Minha esposa, que casou por imposição
dos pais, miseráveis que eram, não suportaria tamanho martírio de se deitar ao
meu lado, nem sequer uma vez mais. Por sorte, foi acometida por um câncer, que
a tomou por completo. Recebi a notícia por uma enfermeira, que se deu ao
trabalho de me ligar àquela hora da madrugada.
Foi sepultada num dia
de sol, como se libertada da minha insuportável companhia. Lembro-me exatamente
da feição de alento em seu rosto no dia de sua partida, dentro daquele caixão,
que me custou os olhos da cara. Pálida, é verdade, mas serena. Quanto às maçãs,
nada que um pouco de maquiagem não a fizesse mais corada na hora da
despedida.
Eis que aqui estou, ainda cumprindo a minha sina, sem
coragem de cortar os pulsos ou me atirar da janela. Segundo andar. Na certa,
daria com a fuça naquele jardim repleto de rosas. Se pararia de respirar ou
não, é mais uma dúvida que me corrói.
Ouço o barulho de
crianças gritando lá embaixo naquele maldito parquinho. Aquele lugar deveria
ser demolido. Que construam algo mais útil ali. Que seja uma repartição
pública, mas que acabem logo com esse martírio. Não suporto gente miúda se
esgoelando, como se vivesse uma felicidade que não existe.
Sinto o aroma do lixo apodrecido vindo da cozinha. Isso
mesmo! Não o jogo fora há quase duas semanas. Por que faço isso? Hum! Bem, vou
matar a sua curiosidade, antes que você me mate de tédio.
Deixo que os vermes,
a maioria depositada por moscas, se deliciem com os restos de comida deixada de
lado de propósito. Vermes precisam de alguém que lhe dê algo para comer.
Portanto, não me
julgue por isso! Se a minha vizinha possui gatos, que mal tem se eu crio
vermes? Certamente, você também tem lá as suas manias. Ou vai querer me enganar
que a sua vida é recheada de pôneis coloridos?
Não pense você que sou um imundo. Pois não sou! Tomo
banhos regulares, mas nada de exageros. Isso, por sinal, me faz lembrar
de um momento da minha infância. Quer sabê-lo? Vou lhe contar, mas guarde
segredo ou, então, seja mais um a falar mal de mim. Não me importo, assim como
nunca liguei para todos os outros que me conheceram nesses meus quase 100 anos.
Completo-os depois de amanhã.
Antes de entrar nos pormenores, devo lembrá-lo de que
sou de uma enorme família, cheia de irmãos. Sou o segundo, logo abaixo de
Judith, de uma prole de quase 15. Quase porque três não tiveram o desgosto de
enxergar as trevas deste mundo. Que sejam 12, tanto faz. Uma longa escada de
ano em ano, às vezes falhando um ou outro, dependendo do tempo das viagens do
meu falecido pai ou, então, por conta de algum natimorto.
Tudo começou quando contava com três ou quatro anos.
Não estou certo, talvez tivesse sido pouco antes, pouco depois. Detalhes sem
qualquer relevância. Minha mãe, com uma barriga gigantesca, carregava um dos
meus irmãos. As pernas inchadas, os pés parecendo patas de elefantes, mamãe se
arrastava pelo quintal pendurando trapos, a maior parte encardida, no longo
varal. Judith e eu aos seus pés, como dois carrapatos tentando sugar o máximo
de sangue daquela força bruta de total ignorância.
— Judith, minha filha, quer ver
o seu irmãozinho aqui na barriga da mamãe?
Minha mãe levantava um pouco a
blusa e falava para Judith encostar um dos olhos no seu umbigo. Minha irmã
obedecia e abria aquele sorriso, como se descobrisse algo que jamais
vislumbrei. Em seguida, mamãe me puxava pelo braço e me mandava fazer o mesmo.
E, por mais que eu abrisse e fechasse meus olhos, nunca consegui enxergar além
da sujeira depositada no umbigo da minha mãe.
Esse
costume foi passado para os filhos subsequentes, que foram jogados neste mundo.
Meus irmãos, talvez cúmplices de mamãe, sempre responderam com aquele sorriso
de felicidade em seus rostos. Fui tomado por sentimentos, ora de incapacidade,
ora de inveja, ora de profundo ódio, até que, pouco antes dos 18, deixei-me
cair no mundo. Nunca mais os vi.
Dos 18 aos quase 100, eis que estou aqui. Não me arrependo de nada que fiz ou deixei de fazer. No entanto, também não sinto orgulho da minha jornada de vida. Bem sei que, não tarda, serei eu o devorado pelos vermes que cultivo.
- Nota cultural: Este texto faz parte do livro 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho, obra vencedora do Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria Livro de Contos. A edição impressa foi publicada pela Joanin Editora e está disponível através do link: https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho
- Nota de esclarecimento: O conto "O velho e os vermes" foi publicado por Notibras no dia 14/12/2023.
- https://www.notibras.com/site/quando-o-corpo-aguarda-para-ser-degustado/
- O conto "O velho e os vermes" foi publicado no Jornal Cultural ROL no dia 23/4/2026.
- https://jornalrol.com.br/?p=80256

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