terça-feira, 25 de março de 2025

Filho de pai não declarado

Guilherme, como tantos brasileiros, havia crescido com a ausência paterna, cuja certidão de nascimento fazia questão de lembrá-lo: "pai não declarado."

          — Mamãe, cadê meu pai?

          — Meu filho, quando você crescer, teremos uma conversa a respeito disso.

          — Mas já cresci.

          — Semana que vem. Pode ser?

          — Mas a senhora falou isso no mês passado.

          — Amanhã, Guilherme. Agora mamãe tá ocupada.

          Sem mais ter onde arrumar desculpas, a mulher tratou de contar a história sobre Olímpio Augusto, que, apesar de ausente na certidão de nascimento de Guilherme, seria seu pai. O filho, agora perto de completar quinze anos, ficou surpreso com tamanha revelação.

          — O cantor?

          — Sim. O próprio.

          — E por que a senhora nunca me contou?

          — Tanta coisa pra fazer, meu filho, que não tive tempo. 

          Olímpio Augusto, apesar de não despontar nas paradas de sucesso há quase duas décadas, era deveras conhecido pelo incomum timbre que costumava entonar as canções populares. Tenor quase puro, sabia esconder os graves para deleite das fãs, que suspiravam pelo dono daqueles olhos castanhos adornados por cílios negros, que sabiam fulminar os corações apaixonados. 

          Guilherme, assim que soube quem era seu pai, estufou o peito e, a qualquer oportunidade, contava para quem quisesse escutar.

          — Sou filho do Olímpio Augusto, sim, senhor!

          — Do cantor?

          — O próprio.

          Tinha gente que acreditava, mas a maioria era descrente. Isso, aliás, incomodava o rapazola, que prontamente reclamava com a genitora.

          — Mas, mamãe, por que o pai não vem me visitar?

          — Ih, Guilherme, são tantos shows, que seu pai não consegue arranjar tempo.

          — E se eu fosse vê-lo? Certamente ele me mandaria um ingresso pra algum show dele.

          — Vou ver, vou ver.

          Guilherme esperou dias, meses e nada do cantor encaminhar o tão aguardado convite. Esperou tanto, que o outrora adolescente já ostentava vasta barba. Se bobeasse, não tardaria, surgiriam os primeiros fios brancos debaixo do queixo. 

          — Mãe, a senhora viu que o pai vai se apresentar em Luziânia?

          — Em Luziânia?

          — Sim. 

          — E quando será?

          — Mês que vem.

          — Hum...

          — Que tal irmos?

        — Ih, Guilherme, não vai dar.

          — Ué, por quê?

          — Ando tão ocupada, que não consigo nem pintar as unhas.

          A despeito da recusa da mãe, o homem tratou de planejar o tão aguardado encontro com o pai. Fez de tudo e, parece, tudo saíra como planejado. Tanto é que, no dia do show, lá estava Guilherme misturado à pequena multidão, que aguardava ansiosa pelo afamado Olímpio Augusto. E, após quase duas horas de espera, eis que o velho cantor pisou no palco e desfilou seus sucessos de outrora. Até houve o tão aguardado bis, quando, finalmente, as cortinas se abaixaram e, não tardou, o público foi indo embora para casa. Quer dizer, menos Guilherme, que ainda guardava a esperança de conhecer o pai.

          Anda daqui, anda para lá, o sujeito percebeu que o artista saiu pelos fundos em direção à uma velha Caravan marrom. Ficou observando o cantor por alguns segundos, até que a consciência o empurrou em sua direção.

          — Boa noite, seu Olímpio Augusto.

          — Boa noite, meu rapaz. Quer um autógrafo?

          — Não necessariamente. O propósito é outro.

          Olímpio Augusto, que não era tipo de se amedrontar por coisa pequena, arregalou os olhos e balbuciou.

          — Que propósito seria?

          — O senhor é meu pai.

          — Seu pai?

          — Sim, senhor. 

          Surpreso, o cantor quis saber mais sobre aquela história. Convidou seu suposto filho para tomarem uma ou duas cervejas num boteco ali perto a fim de se inteirar melhor sobre aquele acontecido.

          — É possível mesmo que eu seja seu pai, Guilherme. Como é mesmo o nome da sua mãe?

          — Cida. Quer dizer, Maria Aparecida.

          — Hum. Já tive algumas Cidas na vida. 

          Para dirimir qualquer dúvida, foi feito o teste de DNA, que levou quase dois meses para ficar pronto. Tanto Guilherme quanto Olímpio Augusto tiveram que controlar a ansiedade, até que o resultado chegou através dos Correios. Nesse período, um vínculo se formou entre os dois homens e, de tão fortes eram os laços, decidiram abrir o envelope juntos, justamente no mesmo boteco em Luziânia. 

          Lá estavam os dois diante de uma garrafa de cerveja, dois copos cheios e o tal envelope. Após dois longos goles, os homens abriram o envelope, que pareceu decidir o destino dos dois: "Negativo".

          Surpreso, Guilherme arregalou os olhos, enquanto Olímpio Augusto, que nunca tivera filhos, pareceu decepcionado. As lágrimas em seu rosto o impulsionaram para perto do rapaz e, então, ele acolheu em seus braços o até então filho que nunca teve. 

            — Não entendo, seu Olímpio Augusto. Mamãe me disse que o senhor era o meu pai.

            — Às vezes o teste errou, meu filho.

           Guilherme retornou para casa cabisbaixo, onde encontrou a mãe preparando o jantar. A mulher percebeu os olhos marejados do filho e, instintivamente, foi visitada pela certeza da descoberta da mentira.

            — Por que a senhora inventou aquela história, mamãe?

            — Ah, meu filho, seu pai era um homem tão desprezível, que eu precisava lhe incutir a esperança de ser filho de alguém decente.

            Olímpio Augusto continua se apresentando pelos recantos brasileiros e, toda vez que vai a Luziânia, faz questão de encaminhar dois ingressos para Guilherme e Cida. Como ele gosta de falar para o seu público, nada como cantar diante da família, mesmo que ela seja uma família de mentirinha. 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Revivendo meu tempo de menino

        Nos últimos tempos, tenho revivido momentos da longínqua infância que deixei nas areias de Copacabana, nas visitas aos meus padrinhos, que, ainda hoje, moram no Méier. E quantas e quantas vezes esfolei o dedão do pé ou ralei os joelhos jogando bola na rua. Lembro-me brincando no tapete da sala da minha avó, um tapete que jurava ser persa, mas que certamente fora comprado em uma feira ou na Mesbla. A razão de tantas lembranças é a Malulinha, minha caçula, cujo sorriso, cada vez com mais dentes, me convida para brincadeiras.

          Apesar de tocar violão, sempre fui músico sofrível. Não sei se por displicência ou falta de tato com o instrumento. Entretanto, tenho pensado em praticar, ainda mais porque a Malulinha parece que leva jeito para coisa. Tanto é que, assim que começo a entonar 'Não deixe o samba morrer', minha filha pega logo o pandeiro e me acompanha. Incrível é que ela faz isso com apenas um ano, como se saída da bateria do Salgueiro, escola de samba de quase toda a família. 

          Quanto à habilidade de desenhista, creio que até me saio bem. Todavia, não é algo que me atraia e, por isso, quase sempre a deixei de lado. Bem, isso até há pouco, pois a Malulinha sempre me entrega um giz de cera e balbucia do seu jeito próprio. 

          — Hum! Hum! Hum!

          E lá vou eu desenhar um cachorro ou uma figura geométrica qualquer. No entanto, quando desenho um rosto de gente, a Malulinha logo o reconhece como sendo da minha amada Dona Irene.

          — Mamã! Mamã!

          Não sei se você já brincou de "Dedo mindinho, seu vizinho, maior de todos...", que invariavelmente termina com o boi subindo o morro até a axila da pessoa. Pois é, a Malulinha, mal acorda, já estica a mão em minha direção, enquanto me convida com aquele seu jeito peculiar.

          — Hum! Hum! Hum!

          Ah, como gostaria de sentir cócegas! Se bem que tenho conseguido disfarçar, o que provoca gargalhadas deliciosas na Malulinha. E ela não se contenta com uma, duas ou cinco repetições. Sem problema, mesmo porque parece que eu me divirto ainda mais, como se fosse ainda aquele menino brincando, seja nas areias de Copacabana, seja na casa dos meus padrinhos, seja esfolando o dedão do pé ou ralando os joelhos na rua ou, então, no tapete quase persa da minha avó. Que saudade! E que bom que estou revivendo tudo isso com a minha garotinha.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Revivendo meu tempo de menino" foi publicado por Notibras no dia 24/3/2025.
  • https://www.notibras.com/site/sem-bananeira-ou-laranjeira-revivo-os-8-anos-brincando-com-malulinha/

domingo, 23 de março de 2025

Sinônimos e seus significados

    

        Não sei como você costuma usar as palavras. Eu, talvez por ser apaixonada por nossa linda língua portuguesa, sou bem específica, não gostando se sinônimos, que nunca possuem exatamente o mesmo sentido. Então, cá tenho minhas manias e preferências por determinado termo, isto é, dependendo da ocasião. Se confundi sua cabeça, por favor, não se aperreie, que explico. 

          Pois bem, lá estava eu tendo que fazer minha prova de vida no INSS. É algo estranho para mim, já que o atendente exigiu meu comprovante de residência. Fiquei imaginando pessoas em situação de rua. Mas tudo bem, como sou precavida, sempre ando com uma conta de luz na bolsa. 

          Enquanto aguardava, uma mulher, regulada com a minha idade, puxou conversa. Como sou afeita a bate-papo, ainda mais quando preciso esperar por algo que parece nunca chegar, logo nos tornamos quase amigas de longa data. Seu nome? Meire. Ah, Meire mesmo, e não Rosemeire, como é mais comum. 

           — E o seu?

           — Célia.

           — Que coincidência!

           — Como assim?

           — Minha mãe também era Célia.

           — Célia pura ou acompanhada?

           — Célia Regina.

           — O meu é puro.

           — Geralmente vem acompanhado, né?

          — É verdade. Tive duas colegas de trabalho que se chamavam Célia Maria e Maria Célia. Nós éramos conhecidas como as Célias do almoxarifado. 

           — Nossa!

          De tão íntimas que ficamos, Meire me disse que Sílvio, o esposo, era afeito a pescarias com os amigos. Isso, aliás, talvez fosse recebido até com mais regozijo por parte dela do que pelo homem.

          — Mas, Meire, você não teme que o Sílvio esteja aprontando nessas pescarias? Talvez seja uma desculpa que ele esteja inventando. Você sabe, né, que não dá pra confiar em homem.

           — Pois quero mais que ele demore mais tempo pescando.

           — E não sente falta do seu marido?

           — Do meu marido, sinto.

           — Então?

           — Então, o quê, Célia?

           — Ué, com o seu marido indo pescar...

           Meire, com um sorriso naqueles lábios carnudos, finalmente comprovou a minha tese de que sinônimos não possuem o mesmo significado.

           — Ah, não, Célia! Quem gosta de pescaria é o Sílvio, o meu esposo. Já o Evandro, que é o meu marido, prefere outras coisas.  

  • Nota de esclarecimento: O conto "Sinônimos e seus significados" foi publicado por Notibras no dia 23/3/2025.
  • https://www.notibras.com/site/entre-uma-pescaria-e-outra-tem-gente-no-grupo-que-prefere-fazer-algo-diferente/

sábado, 22 de março de 2025

A fila do pão e o general

           Gosto de pensar que a petulância da adolescência nunca me abandonou por completo. Que sou velha, não resta dúvida, mas tenho cá ainda força suficiente para uma boa briga. No entanto, nada de violência, pois sou da terra onde o profeta José Datrino pintou a emblemática frase 'Gentileza gera gentileza' no viaduto do Gasômetro. 

          Não devia ter 16 anos, pois aconteceu pouco depois de 1984. Mamãe havia me pedido para ir até a padaria da esquina, cujo cheiro dos pães inebriava a todos que passavam na esquina da Ministro de Castro com a Belfort Roxo, em Copacabana. Uma iguaria, que a minha lembrança se recusa a aceitar que possa haver melhor nas panificadoras que hoje frequento em Brasília. Memória afetiva, talvez, ou coisa de velho, que não se conforma com a ligeireza que a vida toma quando nos tornamos adultos. 

          Pois lá estava eu na fila do pão, quando um homem, que àquela época me pareceu regular em idade com meu avô, quis furar a fila. E isso justamente na minha vez. Não sei de onde arrumei coragem para tal, pois coloquei meu braço esquerdo sobre o balcão, para surpresa do sujeito. 

          — Menina, sou general!

          — E daí que você não quis estudar? Tenho culpa disso?

          O tipo me olhou surpreso, mas não que eu tenha virado meu rosto. Percebi pelo reflexo do espelho acima do cesto de pães. Rogério, o balconista, ficou indeciso por um instante, porém, vendo que eu não arredava pé, tratou de colocar meia dúzia de pães quentinhos dentro do saco de papel com a logomarca da padaria.

          — Aqui, Lucinha. Próximo!

          Em seguida, fui até o caixa, onde paguei e tratei de ir logo embora. Mal entrei no nosso apartamento, contei o ocorrido para minha mãe, que gostou.

          — Isso mesmo, Lucinha. Se a gente não pôr limite nesse povo, daqui a pouco tenta outro golpe. 

  • Nota de esclarecimento: O conto "A fila do pão e o general" foi publicado por Notibras no dia 22/3/2025.
  • https://www.notibras.com/site/a-fila-do-pao-o-general-e-novo-golpe-abortado/

sexta-feira, 21 de março de 2025

Entre poetas e poesias

    

Aqueles dois se esbarraram pela primeira vez em uma livraria em Salvador. Júlio, rapazola dos seus 20 anos, folheava Manuel Bandeira. De tão absorvido com a leitura, não percebeu quando Maria Lúcia, mulher já passada dos 70, adentrou no recinto. Ela se dirigiu ao balcão e, voz firme, perguntou sobre novos poetas.

          — Daniel Marchi. Conhece?

          — Não. É italiano?

          — Carioca, mas o sobrenome parece que é italiano. 

          — Hum! Interessante! Da minha terra.

          — A senhora é italiana?

          — Carioca.

          O atendente entregou um exemplar de A verdade nos seres para a cliente, que começou a manuseá-lo com bastante interesse. Foi aí que Júlio notou a presença da senhora, o que comprova a tese de que leitores são atraídos por outros leitores. Seus olhares se cruzaram e um inevitável e quase imperceptível sorriso surgiu nos lábios dos dois.

          — Hum! Tá de Bandeira?

          — Como?

          — Manuel Bandeira.

          — Ah, sim. Gosta?

          — Muito.

          — E a senhora?

          — Marchi. Daniel Marchi. Conhece?

          — Ouvi falar. É bom?

          — Tô descobrindo agora.

          — Então, depois a senhora me conta.

          — Maria Lúcia. E você?

          — Júlio.

          No mês seguinte, aqueles leitores se encontraram novamente na mesma livraria. Ela estava na parte dedicada a novos autores, quando Júlio entrou. Ele buscava por Drummond, mas não descartava levar algo de Vinicius, se bem que andava encantado com Adélia Prado. Na dúvida, o rapaz acabou deixando o carioca de lado e levou um livro de Drummond e outro de Adélia.

            — Hum! Adélia e Drummond são excelentes, Júlio.

            — Sim. E o que você comprou?

            — O diagnóstico do espelho, da Sarah Munck. Conhece?

            — Hum... Parece que sim. Ela é mineira, né?

            — Sim, de Juiz de Fora.

            — Olha que coincidência, Maria Lúcia.

            — O quê?

            — Hoje decidimos pelos mineiros.

            — É verdade.

            Ao longo do ano, laços se formaram entre a velha e o jovem, como se idades não passassem de meras datações. É verdade que Maria Lúcia era mais vivida, mas Júlio tinha lá suas vivências próprias, muitas nem sonhadas pela amiga. 

           — Meus filhos, todos criados, que poderiam ser seus pais, não me dão tanto trabalho.

             — Qual a idade deles?

              — O mais novo está com 45.

              — Idade da minha mãe. Papai já tem 52. E o seu marido?

              — Ah, um chato. 

              — Hum...

             — Marido dá muito trabalho, estou cansada, esgotada, o Augusto sempre teve uma mulher para escorar. Era a mãe, depois as irmãs, depois em mim.

              — Espero não ser um estorvo pra minha esposa.

              — É casado?

              — Não, ainda não. Nem tenho namorada. Quer dizer, eu tinha, mas ela não quis mais.

              — Amores vão e vêm.

              — É verdade, Maria Lúcia.

              Os dois amigos continuam frequentando a mesma livraria, seja em busca de novos autores, seja remexendo os antigos. Trocam confidências ou, então, tomam café enquanto leem uma poesia. E a vida segue, apesar da maioria parecer mais preocupada com as mensagens, todas urgentes, que chegam pelo celular. 

O drible do escriba

        Marinaldo. Pois era esse o nome do sujeito, que havia ingressado no importante cargo de escrivão de polícia em uma das tantas delegacias espalhadas pelo Distrito Federal. 

          — Importante, não! Fundamental! Sem delegado, a delegacia anda; sem agente, a delegacia engatinha; mas sem escrivão, ih, não sai do lugar. 

          — Sério, seu Gilmarildo?

          — Seriíssimo, Marinaldo! E não precisa me chamar de seu, basta Gilmarildo, já que, a partir de agora, somos colegas de profissão.

          — Obrigado, seu Gil... Quer dizer, Gilmarildo.

          Diante de tamanho aprendizado, Marinaldo encheu o peito de regozijo, como se fosse o último biscoito do pacote, a derradeira Coca-Cola no deserto do Saara. Ademais, o salário era mais do que aquele que recebia no emprego anterior. Não tinha do que reclamar. 

          Porém, sempre um porém, as finanças, no início robustas, acabaram se adequando aos novos luxos e, então, o rapazola precisou fazer alguns serviços extras, ainda mais porque a amada, dona Anabel, queria comprar vestido novo para o casamento de uma prima. E não ficava bem a agora esposa de um escrivão de polícia ir de qualquer jeito para evento de tamanha envergadura. Por sorte, Gilmarildo veio com a solução para o aperto financeiro do companheiro de labuta.

          — Marinaldo, por que não começa a fazer voluntário?

          — Voluntário? O que é isso?

          — Não sabe?

          — Não.

          — Voluntário é como chamamos o serviço que podemos tirar nos plantões das delegacias, inclusive em outras.

          — Sério?

          — Seriíssimo!

          Dois dias após, lá estava o Marinaldo fazendo o tal voluntário em uma outra delegacia. Plantão noturno, que começava às 20h e ia até as 8h do dia seguinte. O serviço era pesado, mas a grana valia à pena. Seja como for, o homem parecia plenamente satisfeito, pois teria grana para comprar um belo vestido para a amada. 

          Todavia, sempre há um todavia para escangalhar algo que parece tão perfeito. É que a dona Anabel, preocupada com o bem-estar do marido, foi levar uma quentinha para ele. Mal entrou na delegacia, a mulher se anunciou.

          — Boa noite, seu policial. Sou a esposa do escrivão e vim trazer o jantar dele.

          Santana, que estava no balcão, achou aquilo estranho, mas mesmo assim foi chamar o escrivão.

          — Ô, escrivão, a sua mulher tá lá na frente.

          — Mulher? Que mulher, Santana?

          — Sei lá! Ela disse que é sua esposa.

          Tal interlúdio não passou despercebido pelo delegado, que foi até a sala do escrivão.

          — Não sabia que você era casado, Bernardo.

          — E não sou, doutor!

          Diante do mistério, o delegado e o escrivão foram até o balcão, onde se depararam com dona Anabel segurando a quentinha do esposo. 

          — Ué, cadê o meu marido?

          — Minha senhora, quem é o seu marido?

          — O escrivão.

          — Minha senhora, eu sou o escrivão.

          — O quê? 

          — Minha senhora, sou o delegado Wander e posso lhe garantir que o Bernardo é mesmo o escrivão.

           Anabel, misto de choro e raiva, balançou a cabeça e saiu envergonhada da delegacia. Entretanto, assim que entrou no carro, ela telefonou para Marinaldo.

          — Marinaldo, cadê você?

          — Ué, amor, tô aqui na delegacia.

          — Mentira! Acabei de sair da delegacia e você não está lá.

          — O quê? Tô aqui, sim, amor.

          — Marinaldo, você tá aprontando, né?

          — Que aprontando o quê, amor!

          — Então, por que você não tá na delegacia?

          — Peraí! Em qual delegacia você foi?

          — Na sua, ué?

          — Anabel, meu amor, eu te disse que hoje estaria tirando voluntário em outra delegacia.

           — Ah, Marinaldo, desculpe! Minha cabeça anda a mil por conta do vestido.

            Desfeita a confusão, Anabel foi até a outra delegacia, onde encontrou o amado e lhe entregou a marmita. Aliás, carne de sol com aipim frito e muita manteiga de garrafa. Que delícia!

            A história, no entanto, não passou em branco entre os policiais, pois logo caiu no grupo de Whatsapp. Muitos emojis, inúmeros comentários e, talvez, o do Santana foi o que chamou mais a atenção: "Esse novinho tá lascando com os nossos esquemas!"

  • Nota de esclarecimento: O conto "O drible do escriba" foi publicado por Notibras no dia 21/3/2025.
  • https://www.notibras.com/site/policial-vive-verdadeira-roda-vida-com-plantao-diario-para-todo-lado/