Apesar de nunca ter
visto aquelas pessoas, ninguém pareceu estranhar a presença de Berenice. Todos
estavam mais interessados na voz do advogado, que lia as últimas vontades do
seu ex-cliente, que morrera de alguma doença de velho há exatos 36 dias. Foi
cremado, e suas cinzas cuidadosamente depositadas em uma urna, que estava sobre
a estante de madeira de lei. Pela tonalidade avermelhada, obviamente que era
mogno.
Depois de pouco mais de 10
ou 15 minutos de leitura, eis que começou o falatório daqueles que não haviam
sido beneficiados por nem um vintém sequer. Quase todos, na verdade, a não ser
a afilhada, filha única da empregada. Solteirão convicto que fora, não deixou
herdeiros em linha direta, mas apenas primos e sobrinhos. Mas por que o finado
havia insistido para que a parentada estivesse presente? Era óbvia a intenção
de caçoar daquele bando de parasitas pela última vez. Com certeza, Aldo estava
gargalhando do além, enquanto os vivos, do lado de cá, o amaldiçoavam.
E a balbúrdia prosseguia.
Berenice se esforçava para manter a face rija, como querendo esconder
expressões que pudessem gerar conflito. Rosto virado para o chão, sabia que os
olhos a denunciariam, caso alguém os visse. Quieta. Absolutamente estática. No
final de alguns minutos, que pareceram horas, a pequena plateia foi se
dispersando, até que a mulher se viu sozinha na companhia do advogado. Um
silêncio sepulcral tomou conta do local, até que, em seguida, foi interrompido
pela mulher.
— Senhor, por que fui
chamada, já que nunca nem ouvi falar desse Smith?
— Schmidt.
— Que seja! Não faço a menor
ideia de quem era esse homem.
Mudo, o advogado se levantou
e foi em direção à estante. Tomou a urna e um envelope ao lado. Virou-se com a
intenção de dá-los àquela mulher, que nada entendia.
— Por que o senhor está me
entregando essas coisas?
— Senhora Berenice, sou
apenas o advogado. Nada sei sobre esse envelope. Mas o senhor Schmidt me
orientou a entregá-lo à senhora. Ele me disse que a senhora entenderia tudo
assim que lesse a carta que, suponho, esteja dentro desse envelope.
— Carta?
— Sim, há uma carta dentro
do envelope.
Apesar do estranhamento, a
mulher esticou o braço e quase tomou o envelope das mãos do advogado. Ela olhou
o objeto com cuidado, enquanto o homem, ainda em pé segurando a urna, apenas a
observava. Berenice rasgou o envelope na lateral, de onde retirou uma carta,
escrita com letra trêmula, mas legível.
“Não lhe deixo algo valioso,
pois bem sei que é uma senhora de posses. Como sei? Eu a fiz assim. E, antes
que rasgue ou amasse essa missiva, deixe-me explicar.
Como já bem sabe, meus pais
me deram o nome de Aldo Schmidt. Nasci no dia 12/12/1912, uma data, no mínimo,
curiosa. Mas nada que tenha a ver com o caso em questão, a não ser que a
senhora acredite em astrologia. Creio que não, tamanho o período do seu luto,
que acompanhei de perto, como fetiche de uma mente doentia.
Nossas histórias se cruzaram
há quase 60 anos, quando eu, ainda um jovem de 23, andava desgostoso da vida.
Certamente, não por falta de opções, pois as possuía aos montes. Dinheiro não
me faltava, pois nasci com o destino dos predestinados a uma vida de luxo. No
entanto, o mundo aos pés não me parecia suficiente para tanta angústia.
Após os festejos da chegada
de 1936, lá me encontrava afundado, em todos sentidos, no amplo sofá na varanda
da casa dos meus pais. Entediado de tantas bebidas, peguei um cigarro sobre a
mesa de centro. Mal o acendi, percebi a chegada de Rita, uma das empregadas,
que carregava uma lixeira e começou a catar os restos da noite anterior.
Olhei-a com desprezo e imaginei-me esmagando aquele ser sem qualquer valor aos
meus olhos de então.
Ergui meu corpo e fui
passear na ampla propriedade. O cigarro deu lugar a outro e mais quatro ou
cinco. Lembro que parei diante da piscina, cujo fundo depositava uma enormidade
de insetos. Havia um besouro, ainda com vida, na superfície, tentando se livrar
do destino de se juntar aos seus semelhantes. Observei-o por, talvez, meia
hora, até que o infeliz perdeu as forças e, vencido, afundou lentamente. Um
prazer, até então incompreensível, tomou meu corpo.
Não tardou, lá estava eu
fora dos muros das posses que, não tardaria, seriam minhas, já que meus pais
morreram, após quase dois anos, por conta de um fortuito acidente de carro.
Digo fortuito, pois foi o terceiro prazer que senti, levando-se em conta o
trágico fim daquele besouro. Todavia, nem o primeiro e, muito menos, o terceiro
interessam à senhora. Apenas o segundo, que foi justamente aquele que enlaçou
nossos destinos.
Como havia dito, lá estava
eu caminhando cada vez mais distante dos muros, quando decidi ir até o lago
que, bem a senhora sabe, encontra-se a aproximadamente uma hora, dependendo dos
ânimos dos passantes. Sentei-me numa enorme clareira em frente à placidez
daquelas águas. Fiquei por ali por não sei quanto tempo, até que ouvi vozes.
Virei o rosto e percebi que eram dois homens pouco mais velhos, mas que não
haviam chegado aos 30, como soube alguns dias depois.
Um era pouca coisa mais
alto, encorpado, cabelos praticamente negros. O outro era esguio, quase loiro,
olhos de um castanho bem claro. Não vou descrevê-lo com maiores detalhes, mesmo
porque, tenho certeza, a senhora poderia fazê-lo muito melhor. Afinal, era seu
finado esposo.
Aqueles dois foram ali para
pescar. Colocaram as tralhas debaixo de uma árvore, conversaram algo que não
consegui captar, apesar dos ouvidos atentos. Seja como for, seu marido pegou
uma lata e uma pequena pá. Ele deu alguns passos em direção a uma terra mais
fofa, onde começou a cavoucar em busca de minhocas. O amigo retirou sapatos e
meias e foi em direção à beira, onde colocou os pés e pegou um pouco de água
com as mãos para jogá-la no rosto.
Não sei exatamente por que
fiz, mas sei que o fiz. Peguei um robusto pedaço de pau ao lado e, decidido,
caminhei em direção ao seu marido. Aproximei-me como um felino e, sem pensar,
lhe desferi um golpe certeiro na nuca. Nenhum gemido. Ele caiu que nem jaca
madura. Apenas o som abafado daquela face na terra úmida.
Saí apressado do local,
antes que o outro homem percebesse minha presença. Não me lembro de ter olhado
para trás, até que voltei para casa, onde fui em direção à piscina. O besouro
continuava lá, imóvel, junto aos seus. Creio que fui bem-sucedido, já que, até
onde soube desde então, o amigo do seu marido jamais mencionou que tivesse
visto alguém naquele dia.
Sem suspeitos mais
convenientes, a polícia acabou prendendo o amigo do seu marido. Torturam-no até
que, finalmente, o homem sucumbiu e confessou que havia assassinado o amigo. O
motivo, segundo as investigações, seria mais óbvio se o morto fosse ele, já
que, como bem a senhora sabe, era seu amante. Tal detalhe, entretanto, foi
suprimido dos autos. Não que a polícia quisesse protegê-la de tamanho
escândalo. Tudo não passou de um pedido meu, generosamente regado à paga.
Com esse gesto, que pode lhe
parecer de bondade, fiz-lhe o favor de manter a sua reputação ilibada de dama
da sociedade. Caso eu não tivesse tido esse ímpeto, certamente a senhora não
herdaria a fortuna do finado, que, bem sabemos, era de fazer inveja até mesmo
àquela que herdei.
Quanto ao assassino
confesso, que agora revelo que foi apenas um bode expiatório diante da
incapacidade da polícia, foi condenado a 28 anos de prisão. Não cumpriu dois,
pois, sabemos, enforcou-se na cela. Pobre alma. Católico que era, parece-me que
se deixou sucumbir ao pecado do suicídio. Que Deus tenha piedade daquela pobre
alma!
Para finalizar, entrego
minhas cinzas à senhora. Faça o que desejar. Que seja o melhor ou o pior. Não
me importo. Sei que cumpri minha sina e espero que, também, a senhora cumpra a
sua.
Atenciosamente,
Aldo Schmidt”
Berenice virou a folha.
Nenhuma palavra mais. Ergueu o corpo, guardou a carta na bolsa. Encarou o
advogado, tomou-lhe a urna e foi embora.
- Nota de esclarecimento: O conto "A carta e a urna" foi publicado por Notibras no dia 5/1/2024.
- https://www.notibras.com/site/heranca-de-berenice-sao-cinzas-do-assassino-do-marido/–
- O conto "A carta e a urna" foi publicado no Volume XI, edição 58 da Revista Barbante, 2024.
- https://revistabarbante.com.br/wp-content/uploads/2024/01/barbantejaneiro2024_merged2.pdf
- O conto "A carta e a urna" foi publicado pelo Jornal Atípico, volume 2, no dia 21/12/2025.
- https://online.fliphtml5.com/runjh/aumr/#p=1

maravilhoso
ResponderExcluirMuitíssimo obrigado, Manu!!!
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