quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Três mulheres e um crime

    Aquelas calçadas carregavam histórias, dores, sorrisos, amores, alegrias breves, pesares perenes. E foi ali que Joana foi acometida, talvez pela primeira vez, de remorso. Misto de culpa e desejo por ter sucumbido aos insistentes convites de Rita.

    — Por que não, Joana?

    — E se alguém descobrir?

    — Então, o receio é esse? Tem medo de que alguém descubra?

    — Não é só isso.

    — Não?

    Joana e Rita se entreolharam até que as duas sorriram quase ao mesmo tempo.

    — Tu é louca, Rita!

    — Você acha?

    — E não é?

    — E qual é o problema de ser louca quando a hipocrisia nos faz sala como se fosse a coisa mais normal do mundo?

    — Tá! Mas e se alguém descobrir?

    — Ninguém vai descobrir.

    — E como você pode ter tanta certeza disso?

    — Não tenho.

    Diante da resposta honesta de Rita, Joana gargalhou de nervoso. Ela queria ser convencida pela amiga, apesar do receio de ser descoberta. E daí que fosse? O que o mundo teria a ver com o que ela fizesse? Mas aquilo era certo? Pensou por um instante na reação dos mais próximos, dos amigos, dos vizinhos, da mãe. Certamente, dona Aurora jamais a perdoaria.

    — Mas tem que ser hoje mesmo, Rita?

    — Que seja agora! Tem coisas que precisam ser na hora, quando a vontade bate. Do contrário, periga deixarmos a razão tomar conta da nossa vida.

    — Então, vamos, Rita! Antes que eu me arrependa.

    As mulheres, mãos dadas, caminharam determinadas a colocar o plano em prática. Foram direto para a casa de Laura, que pareceu surpresa com a chegada das amigas.

    — Hum! Pensei que vocês não viriam mais.

    — E perder essa oportunidade? A Joana e eu estamos dentro, amiga! Separou as coisas?

    Laura sorriu e apontou para a mesa. Lá estavam uma corda fina, um saco preto e uma faca de açougueiro. Meticulosamente afiada, por sinal.

    — Então, vamos?

    Joana e Rita se entreolharam, fitaram Laura e, quase em uníssono, responderam:

    — Vamos!

    A anfitriã colocou meticulosamente os objetos em uma sacola. Não tardou, as mulheres foram até a cerca que dividia os terrenos de Laura e do vizinho. Para se certificarem de que não havia ninguém em casa, Laura gritou:

    — Seu Horácio! Seu Horácio!

    Nada. Nem um único som. Laura olhou para as amigas e, em seguida, voltou a chamar pelo morador:

    — Seu Horácio! Seu Horácio!

    Certa de que a casa estava vazia, Laura se virou para Joana e Rita:

    — Vamos!

    As comparsas pularam a cerca e invadiram a propriedade alheia. As mulheres não conseguiram evitar que o frio se instalasse em suas entranhas. Todavia, já era tarde demais para voltarem atrás. O que precisava ser feito teria que ser executado. E que fossem ligeiras, antes que o velho Horácio retornasse e as flagrasse em seu território. Caso isso ocorresse, elas sabiam o que seria necessário fazer. Não tinham a menor dúvida, fariam.

    Cautelosamente, caminharam em direção ao alvo, que de bobo nada tinha. Ele fixou o olhar nas intrusas, eriçou as penas e cantou:

    — Cocoricó!

    Laura destilou ódio puro em direção ao galo:

    — Miserável! 

    Corre daqui, corre para lá, as mulheres cercaram a ave barulhenta em um dos cantos do quintal. Rapidamente, Laura, a mais intrépida do trio, avançou sobre o galo e o segurou por um dos pés. 

    — Te pequei, maldito!

    A ave começou a se debater. Em vão! Logo foi contida, os pés amarrados por Rita e lá foi o bicho direto para o fundo do saco preto, que estava sendo segurado por Joana. Assim como entraram, as mulheres saíram antes que alguém pudesse flagrá-las fazendo algo reprovável.

    Já na casa de Laura, as criminosas estavam esbaforidas. Joana abriu o saco e retirou o galo. Rita firmou o corpo do animal, enquanto Laura sacou a faca. Determinada, ela ergueu a lâmina na certeza de que daria cabo daquela ave cantante. No entanto, antes de concluir a ação, eis que a campainha tocou.

    — Quem será?

    — Só pode ser o Horácio, Rita.

    — Impossível! Hoje é quarta, dia de feira. E ele não volta antes de comer dois pastéis e um caldo de cana. 

    — Vai ver ele está sem fome hoje.

    — Joana, aquele velho sem fome? É mais fácil cair um raio sobre a minha cabeça agora mesmo.

    Mal terminou de falar, eis que um estrondo veio do céu. Trovoadas! Laura olhou para cima, fez o sinal da cruz e, olhos arregalados, soltou essa:

    — Deus me livre e guarde!

    A campainha tocou novamente. Sem alternativa, Laura gritou:

    — Tô indo!

    Joana e Rita ficaram apreensivas. Elas seguraram firme o galo e fecharam o seu bico usando as pontas do polegar e do indicador. E o tempo pareceu não se preocupar com  os que aguardavam. As duas mulheres suavam preocupações quando, finalmente, a dona da casa retornou.

    — Era ele.

    — O Horácio?

    — Sim, Joana.

    — E agora, mulher, o que a gente faz com o galo?

    — O velho pensa que nós o pegamos para preparar um almoço surpresa para ele.

    — O quê?

    — Isso mesmo que você ouviu, Rita. 

    — E agora? O que vamos fazer?

    — Cozinhar o galo, Joana.

    As três mulheres se entreolharam, depois encararam o galo e, pasmem, foram tomadas por um sentimento inesperado. Pois é, Laura, Joana e Rita pareciam compadecidas com o destino do galo. Entretanto, não havia saída, precisavam matar o bicho.

    — E se a gente fizesse uma macarronada?

    — Joana, não adianta. O velho quer porque quer comer o galo.

    Diante da falta de alternativa, Rita e Joana seguraram firme o pobre galináceo. Laura aproximou a faca do pescoço da vítima.

    — Peraí, Laura!

    — O que foi, Joana?

    — Eu tenho uma ideia!

    Laura e Rita escutaram o que a amiga tinha a dizer. Pensaram por meros segundos e, então, decidiram colocar o plano em ação.

    Quando o relógio pendurado na parede acusava pouco mais de uma da tarde, eis que a campainha tocou. Era o vizinho, que parecia faminto. O homem esfregou as mãos no bucho e lambeu os beiços com o cheiro que vinha da cozinha.

    — Pensei que vocês tivessem desistido.

    Joana apareceu com uma enorme panela nas mãos e a colocou sobre a mesa, que já estava enfeitada com tigelas de arroz, salada e farofa. Assim que ela destampou a panela, era possível ver o corpo da ave esquartejado dividindo o espaço com batatas graúdas. 

    Almoçaram sem remorsos a galinha comprada de última hora no mercado da esquina. Quanto ao galo, hoje ele mora com a Joana no bairro ao lado. Continua cantando e já conquistou alguns desafetos na vizinhança. Ah, o sortudo ganhou até nome: Cauby.

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