domingo, 28 de agosto de 2022

O velho, o café e o mendigo

    O velho, cheio de dores, levantou mais cedo do que de costume. Não que não preferisse continuar na cama entregue aos sonhos, já que os pesadelos que o acompanham nos últimos tempos eram demais até mesmo para alguém que já passava dos 80. No entanto, a insistente dor nas costas não o permitia se manter deitado por mais que algumas horas.

    Acordou, olhou para o quarto vazio, o mesmo quarto onde dividira com Beatriz por mais de meio século. Brigas, logicamente, tiveram, mas não que o velho se recordasse exatamente de alguma. Talvez, uma em que a falecida tenha insistido tanto para que os dois fossem ao batizado do primeiro bisneto. Justamente no mesmo dia em que o Vasco decidia uma final de campeonato. 

    Foram e, durante a missa, o velho se mostrou extremamente ansioso para que tudo aquilo acabasse rapidamente para, então, poder voltar para casa. Demorou muito mais que o previsto e, ao retornarem, percebeu vários torcedores com a camisa do Gigante da Colina festejando. Frustração por não ter visto o jogo, mas um alívio pela conquista de mais um título.

    O velho arrastou seu corpo até a cozinha, onde ainda dava para sentir o suave perfume de Beatriz. Respirou aquele aroma e, apesar da lágrima que escorreu pelo canto do olho, pegou o pote de café, ainda da mesma marca que a esposa apreciava. Ele nem sabia se aquela era a melhor, já que quase nunca havia experimentado outra. Na verdade, não se recordava ou, possivelmente, não queria trair a memória da sua mulher. 

    Frustrado, o velho constatou que o café havia praticamente desaparecido do pote. Nem mesmo uma colherzinha, o que o obrigava a caminhar até o mercado da esquina para comprar mais. Com a roupa amarrotada, os cabelos desgrenhados, tratou apenas de calçar o chinelo e pegar o dinheiro sobre a mesinha de canto. 

  Já na rua, o velho praguejava silenciosamente, enquanto inúmeros transeuntes passavam quase esbarrando naquele corpo senil. Entrou e saiu do mercado sem se dar conta nem mesmo do preço, já que isso não importava, pois sempre levava a mesma marca. Pensou até em comprar dois pacotes, mas isso o faria cativo no apartamento pelo dobro do tempo. Levou apenas um, como sempre tinha feito por tantos e tantos anos.

    A sacola de plástico balançava conforme os passos capengas das frágeis pernas. O velho observou um ônibus vindo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Pensou em se jogar na frente e acabar com tudo aquilo, mas não teve coragem. Observou um mendigo com a mão esticada e, talvez por impulso, despejou algumas pobres moedas. E, antes que pudesse se livrar daquela situação, ouviu a voz do maltrapilho: "Peço a Deus que estique o tempo do senhor!"

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ibrahim Sued e a minha juventude

    Aqueles que me conhecem sabem que eu trabalhei no Banco do Brasil durante 17 anos, sendo que tomei posse numa antiga agência chamada Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Pois foi justamente nessa minha primeira lotação que passei a atender o Ibrahim Sued, que foi praticamente o inventor da antes badalada coluna social. 

    O cara era grandão, passadas largas, sorriso fácil. Os cabelos azulados, os olhos maiores que a própria face. Ele, como de costume, sempre ia ao banco após a agência estar fechada. Afinal,  alguns clientes possuem certas regalias. E, muitas vezes, eu o recebia, pois, nesse tempo, era um dos últimos funcionários a ir embora. 

    De tanto atender o Ibrahim, acabou havendo uma intimidade pouco além da normalmente existente entre clientes que se dirigem a um banco e os funcionários. Tanto é que, não raro, ele me contava sobre algumas perspectivas da própria existência. De todas essas conversas, uma em especial me marcou.

    _ Dudu, a velhice é uma merda!

    _ Que isso! Você está muito bem!

    _ Que nada! Tá tudo caído por aqui! 

    Eu apenas o observava, talvez sorrindo, enquanto ele prosseguia.

    _ Dudu, você sabe que eu tenho muita grana, né?

    _ É, sei sim. 

    _ Pois é, Dudu, se eu pudesse, trocaria toda essa grana pela sua juventude.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Ibrahim Sued e a minha juventude" foi publicada por Notibras no dia 30/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/ibrahim-teve-quase-tudo-menos-vida-de-mathuzalem/

    

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

O ex-marido, o amante e os biscoitos

 

          Cardoso, apesar de separado há mais de dois anos de Laura, havia se comprometido a pagar o aluguel dela. Não por bondade, diga-se de passagem, mas por culpa. Sim, isso mesmo! Culpa! Pura culpa! É que, enquanto casados, ela o pegou a plenos pulmões sobre Luana, a vizinha de não mais que duas dezenas de primaveras. 

         Por coincidência ou não, Laura arrumou um quarto e sala bem em frente ao armarinho de Cardoso. De tão em frente que bastava um pequeno levantar de olhos do homem para avistar o lar da sua ex-esposa, que, de vez em quando, cismava em deixar as cortinas escancaradas. Talvez por economia, já que todos no bairro reclamavam do aviltante preço da energia elétrica. 

          Certo dia, lá estava o Cardoso recostado na parede externa da loja, coçando sua barriga saliente de um típico quarentão. De vez em quando, passava uma ou outra anca que despertava seu sorriso de cobiça, mas, talvez tomado pela mesma culpa que o obrigava a bancar o aluguel de Laura, ele tentava se recompor e, sem se preocupar com qualquer discrição, voltava o olhar para a janela do outro lado da rua. E foi justamente nesse instante que ele deu de cara com Laura sendo sufocada por um beijo voluptuoso do Gilmar, que nada mais era do que o rapazola que trabalhava na sorveteria ao lado. 

          Um grito de horror escapuliu das profundezas da garganta de Cardoso, enquanto ele tentava empurrar o próprio corpo até o outro lado da rua. Algumas pessoas que passavam se assustaram, enquanto outras direcionaram seus olhos curiosos para a indiscrição dos pombinhos, que ainda se mostravam alheios à fúria do comerciante. 

          O dedo insistente do Cardoso não parava de apertar o botão do interfone do apartamento 101. Isso, aliás, foi o que fez com que aquelas duas línguas dessem trégua naquela batalha sem fim e, então, Laura foi ver quem era. Não fazia ideia e, toda saltitante, foi atender o chamado desesperado.

          — Alô!?

          — Laura, abra essa porcaria agora!

          — Cardoso, o que você quer?

          — Abra logo essa droga! 

          — Olha que vou chamar a polícia!

          No entanto, antes que essa conversa pudesse dar frutos adocicados, Cardoso jogou o corpanzil sobre a porta, que não resistiu. Esbaforido, ele subiu as escadas, enquanto, lá no apartamento, o franzino Gilmar abotoava as calças, ao mesmo tempo em que avaliava se valia a pena tentar uma fuga nada honrosa pela janela. Todavia, logo foi convencido pelas insistentes batidas na porta do apartamento e, dessa forma, preferiu o voo de não mais que três metros à surra que, certamente, o aguardava. 

          Laura gritava sem saber se por causa das violentas batidas na sua porta ou, talvez, pela fuga cinematográfica do Gilmar. Aliás, uma fuga em que ele era não apenas o astro do filme, mas também o próprio dublê. Ela correu até a janela, quando viu que o amado havia sido algemado por Santana, policial da delegacia do bairro. O agente da lei, sem estar a par da situação, supôs que o amante era, na verdade, um gatuno. O policial conduziu bravamente o suposto larápio para a delegacia, onde o apresentou, quase de imediato, ao delegado.

          Sentado à ampla mesa na sala quase gélida por conta do ar condicionado localizado na parede ao lado, o delegado pegou um dos biscoitos amanteigados que havia recebido como agrado do dono da padaria da esquina. Entretanto, antes que pudesse levá-lo à boca, ouviu uma gritaria sem fim vinda do balcão da delegacia. Santana e o delegado foram ver o motivo de tanto escândalo, quando constataram que se tratava do ex-casal Laura e Cardoso, que já era bem conhecido daquele ambiente tão acostumado a registrar crimes. 

          Enquanto a autoridade policial tentava entender o porquê do escândalo, Gilmar, que havia ficado na sala do delegado, apesar de algemado, se levantou e foi até a caixa de biscoitos. Debruçou-se sobre ela e começou a degustar aquela iguaria. Comeu todos, já que precisava recompor as energias gastas nos longos e apaixonados beijos e, principalmente, pela fuga digna do Zorro. E, assim que ouviu os sapatos estalando no chão frio do corredor, recompôs-se, cinicamente, na cadeira, como se nada tivesse acontecido.

          Era o Santana, que havia sido ordenado soltar o suposto gatuno, que, agora, todos sabiam, era nada mais do que o novo amor da Laura. O policial, sem dizer nem uma palavra sequer, retirou as algemas dos pulsos do quase adolescente Gilmar. Em seguida, ordenou:

          — Pode ir embora!

          O rapaz nem se deu ao trabalho de perguntar alguma coisa. Tratou logo de sair daquele ambiente e, ao passar pela entrada da delegacia, quase foi agredido por Cardoso, que teve que ser contido por outros policiais. Em seguida, o delegado voltou para sua sala, onde flagrou o Santana, com as pontas dos dedos embebidas em saliva, tentando buscar as migalhas que ainda restavam na caixa de biscoitos amanteigados. 

          — Santana, que droga é essa? Além de prender o cara errado, você ainda acabou com todos os meus biscoitos!

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Ninica e minha vida corrida

 

    Houve um tempo em que a minha vida era tanta correria, que a última coisa que eu conseguia desfrutar era um dia de descanso. Nessa época, eu fazia medicina veterinária na Rural (UFRRJ) durante o dia inteiro, de onde corria direto pro Banco do Brasil. Saía do trabalho quando a madrugada já não era nenhuma menina e, então, ia pra casa, onde mal conseguia tirar uma ou duas horas de sono, pois precisava correr de volta pra assistir às aulas. 

    Quando chegava sexta-feira, já sabia que seria o último dia de estudo e trabalho, mesmo que tudo fosse se repetir na semana seguinte. Isso, aliás, me trazia uma sensação de bem-estar, como se meu corpo já estivesse programado para desligar disso tudo para, assim que chegasse ao lar, doce lar, pudesse tomar um banho e me esparramar na cama, sem hora pra acordar. Que sensação maravilhosa era aquela!

    Pois bem, lá estava eu sonhando os sonhos mais lindos, quando, depois de um tempo, percebo alguém sobre meu peito, que não parava de futucar meu nariz. Ainda cismo em tentar não dar atenção para aquilo, já que os meus sonhos pareciam muito mais aconchegantes. Todavia, aqueles insistentes dedos miúdos não me davam trégua. 

    Finalmente abro os olhos e, então, a primeira coisa que vejo é o sorriso de poucos dentes da minha filha, a Ninica, que, no auge dos seus quase dois anos, diz eufórica: "Acordou! Vamos à praia?"

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Filho da ninhada

 

    Já mencionei que fui funcionário do Banco do Brasil por quase 17 anos, onde conheci algumas das figuras mais engraçadas. Uma dessas foi o Braga, vulgo Piu-Piu, que inclusive foi homenageado em meu primeiro romance, "Despido de ilusões". Nessa época, apesar de não trabalharmos na mesma equipe, ficávamos sentados praticamente um em frente ao outro. Por isso, não eram raros os momentos de descontração.

    Certo dia, lá estava o Braga tentando explicar algo para o Rodrigo, que era um estagiário recém chegado. Apesar de novo no setor, logo se formou uma forte interação entre os dois, que viviam fazendo piada um com o outro. Todavia, nem sempre eu prestava atenção nas tretas deles, mesmo porque o meu trabalho envolvia algumas contas, que, apesar de não muito complexas, necessitava de certa concentração. De repente, o Braga aumenta um pouco o tom da voz.

    _ Rodrigo, presta atenção, moleque doido! Já te expliquei isso três vezes!

    _ Tô prestando, Braga! Já peguei o filho da ninhada.

    _ O quê? 

    _ Filho da ninhada! Ou vai me dizer que você não sabe o que é isso, mané?

    O Braga soltou aquela sonora gargalhada, ao mesmo tempo em que olhou pra mim.

    _ Viu essa, Dudu? Filho da ninhada!!! 

    Apenas sorri, enquanto os dois se engalfinhavam, mas sem perderem a esportiva. Só me lembro que depois os dois se levantaram e foram tomar café na cantina. A última coisa que ouvi foi o Braga, quase gritando, falando:

    _ Rodrigo, é fio da meada!!!

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Filho da ninhada" foi publicada por Notibras no dia 13/2/2024.
  • https://www.notibras.com/site/pintinho-novo-no-bb-confunde-coletivo-de-papeis/

domingo, 24 de julho de 2022

Triste fim da vaca de um chifre

   Já escrevi uma história que aconteceu comigo nos meus longínquos tempos de estudante de medicina veterinária lá na Rural (UFRRJ), quando fui até Piraí/RJ na fazenda da mãe do meu amigo Almeidinha para retirar o chifre (na verdade, todos os bovídeos possuem cornos) quebrado de uma vaca, e ela acabou ficando com apenas um. Pois bem, recentemente, passeando pelo Mercado Público aqui em Porto Alegre, parece que acabei encontrando a dita cuja, ou melhor, a sua cabeça pendurada em uma fachada de uma das lojas.

   A princípio, nem notei, pois sou meio distraído. Mas a minha mulher (a maravilhosa Dona Irene) me cutucou no braço e disse: "Dudu, aquela ali pendurada não é a tal vaca que você deixou com apenas um chifre?" Quase caí pra trás com a surpresa e, confesso, profunda tristeza, pois sempre imaginei que a minha primeira paciente vaca teria tido um destino mais feliz.  

  Imediatamente liguei para o Almeidinha, que me disse que a vaca de um chifre havia falecido de causas naturais há alguns anos. Ela tinha sido enterrada em uma enorme cova na propriedade. Todavia, após alguns dias, o próprio Almeidinha, cavalgando pela área, constatou que alguém ou alguma coisa havia mexido no jazigo. Ele, segundo suas próprias palavras, quase caiu do cavalo, já que percebeu que o corpo em decomposição estava lá, mas uma parte não: justamente a cabeça. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Triste fim da vaca de um chifre" foi publicada pelo Notibras no dia 14/09/2023.
  • https://www.notibras.com/site/morreu-que-triste-fim-morreu-com-so-um-chifrim/

    

    


quinta-feira, 14 de julho de 2022

A menina singular

 

    A menina, desde bem menininha, sempre pareceu alheia a tudo e a todos ao seu redor, como se buscasse algo muito além. A mãe não suportava aquela situação, pois desde sempre aprendeu o que era certo e o que não era tanto, já que fora adestrada com rigor pela própria mãe, que também fora condicionada pela avó. 

    Sentada numa pedra lisa, a menina fixava os grandes olhos de um lindo tom castanho, cílios enormes, como se fossem cortinas tentando esconder seus pensamentos. Outras crianças corriam ao seu redor, numa gritaria sem fim, sorrisos largos e ingênuos, quase inocentes. Ela, todavia, demonstrava desinteresse, mas ninguém conseguia afirmar se era isso mesmo que acontecia. 

    A mãe, que tomava uma xícara de café com uma velha senhora, que ali chegara há pouco tempo, não tirava os olhos da menina. Inconformada com a imobilidade da filha, desabafou com a convidada, que já havia notado a singularidade da garota.

    _ Cabeça-de-vento!!!

    _ Cabeça que venta não é cabeça-de-vento.

  • Nota de esclarecimento: O conto "A menina singular" foi publicado por Notibras no dia 24/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/crianca-que-planta-semente-colhe-bons-frutos/

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Sarah, Astolpho e a Sophia com ph

  Sarah, mulher de seus quase 60, era do tipo que praticamente só conhecia o caminho de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Mal saía para comemorações e, quando o fazia, sempre era acompanhada por Astolpho, o marido pouco mais velho e extremamente ciumento. Ela até que gostava desse sentimento, pois se sentia amada como nenhuma outra. 

  Certo dia, lá estava a Sarah, que era gerente de um banco, atendendo uma cliente. Esta nem havia chegado aos 30, o que era facilmente percebido pela cútis de quase menina. Seu nome? Bem, seu nome era Sophia. Isso mesmo, Sophia com ph, como gostava de frisar. Ela havia se dirigido ao banco para resolver burocracias de cadastro, já que o divórcio a fez novamente com nome de solteira: Sophia Maria de Almeida, agora sem o França. 

    Enquanto mexia no computador para alterar o nome da cliente, Sarah percebeu a fotografia de tela do aparelho celular de Sophia, que o havia colocado sobre a mesa. Não podia acreditar no que estava diante de seus olhos, que se arregalaram até que as pupilas quase explodissem. No entanto, profissional que era, completou o atendimento e, logo em seguida, comunicou a um colega que precisaria ir embora, pois não estava se sentindo muito bem.

    Já em casa, encontrou Astolpho preguiçosamente recostado no amplo sofá da sala. Ela passou direto por ele, que ainda pediu uma cerveja. Sarah, pacientemente, foi até a cozinha, abriu a geladeira, pegou a tal latinha e a entregou ao marido. Em seguida, ela foi até o quarto, de onde, minutos após, saiu com uma enorme mala abarrotada de roupas. Voltou para a sala, onde Astolfo dava o seu último gole na bebida. 

    _ Que mala é essa? Vai viajar?

    _ Não! Eu não!!! Quem vai é você, seu cretino! - disse Sarah, ao mesmo tempo em que abriu a porta da rua e atirou a mala na calçada. 

    Astolpho, sem nada entender, perguntou o que era aquilo tudo. Sarah, quase calmamente, falou da fotografia que havia visto no  aparelho celular da Sophia, aquela que tinha ph no nome. Pois é, o Astolpho aparecia dando um apaixonado beijo nos lábios carnudos da cliente da Sarah. Ele ainda tentou explicar, mas nada convencia Sarah, que começou a xingar o traidor. 

    _ Sarah, meu amor, você está pegando muito pesado comigo!

    _ Astolpho, pesado é hipopótamo!!!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Sarah, Astolpho e Sophia com ph" foi publicado por Notibras no dia 4/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/sarah-traida-por-astolpho-e-a-namorada-sophia/

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Asfilófio, o filósofo de banheiro

    Asfilófio acordou com o estridente anúncio do despertador. Hora de levantar! Abriu os olhos remelentos, esfregou a cara amarrotada, bocejou e sentiu o desagradável odor do seu próprio bafo. Precisava escovar os dentes e a língua, esbranquiçada de tanto ficar muda durante a madrugada. 

   Já em frente ao espelho do banheiro, tentava se encarar, mas a imagem refletida não era das melhores. Melhor seria voltar para cama e se esquecer de tudo. Não seria prudente! Precisava tomar coragem para outra segunda-feira! Que dia deprimente! 

    Depois da terceira xícara de café, Asfilófio pareceu mais disposto e, finalmente, saiu de casa. Os passos não eram tão rápidos, talvez pela repulsa da imagem do trabalho. Sentiu o delicioso aroma da maresia, que o convidava para um mergulho no mar, mas esse pensamento foi interrompido por um esbarrão de um transeunte. Dividido entre sua cama e a praia de Copacabana, acabou mesmo por ir até a repartição onde trabalhava. Que droga!

   Mal entrou, percebeu dois colegas ouvindo um terceiro, que discursava euforicamente. Asfilófio quase não notava os significados das palavras, apenas ouvia o ruído estridente daquela voz, que o irritava desde sempre. Até que o tal palestrante levantou o tom e pronunciou, quase teatralmente: "Tudo é uma questão de hermenêutica!" 

    Asfilófio, assim como os outros dois ouvintes, ficou boquiaberto. Ele nunca havia ouvido essa palavra esquisita. Mas, antes que pudesse tentar descobrir, uma pontada bem lá no fundo da sua barriga anunciava que ele necessitava urgentemente de um banheiro.

    Sentado no vaso sanitário, Asfilófio não fazia a menor ideia do que era aquilo que seu colega havia dito. No entanto, enquanto esvaziava o conteúdo dos seus intestinos, não teve a menor dúvida: "Tudo é uma questão de movimentos peristálticos!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Asfilófio, o filósofo de banheiro" foi publicado pelo Notibras no dia 18/10/2023.
  • https://www.notibras.com/site/escrituras-fazem-servidor-ter-crise-peristaltica/

domingo, 3 de julho de 2022

Dona Irene, a cola e Deus

   A minha esposa, a Dona Irene, possui tantas histórias, que eu poderia apenas escrever sobre essas situações, muitas delas hilárias. Aliás, a que vou contar hoje é do tempo em que a minha mulher nem sonhava em se casar, pois ainda era uma menininha de trancinhas que, quase obrigada pela mãe, frequentava a igreja. Nessa época, ela precisava fazer algumas provas sobre o cristianismo e, como quase sempre foi muito estudiosa, além de ter uma memória privilegiada, devorava a bíblia até com certa facilidade.

    Chegavam as provas, lá ia a menina Dona Irene com a segurança de quem iria acertar tudo. E ela estava mesmo certa, pois sempre recebia uma estrelinha dourada na parte superior do teste. No entanto, o Robertinho, seu amigo de turma, tinha porque tinha que tirar uma nota bem alta para que não fosse reprovado. 

    Por isso, durante a última prova do semestre, lá estava o Robertinho logo atrás da carteira da minha futura esposa. Já o pastor, crente de que todos na sala seriam extremamente honestos, deixou o ambiente e foi tomar um café. Não deu outra, a Dona Irene, em sua versão miniatura, passou aquela cola caprichada pro Robertinho, que tirou dez e foi aprovado até com certo louvor.

    Pois é, mais de uma década após esse ocorrido, lá estava a Dona Irene, agora na versão grandinha, me contando essa passagem de sua infância. Até que lhe fiz uma pergunta.

    _ Ué, mas você não me disse que Deus sempre está de olho em tudo?

    _ Ah, fiz tão bem feito, que Ele nem reparou. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene, a cola e Deus" foi publicada pelo Notibras no dia 14/5/2023.
  • https://www.notibras.com/site/dona-irene-a-cola-durante-a-prova-e-o-olho-de-deus/

Deuzivaldo, o barrigudo deprimido

 

    Deuzivaldo, perto de completar 60 anos, há muito acostumara com o seu esdrúxulo nome. Na verdade, a palavra mais adequada é que ele, depois de tanto tempo sendo chamado por Deuzivaldo, Deuzi ou até mesmo Valdo, parecia acostumado com aquilo. No entanto, uma coisa que o irritava era aquela barriguinha proeminente, ainda mais depois de ter sido abandonado pela mulher, que o trocou por uma versão mais jovem chamada Paulo Douglas.

   De tão deprimido, Deuzi resolveu procurar ajuda psicológica. Marcou a primeira consulta para a semana seguinte. Muito ansioso, começou a comer desenfreadamente, como se aquilo lhe trouxesse algum alívio. No entanto, já na véspera do tão esperado dia em frente ao Dr. Gilmar, eis que ele se olha, completamente despido, no espelho logo depois de tomar banho. Impossível não soltar um "Que droga de barriga!"

    Já no consultório, o psicólogo, muito atencioso, convida o Deuzi a se deitar no divã. Este se estica todo, coloca os pés para o alto e, em seguida, começa a tagarelar sobre a sua situação calamitosa. Vez por outra, ele menciona a tão incômoda protuberância abdominal, até que não lhe restam palavras de lamúrias, mas apenas um triste olhar direcionado ao Dr. Gilmar, na ânsia de um alento. 

    _ Deuzivaldo, a vaidade, muitas vezes, é a única força que nos faz levantar.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Deuzivaldo, o barrigudo deprimido" foi publicada pelo Notibras no dia 2/3/2023.
  • https://www.notibras.com/site/deuzivaldo-um-barrigudo-sem-forcas-para-pensar/

sábado, 2 de julho de 2022

Santana, o terrorista

    O Santana chegou à delegacia com os bofes pra fora como de costume. No entanto, parecia ainda pior, já que de sua enorme pança emanavam sons que indicavam uma verdadeira batalha entre as enzimas digestivas e a quantidade descomunal de churrasco consumida na noite anterior. Foi uma comilança, com direito até a maionese não muito confiável, ainda mais depois de tantas horas fora da geladeira. As inúmeras latinhas de cerveja, às vezes quente, completaram o caótico prognóstico.

    Assim que passou pelo delegado, foi informado sobre a reunião, que já iria começar. O Santana recebeu essa notícia com cara de poucos amigos, se é que ele possuía algum. Seja como for, tratou logo de se dirigir à sala, onde outros policiais já haviam tomado conta de todas as cadeiras disponíveis. Irritado, ele encostou o corpanzil numa das paredes. 

    Não demorou muito, o delegado entrou no recinto, onde colocou uma pasta de documentos sobre a mesa. Cumprimentou brevemente os presentes e, quando ia começar a falar sobre o assunto daquele encontro, eis que o Santana deixa cair no chão um enorme chaveiro. 

    Todos voltam os olhares para o policial desastrado, que se curvou para pegar as chaves. De repente, um gigantesco estrondo sai do traseiro do Santana, empesteando rapidamente todo o ambiente. Imediatamente, o delegado, quase sufocado, salvou a todos daquela catástrofe.

    _ Reunião encerrada!

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Fifa World e o futebol na rua

    Mal chegou do trabalho, o pai avistou o filho em frente ao computador. De tão entretido com o jogo de futebol na tela, o garoto nem percebeu quando o pai se aproximou. O homem, que ainda carregava a maleta, estacou justamente ao lado do pivete, que não parava de mexer insistentemente no controle remoto.

    _ Oi, filho!

    O menino, sem tirar os olhos da partida, respondeu quase mudo, que o pai imaginou ter ouvido.

    _ Isso aí dá pra jogar de dois?

    O garoto pareceu não ter escutado o homem, que ainda insistia em chamar-lhe a atenção, como se enciumado por ter sido deixado em segundo plano.

    _ Ei, filho, isso aí dá pra jogar de dois?

    _ Peraí, pai! Agora não dá pra falar agora!

   O homem, finalmente, desistiu e pousou a maleta sobre o móvel da sala. Ele se dirigiu ao quarto, onde pegou uma toalha e foi tomar banho.

  Já na mesa, com o prato bem à sua frente, conversava com a esposa. Trivialidades de mais um dia em que ambos tiveram dias exaustivos nos respectivos empregos, até que foram interrompidos pelo desabafo do filho.

    _ Droga!!!

    O garoto, até que enfim, se levantou e foi se juntar aos pais.

    _ Pai, você já ganhou no Fifa World?

    _ O que é isso?

    _ Ué, o jogo que eu estava brincando agora.

    _ Ah, não! No meu tempo de criança, a gente brincava de bola na rua. Todo mundo descalço.

    _ Sério? E qual era a graça disso?

    _ Ah, era divertido! Ainda mais porque todo mundo lá na rua tinha o dedão do pé sem tampo. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Fifa World e o futebol na rua" foi publicada pelo Notibras no dia 12/8/2023.
  • https://www.notibras.com/site/fifa-world-e-vida-de-pe-descalco-no-futebol-de-rua/

O conselho da Dona Irene

             Apesar de conviver há tanto tempo com a Dona Irene, não canso de me surpreender com as suas tiradas. A última aconteceu na semana passada, quando estávamos brincando com a Belchior e a Clarinha, as nossas filhas de focinho achatado nascidas em Brasília, num parquinho aqui em Porto Alegre. Nisso, chegou uma outra dona de cachorro, que sentou bem pertinho de onde estávamos. Era uma garota, não mais do que vinte anos. Não demorou muito, a minha mulher puxou conversa, pois adora trocar experiências com aqueles que possuem cães

          — Qual é o nome do seu?

          — Lambreta. E das suas?

          — Belchior e Clarinha. 

          — Elas já brigaram?

          — Não, elas são bem de boa. E o Lambreta?

          — Ah, de vez em quando, ele estranha um ou outro cachorro. Mas estou pensando em fazer um curso de adestramento para aprender algumas coisas sobre comportamento. 

          — Ah, legal! Você trabalha com o quê?

          — Então, fui demitida na semana passada. 

          — Nossa, que chato, hein!

          — Pois é, a minha mãe fala que eu preciso nortear a minha vida.

          — Creio que é melhor você nordestear, que dá muito mais certo.

          Detalhe: a Dona Irene é piauiense.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "O conselho da Dona Irene" foi publicado por Notibras no dia 2/12/2024.
  • https://www.notibras.com/site/o-dia-em-que-dona-irene-sugeriu-que-caminho-do-norte-da-vida-e-o-nordeste/


terça-feira, 28 de junho de 2022

Dona Irene e o pé-frio

    Como todos que acompanham o meu blog devem saber, sou casado com a Dona Irene, a mais fanática torcedora  do Palmeiras. Pois bem, essa história aconteceu exatamente no dia 25 de julho de 2018, quando o Verdão jogou contra o Fluminense em partida válida pelo Campeonato Brasileiro. E enquanto a minha mulher assistia ao jogo confortavelmente instalada em nossa cama, a minha filha e eu brincávamos de baralho na sala, e o Chengulo, nosso buldogue francês, roncava alto bem ao lado.

    Logo depois da minha filha ganhar mais uma partida, fui até o quarto para ver como a minha amada estava. Sentei ao seu lado e senti o calor do seu corpo, enquanto seus olhos permaneciam vidrados na grande tela presa à parede. Comecei a prestar atenção na partida para fazer companhia àquele amor clubista da Dona Irene. E foi justamente aí que cometi um erro.

    _ O Fluminense está bem melhor, né?

    _ O quê? Você está aqui há menos de dois minutos e vem me falar uma besteira dessa?

    Assim que ela completou essa frase, o narrador grita "Gol do Fluminense!!!" Pra quê? A minha mulher me lançou um olhar de fúria, como se eu fosse o responsável por aquele gol. Seja como for, tratei logo de me levantar e voltar para a sala, onde tomei mais uma surra da minha filha, que estava impossível com as cartas naquele dia.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene e o pé-frio" foi publicada pelo Notibras no dia 16/7/2023. Por solicitação do jornal, foi feita pequena alteração no texto para que se adaptasse aos leitores do Notibras.
  • https://www.notibras.com/site/entre-palmeiras-e-cartas-jogar-baralho-doi-menos/

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Dona Irene pela manhã

    Há pessoas que se levantam dispostas, como se as primeiras horas do dia fossem as mais felizes do mundo. Pra falar a verdade, eu me encaixo nesse tipo, talvez pelo hábito que adquiri desde os tempos de menino, quando disputava com a minha avó quem é que levantaria mais cedo. Sou do Sol, enquanto a minha mulher, a famosa Dona Irene, prefere esticar ao máximo seu tempo na cama.

   Durmo de meias para pisar no chão sem fazer qualquer barulho logo que acordo, enquanto a minha esposa, ainda adormecida, talvez sonhe com Morfeu. De tão cedo, a Belchior e a Clarinha (as nossas buldogues francesas) nem percebem meus passos. Aproveito esse meu momento de quase solidão junto à pia da cozinha e lavo uma possível louça deixada pra trás na noite anterior.

    Como ainda tenho algumas horas pela frente, faço alguns exercícios na barra fixa que tenho na porta entre a sala e a cozinha. Leio, escrevo algum texto pro meu blog, até que a Clarinha arranha a porta do quarto. Sinal de que chegou a hora de sair com as nossas filhas de focinho achatado.

    Depois do passeio, começo a preparar o café da manhã da minha amada. Nada que demore mais de meia-hora. Deixo quase tudo pronto, até que ouço a linda voz da Dona Irene: "Dudu, já fez o meu café?"

    Mais alguns minutos, lá está a minha mulher sentada à mesa. O lindo rosto, apesar de parecer ser de poucos amigos a essa hora da manhã, ainda esboça um "Obrigadinha!". Rapidamente, ela ergue a xícara quase cheia, que toca seus lábios.

    _ Bom dia, Dudu! Preciso de café pra minha alma fazer download pro corpo!"

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Dona Irene pela manhã" foi publicada por Notibras no dia 1/3/2024.
  • https://www.notibras.com/site/cafe-ao-acordar-energiza-corpo-e-resgata-mente/

Marinho, meu primeiro ídolo

    

    O menino, sentado aos pés da avó, era inebriado pela empolgação da senhora: "Vai, Marinho! Chuta! Chuta!!!" O moleque sentia os trancos da avó, que chutava ao vento, como se quisesse acertar a bola, que corria presa aos pés do craque de longos cabelos loiros pela lateral esquerda do Maracanã. E, apesar dos outros jogadores em campo, o menino só tinha olhos para o jogador preferido da sua avó. Diante de tal paixão, não tinha como o garoto não virar Botafogo.

    A avó gostava de falar sobre os grandes nomes do time da Estrela Solitária: Paraguaio, Patesko, Nilton Santos, Carvalho Leite, Heleno, Quarentinha, Didi e, também, um tal Garrincha. No entanto, o menino só queria saber do Marinho! Como jogava! Como driblava! Como chutava! Que gol mais lindo o Marinho fez! Queria porque queria ser igual ao camisa 6!

    _ Somente o Nilton Santos foi melhor que o Marinho.

    _ Vovó, ninguém é melhor que o Marinho!

   Canhoto, o menino teve sua primeira decepção, pois queria ser destro como o Marinho. Começou a chutar somente com a direita nas peladas na rua. De tanto arriscar com a dita perna ruim, acabou por domesticá-la, talvez pouco melhor que o Gerson, que sempre dizia que só usava a perna direita pra subir no ônibus. 

    Maior tristeza, todavia, foi quando o Marinho foi jogar no Fluminense. Sentiu-se traído! Tanto é que pensou: "Ainda bem que sou canhoto!!!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "Marinho, meu primeiro ídolo" foi publicado por Notibras no dia 2/2/2024.
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quarta-feira, 22 de junho de 2022

Eternos ruralinos - UFRRJ

          Remexendo antigas fotografias, encontrei uma em que eu estou montado no Maradona, o lindo cavalo dos meus tempos de estudante de medicina veterinária. Essa foto, aliás, foi tirada no meu último dia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Isso me fez lembrar de que, apesar de já ter passado por outras universidades, incluindo a UnB, me considero um ruralino, que é como aqueles que estudaram na Rural se autodenominam. 

              Pois é, mesmo após décadas do meu derradeiro dia naquele maravilhoso ambiente, toda vez que conheço alguém que já passou por lá, logo de cara me identifico e trocamos lembranças, independentemente de termos ou não estudado na mesma época. Esse laço que envolve todos esses estudantes, apesar de nunca terem se visto, é algo inexplicável para quem não foi aluno da mais linda universidade do Brasil. Chega a ser estranho, como a minha mulher, a Dona Irene, já havia me dito antes de pisar no maior campus da América Latina. 

       A minha esposa, certa vez, participou de um encontro entre representantes de instituições de ensino superior em Santana do Livramento-RS. Durante esse tempo, ela conheceu algumas pessoas que se formaram na UFRRJ. Cismada, ela falou que era casada com um ex-aluno de lá. Pra quê? Os seus novos colegas começaram a falar maravilhas da minha universidade, o que a deixou ainda mais intrigada. "Por que esse povo é assim? Será que todo mundo que passa por lá é maluco?", ela se perguntou. 

          Mais alguns anos se passaram, até que, finalmente, a Dona Irene conheceu a minha amada universidade. Dava para notar o brilho naqueles lindos olhos castanhos. De imediato foi como se a minha mulher tivesse sido enfeitiçada pela magia de pertencer àquele lugar e, talvez por um instante, ela própria tenha se sentido um pouco ruralina. Seja como for, a partir desse dia, ela jamais voltou a questionar o meu encanto pela Rural.  

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Eterno Ruralino - UFRRJ" foi publicada por Notibras no dia 17/10/2025.
  • https://www.notibras.com/site/eterno-ruralino-ufrrj/

O rabo da cobra

    Dizem que essa história aconteceu em uma fazenda lá em Padre Bernardo-GO, para onde teriam ido um casal e sua filha pequena. A propriedade era cercada por dois riachos, que se juntavam em determinado ponto e corriam abraçados a partir de então. Os visitantes, na varanda da casa, não conseguiam avistar as águas lá embaixo, mas ouviam, encantados, o famoso ronco dos bugios, que saltavam entre as copas das enormes árvores à margem. 

    Como o tempo estava muito seco, resolveram descer a ribanceira para um banho refrescante. Durante a caminhada, a menina corria à frente, sempre acompanhada pelos olhos atentos da mãe. Já o pai parecia mais preocupado em não perder o equilíbrio naquele chão cheio de pedrinhas soltas. 

    Tudo transcorria dentro do que podemos chamar de normalidade, até que o marido avistou uma cobra esticada no meio do mato. Ele, que havia aprendido a diferenciar as peçonhentas, constatou que aquela não era venenosa. Então, sob os olhares atentos da esposa e da filha, deu um leve puxão no rabo do réptil, que, assustado, se embrenhou no capim seco. Todo orgulhoso do feito, o homem estufou o peito e fez uma pergunta para a filha.

    _ Você viu o papai pegando no rabo da cobra?

    _ Rabo? Ué, pensei que cobra fosse tudo rabo.

Nota de esclarecimento: A crônica "O rabo da cobra" foi publicada pelo Notibras no dia 29/3/2023.

https://www.notibras.com/site/no-encanto-do-mato-descoberta-encanta-menina/

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Francisca, a benzedeira

    Francisca, mulher de lá seus quase 70, era muito considerada na comunidade, seja como benzedeira das mais tradicionais, seja por conta dos quitutes que deixava todo mundo de água na boca. Mal saía de casa, todos a cumprimentavam ladeira abaixo, até chegar à rua, de onde caminhava até o calçadão de Copacabana. Virava à esquerda e dava exatos sete passos. Ainda de pé, retirava as sandálias de couro puído e, somente então, pisava na areia. Sentia seus pés afundando gostosamente, ao mesmo tempo em que soava aquele gostoso barulhinho: "Chiiii!"

    Nada detinha Francisca até que chegasse às águas, que lambiam seus pés. Ela abaixava o tronco e, com os braços pêndulos, catava um pouco da água gelada, passava nos pulsos e, depois, molhava o rosto. Precisava energizar! O olhar fixo para o horizonte, a boca muda, apesar do sorriso alvo por conta da nova dentadura, conversava em pensamento com Iemanjá, a rainha do mar. 

   Quase uma hora após, Francisca subia o morro e, finalmente, chegava à sua casa. Tudo era paz, tamanha a paciência da velha. Daqui a pouco, chegariam os moradores em busca de auxílio espiritual. E foi o que aconteceu, quando adentrou na varanda da casa da benzedeira a Iolanda, que puxava o filho pelo braço bem fininho. 

    _ Dona Francisca, a senhora precisa me ajudar com o Pedrinho! 

    _ E o que tem esse menino tão lindo, minha filha?

    _ Ele não obedece ninguém! Já botei de castigo, já dei taca, mas ele continua desobediente.

    Francisca observa cada palavra cuspida pela boca de Iolanda, enquanto o moleque tentava se esconder entre as pernas da mãe. A velha, com aquele olhar complacente, pegou na mão do Pedrinho. Este, por sua vez, fez uma careta tão feia pra benzedeira, inclusive dando língua. Francisca, já com a feição atormentada pela atitude do Pedrinho, diz:

    _ Isso não se correge nem cá peste!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Francisca, a benzedeira" foi publicado por Notibras no dia 20/8/2023. Por solicitação da redação do jornal, foi confeccionado um parágrafo anterior ao texto original.
  • https://www.notibras.com/site/moleque-travesso-escapa-ate-de-velha-benzedeira/

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Rita, a mamãe coruja

 

    Rita acordou eufórica, olhou para o lado da cama, onde o marido, barrigão pro teto, roncava sem dó nem piedade. Nem ligou, não era aquilo que tiraria a alegria do seu domingo, dia de comemorar o primeiro mês do Osvaldinho, o filho que tanto desejou depois de tantas e tantas tentativas frustradas.

   Levantou ligeira, silenciosa como uma gata, como se possuísse almofadas nos pés. Foi até o berço ao lado, onde o pequenino ainda adormecia, como se nem desconfiasse que a vida não é apenas feita de peitos jorrando leite. Nada como a inocência dos primeiros momentos fora da placenta!

  A mãe de primeira viagem passou boa parte da manhã arrumando os últimos detalhes para o tão esperado evento. Por um bom tempo, teve que dedicar atenção quase exclusiva ao filho, apesar da insistência do marido, o Osvaldão, que, como se fosse ainda menino, recorria a olhares tristonhos e bicos para ganhar mais uma lata de cerveja, enquanto permanecia com o traseiro pregado ao sofá diante da televisão.

   Às 16h, os convidados começaram a chegar. Não muitos, já que Rita não havia se dado conta do feriado prolongado, quando várias amigos viajaram para a praia. Seja como for, ela não se cansava de carregar seu bebê no colo e, toda orgulhosa, o exibia para todos.

    _ Não é lindo demais o meu Osvaldinho?

   Todos, sem exceção, concordavam com um aceno de cabeça, às vezes até mesmo com um largo sorriso, o que só aumentava o estado de euforia da Rita. Certa ela estava que o Osvaldinho era mesmo o menino mais lindo do mundo. Um príncipe!

    A festa ia avançando, as pessoas se despedindo da anfitriã, carregada de uma boa dose de alegria materna, enquanto o Osvaldão, ainda com os gordos glúteos pregados ao sofá, tentava acertar a boca com mais um gole de cerveja. Enquanto isso, o Osvaldinho descansava o sono dos inocentes lá no seu berço esplêndido.

  Solange e Augusta, duas amigas de longa data da Rita, já estavam na esquina, quando começaram a conversar sobre a festa.

    _ Já fui a velórios mais animados.

    _ E você viu aquela coxinha toda cheia de óleo? Vou ter que tomar um remédio pro fígado,

    _ E o Osvaldinho? Que menino mais feio! Será que a Rita tá ficando cega?

    _ Solange, por acaso você já viu uma coruja achar o filho feio?    

  • Nota de esclarecimento: O conto "Rita, a mãe coruja" foi publicado por Notibras no dia 30/12/2023.
  • https://www.notibras.com/site/solange-e-augusta-as-candinhas-trairas-de-rita/

terça-feira, 14 de junho de 2022

Meu sogro me pegou no flagra com a Dona Irene

     Provavelmente esta é a história mais constrangedora que me atrevo a escrever. Ela aconteceu em setembro de 2021, quando a minha amada Dona Irene, meus sogros (Martinha e Valdir), a nossa cadelinha Belchior e eu voltávamos de carro de uma viagem a Caxias (MA). Aliás, apesar de ter nascido em Teresina, a minha mulher morou toda a sua infância nessa agradável cidade maranhense. 

          Pois bem, lá estávamos nós cinco enfrentando aquela longa estrada e, quando chegamos a Barreiras (BA), resolvemos arrumar um local para dormir, já que os pais da Dona Irene precisavam descansar, pois já não são tão jovens assim. Entramos na cidade e, busca daqui, busca dali, conseguimos encontrar um motel. Pedimos dois quartos, um ao lado do outro. Até me lembro dos números: 10 e 11. 

          Tudo parecia lindo, até que a minha esposa, a Belchior e eu entramos no nosso quarto e logo nos deparamos com a televisão ligada em um filme adulto, com esses closes na região dos países baixos, onde só conseguíamos ver dois homens entrando e saindo nos distintos caminhos possíveis de uma mulher. Pra quê? A Dona Irene, muito mais atenta a detalhes que eu, olhou aquilo com seus lindos olhos castanho e correu desesperada até o quarto ao lado.

          — Mãe, a televisão estava ligada?

          — Estava, sim! Mas pode ficar tranquila que já desliguei.

          Tudo parecia bem, quando, de repente, a minha mulher se deparou com um enorme consolo na cabeceira bem ao lado da cama. Mas, antes que ela pudesse dizer alguma coisa, a minha sogra a mandou voltar para o outro quarto, pois a jornada seria muito longa no dia seguinte.

          Assim que a minha esposa voltou ao nosso quarto, ela percebeu que também havia um consolo idêntico ao do quarto dos seus pais. Ela pegou aquilo nas mãos e, apenas pelo olhar, entendi que a decoração de todos os quartos deveria ser a mesma. Seja como for, fomos tomar banho para nos deitarmos maritalmente. Acabamos adormecendo.

          Lá pelas 5 h da manhã, fui despertado por um desses beijos bem beijados da Dona Irene e, então, voltamos a fazer coisas que casais costumam fazer. Tudo ia muito bem, até que, quando já estávamos perto de chegar ao clímax, eis que ouvimos fortes batidas na porta.

          — Mulher, já acordou? Vamos embora!

          — Pai, ainda nem são seis horas! A mãe já acordou?

          — Não! Tá dormindo!

          — Então, volta pro quarto e durma mais um pouco.

          Finalmente meu sogro nos deixou em paz. Não sabíamos se continuávamos ou ríamos de tamanha intromissão. Aquela situação era tão esdrúxula, que ninguém iria acreditar que meu sogro bateu na porta do motel enquanto a Dona Irene e eu fornicávamos. Mas a história não acaba por aí.

          Já de volta à estrada, a Belchior começou a ficar muito agitada e, então, a minha esposa, que estava no banco da frente ao meu lado, a entregou para o meu sogro segurá-la. Daí, surgiu o seguinte interlúdio entre o Valdir e mim.

          — Tá gostando de ficar com a sua netinha preferida no colo?

          — Netinha preferida vai ser no dia que vocês fizerem uma.

          — Como você quer que a gente faça uma, se você vive batendo na porta do nosso quarto quando estamos tentando?

          Enquanto o meu sogro fazia um bico enorme, a Dona Irene e a minha sogra caíram na gargalhada.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Meu sogro me pegou no flagra com a Dona Irene" foi publicado por Notibras no dia 28/7/2024.
  • https://www.notibras.com/site/sogro-chato-interrompe-a-producao-da-neta/