domingo, 1 de fevereiro de 2026

Recalque de uma paixão

   

        Leopoldo fazia questão de se fechar como ostra. Foi o modo como ele havia encontrado para não revelar as fragilidades que lhes eram próprias. Se fosse ator, seria escada para a estrela de peça ou película.

          Deitado no divã, o sujeito buscava se entender aos olhos atentos de uma psicóloga.

          — Você me acha recalcado?

          — Você se considera recalcado?

          — Talvez.

          — É assim que você se enxerga?

          — Sou sem graça. 

          Não foi o filho favorito, muito menos o neto. Enjeitado pelas garotas na adolescência, imaginava-se na pele de Augusto, espécie de queridinho da rua. Não que fosse feio, mas a comparação parecia-lhe inevitável.

          — Augusto? E quem é Augusto?

          — Um amigo. Quer dizer, nunca fomos amigos, éramos mais como conhecidos. 

          — Conhecidos?

          — Bem, na verdade, fomos amigos, mas a inveja consumiu nossa amizade. Não por culpa do Augusto, que era um cara legal. Mas aquela aparência... Sabe?

          — Como assim?

          — É que penso que ninguém poderia ser tão bonito aos 15, 16 anos. Isso é muito injusto com as outras pessoas, que estão passando por um monte de problemas. Sabe? Insegurança, espinhas na cara, hormônios que transformam crianças fofas em monstros.

          — Monstros? Você se acha um monstro, Leopoldo?

          — Bem, hoje não mais. Quer dizer, sei que não sou tão bonito, mas aprendi a conviver com o que vejo no espelho. Mas naquela fase... Puxa, como foi difícil!

          — Parece que você ainda não superou isso.

          — Não, não! Já! Quer dizer, não sei ao certo. Cruzei com o Augusto na semana passada, logo que saí daqui. Acredita?

          — E como foi esse reencontro com o seu amigo?

          — Bem, na verdade, não foi um reencontro. Creio que ele nem me reconheceu. Foi nessa padaria aqui embaixo. Fui comprar cigarros e lá estava ele tomando café. Ele me olhou, mas foi só uma passada de olhos. Sabe? Não tem aquela coisa de dar uma conferida no ambiente?

          — Sei. 

          — Pois é, foi assim que aconteceu. Depois fiquei bravo comigo mesmo por não ter ido lá falar com ele. Mas talvez tenha sido melhor assim. Sei lá. 

          — A beleza do seu amigo ainda o incomoda?

          — Engraçado é que ele nem está tão bonito assim. Ainda conserva aquele charme. É, por que estou fazendo isso?

           — Fazendo o quê?

           — Mentindo pra mim mesmo.

           — Como assim?

           — O Augusto continua lindo. Puxa vida! Acho que até mais.

           — E isso ainda te incomoda?

          — Talvez. Ninguém poderia ser tão lindo daquele jeito. Pelo menos não fora das telas de cinema. 

          — Você odeia o seu amigo por isso?

           — Odiar? Não! Jamais! Eu sempre amei aquele desgraçado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Recalque de uma paixão" foi publicado no Notibras no dia 1º/2/2026.
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sábado, 31 de janeiro de 2026

Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior

      

        Família é uma espécie de fauna que você não tem controle sobre os espécimes raros que aparecem a cada geração. Todos nós temos um parente ou outro que, temos certeza, já nasceu treinado para constranger os seus. No entanto, no caso da Camila, ela parece ter nascido em uma família premiada, tamanho o capricho do dedo de Deus.

          Jaime, um dos tios, era meio resmungão, meio filósofo de botequim, do tipo que quer porque quer encontrar razão até mesmo na quantidade de colheradas de açúcar que você põe ou deixa de colocar no café. 

          — Hum! Tá faltando amor na sua vida. Acertei?

          — O quê, tio?

          — Essa sua ânsia por açúcar. Quem é que coloca quatro colheres cheias de açúcar no café?

          — É proibido agora?

          — Falta de amor, Camila. Eu sabia!

          Carlos, o irmão, era devagar quase parando. Os pais até suspeitaram de anemia falciforme e levaram o rapaz ao médico. Que nada, o rapaz possuía mais hemácias do que a maioria de todos nós. 

          — Dona Júlia e seu Osmar, vocês podem ficar despreocupados, que o filho de vocês é normal. Um tiquinho lento, é verdade, mas jabuti também é e vive um montão. Não é verdade?

          Os pais até sentiram certo alívio, mas caíram na besteira de comentar sobre o tal episódio em almoço de domingo na casa dos avós da Camila. Pra quê? O avô não era fácil e já saiu com essa:

            — Ah, Júlia, que bom!

            — Também achei, papai.

            — E tem mais, minha filha.

            — O quê?

            — O Carlos vai arrumar amizade fácil, fácil.

            — É?

            — É!

            — Essa não entendi, papai.

            — É que todo mundo vai querer o Carlos por perto numa briga.

            — Briga? Papai, o senhor tá louco? E desde quando o Carlos vai se meter em briga?

            — Bem, Júlia, se vai se meter em briga por querer, não sei. Mas, que na hora da briga, ele vai ficar pra trás enquanto todos os amigos vão dar pinote, ah, isso vai. 

            Como você já deve imaginar, o avô era o engraçadinho da família. Quer dizer, ele tentava, pois a avó era mais talentosa. Mas não pense você que Camila gostasse disso, mesmo porque, não raro, ela deixava a garota de um jeito que a pobre não sabia onde meter a cara. 

             Não faz muito tempo, lá estava a Camila com o Mauro, com quem estava dando uns beijos por aí. Pense num sujeito bonito. Aliás, bonito é o Brad Pitt. O Mauro é lindo! E, para ser perfeito, só faltava ter nascido com a voz do Milton Nascimento. Mas...

              Pois lá estava o casalzinho em um churrasco na casa dos avós. Era a primeira vez que a moça levava um rapaz para a família conhecer. É óbvio que Camila, até por conta de certa vaidade, não via a hora de mostrar para todos que era capaz de conquistar aquele pedaço de mau caminho.

            A parentada toda animada na varanda, eis que os dois pombinhos chegaram de mãos dadas. A avó, assim que viu o namorado da neta, exclamou:

            — Camila, que rapagão bem-diagramado que você arrumou!

          Você já imaginou como é que a garota se sentiu, né?! Era um misto de orgulho mesclado com falsa timidez. Mas eis que algo inusitado aconteceu. 

            — Prazer, sou o Mauro. E a senhora deve ser a dona Martinha. A Camila me fala muito bem da senhora. 

            Você se lembra de que, para ser a perfeição em pessoa, bastaria o Mauro ter nascido com a voz do Milton Nascimento? Pois é, não nasceu. E a vovó não perdoou.

            — Mas, Camila, como o seu namorado é mal dublado!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Família é tudo igual, mas a da Camila é muito pior" foi publicado no Notibras no dia 31/1/2026.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Inevitável desenlace

    

          Jorge, assim que entrou na capela, notou a ausência de quem acreditava encontrar ao lado do caixão. Nem mesmo Laura, a devota irmã do falecido. Teria passado mal diante do inevitável desenlace de todos nós, que, na noite anterior, havia acometido o quase sempre risonho parente?

          Cumprimentou dois ou três conhecidos até que se aproximou do féretro. Lá estava o seu amigo de sempre, desde os tempos remotos de menino. Jorge percebeu que as gargalhadas de Mariano haviam dado lugar àquele sorriso de Mona Lisa.

O inevitável toque nas mãos rígidas e gélidas do defunto foi a confirmação definitiva de que aquele mundo de fantasias se findara ali. Nada mais de correrias pelo pátio da escola, nada mais de ir ao encalço da pelota na rua para marcar mais um gol no imaginário Maracanã.

          O homem suspirou, como se quisesse se recompor. Lembrou-se da vez em que tomaram uma surra na saída do colégio. Não deviam ter mais do que 13, 14 anos. E a confusão havia sido provocada por ele, já que Mariano, apesar de gaiato, era esperto demais para desafiar o garoto mais parrudo da sala. Como era mesmo o seu nome? Alberto ou Gilberto? Não seria Lúcio? Do nada, chegou-lhe à mente Douglas, como se o morto tivesse lhe soprado. 

        — Douglas? Você tem certeza, Mariano?

        Uma mão tocou-lhe no ombro, o que fez com que olhasse assustado para trás.

— Você está bem, Jorge?

          Era a irmã do falecido. 

          — Oi, Laura! Pensei que você não viesse.

          — E como não vir? Cheguei mais cedo, mas tive que sair para comprar alguma coisa pro povo comer. Tem refrigerante também. Quer? Eu pego pra você.

          — Não. Estou bem. Sem fome. 

          Os dois se abraçaram, enquanto as lágrimas perderam a cerimônia. 

          — Caramba, Laura! Ele era mais novo do que eu.

          — Dois meses.

          — Que seja! 

          — Acontece. A gente nunca sabe a nossa hora.

          — É verdade, Laura. Você tem razão. Mas eu acreditava tanto no que esse filho da mãe me falava. Ele dizia que a gente ia envelhecer junto, que a gente ia ficar que nem aqueles velhos chatos pra caramba. 

          — Bem, Jorge, não sei se isso serve de consolo, mas chatos vocês sempre foram. 

          — É verdade! Você tem razão. Mas o seu irmão era um chato legal pra dedéu. 

          — Isso é coisa de velho.

          — O quê?

          — Dedéu.

           Jorge esboçou um leve sorriso e, em seguida, virou-se para Mariano e disse:

— Tá vendo, seu filho da mãe? Você tinha razão! Nós conseguimos! Conseguimos ser dois velhos chatos pra dedéu. 

          E as lágrimas voltaram a escorrer ainda mais sinceras. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Inevitável desenlace" foi publicado no Notibras no dia 30/1/2026.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Aniversário do tio Aristarco

          

         Aniversário do tio Aristarco, que chegava aos improváveis 98 anos, a família se reuniu. Ninguém se atreveu a faltar, pois o velho era abastado e, por desventuras amorosas ao longo da vida, não foi possível conceber herdeiros. Dessa forma, cada um a seu modo, dava um jeito de adular o milionário.

          Cada qual utilizava técnicas para tentar se aproximar do aniversariante, seja para elogiar por conta da roupa, seja por causa do novo corte dos parcos cabelos, que era o mesmo desde sempre, seja até mesmo em razão da incrível memória, apesar dos óbvios sinais de senilidade do sujeito. 

          — Tio Aristarco, queria eu chegar à sua idade com essa capacidade de não se esquecer de nada.

          — Obrigado, Fernanda.

          — Tio, eu sou a Isadora.

          — Ah, Isabela, me desculpe. 

          — Isadora, tio!

          — O quê?

          — I-SA-DO-RA!

          — Isadora?

          — Isso, tio! Isadora!

          — Ah, eu tenho uma sobrinha chamada Isadora, mas acho que ela não veio.

          — Tio, a Isadora sou eu!

          A festa prosseguiu com confusões do tipo, até que Júlio, um dos mais bajuladores e que gostava de enaltecer as qualidades de músico do tio, apesar do velho nunca as ter possuído, pegou um violão no canto da sala.

          — Tio, toca aquela música que o senhor sempre tocava pra mim quando criança.

          — E eu sei tocar?

          — Ih, como sabe! O senhor só não é profissional porque não quer.

          De tanto Júlio insistir, tio Aristarco pegou o violão. Dedilhou as cordas, que pareciam desafinadas. Foi o bastante para arrancar aplausos entusiasmados da plateia menos honesta que poderia ser encontrada no quarteirão. 

          — Tio, o senhor é o melhor!

          — Maravilha, tio Aristarco!

          — Quem já foi rei jamais perde a majestade.

          — É como aprender a andar de bicicleta. Nunca se esquece.

          Enquanto os adultos teciam os mais absurdos elogios ao ricaço, eis que Maria Flor, de oito anos, pegou o violão que havia sido deixado sobre o sofá. Ela o ajeitou no colo, quando Augusto, um dos tios, a questionou:

          — Você toca violão?

          — Toco.

          — Não sabia.

          — Pois toco, tio.

          — E desde quando?

          — Hum... Deixa eu pensar... Hum... Ah, desde ontem!

          Silêncio sepulcral, até que tio Aristarco sorriu. Todos sorriram. O velho gargalhou, todos gargalharam. Só quem não pareceu gostar foi a menina.

          — Gente, eu só quero paz!

          Como podia uma coisa daquelas? Cadê os pais daquela garota para lhe aplicar um corretivo? Novo silêncio. Todos dividiam os olhares furiosos sobre a garota e de expectativa sobre o tio Aristarco. 

          A mudez era tamanha, que era possível ouvir o som da revolta, caso ela o possuísse. E quando o clímax começou a instigar alguém a se pronunciar, eis que tio Aristarco aplaudiu a pequena Maria Flor. Levou um átimo até que todos fizeram o mesmo. 

          A criança se aproximou do parente, lhe deu um beijo na face descarnada e soprou no seu ouvido:

          — Feliz aniversário, tio Aristarco. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "Aniversário do tio Aristarco" foi publicado no Notibras no dia 29/1/2026.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Voa, Aristides!

     Quando Aristides saiu de casa para ganhar o mundo, ouviu do pai algo que só recentemente parece que lhe chegou o entendimento.

          — Voa, garoto! A dona das empresas precisa de luxo.

          Aquela recomendação paterna, alguém poderia dizer, seria apenas mais uma piada jogada ao acaso. Que fosse narrativa ou vivência transformada em anedota, Aristides guardou-a como algo a se guardar com cuidado, apesar dos atritos que, naquele tempo, tinha com o pai. 

          O então jovem se aventurou pelo mundo e, ocupado que estava para sobreviver, não teve tempo de decifrar o dito pelo genitor e, assim, o guardou em algum canto da mente e, como era de se esperar, esqueceu-o como quem nem se lembra mais da tabuada, exaustivamente aprendida durante os tempos de escola. 

          Enquanto buscava riqueza, os que o rodeavam pareciam mais preocupados em ter o que comer no dia seguinte. Não que essa preocupação não o afligisse, mas era como se fosse combustível para atingir o improvável para os que vinham da sua realidade. 

          Após quase duas décadas de labuta, não ficou rico, apesar das posses consideráveis, o que lhe garantiu conforto muito acima do esperado para alguém que havia vindo de tão de baixo. E queria mais, nem que tivesse que consumir cada minuto da sua existência.

          Aristides evitou ao máximo envolvimentos amorosos, mas foi incapaz de desviar o olhar quando se deparou com Francisca. Mulher de atributos físicos e morais acima da média. Não que ela fosse candidata à Miss Brasil 2000, que nem a famosa música da Rita Lee. Também não chegava à pieguice das heroínas de época. Era de verdade.

          O homem, ainda lutando contra seus instintos, acabou por convidar Francisca para um cinema. Ele imaginou que aquele inocente encontro não passaria de um flerte. Puro engano, já que foi o estopim para levá-lo ao altar. 

          Casado, Aristides nunca havia sido tão feliz. A esposa se mostrou não só apaixonada, como também companheira de vida e com grande tino comercial. Tanto é que o patrimônio do casal quase triplicou nos anos seguintes. 

          Certa noite, antes de dormir, as palavras do pai vieram lhe cobrar memória. Aristides virou-se para Francisca e sorriu. Ela, olhos arregalados, quis saber o motivo de tamanha felicidade.

            — Que tal passarmos um mês fora daqui. 

            — Hum. Adoraria! Mas pra onde você quer ir, Aristides?

            — Pra onde você quiser. Um mês somente nosso.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Voa, Aristides!" foi publicado no Notibras no dia 28/1/2026.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Primo rico e primo pobre


         Não sei se você conhece o antigo quadro humorístico Primo rico e primo pobre, criado por Max Nunes e encenado pelos lendários Paulo Gracindo e Brandão Filho. Além de ser muito engraçado, esteve no ar por décadas. Bem, não sou historiador que nem o escritor Daniel Marchi, mas não consegui deixar de imaginar o que aconteceu minutos antes de a esquete entrar no ar na rádio Nacional, em 1950. 

          Paulo Gracindo havia sido escalado para ser o primo pobre, enquanto caberia ao Brandão Filho interpretar o parente abastado. Mas eis que Gracindo, diante da figura inconfundível do colega de ofício, virou-se para o diretor e disparou:

          — Não posso ser o primo pobre. Tem que ser o Brandão Filho.

          — Mas, Paulo, por quê? 

          — Olhe pra cara dele. Ele tem cara de pobre, cara de coitado. Eu tenho cara de rico.

          — Mas, Paulo, isso é rádio. Ninguém vai ver vocês.

          — Não importa! Eu sei!

          Para não atrasar a programação, os papéis foram invertidos, conforme Paulo Gracindo bateu o pé. E se transformou em sucesso tremendo, inclusive quando, anos depois, passou para televisão. 

          Bem, não estou aqui para falar sobre esses atores que fazem parte da cultura brasileira, mas dos jovens Igor e Leonardo, que eram primos de verdade. O primeiro poderia facilmente interpretar o primo rico, enquanto Leonardo, todos diriam, se encaixaria perfeitamente no papel do primo desprovido de recursos. 

          Os dois rapazolas teriam ido a uma grande empresa de importação a fim de tentarem ser contratados, mesmo não possuindo qualquer experiência anterior. Para encurtar a história, eis que, após ambos serem entrevistados por um diretor, Leonardo foi contratado para o cargo de gestor de estoque. Lógico que ele ficou feliz da vida e, na semana seguinte, começou a trabalhar.

          Quanto ao Igor, em vez de aceitar ser auxiliar do primo, declinou da proposta de emprego e foi embora. Mal chegou ao lar, doce lar, encontrou a mãe e a avó tomando café na cozinha.

            — E aí, filho, foi contratado?

            — Não, mãe. Mas o Leonardo foi.

            — Hum. Acontece.

            — Puxa, mãe, maior injustiça!

            — O que houve, filho?

            — Eles contrataram o Leonardo e queriam que eu fosse subalterno dele. Acredita nisso? Logo eu, com essa cara de príncipe!

           A mãe tentou consolar o rapaz, enquanto a avó, mais sábia, não deixou de externar sua opinião.

            — Que entrasse em um cargo inferior, não importa. O negócio é entrar. Depois que entra, se resolve. Ou não, mas pelo menos já estaria dentro. 

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Primo rico e primo pobre" foi publicada no Notibras no dia 27/1/2026.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Um golpe de pincel

   

      Não sei como vovó se casou com meu avô, um homem bruto, essência exaltada da ignorância. Talvez não tivesse escolha ou, por lapso de olhar, não tenha percebido o poço de desatino que se escondiam por detrás dos lindos olhos azuis do sujeito que se tornaria seu marido após um ano de serem apresentados em um almoço na casa de uma tia. 

          Eram primos distantes e, como acontece com os que compartilham tal parentesco, se apaixonaram. E daí para o altar foi um pulo, com direito a dois ou três anos de pura felicidade. Quer dizer, aconteceram alguns arranca-rabos, o que é até esperado durante o tempo de adaptação dos cônjuges ao convívio.

          A coisa apertou mesmo a partir do nascimento da minha mãe, quando a situação chegou ao clímax da discórdia no matrimônio. Meu avô não entendia por que a esposa não lhe dava a devida atenção, passando muito mais tempo entretida com aquele pequeno ser, que só sabia mamar, chorar e sujar fraldas. 

          Quando mamãe completou três anos, vovó foi tomada por um arroubo de querer pintar. O esposo foi totalmente contrário àquela ideia. Onde já se viu, do nada, ter ímpeto por algo que jamais desejou?

          — Não aprovo.

          — O quê?

          — Não aprovo.

          — E desde quando eu preciso da sua aprovação para fazer alguma coisa, Jaime?

          — Pensei que você fosse minha esposa, Marinalva.

          — Esposa, Jaime! Não sou sua escrava.

          Não sei se meu avô entendeu o recado ou, então, talvez por falta de coragem, declinou do embate, pois já sabia ter sido derrotado. Tanto é que, antes que vovó pensasse na lista de material, lá veio o marido, na tarde seguinte, com tintas, pincéis, telas e dois cavaletes. No entanto, não pense você que meu avô estava convencido daquilo.

           Quase duas semanas depois, algumas dezenas de telas deixadas de lado, minha avó parecia inconformada com a falta de talento. Por que não desistia de vez? Um misto de angústia, desânimo e raiva se apoderou daquela mulher, que aparentava estar no limite. Gritou. Gritou mais alto. Outra vez. Justamente quando vovô voltava da rua.

            — O que houve, meu amor?

            — Jaime, sou um fracasso.

            — Fracasso?

            — Sim! Olha essa aberração.

            O sujeito parou diante do quadro e, até hoje não sei se aquele gesto foi sincero ou pura arte de interpretação. 

            — Que lindo! É pra mim?

            Dizem que aquele quadro salvou o casamento dos meus avós. E cresci duvidando desse enredo tão propagado na família. Mas eis que, recentemente, ouvi algo de uma amiga que me fez acreditar.

            — Sabe, Roberta, cultura é essencial. Ela é capaz de coisas incríveis, pois forma e, melhor, corrige o nosso caráter, nos mostra outros caminhos. A cultura nos apresenta novas ideias, amplia o nosso pensamento sobre o mundo. Sem ela, o que seríamos? Nada mais do que olhos que se deixam cegar pela areia do deserto.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um golpe de pincel" foi publicado no dia 26/1/2026 no Notibras.
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domingo, 25 de janeiro de 2026

Homem adestrado

     

    Festa na casa do chefe da repartição. Alfredo até pensou em declinar do convite quase obrigação, mas faltou-lhe algo que há muito o havia abandonado: coragem. 

      Sentado ao lado dos adultos, o pensamento acompanhava a completa falta de filtro dos miúdos. Tanta honestidade, que se sentia constrangido com o ser desprovido de ousadia que se transformara. A altura física era flagrantemente desproporcional à rara autenticidade que ainda lhe fazia companhia. Como se Alfredo tivesse deixado que ela, quase por completo, o tivesse abandonado em um ponto de sua juventude, cada vez mais e mais distante. 

        Enquanto as vozes à mesa se transformavam em zumbidos, o homem tentou enumerar as vezes em que tivera vontade de ir contra as atitudes tomadas, principalmente nos últimos anos. Pura servidão que o impedia de romper com aquela situação. Desejo de simplesmente ser aceito? Ou seria o pavor de ser rejeitado diante dos olhos inquisidores?

        Até mesmo na intimidade solitária do lar, Alfredo se sentia compelido a não romper barreiras. Animal adestrado. Era nisso que se transformara. Era difícil admitir, mas até ele concordava.

        Alfredo, quase em transe voltado completamente para si, foi cutucado por Lúcio, colega de setor.

        — Festa legal, né, Alfredo?!

        — Demais!

        Se o anfitrião lhe mandasse sentar, ele sentaria. Se lhe ordenasse deitar, ele deitaria. Role, ele rolava. Aqui! Lá ia o Alfredo rastejando aos pés do dono. Verme!

  • Nota de esclarecimento: O conto "Homem adestrado" foi publicado no Notibras no dia 25/1/2026.
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sábado, 24 de janeiro de 2026

Um certo Edmundo Donato

          

         Não era de briga, ainda mais depois da última surra que levou quando ainda estava nos primeiros anos na escola.  Se aquilo fazia parte do mundo masculino, ele preferiu seguir pelo caminho da literatura e, desde então, embrenhou-se entre páginas amareladas dos livros da estante do avô. 

          Começou por volumes da Coleção Vaga-Lume, quando se apaixonou pelas obras do escritor Marcos Rey: O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio. Que mundo era aquele? Não teve dúvida e arriscou-se a abrir o coração para o avô.

            — Quero ser escritor.

            — Hum! Já falou isso pros seus pais?

            — Papai talvez não diga nada, mas mamãe vai me matar.

            — Por quê?

            — Porque quer me ver advogado ou médico.

            — Não.

            — Não?

            — Não perguntei isso. Por que quer ser escritor?

            Edmundo Donato pensou, pensou, pensou... 

            — Não posso?

            — É óbvio que pode.

            — Então?

            — Então, o quê, Edmundo?

            — Então, quero ser escritor. 

            Os anos seguintes foram de muitas descobertas. Edmundo passou por vários autores. Apaixonou-se por alguns, mas invejava apenas um: Afonso Henriques de Lima Barreto. Tanto é que enfrentou a mãe diante do pai mudo.

            — Mamãe, quero ser jornalista.

            — Jornalista, Edmundo? Quer morrer de fome? 

            — De fome não morro, mamãe.

            — E você acha que vai ter a mim e seu pai durante toda a vida.

            — Não, mamãe.

            — E por que é então que você diz com tanta certeza de que não vai morrer de fome, meu filho?

            — Antes morro de desgosto entre processos e agulhas, mamãe.

            Edmundo virou jornalista. Não chegou a morrer de fome, mas longe de degustar caviar. Suficiente para ter uma vida pouco acima do modesto, o que, aos seus olhos, era mais do que satisfatório. No entanto, faltava-lhe algo.

               Durante uma conversa com um colega de redação, no Bar do Bosco, na 709 Norte, em Brasília, Edmundo levantou a questão que o frustrava.

                — Sabe, Bartô, quero ser escritor.

                — Nem sabia que você escrevia, Edmundo.

                — Um pouco.

                — E do nada você quer virar escritor?

                — Não é do nada. Virei jornalista por causa do Lima Barreto.

                — Pois eu virei por causa do José Seabra.

                — Excelente referência. Mas eu queria ser que nem o Lima.

                — Logo tu?

                — E por que não eu?

                — Nunca que você vai ser que nem o Lima Barreto.

                — Tá! Mas me dê uma razão. Uma única razão!

                — Edmundo, tu é um arregão!

                 — Alto lá, meu amigo! Arregão não!!! Cauteloso.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Um certo Edmundo Donato" foi publicado no Notibras no dia 24/1/2026.
  • https://www.notibras.com/site/um-certo-edmundo-donato/