sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Santana, o sem-noção


    Era mais uma diligência, entre tantas realizadas nos últimos quase 20 anos trabalhando na polícia. Santana, ao entrar na viatura, tentou empurrar o banco para trás na ânsia de acomodar a barriga proeminente. A colega, sentada ao lado, obrigava-o a encolher a pança, mesmo porque Santana ainda guardava certa vaidade, já que mal havia suplantado a barreira dos 50. Os cabelos, cada vez mais ralos, eram jogados para o lado. Que deprimente, como se ninguém tivesse notado a calvície reluzente. Ah, Santana, por que teimas em ser tão patético?

    Lá ia o nosso quase estimado herói, apesar de possuir um distante perfil daqueles que costumam ser retratados no cinema. Santana não era um Clint Eastwood ou um Bruce Willis. Era evidente que ele estava fora de forma! Aliás, alguns professores de matemática poderiam até contestar tal afirmação, já que o redondo, ou melhor, a esfera também é detentora de uma forma. E tem até fórmula para que o seu volume seja calculado com precisão, apesar de que até o próprio Santana, certamente, não quisesse saber o resultado. "Já fui magro!", ele sempre dizia a mesma coisa para todos.

   O caminho foi longo, pelo menos para o Santana, que não conseguia respirar direito tentando encolher a barriga. Todavia, a viatura acabou estacionando em frente à casa 28, cuja pintura há tempos se encontrava desgastada. Seria amarela ou branca? Talvez verde. Seja como for, esse era um detalhe que não precisava ser levado em conta. 

    A colega prontamente desceu do veículo, enquanto Santana disse que iria fumar um cigarro antes. Ela nem deu bola e já foi conversar com a senhora de vestido florido, apesar de chorosa, à porta. Que alívio o Santana sentiu! 

    Ele nem queria fumar, mas o hábito o fez colocar a mão no bolso e sacar um cigarro amarrotado. Ao mesmo tempo, por causa do tempo tentando esconder a pança, houve uma aglomeração de gases intestinais, que foram expelidos compassadamente. Infelizmente, para o Santana, soou-se certo estrondo, que fez a colega se virar para ele. Que vergonha, Santana!!! Ele até ficou temeroso em acender o seu cigarro, que já estava no canto da boca. Afinal, aquilo poderia se tornar um caso para o Corpo de Bombeiros.

     Depois de dar umas abanadas com as mãos, o Santana criou coragem e acendeu o tal cigarro, que já apresentava certa umidade por causa do longo contato com os lábios. Deu uma copiosa tragada, olhou ao redor alguns curiosos. Empertigou o corpo, o que lhe causou certo desconforto na lombar. "Já fui atleta!", ele insistia em falar para os que ainda suportavam sua ladainha. 

    O velho policial tentou puxar pela memória, mas não se lembrava da razão pela qual estava lá. Ainda assim, preferiu entrar na residência a fim de dar apoio à colega. Virou-se e foi em direção à porta.

      Mal entrou na sala, avistou uma enorme televisão ligada, enquanto um velho, sentado no amplo sofá carcomido, parecia cochilar. A colega e a senhora conversavam na cozinha. 

    O Santana, apaixonado desde criança por futebol, começou a prestar atenção na partida que era televisionada. Internacional e Santos pareciam travar uma batalha sem muito glamour. Não havia Pelé, não havia Falcão. Mas a paixão pelo esporte bretão fez com que o Santana perdesse qualquer timidez e, então, acabou por se acomodar ao lado do velho, no exato momento em que adentravam na sala a colega e a senhora. 

    Sem se fazer de rogado, o Santana deu um leve tapa na batata da perna do velho e perguntou: "E aí, quanto está o jogo?". A colega e a senhora, que há pouco se descobriu viúva, olharam abismadas para a cena. O Santana acabara de tombar o defunto sobre seu colo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Senhor Calcanhar

 

            Era uma mania nos anos finais de 1970 nas peladas. Todos queriam dar de calcanhar, mesmo que o companheiro de pelada estivesse a um metro de distância. No início era algo meio complicado de se fazer, mesmo para os mais habilidosos. O calcanhar é seco e, quando a bola era chutada, ou melhor, calcaneada (se o Guimarães Rosa podia...), muitas vezes espirrava. Mas ninguém reclamava, pois era uma febre recente, e todos pareciam doentes.

        Sócrates! Doutor Sócrates! Doutor! Magrão! Alto que nem um varapau, lembrava mais um jogador de basquete. Driblava muito bem, cabeceava muito bem, chutava muito bem. Tudo isso ele fazia muito bem! Mas o calcanhar calcaneava divinamente! 

       O que era aquilo? Com certeza ele não havia inventado o ato de calcanear, isso qualquer um poderia afirmar sem qualquer sombra de dúvida. Mas esse ato singelo e pouco comum, pelo menos até então, jamais havia sido executado com tamanha maestria. Por isso, não seria qualquer blasfêmia afirmar que foi o Doutor Sócrates o grande divulgador da calcaneada.

      Essa jogada não era apenas reproduzida, mesmo que toscamente, nos campinhos de várzea. Outros craques ou não tão craques assim também tentavam utilizar essa jogada maestral, mas sem a mesma categoria do craque do Corinthians. Seja como for, todos tentavam. Até mesmo os mais tímidos e desconcertados. Ninguém queria ficar de fora. 

    Fizeram até um programa com o Sócrates, onde ele batia alguns pênaltis de calcanhar. Incrível, ele acertava todos! Gol!!! E isso virou nova mania! Os pênaltis das peladas também passaram a ser batidos assim. Que sorte dos goleiros, pois raramente uma bola rumava certeira. 

    Pois é, os gols de pênalti se tornaram raros entre os peladeiros. Obviamente, de vez em quando, muito raramente para falar a verdade, um ou outro conseguia fazer com que a bola balançasse a rede, mesmo que esta realmente não existisse na maior parte das metas. Ninguém ligava! Todos precisavam arriscar para, então, contar vantagem depois: “Fiz um gol à la Sócrates!”

    Situações hilárias aconteciam com muita frequência. Furadas humilhantes, desequilíbrios ao rodopiar o corpo na ânsia de dar uma calcaneada, frequentes quedas. Ninguém realmente dava a mínima para esses erros grotescos. Não havia um sequer que executava com a classe do Sócrates. Até mesmo o Zico, quando fazia suas calcaneadas, estava longe de fazê-las com a elegância própria do Magrão. 

    Havia uma dúvida na ocasião sobre quem era melhor: o craque do Flamengo ou o Doutor? Fizeram essa pergunta para o Zico, que não respondeu com exatidão. O Sócrates não titubeou e afirmou, com todas as letras, que o Galinho era o melhor. Ou seja, o Magrão, com a elegância costumeira, deu outra calcaneada nessa pergunta sem muito nexo e disse: “O Zico!” 

    É como querer discutir quem é mais importante: o arroz ou o feijão? Os dois cracaços eram, sem qualquer sombra de dúvida, fenomenais. No entanto, a evidência naquele momento era mesmo o calcanhar do Magrão. Provavelmente, até mesmo o Zico fazia parte dos que estavam com febre e, portanto, deveria sonhar em fazer um gol de pênalti ou de falta dando uma calcaneada à la Doutor Sócrates.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Senhor Calcanhar" foi publicada pelo Notibras no dia 28/9/2023.
  • https://www.notibras.com/site/se-aquiles-fosse-como-socrates-a-historia-seria-outra/

Djefferson


            Há alguns anos, minha então filha mais nova, hoje a do meio, e eu estávamos brincando em uma piscina. Minha esposa começou a jogar uma bola para a gente. Em uma dessas, não sei por que, gritei: “Djefferson!!!”. Sim, isso mesmo. Não foi “Jefferson”, mas a referência, obviamente, foi a do então goleiro do Botafogo. Creio que foi a empolgação do momento, pois tive que me esticar todo para fazer uma defesa e, por isso, acabei colocando um “D” intrometido.

            Ao contrário do meu alter ego, o Jefferson sempre me pareceu ser o goleiro mais econômico que já vi. Nem sei se chamá-lo de econômico seja o adjetivo mais adequado. Seja como for, o Jefferson jamais foi espalhafatoso como, por exemplo, o Paulo Sérgio, que também jogou no Botafogo no início dos anos 1980. Este sim fazia umas pontes tão plásticas, que mereciam ser pintadas pela Tarsila do Amaral. Era muito bonito de se ver! Já as defesas do Jefferson sempre me pareceram aquelas de um goleiro de 25 anos jogando em um time de crianças. Isso porque ele sempre me deu a impressão de que aquilo era extremamente fácil para ele, que sempre considerei bem maior que o próprio gol.

            Provavelmente, você deve pensar que eu errei ao gritar “Djefferson”, pois o lógico para muitas pessoas seria gritar “Paulo Sérgio”. Não que o Paulo Sérgio não merecesse tal homenagem nas minhas horas de lazer. Mas é que talvez eu tenha o alter ego muito gigante e não poderia deixar de exaltar as qualidades do maior goleiro que já vi. 

    Meu pai, certamente, não concordaria comigo, pois, apesar de vascaíno, sempre considerou o Manga o maior dos maiores. E olha que meu pai era fã do Barbosa! Posso concordar em parte com meu pai. Afinal, o Manga faz parte dos anais do Botafogo, está eternamente gravado na memória do clube. Aliás, o Manga já jogou muito no meu time de botão, mas nessa época não existia o Jefferson. Se eu fosse ter um novo time hoje, o Manga teria que esquentar um banco. Mas também entraria de vez em quando, pois as contusões também acontecem entre os botões. Se você discorda, creio que nunca jogou.

            Voltemos ao lúdico dia na piscina... Minha filha também aderiu à brincadeira e começou a gritar “Djefferson” a cada defesa. Minha esposa ria disso tudo. Ela, que me conhece muito bem, percebeu o tal “D” a mais, que, a cada nova ponte, ficava ainda mais sonoro. Tenho até uma pontinha de certeza de que ela queria esgoelar um “Djefferson”, mas ela é meio contida e não gosta de enaltecer jogadores de outros times: ela é Palmeiras. Mas acredito que ela gritava por dentro “Djefferson”, tamanha a deliciosa diversão que estávamos vivendo na piscina.

            Apesar desse lapso temporal, qualquer defesa que faço continua merecendo um “Djefferson”. Se a minha esposa me joga uma chave e eu consigo pegá-la no ar, já sai um “Djefferson”. Qualquer objeto que consigo agarrar, dou um “Djefferson”, mesmo que seja apenas em pensamento, pois nem sempre dá para ficar gritando, especialmente em locais públicos. Com certeza, as pessoas ficariam espantadas, provavelmente me chamando de louco. Mas pensando bem, Loco é o Abreu.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Djefferson" foi publicada por Notibras no dia 5/3/2024.
  • https://www.notibras.com/site/djefferson-e-na-piscina-no-campo-o-loco-e-abreu/

Papo de boteco

                Lá pelas tantas, depois de infinitas batatinhas fritas, calabresas e até uma porção de frango a passarinho, lá estão aqueles três amigos quase inseparáveis. Quase porque, de vez em quando, nem eles próprios se suportavam. Mas eis que, após discutirem política, música essa ou aquela, até mesmo uma arriscada em economia, apesar de ninguém ser realmente um especialista, surge um tema muito recorrente entre os apaixonados por futebol: afinal, quem é melhor: Garrincha ou Pelé? Obviamente que os protagonistas desse duelo de titãs, caso a discussão fosse mais ao sul, não seriam os mesmos e, certamente, o vencedor seria um terceiro gênio.

                      O primeiro, que estava degustando mais um gole, afirmou categoricamente que era o Pelé. “Não há dúvida, pois ele é o maior artilheiro do futebol, ganhou três Copas, dois Mundiais pelo Santos...” Pois é, o rei parecia mesmo estar em vantagem, pois não há outro jogador com tantas marcas surpreendentes. Gostem ou não do eterno camisa 10 do Santos, não há como negar a sua carreira fenomenal. Sem qualquer sombra de dúvida, um dos maiores da história! Ainda mais depois da clássica conclusão do defensor da tese: “Os números não mentem!”

            O embate poderia muito bem ter cessado por aí, caso esses argumentos, apesar de surpreendentes, não fossem colocados em dúvida pelo segundo amigo. “Pois é, os números não mentem, mas não dá para olhar apenas para os números, já que o futebol é um esporte coletivo e, por isso mesmo, há inúmeras variantes a serem avaliadas. Se fôssemos olhar apenas os números, teríamos que dizer que alguns pernas de pau que levantaram a taça de alguma Copa seriam melhores que o Zico, o Zizinho, o Platini, o Sócrates... Ou seja, os números não mentem, mas iludem muitas pessoas. Além disso, o Garrincha, pelo menos aos olhos dos que entendem profundamente o esporte bretão, é o maior jogador das Copas”.

                    Lá estava o terceiro com os olhos fixos no copo, agora com mais espuma que qualquer coisa. Ele escutava as teses dos companheiros de copo. Olhou a última batatinha na travessa de metal frio e, com um gesto ligeiro, a levou até a boca. Mastigou-a e a engoliu quase sem gosto. O indicador esquerdo voltou à travessa, onde apertou uma pequena quantidade de sal, suficiente para despertá-lo do transe momentâneo. “Nem Garrincha nem Pelé!” Os dois companheiros olharam abismados para o dono daquela boca que profanou qualquer bom senso em relação a essa eterna dúvida brasileira. “Nem Garrincha nem Pelé!”, repetiu. Em seguida, levantou-se e foi em direção ao banheiro, não tão limpo, do boteco.

                    Os dois que ficaram na mesa, ainda se recuperando das palavras estapafúrdias do amigo, entreolharam-se e, quase em uníssono, balançaram a cabeça negativamente. Com certeza, o terceiro amigo teria bebido demais. 

    _Ele deve ter ido vomitar, não é possível que ele esteja bem. 

    _Acho que foi a calabresa, muita gordura. 

    _Vamos pedir a conta?

    _ É, já deu por hoje.

                    Dois minutos ou mais, lá vem o terceiro, trôpego. O olhar meio embaçado, mas nada que um dorso de mão não resolva. “Mais uma rodada, Juva!”, ele se dirige ao garçom de longa data. Os companheiros, estáticos, nem questionam. Eles simplesmente observam o amigo por alguns instantes, até que o Juva derrama mais uma garrafa nos copos sedentos.

                    Os dois amigos encaram o companheiro, esperançosos de uma resposta. Será que ele disse aquilo para contestar? Talvez nem se lembre mais do que disse. Os questionamentos iam e viam, quase ao ritmo das ondas do mar de Copacabana, logo ali.

    _ A Marta!, quase cuspiu. Ninguém discute a Marta, ninguém questiona se fulana ou sicrana é melhor que a Marta. Cracaça!!!, quase berra. Ela dribla como Garrincha, marca gol como Pelé, faz lançamentos como o Gerson e é tão inteligente como o Didi. Ninguém pode com ela, finalizou. 

    Os outros dois ficaram apenas observando e, ao mesmo tempo, tentando encontrar argumentos para refutarem os argumentos postos, literalmente, na mesa. Não acharam nem um sequer, talvez por terem aberto a mente para a genialidade da Camisa 10, que há anos dribla as adversárias dentro das quatro linhas e, principalmente, muitos outros fora delas.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Papo de boteco" foi publicado por Notibras no dia 15/11/2023.
  • https://www.notibras.com/site/nem-garrincha-nem-pele-marta-e-bola-no-pe/


O menino e o pai

 

            A bola, colada ao pé bom do menino, que estava certo de que conseguiria passar pelo pai. Ele gingou o corpo de um lado para o outro, deu um leve toque na bola, que passou rente ao lado direito do pai. O menino, com a agilidade de menino, tomou o mesmo rumo da bola, ciente de que conseguiria dar mais um olé, mas foi bruscamente interrompido por um leve, mas providencial, pontapé do pai. O menino foi com tudo nas areias de Copacabana. Cabeça, tronco e membros desabaram quase dolorosamente amortecidos pela areia. Imediatamente, ele gritou: “Falta!” O pai foi até a bola, a dominou com certa maestria, virou-se para o menino e disse: “O juiz não viu nada!”

            O Maracanã estava lotado, pelo menos era assim que o menino se lembrava. Vasco e Corinthians iriam jogar dali a uma hora ou mais. O pai puxava assunto com o menino, que estava maravilhado com aquela imensidão. “Sabia que eu assisti à final da Copa de 1950?”, “Ih, vi muito o Ademir!” O menino nem prestava atenção, não por falta de interesse, mas simplesmente era por causa do tudo novo para ele, que nem era Vasco, muito menos Corinthians. 

            Assim como a avó, gostava mesmo era do Botafogo. Tanto é que, ainda na entrada do grandioso estádio, o pai lhe havia comprado um boné do Glorioso, mas com a promessa de que ele teria que esconder muito bem dentro do short. “Se alguém vir isso, você vai apanhar da torcida”. E o medo tomou conta do menino por alguns instantes, até que ele soube guardar o objeto que lhe era tão precioso.

            A torcida do Vasco encantava o menino, que metia a mão dentro do short para se manter fiel ao Botafogo. “Vasco! Vasco! Vasco!” A torcida, ensurdecedora, não parava de cantar. O pai se virou para o menino e falou para ele também cantar, pois a torcida iria perceber que ele não era Vasco. O menino, temendo a desastrosa revelação, tentava acompanhar os gritos. “Mais alto!”, insistia o pai. “Vasco! Vasco! Vasco!”, o menino gritava de nervoso.

            Uma bandeira do Flamengo surgiu no meio da torcida. Em instantes, ela já havia sido queimada, e a multidão xingava o time da Gávea. “Tá vendo?”, perguntava o pai. “Esconde bem esse boné!”, insistia. O menino arregalava os olhos, sua mente imaginava as piores coisas, caso alguém descobrisse que ele não era Vasco. Tentando disfarçar, o menino voltava a gritar “Vasco!”, mesmo que o canto da torcida já fosse outro.

            Uma vaia monumental tomou conta do Maracanã. O pai apontou para o gramado, onde o time do Corinthians acabara de subir as escadarias do túnel. Os jogadores se dirigiram para o local onde se encontrava a pequena torcida do Timão, logo calada pela ensurdecedora vaia vascaína. Em seguida, surgiu a esquadra cruzmaltina, o que transformou as vaias em entusiasmados gritos de “Vasco! Vasco! Vasco!” “Olha lá o Dinamite!”, o pai, agora menino, apontava o craque para o menino. “Ele é melhor que o Ademir?”, o menino questionava. “O Roberto é bom, mas o Ademir era melhor”, o pai se prendeu às longínquas lembranças da infância.

            O jogo começou, as arquibancadas continuavam a balançar, o pai mantinha os olhos fixos no campo; o menino, nem tanto. Tudo lhe fascinava. Gol do Corinthians! Palhinha abriu o placar, o pai ficou murcho. A pequena torcida adversária fazia um barulho quase inaudível, pois os vascaínos continuavam gritando, ainda acreditando em mais uma virada. O menino olhou para o pai e falou: “O Vasco é melhor, ele vai virar!” O menino voltou a acompanhar a torcida: “Vasco! Vasco! Vasco!” A confiança do menino era tamanha, que ele não se espantou quando o Dinamite empatou a partida. O pai gritou como uma criança, pulou, xingou, sorriu com todos os dentes. Em seguida, o Dirceu faz o gol da virada, ainda no primeiro tempo. A alegria do pai contagiou o menino, que não tinha qualquer dúvida de que isso aconteceria.

            Como é fácil não ser um torcedor apaixonado! Não há angústias, não há irracionalidades. Como é prazeroso assistir a um jogo sem paixões clubísticas, poderia pensar o menino. Talvez a imensa torcida, que empurrava o Vasco para mais uma vitória, lhe desse a certeza da virada. O pai, atormentado pelo gol do Palhinha, não compartilhava tal pensamento até que o camisa 10 cruzmaltino empatou a peleja. Daí em diante, apesar de ainda temer por mais um gol corintiano, o pai, provavelmente, tenha se deixado levar pela euforia do menino, confirmada pelo tento do Dirceu. Vasco 2 x 1 Corinthians.

          Lá estavam o pai e o menino sentados na arquibancada, olhando a movimentação da torcida. Os dois comendo cachorro-quente, praticamente engolido sem sentir o gosto, tamanha a excitação vivida no primeiro tempo. De repente, um magrelo vestido com uma camisa do Botafogo surge no meio da torcida vascaína. Ao invés da agressividade ocorrida contra o flamenguista, houve risos. O menino ficou ainda mais receoso de que alguém pudesse descobrir o que ele escondia dentro do short. Ele já não temia levar uma surra da torcida vascaína, receber uma gargalhada em uníssono de todos ali presentes era muito pior. Que vergonha, ele pensou!

            O segundo tempo veio, o Dinamite marcou mais um e sacramentou a vitória vascaína. O menino prestou mais atenção ao jogo, o que lhe pareceu uma eternidade em relação ao primeiro tempo. Até o pai, vascaíno desde sempre, estava com os ânimos mais controlados. Não gritou nem pulou tanto como nos dois primeiros gols do Vasco, talvez ciente de que o destino do seu time naquela partida fosse mesmo vencer.

O juiz apitou pela última vez, o pai e o menino se levantaram. Estavam com fome, precisavam de mais um lanche. Caminharam quase que empurrados pela multidão, o menino não se recordaria muito bem desse momento. Tudo foi tão rápido, que eles já se viram comendo mais um cachorro-quente, agora com o gosto mais nítido. “Vamos!” O pai puxou o filho pelo pescoço e, então, caminharam entre os últimos torcedores, que ainda saíam do estádio. Chegaram ao ponto de ônibus e, mesmo que tenham ido em pé durante todo o trajeto até Copacabana, o menino apenas se lembrava da maresia, pois preferiram descer alguns pontos antes e irem a pé até a Anita Garibaldi.

           A agência do Banco do Brasil, localizada numa esquina muito movimentada em Copacabana, estava lotada. O menino, agora não tão menino, tentava atender aos pedidos dos clientes. Início de mês era assim mesmo, ainda mais em tempos de inflação galopante, quando ninguém queria perder dinheiro.

Entre as várias dezenas de pessoas, o menino mal pode acreditar que aquele ali era o homem que havia encantado seu pai. Tímido, mas determinado – ele não poderia perder essa oportunidade -, aproximou-se do senhor de pernas arqueadas e cabelos prateados, que logo percebeu o olhar fixo do menino. “Você é o culpado do meu pai ser Vasco!”, falou quase gritando. O homem ficou espantado, mas não pelas palavras do menino, mas sim porque esse menino, apesar de não tão menino, ainda era muito jovem para saber quem ele era. “Os velhos sempre me param para trocar uma palavra ou outra, mas ninguém tão jovem como você.” Ali estava, diante do menino, o grande Ademir Menezes, o Queixada, ídolo de infância do pai.

            O pai estava deitado no sofá aguardando o menino, que há muito deixara de ser menino. Este chegou com duas caixas quase idênticas e entregou uma para o pai, que a abriu com a curiosidade de um menino. Ele endireitou o corpo. “Ademir!!!”, o pai exclamou. Além do artilheiro da Copa de 1950, outros craques completavam o quase imbatível Expresso da Vitória de 1949: Barbosa, Augusto, Sampaio, Eli, Danilo... “Que timaço!” O menino observou o pai e concordou com a cabeça, sorriu, abriu a outra caixa, não se conteve e provocou o pai: “Mas vai ter que jogar muito para encarar o Botafogo do Nilton Santos e do Garrincha”.

            Desde sempre eles nunca gostaram de jogar botão em mesas. O campo era sempre no chão, onde jogavam sentados ou ajoelhados. O velho despertador foi colocado do lado de fora do gramado de cerâmica. Os 45 minutos de cada tempo viraram 15, já que o adiantar das horas e os joelhos do pai já não permitiam uma partida mais longa.

Ademir passou para Ipojucan, que tentou um passe mais aprofundado, mas foi interceptado pelo Enciclopédia, que lançou com perfeição para o Didi. Didi, craque até no botão, conseguiu dar um passe magistral para Garrincha, que cruzou para a área. Barbosa se antecipou e evitou uma cabeçada certeira do Amarildo.

O início de jogo foi muito tenso para os dois lados, que não queriam perder. Vários ataques, várias defesas. Não apenas o Barbosa teve que se esforçar para fechar o gol; o Manga fez alguns milagres por conta dos inúmeros ataques perigosos dos cruzmaltinos.

Quase no final do primeiro tempo, o Folha Seca acertou um petardo (a avó do menino adorava essa palavra), que foi direto no ângulo de Barbosa, que se esticou mais que uma borracha, mas não conseguiu evitar a abertura do placar: Botafogo 1 x 0 Vasco. O menino, eufórico; o pai, murcho como uma bola depois de um canhão do Riva.

            O segundo tempo começou e, antes mesmo de o despertador dar cinco minutos, o Queixada, de falta quase do meio de campo, marcou um golaço. O pai saltou como um menino; o menino observou incrédulo aquele botão artilheiro, o mesmo que levava a culpa de o pai ser Vasco. “Esse Ademir joga muito mesmo!”, reconheceu o menino em pensamento.

A partida recomeçou ainda mais tensa, os erros de passes se intensificaram. Como é que o Zagalo errou esse cruzamento? Augusto, que chute torto foi esse? Até os craques mais craques sentiram esses momentos nos quais todos querem vencer. O despertador lembrou aos presentes que o tempo regulamentar havia acabado.

            Mais dois tempos de cinco minutos, o pai sugeriu. O menino concordou sem pestanejar, embora ele entendesse que o empate seria um resultado muito justo, tamanha a grandiosidade dos 22 cracaços que estavam em campo. O primeiro tempo da prorrogação começou e, quase sem muita pretensão, o Nilton Santos arriscou um chute de longa distância, que pegou o Barbosa desprevenido. Botafogo 2 x 1. Agora era a vez do menino gritar gol.

O pai, querendo reiniciar logo a partida, já pegou a bola no fundo do barbante e a colocou no centro do gramado. O menino ainda comemorava, quando o Ademir conseguiu chutar uma bola acima do Manga. Por sorte do menino, a bola explodiu no travessão e caiu no peito do Didi, que a amorteceu com carinho e a lançou para o Garrincha, que ficou diante de dois marcadores. Ele passou facilmente pela marcação, mas não cruzou para Amarildo, que estava bem marcado por Bellini.

O Anjo das Pernas Tortas prendeu a bola por alguns preciosos minutos até que, de trivela, lançou para o Nilton Santos. O menino preferiu não arriscar levar mais um gol, ele sabia que o Botafogo sempre procurou jogar na retranca. Ele fechou todo o time, deixando apenas Garrincha na ponta direita e Amarildo na frente. Dessa forma, o menino conseguiu fazer o seu time terminar em vantagem nessa primeira etapa da prorrogação.

            O segundo e último tempo iniciou ainda mais tenso. O pai mandou praticamente todo o time para o ataque, mas o menino, talvez por milagre, conseguiu impedir que o Expresso da Vitória marcasse mais um gol. Ele fez cera, retardou a reposição da bola, planejou cada toque com a demora de um parto. O pai pediu para seus atletas arriscarem de qualquer distância, mas a maioria dos chutes saiu muito longe da meta alvinegra ou, então, encontrou as mãos firmes do Manga.

O relógio voltou a despertar, mas o pai disse que o juiz deu mais três minutos. O filho achou três minutos muito, mas é melhor não discutir com a decisão do juiz. Mais três minutos ainda mais nervosos. O tempo praticamente engatinhava, até que novamente o som apontou aquele que seria o final da partida. Todavia, novamente o juiz, segundo o pai, deu mais um minuto.

O menino ficou preocupado com a reação dos seus jogadores, principalmente do Nilton Santos e do Amarildo, que não costumam levar desaforo para casa. O Vasco ainda mais no ataque e, em um lance de pura categoria, Ademir deu um drible desconcertante no Rildo e chutou. A bola passou pelo Manga, mas encontrou a trave e saiu. O despertador avisa os presentes que a partida acabou. Acabou mesmo! O pai cumprimenta o filho e o chama para tomarem sorvete de uva.

       Não demorou muito para acontecer a revanche. Esse jogo realmente aconteceu na semana seguinte, quando os atletas já haviam descansado e treinado para a nova batalha. Mesmo campo, praticamente o mesmo horário, o mesmo relógio. Dessa vez, o menino estava mais tranquilo, pois sua esquadra (a sua avó também adorava essa palavra) havia saído vitoriosa. O pai, ao contrário, se encontrava ansioso como um menino. Não poderia perder novamente. Ah, isso não poderia mesmo acontecer! Aquele Botafogo, reconhecia, era um timaço. Mas o seu Vascão não ficava atrás. E ainda tinha o Ademir! “Ah, o Ademir é o Ademir!”, pensava.

      O novo jogo começou, o Botafogo jogava muito atrás. O Vasco sempre no ataque, apesar de, de vez em quando, sofrer um contra-ataque perigoso. Mesmo assim, o placar permanecia inerte. Os 15 minutos voaram para o pai. O menino, talvez, estivesse alheio ao tempo.

Mal o primeiro tempo terminou, o pai já repôs seus craques em posição para o recomeço da partida. O menino se levantou um pouco, espreguiçou o corpo e fez o mesmo com seus jogadores. O segundo tempo iniciou e parecia que teria o mesmo destino do primeiro, até que o Ademir – ele mesmo – deu um chute e acertou o cantinho do Manga. Indefensável! O pai gritou, correu em volta do gramado, abraçou o Ademir. “Craque demais!!!”, exclamou.

O menino apenas observou o pai, talvez até tenha sorrido por causa da esfuziante demonstração de satisfação do pai. O jogo recomeçou, mas sem prorrogação. O filho não reclamou com o juiz. “O Vasco mereceu vencer! Ainda mais por conta desse tal Ademir!”, pensou. Em seguida, o menino e o pai foram tomar sorvete. Aliás, sorvete de uva.

Camisa 8

 

            Aqueles que viveram os últimos anos de 1970 e primeiros de 1980 provavelmente se lembram da roleta russa (com todas as balas no tambor) que era torcer para o Botafogo, muito maior que as de outros tempos, apesar desse sentimento sempre perseguir os torcedores. Isso, aliás, torna os botafoguenses seres extremamente corajosos perante os percalços da vida, pois estamos acostumados às dificuldades que, por mais improváveis, acabam por acontecer. 

            Foi nesse cenário de exacerbado sofrimento que surgiu um camisa 8, mas que jogava como um 10, chamado Mendonça. Esbelto, cabelos encaracolados, ciente da sua grande importância como comandante daquele time nem sempre tão espetacular, apesar de alguns nomes de peso, Mendonça, como ele próprio já havia se definido, antes de ser um jogador do Botafogo, era um torcedor do Botafogo. 

    Como não se identificar com aquele cara tão simples, tão parecido com qualquer um sentado nas arquibancadas ou em pé na geral do Maracanã? Ainda por cima, o camisa 8 era um craque. Então, que me desculpem o Gerson e o Didi, mas o camisa 8 no meu time de botão sempre foi o Mendonça. Craque!!! Cracaço!!! Dava baile até mesmo no Maradona!

            Engraçado como são as coisas. Meu pai, que era Vasco, sempre me falava do Garrincha, do Nilton Santos, de outras lendas também. Todavia, por maiores que tivessem sido as conquistas desses gênios, jamais os senti próximos. Eram como se fossem seres de outros planetas, inatingíveis, sem muita relação comigo. 

    Não é o caso de não reconhecer os feitos deles, mas não havia uma proximidade. Eu não queria vestir as lendárias camisas 7 e 6, imortalizadas pelo Anjo das Pernas Tortas e pelo senhor Enciclopédia. A minha vontade era de fazer uma tabelinha com o Mendonça nas peladas que eu jogava na rua. Puxa, seria o máximo, não perderíamos uma só partida. Seríamos imbatíveis! Mendonça e eu! Claro, teríamos que dar um jeito de jogar com camisas idênticas, pois a minha também era a 8.

            Aliás, na rua havia partidas dos sem camisa contra os com camisa. E para mim sempre foi um motivo de angústia até saber que eu iria jogar nos com camisa. Era óbvio para mim jogar no time dos com camisa, pois eu não queria tirar a minha 8. Não me incomodava se ela ficasse encharcada de suor, que ficasse pesada e grudenta, pois sabia que, com ela, meus dribles seriam mais desconcertantes, que meus gols sairiam a qualquer tempo. Puxa, como eu acreditava nisso!!! 

            Não havia marcador que resistisse, já que eu era um representante do Mendonça em campo. Ou melhor, eu era o próprio Mendonça, fosse no duro asfalto, fosse na terra batida, seja nas areias de Copacabana. E, quando o gol finalmente acontecia, lá ia eu correndo com os dois braços erguidos para a imensa torcida, mesmo que ela existisse apenas na minha infantil imaginação. 

            Voltava pra casa embebido de tantos sonhos, provavelmente muito mais fantásticos do que os reais acontecimentos. No entanto, eu não percebia qualquer diferença. Mal abria a porta, minha mãe olhava pra mim e falava: “Direto pro banho!” 

    Eu tentava certo adiamento dessa sentença, mas minha mãe já ia arrancando a minha camisa, ou melhor, a camisa do Mendonça de mim. Todavia, parecia que o tecido de algodão havia se fundido à minha pele, tamanha a quantidade de suor, o que tornava a tarefa muito dificultosa, especialmente para mim. Absurdo, eu pensava, já que não suportava a ideia de não poder dormir com a camisa 8 mais linda, logo após aquelas jogadas magistrais, a maioria concluída com o balançar da rede adversária. É assim que me lembro desses dias, mesmo que eu possa ter esquecido de alguma frustração qualquer em campo.

            Já na cama, relembrava as incríveis jogadas da tarde. E a partida nem precisava ter sido filmada, pois nem isso faria com que as imagens fossem mais nítidas do que as que eu conseguia visualizar na minha mente criativa. Muito além dos gols, cada jogada era repassada em câmera lenta, cada drible, cada passe magistral, que passava entre os atônitos adversários, fazia a bola encontrar algum companheiro na cara do gol.

            Há alguns anos, minha esposa me perguntou quem foi o jogador de futebol de que mais gostei. Respondi sem pestanejar: “Mendonça!!!” Ela, na verdade, jamais havia ouvido falar dele. No entanto, após eu lhe mostrar alguns dos seus gols, ela ficou encantada, especialmente após ver aquele famoso “Baila Comigo” sobre o grande Júnior. Mesmo assim, ela me questionou por que eu não havia escolhido outros, que foram muito mais vitoriosos. 

               Pois é, somente após alguns anos da saída de Mendonça, é que o Botafogo, finalmente, voltou a ganhar títulos. Conquistou o carioca de 1989 de forma invicta. Eu poderia falar do Mauro Galvão, do Gottardo, do Paulinho Criciúma e, obviamente, do Maurício. Também poderia facilmente elencar outros craques posteriores: Wagner. Gonçalves, Sérgio Manoel, Donizete, Túlio, Jefferson, Dodô, Seedorf, Loco Abreu (a minha filha o adora), até mesmo o Sandro. Gosto deles, mas não com a intensidade que, ainda hoje, admiro o Mendonça.

            Não sei quais são os motivos que fazem alguém se identificar com um jogador de futebol ou outro atleta. Definitivamente, no meu caso, a conquista de títulos não me influenciou. Não foi isso que me fez responder ao questionamento da minha mulher. Mendonça não é conhecido por títulos conquistados, mas sim por ser praticamente uma Estrela Solitária, provavelmente a única em uma época quase desértica de felicidade. Todavia, quando ele estava em campo, havia uma esperança de que, a qualquer momento, um milagre pudesse acontecer. 

               Difícil imaginar um cracaço daquele não ter conquistado muitas coisas para o time. O futebol é um esporte coletivo, não tem como jogar toda a responsabilidade sobre um único indivíduo, por mais incrível que ele possa ser. Seja como for, gosto de me lembrar das palavras do próprio Mendonça: “Não sou um jogador do Botafogo, sou um torcedor do Botafogo”.

  • Nota de esclarecimento: A crônica "Camisa 8" foi publicada por Notibras no dia 10/1/2024.
  • https://www.notibras.com/site/botafoguense-bom-e-o-que-se-iguala-a-mendonca/