terça-feira, 21 de março de 2023

Assassinato na 415

O flagrante

        As batidas insistentes na porta do apartamento fizeram com que Marcelo despertasse. A cabeça doía tanto, que ele mal teve tempo de abrir os olhos quando um chute provocou um estrondo e a porta da sala foi arrombada. Em instantes, quatro policiais entraram no quarto, todos apontando as armas para o homem, que acabara de acordar. Sem entender aquilo tudo, Marcelo olha para o seu lado e vê a esposa coberta de sangue. 

        Marcelo, ainda atônito, é algemado e arrastado para fora do apartamento. Logo em seguida, é jogado no cubículo do camburão. A sirene é ligada e a viatura arranca para a delegacia que, por sinal, era a mesma em que ele trabalhava. O agente de polícia Marcelo, pela primeira vez na vida, sentia como era viver do outro lado daquela situação. 

     Aquele pesadelo ainda estava sendo digerido pelo policial. Por que Susana estava toda ensanguentada? O que havia acontecido? A única coisa que ele se lembrava é de que os dois estavam na casa de um amigo comemorando a virada do ano. A sua esposa estava morta? Pelo visto, sim! Mas quem teria feito aquilo? Ele? 

         Marcelo sabia que os dois passaram a noite bebendo bem além da conta, mas jamais havia sido violento com Susana. É certo que, como todo casal, tinham lá seus problemas. Todavia, nada que levasse a crer que ele pudesse matar a esposa. 

         De tão atordoado, ele não conseguia entender as perguntas que o delegado Miranda lhe fazia. No fim das contas, Miranda determinou para o escrivão Rafael que o autuado iria fazer uso do seu direito constitucional de permanecer calado e só se manifestar em juízo. Sem reação, Marcelo foi levado para uma cela, onde ficou sozinho pelo resto da manhã. 

        O estresse era tanto, que, completamente sem forças, acabou adormecendo no chão gelado. Os colegas que passavam diante da cela não acreditavam que Marcelo, com mais de 20 anos como agente de polícia, havia assassinado a sangue frio a própria esposa. A frieza fora tamanha, que Susana havia sido esfaqueada três vezes. A mulher não tomara mais golpes simplesmente porque a faca se alojara no esterno. 

Presídio

        Marcelo estava preso há quase um mês. Ele dividia a cela com outro policial. O seu companheiro de cativeiro era Gomes, um policial que havia sido condenado por tráfico de drogas. Não se conheciam desde então, apesar de trabalharem no mesmo órgão. Aliás, por conta da condenação, Gomes havia sido expulso da polícia, mas desfrutava as regalias de uma cela especial por conta de ter sido policial. Se fosse colocado com os presos comuns, certamente não duraria muito.

        Apesar de confinado com Gomes, Marcelo não pretendia se tornar amigo dele. Não que carregasse em si o bastião da moralidade. Pelo contrário, pois sabia que, muitas vezes, o trabalho de policial o colocava na tênue linha entre a lei e a criminalidade. No entanto, não sentiu qualquer empatia pelo agora colega de quarto. Este, por sua vez, de vez em quando puxava assunto dos mais variados. Marcelo apenas observava e sorria um sorriso amarelo para manter as aparências. Ademais, Gomes lhe proporcionava um dos parcos prazeres naquele cubículo. É que ele era um especialista no preparo do café.  

           A lembrança de Susana o acompanhava a todo instante. Por que ele teria feito aquilo com ela? Por quê? Teria mesmo sido ele? Tudo indicava que sim, mas ele não se lembrava de nada. Havia bebido muito naquela noite, mas não tanto assim. Talvez uma dúzia de copos de cerveja, duas ou três doses de caipirinha. Não era tanta coisa assim para alguém acostumado aos efeitos do álcool. E foram raras as vezes que ele se esquecia das coisas depois de uma noite de bebedeira. E olha que Marcelo havia tido outras muito mais intensas.

        Entretido nos seus pensamentos, Marcelo foi despertado pela voz rouca do colega. O braço esticado lhe oferecia uma xícara do café, cujo aroma tomou todo o ambiente. Ele pegou a xícara e a colocou entre as duas mãos. Sentiu o calor, assoprou e bebeu um pouco. Agradeceu. 

          Antes que pudesse terminar de beber, o policial foi interrompido pelo carcereiro, que lhe disse que havia visita. Até então, ninguém havia ido lhe ver, a não ser o advogado, que, na verdade, não lhe deu muitas esperanças. Marcelo, entretanto, pareceu não ligar muito para o próprio futuro, pois estava quase convencido de que era mesmo culpado daquilo tudo. 

          _ Quem é?

          _ Dois canas. 

         Marcelo, em silêncio, acompanhou o carcereiro até uma salinha. Lá estavam Pedro e Gustavo, seus companheiros de seção. Os dois haviam relutado em visitar o colega. Ainda não tinham digerido aquela situação, mas algo os impulsionou até o presídio. 

          _ Por que você não nos contou? 

          _ Contou o quê, Pedro?

          _ Sobre o cara que tava saindo com a Susana?

          _ E o que isso tem a ver? 

          _ Pô, Marcelo, bastava terminar com ela. Não precisava ter feito aquilo - disse Gustavo.

       Marcelo olhava para os rostos diante de si. Ele sabia que a esposa estava tendo um caso com alguém, mas não sabia quem. Na verdade, depois de tantos anos de casados, ele até achava melhor, pois também nunca havia sido um marido fiel. Ele, secretamente, também mantinha um relacionamento de quase dois anos com Mariane, uma colega de outra delegacia. Quanto ao próprio casamento, Marcelo e Susana, apesar da falta do fervor dos primeiros anos, ainda se deitavam juntos, especialmente durante as solitárias noites na capital do país. 

        _ Gustavo, juro pra você que não me lembro de nada. Já tentei remontar aquela noite, mas tudo para justamente depois que a Susana disse que queria ir embora. Me lembro de que estávamos cansados, bebemos um pouco, mas não muito mais que de costume. Deixamos o carro lá, isso eu sei. Ela pediu um Uber. Essa é a última coisa que me lembro. Nem da gente chegando em casa me lembro. Nada. Nada mesmo! Quanto ao amante da Susana, sabia por alto. Na verdade, a gente pensou até em se separar há algum tempo. Mas o padrão de vida iria cair demais para nós dois. Além disso, a gente se dava muito bem em vários aspectos. Então, preferimos continuar. 

       Gustavo e Pedro escutaram atentamente a confissão do amigo. Seja como for, eles, que haviam chegado cheios de certezas, saíram dali repletos de dúvidas. Apertaram a mão de Marcelo e, calados, foram embora. 

Caso encerrado

        O delegado Miranda estava entretido com mais um dos inúmeros inquéritos, quando Pedro e Gustavo entraram na sua sala. Miranda, um dos mais polidos policiais da corporação, atendeu os colegas com um largo sorriso. Eles queriam saber como andavam as investigações do caso do assassinato de Susana. O delegado deu um suspiro de consternação.

        _ Infelizmente, tudo leva a crer que foi mesmo o Marcelo.

        _ Podemos dar uma olhada no inquérito, doutor?

        _ Claro, Pedro. Mas já vou avisando que tentei achar até chifre em cabeça de cavalo. 

        Miranda entrega aquele monte de papéis para os policiais. Estes folheiam aquilo tudo, na ânsia de que pudessem encontrar algo que colocasse em dúvida a culpa do colega. Muita coisa para olhar em poucos minutos. Pedro olha para o delegado, mas antes que pudesse dizer uma palavra, Miranda lhe diz que pode tirar uma cópia.

        Pedro e Gustavo, diante da copiadora, se entreolham. Os dois não sabem se aquilo tudo servirá para reverter a complicada situação de Marcelo. Todavia, eles sabem que precisam fazer algo, mesmo que seja para descobrir que o colega é mesmo o autor do assassinato de Susana. 

        Depois de tirarem cópia de todo o inquérito policial, os dois retornam à sala de Miranda. Este ainda lhes oferece um café. Eles aceitam, um pouco por hábito, um tanto mais por conta de buscar informações que, por ventura, não tenham entrado nos autos. 

        _ Sei que vocês são amigos do Marcelo, mas não consegui enxergar alguma pista que levasse a outro autor. Tudo aponta para ele. Infelizmente, é isso.

        _ Entendo, doutor - disse Gustavo.

        _ Mesmo assim, muito obrigado, doutor - agradeceu Pedro.

        _ Disponham sempre, rapazes. Mas, até onde consegui enxergar, esse caso está encerrado.

Flavio, o dono da festa

      Depois de horas debruçados sobre o inquérito policial, Pedro e Gustavo decidiram conversar com Flavio, que era o dono da casa onde Marcelo e Susana haviam passado a virada de ano. Ele morava em uma bela casa localizada no condomínio Mansões Entre Lagos, no Paranoá. 

    O encontro foi marcado para uma tarde de quarta-feira. Assim que os policiais entraram na residência, foram recebidos por um homem enorme com um sorriso estampado no rosto. A aparente felicidade, todavia, logo foi trocada por um ar de consternação, já que Flavio, amigo de longa data de Marcelo, não conseguia entender o motivo dele ter matado Susana. 

        _ Inacreditável! O Marcelo e a Susana sempre se deram tão bem. 

        _ Você se recorda como eles estavam no réveillon? - perguntou Pedro.

        _ Estavam ótimos! Os dois pareciam se divertir muito, ainda mais a Susana. Ela era linda, sempre muito gentil com todos. 

        _ Eles não falaram nada de diferente? - Gustavo quis saber.

      _ Não que eu me lembre. A minha casa estava cheia naquele dia. Pra falar a verdade, trocamos algumas palavras, mas logo os dois foram se sentar ali naquele canto. Eles passaram a noite praticamente ali.

       _ Beberam muito? - Gustavo perguntou.

      _ Creio que como todos nós naquele dia. Sei que eles deixaram o carro aqui e pediram um táxi ou um Uber.

      _ Vi que você tem câmeras no portão e na lateral. Por acaso ainda tem as imagens daquele dia? - perguntou Pedro.

       _ É possível. Vamos ali verificar?

      Flavio e os policiais entram numa salinha onde há uma pequena aparelhagem. Em pouco mais de 20 minutos conseguem localizar o momento exato que Marcelo e Susana entram em um Gol branco. Conseguem anotar a placa.

     Pedro e Gustavo agradecem o amigo de Marcelo pela disponibilidade de tempo. Logo estão a caminho da delegacia, onde algumas investigações os esperam. Os dois não poderiam simplesmente abandoná-las para tentar solucionar um caso praticamente sacramentado como o de Marcelo, por mais amigos que fossem dele.

O motorista de Uber

        Depois de um expediente exaustivo, Gustavo fez uma breve pesquisa sobre o tal Gol. O veículo estava em nome de Maria de Fátima Silva dos Santos, uma mulher de 64 anos. Ele entrou em contato com ela, que se comprometeu a ir até a delegacia no dia seguinte às 14 h. 

        Pontualmente, lá estava aquela senhora diante do balcão da delegacia. Ela disse que o policial Gustavo a estava aguardando. Em menos de dois minutos, ela era levada até a sala de Gustavo e Pedro, que já a aguardavam.

         O interrogatório não durou muito, pois os policiais logo perceberam que Maria de Fátima não era a proprietária do veículo há quase um ano. Ela o havia vendido para um rapaz chamado João Carlos de Almeida Júnior, que, por acaso, morava ali perto da delegacia. 

       Gustavo e Pedro, depois de agradecer e dispensar a mulher, se dirigiram até a residência de João Carlos. Por sorte, conseguiram interceptá-lo quando ele estava entrando no Gol. O homem tomou um susto, pois imaginou ser um assalto, mas essa primeira impressão foi substituída por outra, a desconfiança.

        _ O que vocês querem comigo?

        _ Pode ficar tranquilo, João Carlos. Só queremos conversar um pouco sobre uma corrida que você fez - disse Pedro.

        _ Que corrida?

        _ Vamos até a delegacia, que explicaremos tudo - Pedro concluiu.

      Já na delegacia, os policiais explicaram para João Carlos, vulgo JC, sobre as investigações. O motorista, a princípio, disse não se lembrar dessa corrida, mesmo depois de Pedro lhe mostrar fotografias de Marcelo e Susana. No entanto, o corpo de JC começou a ficar inquieto, seu rosto virava de um lado para outro, como se algo o estivesse incomodando. 

        Gustavo e Pedro se entreolharam e, naquele exato momento, perceberam que o motorista sabia de algo. Os dois, apesar de serem canas tarimbados, não gostavam de utilizar a velha tática do policial bom e do policial mau. Preferiram, naquele caso, fazer uso de outra forma de psicologia. 

        _ JC, já sabemos de quase tudo. Só precisamos juntar uma pecinha ou outra pra solucionar o caso. Se você quiser colaborar, ótimo. Mas se você se recusar, a coisa pode se voltar ainda mais contra você - disse Gustavo.

        _ Não tenho nada a ver com isso.

        _ Nós sabemos disso, JC. Mas só você pode nos contar o que aconteceu - Pedro instigou.

        _ Quer um copo d'água? - perguntou Gustavo.

        O motorista fez que sim com a cabeça, enquanto o policial saiu da sala e, logo depois, voltou com um copo e uma garrafa de água. JC, depois de umas boas goladas, respirou fundo e desembuchou tudo o que sabia. Ele havia pego Marcelo e Susana na casa do condomínio Mansões Entre Lagos. Estava a caminho da quadra 415 Norte, quando, já no Lago Norte, teve o veículo parado por dois veículos, supostamente da polícia, pois ambos usavam luzes e sirenes. 

        Depois de parar, seis homens retiraram o casal do banco de trás. Marcelo estava desacordado, mas Susana tentou resistir, mas foi contida pelos homens. Eles foram colocados cada um em um dos veículos, que depois arrancaram. JC disse que ainda ficou no local, já que suas pernas tremiam mais que vara verde. Depois foi direto para casa, pois ficou muito assustado para continuar trabalhando. Na verdade, disse ele, não trabalhou por quase uma semana após o ocorrido.

        _ Quais veículos? Conseguiu anotar as placas?

        _ Sei que um era uma Hilux preta. O outro era um Golf prata. A placa não lembro, mas sei que a da Hilux começava com JLX ou JIX. 

        _ E os rostos? Você consegue se lembrar dos rostos?

        _ Não. Tudo foi muito rápido. Mas um deles era bem alto, talvez 1,90 m ou até mais. Era desses caras bombadões, tipo de academia. 

        _ Como era o rosto dele?

        _ Acho que meio comprido. Ah, ele era ruivo! 

        _ Ruivo?

        _ Sim! O cabelo bem vermelho! 

      Por mais perguntas que os policiais fizessem, as respostas continuavam as mesmas. Várias fotografias foram mostradas para JC, que não reconheceu ninguém. Diante dessa mesmice, Pedro e Gustavo concordaram em liberar o motorista de Uber. Seja como for, eles, agora, estavam certos de que Marcelo havia sido vítima de um plano para incriminá-lo. Mas por quem? Marcelo teria inimigos?

Frustração e golpe de sorte

        Pedro e Gustavo fuçaram todos os sistemas da polícia, mas nada de encontrar o tal ruivo bombado. De tanto falarem nesse homem, acabaram por dar-lhe a alcunha de Vermelho. Pesquisaram em vários sites de adeptos da musculação, mas ninguém batia com as características daquele sujeito. Pensaram até em intimar novamente o motorista de Uber. Talvez ele tivesse inventado aquela história.

        Os dias foram se tornando semanas e, depois de quase um mês de investigações, a frustração os tomava por completo. Decidiram deixar a poeira abaixar e se concentrar em uma investigação que Marcelo estava trabalhando. Era sobre uma quadrilha de traficantes de drogas.

        Pedro pegou a pasta das investigações. Marcelo não havia contado aos colegas sobre o caso, mas os dois desconfiavam de que era algo grande, pois, não raro, ele ficava até mais tarde na delegacia. Por um momento, Pedro ficou olhando aquelas páginas repletas de informações. Antes de começar a leitura, decidiu pegar um pouco de café. 

        Gustavo. a princípio sem muita animação, começa a folhear o enorme arquivo.  Ele mal lê o que está escrito. O policial até pensa que está precisando de umas férias, tamanho o estresse desde o assassinato de Susana. No entanto, assim que ele vira uma das inúmeras folhas, eis que se vê diante do maior golpe de sorte de toda a sua carreira na polícia. Quase ao mesmo tempo, Pedro, com dois copos nas mãos, entra na sala. Ele estranha o amigo, que está com um sorriso maior que a própria cara.  

        _ O que aconteceu? Por que está com essa cara de Coringa?

        Gustavo aponta para o arquivo. Lá estão as fotos de dois automóveis, uma Hilux preta e um Golf prata. A placa da Hilux começava pelas letras JLX.

O proprietário dos automóveis

        Para surpresa de Pedro e Gustavo, a Hilux e o Golf eram de propriedade de um empresário conhecido de todos, pois também era um político famoso por ser o bastião da moralidade. Ele era proprietário de uma franquia da famosa rede de chocolates, a Estocolmo. Seu nome? Justus Dourado Flecha, deputado distrital. 

        Uma coisa que chamou a atenção dos policiais foi o enorme faturamento da loja de Dourado Flecha, muito acima das demais franquias do país. Além disso, mais de 90% das vendas era em dinheiro vivo. Pela enorme experiência de Pedro e Gustavo, não restava dúvida de que aquilo não era apenas fumaça de lavagem de dinheiro. Era flagrante caso de incêndio em toda a capital do país.

         Diante de tais provas, Pedro e Gustavo precisavam prosseguir as investigações feitas por Marcelo. E foi o que decidiram fazer naquele mesmo dia. Estavam decididos a levar aquilo às últimas consequências, mesmo que fosse preciso enfrentar o poderoso Dourado Flecha. Eles tinham a obrigação de fazê-lo, mesmo porque Marcelo havia sido incriminado por algo que não tinha feito. Disso, agora mais do que nunca, eles tinham certeza.

        Naquela mesma noite, os dois agentes se deslocaram até a esquina da residência de Dourado Flecha, bem ali no caríssimo Lago Sul. Apagaram os faróis antes de estacionaram a viatura descaracterizada. Ficaram observando o entra e sai de várias pessoas. Acabaram adormecendo.

        Já era de manhã quando Pedro e Gustavo foram despertados por um policial militar batendo no vidro do carro. Pedro abaixa o vidro e vê uma arma apontada para a sua cabeça. Antes que pudesse falar alguma coisa, o policial militar, que estava acompanhado de mais três, manda que eles desçam do veículo e se deitem no chão.

       Pedro e Gustavo obedecem, ao mesmo tempo em que dizem que são da casa, um código para demonstrar que também são policiais. O policial militar tira as carteiras dos bolsos dos dois e, então, percebe que não haviam mentido. Nisso, um homem enorme surge no portão da luxuosa mansão de Dourado Flecha. Pedro e Gustavo o encaram e, em seguida, se entreolham. PC, afinal, não havia mentido.

        Vermelho

        Depois da abordagem que levaram, Pedro e Gustavo decidiram que o melhor era sair o mais rápido possível dali. Eles já haviam sido descobertos e de nada adiantaria continuar bisbilhotando a residência do deputado distrital Dourado Flecha. Entraram na viatura e foram fazer o desjejum numa padaria na Asa Norte. 

        Sentaram numa das mesas fora do estabelecimento. Pedro, mais ansioso, comeu seu pão na chapa em três mordidas, enquanto Gustavo, quase sempre comedido, bebericava seu café preto. Os dois, no entanto, estavam com a mente a mil, pois sabiam que estavam mexendo em um vespeiro. Sabiam que, a partir daquele momento, corriam perigo, pois certamente as suas identidades haviam sido descobertas. Aliás, isso se Dourado Flecha já não sabia as conhecia, pois os dois trabalhavam com Marcelo há quase cinco anos. 

        Era óbvio para os agentes que o deputado distrital quis tirar Marcelo do seu caminho. Pelas investigações, Pedro e Gustavo sabiam que era questão de tempo para conseguir provas robustas para o indiciamento de Dourado Flecha. Eles sabiam que tal tarefa não seria fácil, pois estavam enfrentando não um ladrão de galinha, mas um dos mais poderosos políticos do Distrito Federal. 

        Pedro e Gustavo logo perceberam que precisavam de ajuda. Mas em quem poderiam confiar? Pensaram no delegado Miranda e no escrivão Rafael, justamente os dois que estavam de plantão no dia da prisão de Marcelo. Pedro conhecia os dois há mais tempo, pois havia trabalhado com eles em algumas operações. Gustavo, sem melhores opções, concordou com o colega. 

        A despeito das possíveis ajudas de Miranda e Rafael, algo não saía da mente dos agentes. Agora que sabiam que Vermelho existia, quem, afinal, era ele? Antes que os agentes pudessem pensar em algo para descobrir a identidade daquele homem enorme, eis que a atendente lhes trouxe a conta. Eles pagaram e foram andando até a viatura.

        Pedro, com vontade de fumar, acendeu um cigarro. Ele estava tentando parar com aquele vício há um tempo, mas sua rotina intensa de trabalho provocava o efeito inverso. Encostado na frente da viatura, ele soltava aquelas baforadas quando, de repente, teve uma ideia.

        _ Já sei!

        _ Sabe o quê?

        _ Lembra da Evelina?

        _ Sim. O que tem ela?

        _ O marido dela trabalha na Câmara Legislativa.

      A agente de polícia Evelina era lotada em uma delegacia em Sobradinho. Pedro e Gustavo marcaram um encontro com a policial naquele mesmo dia. Sem entrar em muitos detalhes, contaram que precisavam saber quem era o tal Vermelho. Ela disse que iria conversar com o marido, que deveria dar um jeito de descobrir. Os agentes agradeceram e se despediram da colega.

        Cansados, cada um foi para a sua casa. Pedro morava em Águas Claras com a esposa, Rafaela, e o filho de dois anos, Charlie. Gustavo, solteirão convicto até onde a namorada permitisse, morava na Asa Norte com Haya, uma cachorra da raça Bull Terrier.

      Já passava das 20 h quando Pedro e Gustavo receberam, ao mesmo tempo, uma mensagem de whatsapp. Era Evelina, que dizia: "Archibald Lorenzo de Pádua, nascido em Londrina-PR, 28/04/1979, assessor do deputado Justus Flecha Dourado". Afinal, Vermelho possuía nome e sobrenome. Entretanto, continuou a ser chamado de Vermelho pelos agentes. 

        Miranda e Rafael

       Dois dias após descobrirem a identidade de Vermelho, os agentes, com todas as provas disponíveis, marcaram uma reunião com Miranda e Rafael. Tanto o delegado como o escrivão ficaram perplexos com a reviravolta do caso do assassinato de Susana. A perplexidade, todavia, veio acompanhada de uma imensa dose de alívio, pois todos ali se sentiam extremamente abalados quando um policial era acusado de um crime. Não que fossem ingênuos de acreditar que todos eram cumpridores da lei, mas um caso envolvendo alguém tão próximo mexeu com o sentimento deles. 

     Miranda, que havia sido o relator do inquérito contra Marcelo, sabia que a mera palavra do motorista de Uber não seria suficiente para livrar a cara do colega. O fato de haver várias provas de envolvimento de Dourado Flecha com o tráfico de drogas não o colocava como mandante daquela armação toda contra Marcelo. Eles precisariam de provas! 

    Rafael, assim como Miranda, era um especialista em direito penal e direito processual penal. Ele dava aulas em um cursinho preparatório para concursos públicos. Por isso, ele concordou com o pensamento do delegado. Seja como for, os quatro teriam que pensar em conjunto para livrar Marcelo das acusações injustas e, se possível, conseguir prender Flecha Dourado e toda a corja que o rodeava.

       Os quatro homens da lei concordaram que deveriam buscar câmeras entre o trajeto da casa de Flavio até o apartamento de Marcelo. Essa missão ficaria a cargo de Pedro e Gustavo, enquanto Miranda e Rafael iriam se debruçar sobre as investigações para tentar encontrar algo que pudesse ser útil. 

        Os agentes fizeram e refizeram o caminho mais provável do trajeto feito entre as duas residências. Anotaram cada câmera. Depois fizeram trajetos alternativos que, por ventura, poderiam ter sido tomados pela Hilux e pelo Golf. Todas essas informações foram passadas para Miranda, que expediu uma ordem para averiguar as imagens captadas por cada uma delas. Nada! Nenhuma imagem dos veículos. O tempo corria contra Marcelo, que continuava trancafiado naquela cela fria da Papuda. 

Mariane

        Aquela mulher andava cabisbaixa desde que soube da prisão de Marcelo. Ela, que era agente de polícia há quase dez anos, conhecera o colega durante uma operação policial há quase quatro. Trocaram telefones e, depois de algum tempo, começaram a se relacionar. 

        Mariane sabia que Marcelo era casado. Ela, que se arrastava em um relacionamento sem futuro com o até então namorado, caiu nos braços do colega depois de se encontrarem, quase por acaso, em um famoso bar da Asa Sul. Amaram-se sem juras de amor eterno. O caso, que parecia não ter muito futuro, acabou se prolongando até a prisão de Marcelo.

        Lotada em uma delegacia da Ceilândia, a agente morava perto do apartamento do amante. Para ser mais preciso, na quadra 216. Isso, aliás, a fez esbarrar com Marcelo e Susana ali no parque Olhos D'Água, onde costumava fazer caminhadas para espairecer da pesada rotina policial. 

        Excelente investigadora que era, Mariane se lembrava com detalhes da primeira vez que viu a esposa de Marcelo. Os cabelos quase pretos, os olhos grandes de um tom castanho mais claro que os seus. Pouco mais alta que ela, mas não chegava a 1,70, talvez uns 65 kg, vestia uma regata laranja e uma calça de ginástica azul escuro. Tênis preto com duas faixas brancas ao lado. O batom discreto, um rosa bem clarinho. A bonita Mariane, apesar de mais jovem, sentiu uma ponta de ciúme da bela esposa do amado. 

        No final do expediente, Mariane sentiu vontade de ir até o edifício de Marcelo. Estacionou o carro bem em frente à portaria do amante. Um turbilhão de emoções a tomou por completo. Desabou em um choro copioso. 

        Ficou por ali durante quase uma hora. Exausta, decidiu ir embora. Ligou o carro e, já quase saindo, percebeu a chegada de um veículo. Ela logo reconheceu os dois ocupantes. Não que os conhecessem, mas já os havia visto, inclusive através de fotografias mostradas por Marcelo. Eram Pedro e Gustavo. 

        Mariane desligou o carro e ficou observando os dois agentes. Eles pararam o automóvel quase ao lado do seu. Desceram, olharam para o prédio de Marcelo, que morava no primeiro andar. Depois observaram o edifício em frente. Os dois pareciam querer encontrar algo que, talvez, tivesse passado despercebido pela investigação. Isto é, caso as investigações tivessem se preocupado com algo ocorrido do lado de fora da cena do crime. 

        A mulher sentiu vontade de descer e conversar com os seus colegas de profissão. Ela, no entanto, controlou seus impulsos e, depois de mais mais minutos, ligou o veículo e foi embora. Mal chegou em casa, pegou uma lata de cerveja na geladeira e se deitou na rede na sacada. De frente para o Lago Paranoá, a agente começou a desconfiar que aquele crime talvez tivesse motivos muito mais profundos que uma mera briga de casal. 

Gilmar e o traficante

         O escrivão Gilmar mal entrou na delegacia do Paranoá e percebeu que aquele plantão noturno seria muito mais longo que o esperado. Quatro viaturas da polícia militar paradas no local, vários policiais aguardando a sua vez. Qual seria o primeiro flagrante? 

        O delegado Antônio Eduardo, que estava cobrindo um colega naquela noite, olhou para Gilmar. Disposto a meter logo a mão na massa, chamou a primeira guarnição, que trazia um caso de violência doméstica. Pouco mais de 30 minutos, passou para o seguinte. 

         A situação era de tráfico de drogas, mais precisamente maconha. Uma bela quantidade, diga-se de passagem, mas nenhum comprador conduzido. Isso, aliás, não seria empecilho para tombar o flagrante. Isto é, não seria se tal fato não tivesse acontecido. O traficante, velho conhecido, pediu para "ter um particular" com o Gilmar. Não que o escrivão fosse amigo do criminoso, mas já o conhecia de outras prisões. 

      Gilmar pediu para dois agentes levarem Cristiano, vulgo China, até a sua sala. O traficante foi algemado à cadeira em frente à mesa do escrivão.

        _ Seu Gilmar, sei que caí bonito. Mas tenho uma coisa que talvez interesse o senhor.

        _ Tá querendo me subornar, China?

        _ Claro que não, seu Gilmar! 

        _ Qual é o caso, então?

        _ Sei quem matou a mulher daquele cana.

        _ Que mulher? Que cana?

        _ O tal da Asa Norte. O que tá preso.

        _ E quem foi?

        _ Preciso da sua palavra de que vai interceder por mim nessa parada de agora.

        Gilmar olha bem nos olhos do traficante. Ele sabe que muitos bandidos utilizam de falsas delações para serem beneficiados. No entanto, o escrivão decidiu acreditar no China. Foi até a sala ao lado e chamou o delegado. Contou-lhe o que acabara de ouvir. 

        _ Sério?

        _ Parece que sim, doutor. 

    Logo depois, lá estava o China diante do delegado e do escrivão. Com a promessa de desqualificar o possível tráfico para uma simples posse de entorpecente para uso próprio, China decidiu contar tudo o que sabia. 

        Na madrugada do primeiro dia do ano, ele estava fazendo seu comércio costumeiro no final da Asa Norte. Um grande cliente, que morava no prédio em frente ao de Marcelo, o havia chamado para uma entrega. China, que gostava de atender com presteza sua clientela VIP, foi até o apartamento do tal comprador. E foi justamente quando ele estava lá que pararam dois carros, uma Hilux preta e um Golf prata. 

        China fez uma pausa para ver se o delegado e o escrivão continuavam interessados. Pegos como moscas no mel, os policiais quiseram saber o que aconteceu depois disso. O traficante, então, disse que saíram seis homens dos veículos. Eles arrastaram um homem e uma mulher. Eles subiram até o apartamento do primeiro andar. 

        _ Como você sabe disso? - perguntou Antônio Eduardo

        _ É que a luz do apartamento foi logo acesa. 

        _ E daí? O que aconteceu depois disso? - o delegado quis saber.

        _ O que aconteceu, não sei. As cortinas estavam fechadas. Só sei que os seis homens desceram depois de alguns minutos e foram embora.

           _ Anotou as placas dos carros? - o delegado perguntou.

           _ Nem precisei fazer isso.

            _ Por quê? - Gilmar perguntou.

            _ Tá tudo filmado, seu delegado.

           China havia gravado tudo no seu celular. No entanto, com receio de que aquilo pudesse lhe trazer problema, criou um e-mail e enviou o arquivo. Ele mostrou o vídeo para o delegado e o escrivão. Os policiais se entreolharam e sorriram. O acordo iria ser cumprido. 

          Antônio Eduardo chamou os policiais militares e disse que a situação não seria de tráfico de drogas, pois não havia filmagem nem comprador. Eles nem questionaram a decisão do delegado, pois sabiam que ele era a autoridade policial e, portanto, decidia pela tipificação criminal. 

A reunião

        Apesar de viver em um ambiente cheio de vaidade, o delegado Antônio Eduardo não era alguém enfeitiçado por esse pecado. Gilmar, por sua vez, era ainda mais discreto, sempre buscando aparecer o menos possível. Talvez por isso, os dois pensaram quase ao mesmo tempo em entrar em contato com o delegado Miranda, que havia sido o relator do inquérito que apurou o assassinato da esposa de Marcelo.

       Coube ao delegado telefonar naquele mesmo instante para Miranda, que estranhou a ligação àquela hora da noite. Ele, que estava dormindo, pensou até em não atender quando viu que era Antônio Eduardo do outro lado da linha. Não eram necessariamente amigos, apesar da boa e sempre cordial relação. Atendeu!

     Miranda, de tão eufórico que ficou com a informação, levou horas para voltar a pegar no sono. Marcaram para o dia seguinte na delegacia da Asa Norte. Ele telefonou para Pedro, Gustavo e Rafael para convocá-los para a reunião extraordinária às 14 h. Em ponto!

        Ninguém se atrasou para o encontro. Lá estavam todos os seis policiais. Depois dos cumprimentos, todos se sentaram. Antônio Eduardo e Gilmar, depois de mostrarem o vídeo onde apareciam claramente Marcelo e Susana sendo arrastados, ficaram surpresos de que os colegas já supunham tal acontecimento. 

        Pedro se encarregou de contar toda a investigação feita por Marcelo, bem como a que ele próprio e Gustavo haviam feito. Rafael foi o primeiro a falar que agora eles tinham provas mais do que suficientes para inocentar Marcelo. Miranda e Antônio Eduardo concordaram com o escrivão. 

    Miranda, que tinha ótimo trâmite com o Ministério Público, marcou um encontro para aquele finalzinho de tarde. Com uma pasta cheia de provas e um vídeo revelador, não foi difícil o delegado convencer o promotor a pedir o arquivamento da denúncia contra o agente de polícia Marcelo. Este foi posto em liberdade no dia seguinte.

       Vermelho e seus comparsas foram denunciados e tiveram as prisões preventivas decretadas. Quanto ao mandante, usando de toda a sua força política, conseguiu evitar ser preso por um tempo. No entanto, após alguns meses, também teve a prisão preventiva decretada, mas não foi encontrado. As buscas continuam e, dizem, Justus Dourado Flecha teria fugido para os Estados Unidos. Não se sabe ao certo se para Miami ou para Orlando.

Aposentadoria

     Marcelo retornou ao trabalho no mês seguinte. Apesar de ter vivido naquele ambiente por mais de duas décadas, se sentia um estranho. Pedro e Gustavo, seus companheiros de tantos anos, perceberam que algo havia mudado no amigo. Mesmo assim, preferiram guardar para si aquele sentimento. 

     Em casa, o policial não conseguia se adaptar àquele apartamento. Susana não lhe saía da cabeça. Tanto é que ele nunca mais conseguiu dormir no mesmo quarto que dividiram por anos. Preferia se deitar no sofá da sala e, solitário, passar as noites sem fim. Nem Mariane, com quem voltara a se relacionar, conseguiu aplacar as feridas invisíveis que Marcelo carregava desde a virada do ano novo.

     Aconteceu logo pela manhã depois de mais uma noite sem conseguir dormir. Sentado no sofá, as mãos segurando a cabeça envolta em um turbilhão de ideias, que Marcelo encontrou a solução ou, ao menos, o que ele imaginou ser o melhor caminho. E. antes que mudasse de ideia, telefonou para seus colegas de seção e marcou um encontro para daqui a pouco.

    Pedro e Gustavo estranharam aquela ligação pouco antes do amanhecer, mas aceitaram o convite sem pestanejar. Sabiam que o colega havia passado por momentos difíceis e, cismados, correram até o apartamento da 415 Norte. Mal entraram, foram recebidos por Marcelo, que havia preparado um delicioso café gourmet. 

    _ Muito bom! - elogiou Pedro.

    _ Obrigado! Fazer café foi uma das coisas que aprendi na prisão.

    Marcelo contou aos amigos que iria se aposentar. Ele, com tempo de sobra, havia relutado por anos, talvez por medo do futuro. Agora, no entanto, ciente de que não tinha qualquer vocação para herói, queria ficar o mais longe possível daquele mundo de mocinhos, bandidos e tantos outros personagens.

    Não demorou muito, sua aposentadoria foi publicada Diário Oficial do Distrito Federal. Vendeu o apartamento e viajou para João Pessoa, a aprazível capital da Paraíba. Gostou tanto do lugar, que decidiu ficar por uma temporada. 

     Em pouco tempo, visitou Tambaba, a famosa praia de naturismo em Conde, município próximo. A princípio ficou receoso de tirar a roupa, mas, decidido, foi adiante. Marcelo queria não apenas se despir de suas vestes, mas de toda aquela vida que havia deixado para trás. 

Fim   


Nota de esclarecimento: O conto "Assassinato na 415" saiu no formato de folhetim no Notibras do dia 07/03/2023 até o o dia 21/03/2023, conforme abaixo enumerado: 

1) https://www.notibras.com/site/policia-flagra-policial-e-tenta-corrigir-o-erro/

2) https://www.notibras.com/site/marcelo-preso-recebe-visitas-de-dois-policiais/

3) https://www.notibras.com/site/caso-encerrado-mas-sempre-fica-algo-para-tras/

4) https://www.notibras.com/site/flavio-o-dono-da-festa-de-arromba-na-pre-morte/

5) https://www.notibras.com/site/motorista-de-uber-da-pistas-sobre-morte-de-susana/

6) https://www.notibras.com/site/golpe-de-sorte-mata-a-frustracao-no-caso-susana/

7) https://www.notibras.com/site/mandante-do-crime-mistura-chocolate-com-sangue/

8) https://www.notibras.com/site/vermelho-entra-na-mira-dos-agentes-pedro-e-gustavo/

9) https://www.notibras.com/site/corrida-para-tirar-parca-marcelo-da-cela-da-papuda/

10) https://www.notibras.com/site/mariane-a-amante-entra-no-caso-para-ajudar-marcelo/

11) https://www.notibras.com/site/china-traficante-entrega-os-matadores-de-susana/

12) https://www.notibras.com/site/solto-marcelo-lava-corpo-e-alma-em-tambaba/




segunda-feira, 20 de março de 2023

A Bela e o Guaíba

 

    Dizem por aqui em Porto Alegre que o Guaíba deixou de lado aquele complexo que o perseguia há anos. Sim, isso mesmo! É que uns afirmam que ele é um rio; outros, no entanto, juram de pés juntinhos que não passa de um lago. Controvérsias à parte, a notícia que corre é que o velho Guaíba anda caidinho por uma certa garota do sorriso mais lindo por estas bandas de cá. 

    O nome da amada? Até onde se conta, é uma incógnita. Mas nada que impeça que o povo continue a comentar sobre o romance que, se ainda não ganhou os noticiários, já tomou todas as ruas da cidade. Por isso, não é de se estranhar que centenas de curiosos tenham ido à orla para conhecer a tal Bela do Guaíba. Os mais tímidos, no entanto, dizem que estão ali apenas para ver o pôr do sol. 

    A princípio, o Guaíba, talvez inseguro, não acreditasse que aquela mulher fosse lhe dar trela. Ele, receoso de ser rejeitado, nem se atrevia a tentar uma investida. No entanto, conforme o que se conta à boca pequena, é que Bela, numa dessas noites quentes de verão, se sentou na areia bem em frente ao Guaíba. E, não se sabe ao certo o porquê, ela sentiu vontade de refrescar os pés. 

    Bela ergueu o corpo usando apenas a força de suas pernas e, a passos serenos, experimentou primeiro a pontinha do pé esquerdo naquelas águas geladas. Gostou tanto, que colocou os dois. Guaíba mal podia acreditar naquilo e, atrevido, começou a jogar suas marolas em direção à mulher. 

     Ela sorriu todo aquele sorriso mais lindo e, sem qualquer pudor, se jogou de braços abertos nas águas do Guaíba. Amaram-se a noite toda, até que, na manhã seguinte, ele a colocou de volta à areia. Bela ainda ficou olhando a mansidão do Guaíba. Depois ergueu o corpo apenas com a força das pernas e foi embora, mas com a promessa de voltar todas as noites para se amarem. 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Gorrinhos coloridos

 

     Aline, que nascera aventureira, permaneceu com esse ímpeto durante toda a sua vida. Toda a sua vida pode dar a falsa impressão de que tenha vivido muito, algo que não é verdade. Ou, ao menos, não se tem certeza. Isso porque, no auge dos seus quase 20, desapareceu na floresta da Tijuca, para onde havia ido com amigos para uma caminhada, provavelmente a sua última.

    Essa dúvida, apesar de pairar sobre a mente de parentes, amigos e até desconhecidos, que leram a triste notícia do desaparecimento da garota, cuja foto foi estampada nas capas dos principais jornais da cidade, não ecoava na de sua avó, Ceci, que insistia em tecer gorrinhos coloridos para a neta preferida. A velha, como toda velha que era até velha para todos os outros velhos, vivia por ali sem ser percebida. Dia e noite, lá estava Ceci tecendo infinitos gorrinhos, alguns até com pompom no cocuruto, como Aline gostava. 

        Pelo que contavam os que estiveram com Aline no dia do sumiço, a garota havia cismado em seguir por uma trilha antiga, talvez usada por tribos que ali andaram há centenas de anos ou, então, por seres humanos escravizados em busca da liberdade. Aline, segundo diziam, sempre fora muito sensitiva para essas coisas, mesmo que a razão apontasse para o lado oposto. 

        Talvez por isso, Aline era tão próxima a sua avó, que, dizem, era bruxa. Mas não dessas de nariz adunco com verruga na ponta. Não mesmo! Ceci, bela até na velhice mais avançada, encantava a todos ao redor. Tal feitiço, aliás, corria a cidade inteira, que, volta e meia, trazia aflitos à procura de amparo. 

        Ceci, a despeito de nunca cobrar, sempre era muito bem remunerada. Isso lhe proporcionou uma vida terrena muito pra lá de confortável, beirando o luxo. Ela, no entanto, nunca se deixou iludir por tais mimos, a não ser por uma bela xícara de chá de ervas. Sem açúcar, ela dizia, já que a vida tratou de adocicar seus lábios desde bem cedo. 

        Não se sabe ao certo se foi numa terça ou quarta-feira. Talvez tenha sido mesmo numa sexta, quando todos estavan mais preocupados com o que iriam fazer no final do dia. Isso não importa! Seja como for, foi a Maricota, filha mais nova de Ceci, tia mais querida de Aline, que percebeu a ausência da velha. Cadê? Ninguém mais a viu! Procuraram por um tempo, mas logo trataram de se preocupar com os afazeres próprios de cada um.

        Quase no mesmo instante, lá no meio da floresta da Tijuca, algo chamou a atenção daquela garota. Logo atrás de si, as folhas começaram a se mexer, como se alguém estive se aproximando. Curiosa, ela olhou para trás e sorriu. Era sua avó, que trazia em uma das mãos uma xícara de chá de ervas bem quentinho. Na outra, uma sacola cheia de gorrinhos coloridos, todos com um pompom no cocuruto.
  • Nota de esclarecimento: O conto de terror "Gorrinhos coloridos" foi publicado pelo Notibras no dia 31/07/2023. Por uma solicitação da redação do jornal, foi feita pequena alteração no texto para que o Distrito Federal também fosse mencionado.
  • https://www.notibras.com/site/conto-de-terror-contado-com-pastel-e-caldo-de-cana/

segunda-feira, 13 de março de 2023

Cocota e o chamado da floresta

    Cheia de energia, Cocota acordava com a corda toda. Aquela buldogue era tão agitada, que a sua mãe humana, Mirtes, tentava adivinhar o que se passava naquela cabeça ornada com duas orelhas de morcego. Não era possível que toda aquela correria fosse apenas fruto de simples vontade de correr quase sem parar, se não fossem pelas paradinhas estratégicas para beber água geladinha na vasilha de alumínio. 

    Os grandes olhos escuros fitavam os claros de Mirtes. A enorme língua pendia para o lado, os dentes alvos sorriam. A mulher tinha certeza de que novas travessuras estavam por vir. E vinham! A cachorra chegava a jogar o corpo contra a parede, voltava como mola e ia de encontro à outra logo adiante. 
    
    _ Se aquieta, doida!

    Tais palavras, ditas em tom de brincadeira, faziam com que Cocota se animasse ainda mais, caso isso fosse possível. Mirtes até gostava daquela folia, que animava sua aposentadoria. Aliás, um hábito que a velha havia adquirido depois de cumprir seus quase 32 anos de trabalho foi a leitura. Os assuntos eram variados; os autores, os mais diversos.

    Talvez por conta do convívio com Cocota, a mulher tenha se apaixonado por um livro em especial: "O chamado da floresta". Mirtes estava certa de que a sua buldogue também gostava de ouvi-la ler as aventuras vividas por Buck, o cachorro do romance de Jack London. Por isso, empostava a voz, o que fazia com que a Cocota mexesse as orelhas para captar cada palavra. 

    A despeito de alguns descrentes, o certo é que aquela buldogue não apenas entendia, mas desejava estar no lugar do Buck. Chegava a sonhar acordada, como se estivesse na neve entre seus irmãos, os lobos. Com certeza ela seria a líder de todos eles, uma verdadeira rainha. 

    De tão entretida com a história que saía da agradável voz de Mirtes, Cocota adormecia. Os sonhos eram tão reais, que, ao despertar, ela estava exausta. A cachorra olhava ao seu redor e, aliviada, dava um longo suspiro. Aquilo tudo era demais para ela, que preferia continuar estirada no conforto da sua cama bem quentinha.
  • Nota de esclarecimento: O conto "Cocota e o chamado da floresta" foi publicado pelo Notibras no dia 24/7/2023.
  • https://www.notibras.com/site/conheca-cocota-surda-ao-chamado-da-floresta/

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

Marisa e a ala psiquiátrica do presídio

    Toda vez que descia aquela ladeira, Marisa já sentia o cheiro de confusão. Psiquiatra de profissão, atendia aquela ala do presídio, onde vivia uma enorme gama de seres humanos com históricos dos mais diversos. Para a maioria da população livre das grades, no entanto, poderiam ser vistos como doidos varridos.

   Apesar da quase uma década lidando com aqueles de onde a sanidade havia sido varrida por completo, Marisa ainda assim se surpreendia. Aliás, um dos casos mais intrigantes dos últimos tempos era o de Esdras, um homem de seus quase 40 anos, mirrado como um adolescente desnutrido. Para completar o quadro, ele sofria de paralisia de metade do corpo, o que lhe conferiam braço e perna ainda mais finos do lado direito. 

   O detento andava arrastando a perna direita por onde ia. Quanto ao braço paralisado, praticamente nenhum movimento. Tombado para baixo, nem conseguia mexer os dedos, quanto mais fechar o punho. 

    A voz, quase infantil, combinava com os tristes olhos de menino abandonado. Sempre fitando os próprios pés, Esdras não conseguia encarar as pessoas, como se uma timidez lhe tomasse por inteiro. Todavia, não se iludam com tal aparência. Era um assassino dos mais ardilosos, a despeito de tamanha fragilidade. 

    _ Por que você tentou matar seu pai?

    _ Não sei, doutora. De vez em quando uma coisa vem.

    _ Que coisa, Esdras?

    _ Não sei. Simplesmente vem.

   Esdras havia sido preso há pouco mais de um mês, quando esfaqueou seu pai adotivo, o velho Odorico. Apesar das três facadas, o homem sobreviveu. Por milagre, disseram os médicos. Uma das punhaladas atingiu um dos pulmões. Odorico cuspiu sangue pela boca antes de ser socorrido.

    Na delegacia, Esdras se manteve calado. Não que quisesse manter em segredo a motivação do seu crime. Ele simplesmente não sabia. Estava atônito tanto ou quase tanto como todos ao seu redor. 

    O criminoso foi colocado junto a outros presos numa cela. Num canto, todo encolhido, mantinha os grandes olhos castanhos direcionados para os próprios pés. Os outros detentos, três para ser preciso, acabaram adormecendo sem ligar para o agora colega. Ledo engano. Foram despertados pela fúria de Esdras, que desferia vários socos na cabeça de um deles. Murros com a única mão que valia a pena ainda manter naquele corpo frágil, a esquerda. 

    Os dois outros presos começaram a espancar Esdras, enquanto o terceiro vomitava os bofes. Os policiais de plantão agiram rápido e conseguiram evitar que o maluco fosse morto ali mesmo. Separaram-no dos demais. 

    No dia seguinte, enquanto era levado para a audiência de custódia, eis que Esdras quase arrancou um pedaço da orelha de um dos presos. Cheio de dor, a vítima gritou por socorro, mesmo sendo muito mais forte que Esdras. Ninguém acreditava que aquele aleijado pudesse ter feito aquilo. 

    Marisa, depois de fazer suas anotações, se despediu do seu mais novo paciente. Esdras, com os olhos voltados para baixo, mal conseguiu balbuciar algo. No entanto, assim que o carcereiro apagou a luz da cela, algo chamou a atenção da psiquiatra.

    _ O senhor vai me deixar no escuro?

    _ Por quê? Você tem medo de escuro?

    _ Tenho.

    _ Pode ficar tranquilo, Esdras. Nada de mal vai lhe acontecer. Vou ficar aqui perto para te proteger.

    Marisa, depois de quase dez anos trabalhando na ala psiquiátrica do presídio, ficou surpresa não com o medo de escuro do paciente, mas com a bondade inesperada do carcereiro. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Marisa e a ala psiquiátrica do presídio" foi publicada pelo Notibras no dia 12/04/2023. Por solicitação da redação do jornal, foi feita pequena alteração do texto para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/esdras-e-carcereiro-mostram-lado-emotivo-de-marisa/

quarta-feira, 8 de março de 2023

Margarida e as rugas

    Margarida franziu a testa e cutucou o marido, para que ele prestasse atenção nas míseras rugas. Mal havia chegado aos 30, a mulher andava às turras com a velhice, aos seus olhos, cada dia mais presente.

    _ Arnaldo, estou velha!

    _ Que nada! Você é tão jovem, meu amor!

    _ Você diz isso só pra me agradar.

    Não satisfeita, tratou logo de marcar uma sessão de massagem facial. Infeliz com o resultado, seguiu o conselho das amigas e aplicou botox na testa, depois nos cantos da boca. Pensou em até aumentar os lábios, mas se lembrou da vizinha, que havia feito tal procedimento e andava como se estivesse distribuindo beijinhos para todo mundo. Que coisa horrível!

    Cremes milagrosos se tornaram corriqueiros no dia a dia da Margarida, até que o tempo passou tão ligeiro, que ela mal percebeu a aproximação dos 70. Pois é, chegou! Septuagenária! No entanto, caso olhasse para aquela pele tão bem cuidada, ninguém lhe daria mais que 65. Talvez até 63.

    Diante do enorme espelho do quarto, Margarida sentiu saudade dos seus 30, quando ainda era tão jovem. Na cama ao lado, Arnaldo roncava o sono dos aposentados. Observando o marido através do espelho, Margarida o chamou. Nenhuma resposta, até que ela, quase gritando, insistiu. Arnaldo, com os olhos entreabertos, olhou para a esposa. Ele a achava linda mesmo após mais de 40 anos de casados.

    _ Arnaldo, estou velha!

    _ É.

    _ O quê?

    _ O que o quê?

    _ Você me chamou de velha!

    _ Eu?

    _ Sim! Foi justamente o que você acabou de dizer!

    _ Apenas concordei.

    _ Arnaldo, vou te falar apenas uma vez, mas preste bem a atenção!

    _ Hum.

    _ Velha é a tua mãe!!!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Margarida e as rugas" foi publicado pelo Notibras no dia 11/09/2023.
  • https://www.notibras.com/site/chegada-das-rugas-deixa-margarida-inconsolavel/

   

domingo, 5 de março de 2023

Bolos e filhos


     Entre todas as pessoas ao seu redor, Adalgiza se identificava principalmente com seu tio, o Agnaldo, solteirão convicto cheio de manias. Ela, que era vegetariana, não se importava se ele degustasse algumas asinhas de frango durante suas longas conversas. Agnaldo, por sua vez, gostava de presentear a sobrinha com alguma novidade da culinária isenta de produtos de origem animal. Chocolate, aliás, era algo que deixava a garota extremamente feliz, tanto é que o sorriso ficava ainda mais fácil no seu lindo rosto, onde aqueles óculos lhe conferiam até um certo ar de intelectual. 

      Apaixonados por matemática, os dois gostavam de inventar problemas envolvendo números. Isso os aproximava ainda mais, se bem que todos ao redor torciam os lábios e logo iam procurar algo mais simples para fazer como, por exemplo, assistir a uma comédia pastelão ou, então, correr os olhos na televisão para observar 22 marmanjos correndo atrás de uma bola, enquanto um terceiro zanzava de um lado para o outro com um apito na boca, sem falar naqueles outros dois que subiam e desciam a lateral do campo tentando espanar as moscas.

        A despeito da paixão pela ciência de Pitágoras, Agnaldo passara boa parte da vida envolvido com a enfermagem. Bom de veia, raramente perdia uma, graças à sua capacidade de fazer precisos cálculos do calibre dos vasos sanguíneos. Isso lhe valeu o apelido Agulhinha de Ouro. Dessa forma, se alguém estava com dificuldade de pegar a veia de um paciente, corria para chamar o tio da Adalgiza. Peito estufado, lá ia o herói do hospital, enquanto os colegas quase o ovacionavam, certos que estavam de que ele resolveria mais aquele caso. 

     Adalgiza, por sua vez, se metera no mundo das letras. Fez mestrado e até doutorado sobre o grande mestre Joaquim Maria Machado de Assis. De tão íntima ficou do mais imortal dos imortais da Academia Brasileira de Letras, que, não raro, se referia a ele como Quinzinho. Talvez nem mesmo a Carolina Augusta tenha chamado o próprio marido dessa maneira. Seja como for, era assim que as coisas costumavam acontecer e, pasmem, aconteciam. 

     Ignácia, mãe de Adalgiza e irmã de Agnaldo, era uma mulher intuitiva. Excelente na cozinha, conseguia ser ainda melhor quando fazia bolos, especialmente os de cenoura e chocolate. Sabia a receita de cor e salteado, mas nunca a seguida exatamente da mesma maneira. Todavia, por mais esdrúxulo que fosse seu pensamento, eis que a guloseima ficava ainda melhor. 

        Pois  essa história se deu num domingo, talvez de outubro ou novembro, se bem que o mais provável é que tenha sido próximo aos festejos de fim de ano. Na verdade, tais detalhes não fazem a menor diferença, pois as condições de temperatura e pressão eram praticamente as mesmas durante todo o ano naquela cozinha tão ampla, que daria para colocar uma rede de uma parede à outra enquanto o bolo assava dentro daquele forno bem quentinho. Mas, antes disso acontecer, lá estava a Ignácia preparando a massa, enquanto era atentamente observada pelos olhos curiosos da filha e do irmão. 

        Duas xícaras de farinha de trigo, três ovos, um tanto de fermento... A mulher, com uma colher de pau, mexia tudo. De repente, ela pegou mais um tanto de farinha de trigo e despejou sobre aquela massa, enquanto as mentes matemáticas dos dois curiosos tentavam fazer cálculos para entender aquela manobra culinária. Ignácia, pensativa, tacou mais um ovo e voltou a mexer, certa de que sabia o que estava fazendo. Adalgiza e Agnaldo se olharam espantados, até que a garota, talvez mais impaciente, resolveu questionar a atitude da mãe.

        _ Pensei que a senhora fosse seguir a receita.

        _ Eu sigo.

        _ Mãe, mas aqui diz que são duas xícaras de farinha de trigo. A senhora colocou quase três.

        _ Adalgiza, bolos são como filhos. Alguns precisam de mais mimos. 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O futuro é logo ali

    Genivaldo desde sempre viveu com a cabeça enfurnada entre as nuvens mais altas, como se buscasse algo que não tivesse aqui embaixo ou, então, fosse simples devaneio decorrente do tédio da vida que levava. Não que quisesse ser astronauta, mesmo porque jamais suportou uma vida eterna em vestes tão incômodas. Gostava de mobilidade e conforto e, se aquele homem não andava pelado o tempo todo, era por mera questão de convenção social. Também, é óbvio, não queria ser preso por atentado violento ao pudor. 

    Mecânico de profissão, desde os tempos em que os automóveis possuíam carburadores, Genivaldo, entre um aperto de parafuso aqui, uma troca de óleo ali, sonhava com uma viagem para o futuro ou mesmo para o passado. Esse pensamento, aliás, era recorrente, como se houvesse uma engrenagem que fizesse com que seu cérebro trabalhasse diariamente nesse intuito. Todavia, bastava entrar na oficina do Genivaldo para perceber o motivo de tal fixação. É que havia um enorme cartaz do filme "De Volta para o Futuro" numa das paredes encardidas daquele lugar. 

    O futuro era um mistério para aquele mecânico. Mas não o futuro de ali a poucas horas, dias ou meses. Queria saber como é que a humanidade iria viver daqui a cem, duzentos, mil anos. Seria possível construir uma máquina capaz de viajar no tempo? Aliás, seria o próprio tempo dividido em camadas, que se sobrepõe, como se fosse um mil-folhas que ele adorava saborear na padaria da esquina? Ou, então, não passava de uma simples ideia para um roteiro de Hollywood? 

    De tão envolvido com aquele pensamento, eis que num domingo, sua folga, resolveu acordar bem cedinho e se embrenhar no meio de tantas ferramentas da sua oficina. Fechou bem a loja para que ninguém pudesse ir perturbá-lo. Olhou o velho Fusca 1972 e, decidido, começou a futucar naquele motor que não dava sinal de vida há pelo menos uma década. Não era um DeLorean, é verdade! Mas era o que Genival tinha à sua disposição. 

    Trabalhou o dia inteiro, perdeu até a noção do tempo. Não voltou para casa naquele dia nem nos seguintes. A esposa, acostumada com as manias do marido, nem se deu conta do seu sumiço. Até os clientes, depois de perceberem que as portas da oficina não estavam abertas, deixaram de procurá-lo. Melhor assim, pois ninguém iria perturbá-lo naquela saga que mudaria a humanidade. Não que ele ligasse para fama, isso não. Genivaldo era movido pela curiosidade! Sim, queria porque queria descobrir como os humanos viverão no futuro muito além de simples horas, dias ou meses. 

    Não se sabe exatamente quanto tempo ele levou para dar os pequenos passos para transformar a humanidade. Todavia, parece, conseguiu. Mesmo assim, ele queria provar que estava certo sem os olhos curiosos da vizinhança. Por isso, esperou que todos já estivessem recolhidos em suas camas quentinhas. Genival, então, abriu a oficina, depois se acomodou no banco do Fusca 1972, ligou o motor. Acelerou de leve, depois apertou bem fundo. Antes que engatasse a primeira, lembrou-se de colocar o cinto de segurança. Vai que no futuro tenha um guardinha na esquina pronto para lhe aplicar uma multa. 

    Pisou na embreagem, engatou a marcha e acelerou firme. Passou logo para a segunda, depois para a terceira, mudou para a quarta quando, de repente, um clarão surgiu diante dos seus olhos. Eufórico, Genivaldo constatou que havia conseguido chegar ao futuro. Não sabia exatamente em que ano, talvez algo por volta do século XXX. 

    Estacionou o Fusca 1972 em uma vaga próxima a uma sorveteria. No cardápio, sabores diversos, desde morango de Saturno até chocolate de Marte. Não faltavam as novidades melancia de Júpiter e cogumelos de Plutão, que, Genivaldo descobriu, havia voltado à condição de planeta por conta de uma emenda constitucional aprovada quase por unanimidade pelos deputados e senadores. Esfomeado que estava por conta de tantos dias sem comer, ele se esbaldou de tanto sorvete. 

    Agora de barriga cheia, Genival se deu por satisfeito. Levantou-se e saiu da sorveteria. Foi em direção ao seu Fusca 1972, quando, de repente, o dono do estabelecimento lhe toca os ombros. Genivaldo havia saído sem pagar. Ele, então, percebe que estava sem a carteira e tenta argumentar com o comerciante, que, não satisfeito, lhe desfere um safanão no pescoço. Genivaldo reage com um xingamento, quando, então, ouve uma voz muito familiar.

    _ Acorda, amor! Tá atrasado pro trabalho. 

  • Nota de esclarecimento: "O futuro é logo ali" foi publicado pelo Notibras no dia 3/3/2023. Foi feita pequena modificação no texto original para que, conforme solicitação do editor, a história se passasse no Distrito Federal. 
  • https://www.notibras.com/site/genivaldo-de-limpador-de-carburador-ao-futuro/ 

quarta-feira, 1 de março de 2023

Cai-Cai, o menino desastrado

            Aquele menino era tão desatento, que vivia caindo. Não que fosse bambo das pernas, mas descuidado com os perigos ao seu redor. Seu nome? Bem, isso não é relevante saber, pois todos o conheciam pelo apelido, que virou praticamente seu nome de batismo: Cai-Cai. 

            Histórias sobre o moleque não faltavam. De tantas que o povo contava, talvez uma ou outra fosse aumentada ou, pode ser, inventada. A despeito dos floreios, era certo que Cai-Cai possuía algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo franzino, contudo resistente, tamanho o número de tombos, pancadas e até desmaio numa piscina. Desmaio? Então, esse garoto deveria ter algum problema de saúde, alguns poderiam afirmar. Que nada! 

            Apesar dos pontos na testa, nos joelhos, nas mãos, no queixo, Cai-Cai, quase sempre, tinha um anjo da guarda por perto. Seu irmão, o Josenildo, praticamente três anos mais velho, o que lhe garantia uma boa vantagem na altura, quase dez centímetros. 

            Para começar, vamos ao caso do desmaio na piscina. Dizem por aí, pelo menos é como eu ouvi, que lá estavam o Josenildo e o Cai-Cai num clube pelas bandas de Goiás. Os meninos, como duas piabas, aproveitavam aquele mundaréu de água. Josenildo, sempre metido, quase gritava que era o maior nadador do mundo. Batia no peito, soltava um grito de Tarzan e lá ia mergulhar atrás de uma pedrinha bem no fundo de azulejos azuis. O irmão mais novo fazia o mesmo.

            Cai-Cai sentia orgulho do irmão. Até que surgiu um rapaz, quase homem formado, que se sentou na beira, as pernas entrando aos poucos na piscina, como se estivesse tomando coragem para encarar a água gelada. Nisso, Josenildo, do alto de tamanha confiança, lançou um desafio ao tal rapaz. 

            — Quer apostar uma corrida?

            O rapaz, a princípio, não deu muita trela pro Josenildo. Todavia, diante da insistência do menino, o quase homem formado aceitou. O combinado foi atravessar a piscina ida e volta. Enquanto os dois competidores foram para as suas marcas, o Cai-Cai, alheio a tudo isso, continuava sua interminável busca de pedrinhas no fundo.

            A largada foi dada, Josenildo, apesar de menor em tamanho, parecia um gigante diante do seu adversário, que batia freneticamente braços e pernas. Com pequena vantagem na virada, o rapaz, a poucos metros da linha de chegada, sentiu que havia batido em algo. Parou quase instantaneamente, enquanto Josenildo o ultrapassou e venceu a contenda. 

            O medalhista sem medalhas para ganhar ainda comemorava, quando, então, percebeu que o seu adversário estava submerso, talvez em busca de uma pedrinha. Ele até riu, pois imaginava que aquilo era brincadeira de criança. Até que, assustado, Josenildo constatou que o quase homem emergiu carregando o Cai-Cai nos braços. 

            O que teria acontecido? A verdade, segundo dizem, é que no exato momento em que o rapaz nadava, eis que o Cai-Cai veio à tona e, sem querer, acabou sendo atingido por um quase soco. Desmaiou, foi ao fundo, depois foi salvo pelo mesmo indivíduo que há pouco o havia nocauteado. 

            Outra história talvez pareça ainda mais fantasiosa. Que seja assim, então. Mas vale contá-la. Essa, aliás, soube através de uma quase testemunha ocular. Exatamente isso! Quase, já que a distância do local do fato comprometia ainda mais a já péssima acuidade visual, sem contar a avançada miopia da velha Neide.

            Josenildo, além de campeão de natação, era o maior soltador de pipa do bairro. Há os que afirmam que os outros meninos não se atreviam a subir suas pipas enquanto o guri estivesse empinando a sua. Era corte na certa! Cerol!

            Pois bem, lá estava o Josenildo soltando pipa, quando sentiu uma vontade inegociável de ir ao banheiro. Sem tempo para recolher tanta linha, passou o comando para o Cai-Cai. Este, todo orgulhoso, se sentiu o maioral. O irmão mais velho correu o mais rápido que pôde para casa, que ficava logo ali. 

            Inebriado pela pipa lá no alto, Cai-Cai brincava com manobras pra cima, pra baixo, pro lado, enquanto ia dando uns passos para trás. Não viu um buraco logo atrás de si. Caiu que nem um abacate maduro. Não se sabe se bateu a cabeça ou se foi susto, mas o menino desmaiou. 

            Depois de satisfazer suas inadiáveis necessidades fisiológicas, eis que o Josenildo surgiu. Mas cadê o seu irmão? Nada do Cai-Cai por ali. Será que ele se cansou de esperar? Mas algo deixou o Josenildo com a pulga atrás da orelha. É que a sua pipa continuava lá no alto. 

            Josenildo teve a ideia de seguir a linha. Ele apontou para a pipa e foi descendo o dedo até que, finalmente, encontrou o irmão dentro do buraco. Apesar da queda de quase dois metros, Cai-Cai ainda mantinha a linha na sua mão esquerda. Foi preciso chamar o pai dos meninos para tirar o desastrado de dentro daquele buraco. No entanto, apesar da queda, Cai-Cai teve sorte de ter caído em cima de um colchão, o mesmo usado pelo mendigo Adalberto, que, de vez em quando, aparecia por aquele bairro.

            Vamos, então, para a terceira, mas não última história sobre o Cai-Cai. Essa, aliás, teria acontecido num dia de muita chuva. Mas chuva de verdade, dessas que fazem até os mais corajosos tremerem de medo. 

    O toró havia passado, mas todas as ruas ficaram alagadas. Josenildo e Cai-Cai resolveram sair um pouco, apesar da tarde já quase virando noite. Os irmãos corriam chutando as poças d'água, riam aos montes. Brincavam de pega-pega quando, de repente, o Cai-Cai desapareceu numa poça diante dos olhos aflitos do Josenildo. Este, sem tempo para pensar, meteu a mão naquela água barrenta e, puxando o irmão pelos cabelos, o salvou de se afogar num bueiro. 

            Obviamente que ouvi muitas outras histórias sobre o Cai-Cai, mas talvez você, que chegou até aqui, me ache um mentiroso. Além disso, devido à minha avançada idade, que já passou dos 80 no último janeiro, prefiro manter a minha reputação de amigo da verdade ou, ao menos, um conhecido dela. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Ariclenes e Fofa


    Ariclenes não era turrão, mas tinha lá as suas manias e ideias, que, talvez, deixassem perplexos os que o rodeavam. O homem, mal acordava, subia e descia não sei quantas vezes de uma barra fixa na porta da cozinha. A desculpa eram as dores nas costas, precisava dar aquela esticada no corpo. Todavia, havia os que duvidavam dessa teoria, inclusive os que afirmavam que Ariclenes estava se tornando, cada vez mais, um metódico gagá. 

    Não que ele fosse tão velho assim, ainda lhe faltavam algumas primaveras para completar 60. Seja como for, o dia do Ariclenes não prosseguia sem fazer as tais barras. Depois dos exercícios matinais, eis que Fofa, sua simpática buldogue, dava os primeiros sinais de vida após uma longa noite de roncos. Era o sinal de que a cachorra queria dar uma volta pelo quarteirão. 

    O homem pegava a amiga no colo e lhe dava aquele cheiro gostoso de bom dia. A Fofa, como forma de retribuição de tanto amor, lambia a orelha esquerda do Ariclenes. Não demorava, lá estava aquela dupla inseparável na rua. O passeio levava quase uma hora, até que a teimosia da buldogue a fazia deitar no meio da calçada. E não adiantava que o dono insistisse em chamá-la, pois a cadelinha simplesmente se virava de barriga para cima e fechava os olhos, demonstrando que dali nem um guindaste a tirava. 

    Como não restava outra solução, Ariclenes sorria. Em seguida, ele se abaixava e pegava a Fofa no colo e, ainda com um sorriso na cara, voltava para casa. É lógico que sempre havia um ou outro comentário dos moradores do bairro: "A mocinha cansou!", "Que menina manhosa!", "Essa aí adora o colinho do papai!" Sejamos sinceros, pois o Ariclenes até gostava da situação. Afinal, como ele costumava dizer, "A Fofa tem personalidade!"

    Tudo corria como de costume. O homem acordava bem cedo, fazia aquela infinidade de barras, a cachorra despertava de mais uma noite cheia de roncos, os dois passeavam pelo bairro até que a Fofa empacasse, ele a pegava no colo e voltavam para casa felizes da vida. Pois bem, até que o Ariclenes começou a namorar a Clotilde, uma viúva dali mesmo da rua. 

    A mulher, que passara a vida inteira sem ter um animal de estimação, nem sequer um peixinho dourado, foi se envolver justamente com o Ariclenes. Pois é, mas paixão tem dessas coisas, faz questão de instigar os apaixonados, como se quisesse que esse sentimento arrebatador não durasse mais que um verão.  E foi justamente naquela noite, a primeira em que os pombinhos iriam passar juntinhos na ampla cama do quarto do Ariclenes, que Clotilde descobriu que a Fofa também dormia ali.

        _ Ariclenes, não tem cabimento essa cachorra dormir na cama!

        _ Clotilde, meu amor, os cães vivem tão pouco, que seria egoísmo da minha parte se não deixasse que a Fofa dormisse aqui.

        Não se sabe qual foi o desenlace amoroso daquela noite, mesmo porque não cabe aqui destrinchar a vida íntima dos outros. Entretanto, todos no bairro sabem que, a partir de então, Clotilde, Ariclenes e Fofa passeiam todas as manhãs. A buldogue, agora com uns pelinhos brancos ao redor do focinho, continua empacando, o que obriga o Ariclenes a se abaixar e pegá-la no colo.  Em seguida, três sorrisos voltam para casa, certos de que a vida é muito curta para se preocuparem com besteiras. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Ariclenes e Fofa" foi publicado pelo Notibras no dia 17/6/2023. Por solicitação da redação do jornal, foi feita pequena alteração no texto a fim da história passar no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/clotilde-cede-a-paixao-e-trio-encanta-a-quadra/

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Aprígio, o brigão

        Brigão mesmo era aquele menino, que desde sempre dava socos e pontapés em tudo. Sua mãe, ainda grávida, já não aguentava carregar o filho na barriga, que chutava, socava a todo instante. No entanto, o parto, que não foi dos mais fáceis,  foi um alívio para a mãe do Aprígio. 

     Nasceu rechonchudo, mas, depois de tantas brigas durante os tempos de creche, escola e, principalmente, na rua onde morava, Aprígio foi perdendo as gorduras. Até as carnes, que não eram muitas, transformaram aquele jovem em mais um dos inúmeros magricelas do bairro. A mãe, preocupada com o temperamento explosivo do filho, foi convencida por um vizinho a colocar o menino numa aula de artes marciais. Seria bom para controlar o pavio curto do Aprígio, garantiu o homem. 

       Do judô foi pro caratê, depois deu uns pulos pela capoeira, de onde rumou para o kung fu e, finalmente, chegou ao jiu-jitsu. Todavia, o conselho do amigo de sua mãe pareceu ter efeito contrário ao esperado. É que o Aprígio, quanto mais aprendia a desferir golpes, mais sentia vontade de brigar na rua. Não que procurasse confusão, mas parecia incapaz de resistir a qualquer provocação.

          Pois é, depois de tantas batalhas nas ruas do seu bairro, o rapaz ganhou fama de invencível. Tanto é que a Ritinha, uma das beldades da região, se engraçou para o seu lado. Não tardou, os dois começaram a namorar, um namoro sério, tão sério que deu em casamento alguns anos depois. Tiveram até um filho, o pequeno Aprígio Júnior, o Juninho. 

        Alguns meses antes do Juninho completar três anos, Aprígio quis porque quis introduzir o herdeiro no mundo das lutas. Pra quê? O menino chorava sem parar ao menor tapa que levava dos coleguinhas durante os treinos na academia. Aprígio tentou insistir na formação de guerreiro do Juninho, mas Ritinha, para quem aquilo tudo já havia se tornado enfadonho, barrou as pretensões do marido. 

     A relação do casal, pelos próximos anos, foi cheia de altos e baixos, até que a mulher deu o definitivo basta naquilo tudo. Aprígio pegou aquele cartão vermelho recebido e, com o rabo entre as pernas, foi morar num quarto e sala no outro lado da cidade. Não tardou, recebeu a visita de um amigo, que havia ido consolá-lo.

       _ Aprígio, sempre pensei que vocês formassem o casal perfeito.

       _ Eu também pensei, mas a Ritinha me expulsou de casa.

       _ Mas por que ela fez isso?

      _ Foi logo depois que fomos a uma boate. Ela havia ido buscar uma bebida no balcão, quando dois caras se aproximaram dela. Eles começaram a paquerar a Ritinha. Fui até lá e falei para eles saírem de perto, pois do contrário eu iria estragar a noite deles. 

      _ E daí?

   _ Daí que os caras entenderam o recado e pediram desculpa, pois não sabiam que ela estava acompanhada. Já deram as costas e foram saindo.

     _ Ah, que bom que tudo ficou resolvido. Mas ela brigou com você por causa disso?

    _ Não. Foi porque eu não aguentei e pulei no pescoço dos caras e sobrou pontapé pra todo lado. 

    _ Aprígio, mas você precisa se controlar. Tem que mudar esse seu gênio!

    _ Sim, eu sei. Isso já faz muito tempo, eu me arrependo demais disso. Hoje sou um novo homem, muito mais calmo. 

    _ Ah, tá! Quando foi isso?

    _ Na semana passada.

  • Nota de esclarecimento: "Aprígio, o brigão" foi publicado pelo Notibras no dia 28/02/2023. O texto foi adaptado, a pedido do editor, para que se ambientasse na Ceilândia, uma das cidades satélites do Distrito Federal.
  •  https://www.notibras.com/site/aprigio-brigao-nocauteado-pela-esposa-ritinha/