gerais. 

  José queria porque queria se mudar para Brasília, enquanto Pedro cismava em manter os pés bem fincados na Cidade Maravilhosa. Essa conversa se arrastou por mais de ano, até que o amigo aventureiro fez uma proposta irrecusável. 

  _ Pedro, consegui emprego pra nós dois em Brasília. Vamos ganhar o triplo e ainda vão dar um terreno pra cada um de nós.

  _ Vou não!

  _ Mas por que não, homem de Deus?

  _ Lá não tem mar. Sou pescador, gosto de jogar tarrafa! 

  • Nota de esclarecimento: O conto "José, Pedro e o mar" foi publicado por Notibras no dia 20/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/emprego-fica-na-vontade-porque-brasilia-nao-tem-mar/

A menina, o velho e os ratos

    A menina era tão aficionada pelo avô, que chegava a largar o aparelho celular por alguns instantes, enquanto o velho contava infinitas histórias sobre os tempos antigos. E, de tão antigos, ela chegava a duvidar, por um momento, que esses idos realmente pudessem ter existido. No entanto, isso não era motivo para que ela não continuasse mantendo aqueles olhos enormes fascinados pelo dono daquele rosto incrivelmente enrugado.

    De todas modernidades daquele tempo tão distante, o velho enaltecia o rádio. Pois é, o rádio! Era justamente através dele que as notícias chegavam. Ouvidos de todas as classes sociais grudados naquela caixinha falante. A menina tentava imaginar o cenário, mas não conseguia entender como é que todos sobreviviam sem os avanços tecnológicos dos últimos anos. 

    _ Vô, mas como é que as pessoas conseguiam viver sem internet? Vocês não sentiam falta?

    _ Que nada! Era uma vida muito boa! A gente saía chutando ratos pelas ruas. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A menina, o velho e os ratos" foi publicado por Notibras no dia 29/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/quem-nao-tem-cao-nem-internet-chuta-ratos/

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Minha madrinha, Elvis e eu

   Essa história que vou lhe contar aconteceu logo após um acidente automobilístico que sofri no longínquo ano de 1996 na avenida Brasil, no Rio. Para ser mais exato, o fato ocorreu no dia 16 de agosto daquele ano. Como resultado, quebrei os dois braços, a perna direita, o nariz, mandíbula e maxilar, além de ter perdido um pedacinho da parte lateral da língua. Quanto ao carro, foi direto para o ferro velho. 

    Pois bem, lá estava eu no hospital, todo remendado, com gessos espalhados pelo corpo. Meus queridos padrinhos, a Marilda e o Celso, foram me fazer uma visita. Eles pareciam aflitos, ainda mais ela, que sempre foi extremamente carinhosa comigo. Então, aqueles mimos estavam levantando meu ânimo, até que a Marilda solta essa.

    _ Meu filho, olha que coisa legal!

    Eu, que quase não conseguia pronunciar um ai, tamanha a dor que ainda sentia por conta das fraturas, apenas olhei para o sorriso da minha madrinha, que emendou essa.

    _ Você bateu de carro no mesmo dia em que o Elvis desencarnou.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Minha madrinha, Elvis e eu" foi publicada pelo Notibras no dia 16/08/2023.
  • https://www.notibras.com/site/acidente-com-velho-carro-tem-fraturas-e-corta-lingua/?

As aventuras do tio Biba

 

    Ubiratan Rocha era um desses tipos austeros, que passam facilmente a ideia de ilibação total. Todos o tinham em mais alta consideração, ainda mais porque, pelo menos nos últimos quase 30 anos, Ubiratan tenha sido visto praticamente apenas de terno de linho fino, sempre impecável, com esmero até na hora de manter os vincos. 

    Do alto do seu quase 1,90 m, lá vinha o Ubiratan, que nas festas da família sempre era visto com certa admiração até pelos mais novos. Afinal, ele, que era carinhosamente conhecido como tio Biba, sempre trazia nos bolsos do paletó guloseimas, que eram disputadas quase a tapas pelas crianças. Era uma loucura aquela situação, como se fossem piranhas querendo cada qual seu naco. 

    Pedrinho, talvez o sobrinho mais curioso daquela trupe devoradora de doces, sempre quis seguir os passos, aparentemente gloriosos, do tio Biba. Pois é, ele também desejava ser aviador. Não um simples piloto, mas um como o seu herói, que, segundo rezava as vastas histórias, já tivera seu próprio avião durante a juventude. 

    De todas as histórias que havia escutado, a que mais gostava era sobre as inúmeras viagens que o tio Biba havia feito para os Estados Unidos desde o início dos anos 1970 até meados dos 1990.  Isso até que, certo dia, quando o Pedrinho cresceu e, finalmente, teve uma conversa mais aprofundada com o pai sobre o tio Biba.

    _ Pai, me conta mais sobre as aventuras do tio Biba.

    _ O que você quer saber?

    _ Fale sobre as viagens que ele fazia para os Estados Unidos.

    _ Ah, tá! Nesse tempo, o tio Biba fazia até quatro viagens por mês para a terra do tio Sam.

    _ Tudo isso? 

    _ Sim! É que nessa época ele contrabandeava aves daqui para lá - finalmente contou o pai, que logo percebeu os olhos de total incredulidade do filho. Antes o segredo não tivesse sido revelado.

  • Nota de esclarecimento: O conto "As aventuras do tio Biba" foi publicado pelo Notibras no dia 31/05/2023.
  • https://www.notibras.com/site/aventuras-do-tio-biba-eram-contrabando-de-aves/

Honório e Hilário, os irmãos sovinas

    Honório era homem de negócios, vivia atribulado, pois não conseguia deixar de pensar no que seria o próximo dia, já que a situação do país, como de costume, não andava promissora. Seu irmão, Hilário, apesar de toda austeridade quase idêntica, parecia levar uma vida pouco mais suave. Tal suavidade, no entanto, parecia, de certa maneira, total desregramento aos olhos do Honório.

   Enquanto o Honório contava os centavos, apenas as somas pouco mais significativas pareciam interessar o Hilário. Não que este fosse pródigo, mas tentava olhar o mundo como algo onde também existissem momentos para certa luxúria, como, por exemplo, enamorar-se por um belo par de pernas de vez em quando. E, apesar dessa ínfima desavença, os dois se davam muito bem, desde que os lucros auferidos no mês vigente fossem maiores que os do anterior. 

    Certo dia, lá estava o Hilário conferindo os ganhos do dia. As cédulas eram colocadas de um lado, as moedas, que já não eram tantas, permaneciam espalhadas do outro. Tudo dentro dos conformes, como diriam alguns, até que o Honório, todo ressabiado, chegou.

    _ O que você está fazendo com o nosso dinheiro?

    _ Ué, estou contando.

    _ Hum...

    _ O que deu em você? Não confia em mim?

    _ Hilário, meu irmão, confio apenas nos meus dentes e, mesmo assim, eles me mordem a língua.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Honório e Hilário, os irmãos sovinas" foi publicada pelo Notibras no dia 12/02/2023. A pedido da redação do jornal, o texto sofreu leve alteração para que se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/honorio-e-hilario-os-irmaos-sovinas-do-recanto/

Nazinha, a minha primeira chefe no Banco do Brasil

   Trabalhei no Banco do Brasil por quase duas décadas, sendo que tomei posse em uma agência em Copacabana. Foi lá que tive o prazer de conhecer uma das pessoas mais divertidas, a Maria de Nazareth de Paula, ou simplesmente Nazinha. 

    Todos que trabalhávamos com a Nazinha sentávamos em mesas justapostas, sendo que ela se ficava na cabeceira. Um enorme cinzeiro, cuidadosamente colocado à frente da minha chefe, recebia várias pontas de cigarro durante o expediente. Isso foi bem antes da lei que proibia fumar em ambientes fechados. E, se isso parece um absurdo hoje em dia, na época era extremamente natural. 

    A Nazinha era a nossa gerente de equipe, assim como também existiam outros que também faziam função similar em outros ambientes da agência. Além desses cargos de chefia, havia o de gerente geral, que era exercido pelo Vasco. Este, de vez em quando, se dirigia até a nossa sala e conversava com a minha chefe, que geralmente era consultada para resolver algum problema. 

  Ela, apesar de possuir uma posição hierárquica inferior, parecia conhecer mais sobre todo o funcionamento da agência. Assim, a Nazinha, quase sempre, atendia o Vasco com urbanidade, mas nem sempre. É que, de vez em quando, ela estava abarrotada de serviço e, então, falava: "Vasco, não me enche o saco agora!" Ele, invariavelmente, retornava cabisbaixo para sua sala.

    Essa situação me deixava de olhos arregalados e, certa vez, ousei questionar a minha chefe.

    _ Nazinha, por que você fala assim com o Vasco? Ele é o gerente geral! 

    _ Dudu, eu brigo apenas com quem eu gosto!

    _ Ah, então, você me ama!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Nazinha, a minha primeira chefe no Banco do Brasil" foi publicada por Notibras no dia 11/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/nazinha-a-chefe-que-brigava-com-quem-amava/

sábado, 17 de setembro de 2022

Ambrósio, o Rambo brasileiro

    Dizem que essa história aconteceu durante um curso de sobrevivência ministrado em uma certa polícia civil brasileira. Pois bem, não sei se isso realmente aconteceu da forma que irei contar, mas imagino que a minha versão seja bem mais interessante que a do suposto acontecimento. Isto é, se isso tenha mesmo acontecido, o que não duvido nem um pingo, bem como também não acredito em outro tanto. 

    Seja como for, o professor se chamava Ambrósio da Silva Pinto, mas todos o conheciam como Stallone. Isso mesmo! Stallone!!! Tudo porque, desde que havia assistido ao filme "Rambo - Programado para matar", Ambrósio se identificou tanto com o tal herói, que fez de tudo para que todos o passassem a chamar de Stallone, sobrenome do astro Sylvester. De tanto insistir, conseguiu o seu intento. 

    Mas voltemos ao curso. Lá estava o Ambrósio, ou melhor, o Stallone, reiniciando a aula depois de um intervalo. Todos os alunos, uns 30, sentados ao redor. Tudo parecia bem, até que o professor observou uma aluna, a Roberta, com um copinho de café. Ríspido, Stallone logo a repreendeu.

    _ Pessoas morreram por isso, senhora Roberta! Pessoas morreram!!!

    A mulher não conseguiu captar por todo aquela bronca. Afinal, qual era o problema de se tomar um cafezinho enquanto prestava atenção à aula? No entanto, o professor, ainda não satisfeito com a situação, continuou.

    _ Turma, vamos esperar que a senhora Roberta acabe de tomar o café!

    Entretanto, ela não se deu por vencida e continuou a bebericar cada gole com gosto de vitória sobre o truculento professor. Stallone, esbaforindo de raiva, se sentiu afrontado por aquela quase garota magrela. Todos os alunos, olhos arregalados, torciam pelo desfecho daquela contenda, até que o Santana bocejou uma bocejada maior até do que a sua barriga tão proeminente. 

    _ Boceja de boca fechada, Santana! - Stallone repreendeu o soneca da turma.

    Tudo parecia resolvido, até porque a Roberta já havia terminado o seu café. Todavia, Stallone, não querendo ficar por baixo, insistiu.

    _ Já posso retomar a aula, senhora Roberta?

    _ Professor, não sei se já te falaram, mas o Vietcongue deu uma baita duma surra no Rambo.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Ambrósio, o Rambo brasileiro" foi publicado pelo Notibras no dia 13/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/professor-machao-cai-ao-ouvir-sobre-vietcongues/

sábado, 10 de setembro de 2022

O mundo lá fora

A filha e o pai, apesar de morarem no mesmo apartamento, já não se viam há dias. Não que eles tivessem brigado, mas simplesmente os horários não eram compatíveis com encontros rotineiros. Ela, sempre ocupada com as coisas do trabalho, tentava resolver tudo pelo aparelho celular ou, no máximo, pelo computador, que parecia sempre ligado. O pai, no entanto, apesar de acordar bem cedo, demorava mais de hora na cama, talvez pensando nas coisas que não teve coragem de fazer até então.  

            Naquele domingo, entretanto, os dois se esbarraram na cozinha. O pai, com aquela mesma xícara de café na mão, olhou para os grandes olhos da filha. Aqueles cílios negros pareciam espantados com a fisionomia desgastada à sua frente. Ela levou um tempo para perceber que era aquele mesmo homem que, há poucas décadas, a levava nos ombros para a praia, logo ali. Trocaram um quase sorriso. 

            — Quer? - o pai ofereceu a xícara.

             Os dois sentaram à mesa. Tomaram o café num silêncio quase soturno, se não fossem os raros tilintares das xícaras com os pires. Nenhuma palavra, enquanto o pai observava a ânsia da filha em digitar cada vez mais rápido no minúsculo teclado do aparelho celular. Ele chegou a pensar como é que ela conseguia fazer aquilo com tanta habilidade. Todavia, um estrondo, vindo lá debaixo da rua, os tirou do aparente transe. 

            Já na janela, pai e filha observavam o formigueiro de gente curiosa. Um acidente de carro, aparentemente sem vítimas. Vozes, vozes, vozes! Nada que pudesse ser realmente distinguível para os dois no parapeito lá em cima do edifício. Trocaram olhares, como há muito não faziam. Não precisaram balbuciar palavras. Abriram a porta do apartamento, pegaram o elevador e desceram. Passaram pela multidão, como se ela não existisse. De mãos dadas, rumaram para a praia, aquela mesma praia, que continuava ali perto, talvez saudosa daqueles dois. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "O mundo lá fora" foi publicada pelo Notibras no dia 19/1/2023. Por solicitação da redação do jornal, o texto original foi alterado para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/saudades-da-prainha-reaproxima-pai-e-filha/
  • "O mundo lá fora" também foi publicado na Coletânea de Cronistas Contemporâneos 2023 pela editora Persona.
  • O conto "O mundo lá fora" faz parte da Antologia "Metamorfose: poesia e evolução", do Projeto Quatro Amigas (@quatroamigas), 2023.
  • O conto "O mundo lá fora" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 13/5/2026.
  • https://jornalrol.com.br/?p=80789

domingo, 28 de agosto de 2022

O velho, o café e o mendigo

    O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

    Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

    Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

    O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

    Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

  Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

    A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: "Peço a Deus que estique o tempo do senhor!"

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ibrahim Sued e a minha juventude

    Aqueles que me conhecem sabem que eu trabalhei no Banco do Brasil durante 17 anos, sendo que tomei posse numa antiga agência chamada Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Pois foi justamente nessa minha primeira lotação que passei a atender o Ibrahim Sued, que foi praticamente o inventor da antes badalada coluna social. 

    O cara era grandão, passadas largas, sorriso fácil. Os cabelos azulados, os olhos maiores que a própria face. Ele, como de costume, sempre ia ao banco após a agência estar fechada. Afinal,  alguns clientes possuem certas regalias. E, muitas vezes, eu o recebia, pois, nesse tempo, era um dos últimos funcionários a ir embora. 

    De tanto atender o Ibrahim, acabou havendo uma intimidade pouco além da normalmente existente entre clientes que se dirigem a um banco e os funcionários. Tanto é que, não raro, ele me contava sobre algumas perspectivas da própria existência. De todas essas conversas, uma em especial me marcou.

    _ Dudu, a velhice é uma merda!

    _ Que isso! Você está muito bem!

    _ Que nada! Tá tudo caído por aqui! 

    Eu apenas o observava, talvez sorrindo, enquanto ele prosseguia.

    _ Dudu, você sabe que eu tenho muita grana, né?

    _ É, sei sim. 

    _ Pois é, Dudu, se eu pudesse, trocaria toda essa grana pela sua juventude.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Ibrahim Sued e a minha juventude" foi publicada por Notibras no dia 30/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/ibrahim-teve-quase-tudo-menos-vida-de-mathuzalem/

    

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

O ex-marido, o amante e os biscoitos

 

          Cardoso, apesar de separado há mais de dois anos de Laura, havia se comprometido a pagar o aluguel dela. Não por bondade, diga-se de passagem, mas por culpa. Sim, isso mesmo! Culpa! Pura culpa! É que, enquanto casados, ela o pegou a plenos pulmões sobre Luana, a vizinha de não mais que duas dezenas de primaveras. 

         Por coincidência ou não, Laura arrumou um quarto e sala bem em frente ao armarinho de Cardoso. De tão em frente que bastava um pequeno levantar de olhos do homem para avistar o lar da sua ex-esposa, que, de vez em quando, cismava em deixar as cortinas escancaradas. Talvez por economia, já que todos no bairro reclamavam do aviltante preço da energia elétrica. 

          Certo dia, lá estava o Cardoso recostado na parede externa da loja, coçando sua barriga saliente de um típico quarentão. De vez em quando, passava uma ou outra anca que despertava seu sorriso de cobiça, mas, talvez tomado pela mesma culpa que o obrigava a bancar o aluguel de Laura, ele tentava se recompor e, sem se preocupar com qualquer discrição, voltava o olhar para a janela do outro lado da rua. E foi justamente nesse instante que ele deu de cara com Laura sendo sufocada por um beijo voluptuoso do Gilmar, que nada mais era do que o rapazola que trabalhava na sorveteria ao lado. 

          Um grito de horror escapuliu das profundezas da garganta de Cardoso, enquanto ele tentava empurrar o próprio corpo até o outro lado da rua. Algumas pessoas que passavam se assustaram, enquanto outras direcionaram seus olhos curiosos para a indiscrição dos pombinhos, que ainda se mostravam alheios à fúria do comerciante. 

          O dedo insistente do Cardoso não parava de apertar o botão do interfone do apartamento 101. Isso, aliás, foi o que fez com que aquelas duas línguas dessem trégua naquela batalha sem fim e, então, Laura foi ver quem era. Não fazia ideia e, toda saltitante, foi atender o chamado desesperado.

          — Alô!?

          — Laura, abra essa porcaria agora!

          — Cardoso, o que você quer?

          — Abra logo essa droga! 

          — Olha que vou chamar a polícia!

          No entanto, antes que essa conversa pudesse dar frutos adocicados, Cardoso jogou o corpanzil sobre a porta, que não resistiu. Esbaforido, ele subiu as escadas, enquanto, lá no apartamento, o franzino Gilmar abotoava as calças, ao mesmo tempo em que avaliava se valia a pena tentar uma fuga nada honrosa pela janela. Todavia, logo foi convencido pelas insistentes batidas na porta do apartamento e, dessa forma, preferiu o voo de não mais que três metros à surra que, certamente, o aguardava. 

          Laura gritava sem saber se por causa das violentas batidas na sua porta ou, talvez, pela fuga cinematográfica do Gilmar. Aliás, uma fuga em que ele era não apenas o astro do filme, mas também o próprio dublê. Ela correu até a janela, quando viu que o amado havia sido algemado por Santana, policial da delegacia do bairro. O agente da lei, sem estar a par da situação, supôs que o amante era, na verdade, um gatuno. O policial conduziu bravamente o suposto larápio para a delegacia, onde o apresentou, quase de imediato, ao delegado.

          Sentado à ampla mesa na sala quase gélida por conta do ar condicionado localizado na parede ao lado, o delegado pegou um dos biscoitos amanteigados que havia recebido como agrado do dono da padaria da esquina. Entretanto, antes que pudesse levá-lo à boca, ouviu uma gritaria sem fim vinda do balcão da delegacia. Santana e o delegado foram ver o motivo de tanto escândalo, quando constataram que se tratava do ex-casal Laura e Cardoso, que já era bem conhecido daquele ambiente tão acostumado a registrar crimes. 

          Enquanto a autoridade policial tentava entender o porquê do escândalo, Gilmar, que havia ficado na sala do delegado, apesar de algemado, se levantou e foi até a caixa de biscoitos. Debruçou-se sobre ela e começou a degustar aquela iguaria. Comeu todos, já que precisava recompor as energias gastas nos longos e apaixonados beijos e, principalmente, pela fuga digna do Zorro. E, assim que ouviu os sapatos estalando no chão frio do corredor, recompôs-se, cinicamente, na cadeira, como se nada tivesse acontecido.

          Era o Santana, que havia sido ordenado soltar o suposto gatuno, que, agora, todos sabiam, era nada mais do que o novo amor da Laura. O policial, sem dizer nem uma palavra sequer, retirou as algemas dos pulsos do quase adolescente Gilmar. Em seguida, ordenou:

          — Pode ir embora!

          O rapaz nem se deu ao trabalho de perguntar alguma coisa. Tratou logo de sair daquele ambiente e, ao passar pela entrada da delegacia, quase foi agredido por Cardoso, que teve que ser contido por outros policiais. Em seguida, o delegado voltou para sua sala, onde flagrou o Santana, com as pontas dos dedos embebidas em saliva, tentando buscar as migalhas que ainda restavam na caixa de biscoitos amanteigados. 

          — Santana, que droga é essa? Além de prender o cara errado, você ainda acabou com todos os meus biscoitos!

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Ninica e minha vida corrida

 

    Houve um tempo em que a minha vida era tanta correria, que a última coisa que eu conseguia desfrutar era um dia de descanso. Nessa época, eu fazia medicina veterinária na Rural (UFRRJ) durante o dia inteiro, de onde corria direto pro Banco do Brasil. Saía do trabalho quando a madrugada já não era nenhuma menina e, então, ia pra casa, onde mal conseguia tirar uma ou duas horas de sono, pois precisava correr de volta pra assistir às aulas. 

    Quando chegava sexta-feira, já sabia que seria o último dia de estudo e trabalho, mesmo que tudo fosse se repetir na semana seguinte. Isso, aliás, me trazia uma sensação de bem-estar, como se meu corpo já estivesse programado para desligar disso tudo para, assim que chegasse ao lar, doce lar, pudesse tomar um banho e me esparramar na cama, sem hora pra acordar. Que sensação maravilhosa era aquela!

    Pois bem, lá estava eu sonhando os sonhos mais lindos, quando, depois de um tempo, percebo alguém sobre meu peito, que não parava de futucar meu nariz. Ainda cismo em tentar não dar atenção para aquilo, já que os meus sonhos pareciam muito mais aconchegantes. Todavia, aqueles insistentes dedos miúdos não me davam trégua. 

    Finalmente abro os olhos e, então, a primeira coisa que vejo é o sorriso de poucos dentes da minha filha, a Ninica, que, no auge dos seus quase dois anos, diz eufórica: "Acordou! Vamos à praia?"

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Filho da ninhada

 

    Já mencionei que fui funcionário do Banco do Brasil por quase 17 anos, onde conheci algumas das figuras mais engraçadas. Uma dessas foi o Braga, vulgo Piu-Piu, que inclusive foi homenageado em meu primeiro romance, "Despido de ilusões". Nessa época, apesar de não trabalharmos na mesma equipe, ficávamos sentados praticamente um em frente ao outro. Por isso, não eram raros os momentos de descontração.

    Certo dia, lá estava o Braga tentando explicar algo para o Rodrigo, que era um estagiário recém chegado. Apesar de novo no setor, logo se formou uma forte interação entre os dois, que viviam fazendo piada um com o outro. Todavia, nem sempre eu prestava atenção nas tretas deles, mesmo porque o meu trabalho envolvia algumas contas, que, apesar de não muito complexas, necessitava de certa concentração. De repente, o Braga aumenta um pouco o tom da voz.

    _ Rodrigo, presta atenção, moleque doido! Já te expliquei isso três vezes!

    _ Tô prestando, Braga! Já peguei o filho da ninhada.

    _ O quê? 

    _ Filho da ninhada! Ou vai me dizer que você não sabe o que é isso, mané?

    O Braga soltou aquela sonora gargalhada, ao mesmo tempo em que olhou pra mim.

    _ Viu essa, Dudu? Filho da ninhada!!! 

    Apenas sorri, enquanto os dois se engalfinhavam, mas sem perderem a esportiva. Só me lembro que depois os dois se levantaram e foram tomar café na cantina. A última coisa que ouvi foi o Braga, quase gritando, falando:

    _ Rodrigo, é fio da meada!!!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Filho da ninhada" foi publicada por Notibras no dia 13/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pintinho-novo-no-bb-confunde-coletivo-de-papeis/

domingo, 24 de julho de 2022

Triste fim da vaca de um chifre

   Já escrevi uma história que aconteceu comigo nos meus longínquos tempos de estudante de medicina veterinária lá na Rural (UFRRJ), quando fui até Piraí/RJ na fazenda da mãe do meu amigo Almeidinha para retirar o chifre (na verdade, todos os bovídeos possuem cornos) quebrado de uma vaca, e ela acabou ficando com apenas um. Pois bem, recentemente, passeando pelo Mercado Público aqui em Porto Alegre, parece que acabei encontrando a dita cuja, ou melhor, a sua cabeça pendurada em uma fachada de uma das lojas.

   A princípio, nem notei, pois sou meio distraído. Mas a minha mulher (a maravilhosa Dona Irene) me cutucou no braço e disse: "Dudu, aquela ali pendurada não é a tal vaca que você deixou com apenas um chifre?" Quase caí pra trás com a surpresa e, confesso, profunda tristeza, pois sempre imaginei que a minha primeira paciente vaca teria tido um destino mais feliz.  

  Imediatamente liguei para o Almeidinha, que me disse que a vaca de um chifre havia falecido de causas naturais há alguns anos. Ela tinha sido enterrada em uma enorme cova na propriedade. Todavia, após alguns dias, o próprio Almeidinha, cavalgando pela área, constatou que alguém ou alguma coisa havia mexido no jazigo. Ele, segundo suas próprias palavras, quase caiu do cavalo, já que percebeu que o corpo em decomposição estava lá, mas uma parte não: justamente a cabeça. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Triste fim da vaca de um chifre" foi publicada pelo Notibras no dia 14/09/2023.
  • https://www.notibras.com/site/morreu-que-triste-fim-morreu-com-so-um-chifrim/