segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Genuíno, o sincero

      Genuíno Lhano é o que se pode chamar de homem peremptório. Sim, isso mesmo! Direto como uma flecha, não fazia rodeios para dizer o que tinha que dizer. Ou, como gostava de falar o seu amigo, o Juarez, Genuíno falava o que era para ser falido, dizia o que era para ser dizido. Seja com português rebuscado ou inventado pela sabedoria popular, esse homem diz o que pensa, mesmo que nem sempre pense o que fala. 

    Histórias não faltam sobre esse homem quase octogenário que não faz rodeio nem para montar cavalo xucro, caso seja necessário. Uma delas aconteceu justamente na primeira vez que viu o Augustinho, o primogênito da dona Augusta e do seu Augusto, os então novos moradores do bairro Menino Deus, na linda e acolhedora Porto Alegre. 

    O jovem casal, orgulhoso do seu herdeiro, passeava com aquele bebê de apenas seis meses. Os moradores paravam para elogiar aquela coisa mais fofa do mundo. Dona Lídia, uma das mais antigas, fez questão até de tascar um baita beijo naquelas bochechas rosadas. Nem a marca do batom vermelho pareceu incomodar os pais do menino. Na verdade, os dois pareciam acreditar que mereciam tudo aquilo, tão certos que estavam de que o pequeno Augustinho era mesmo um príncipe de tão lindo. 

        Nisso, eis que surgiu o Genuíno, que não entendeu o porquê daquela algazarra em volta daquele carrinho de bebê. Curioso, foi até lá, quando a Alzira lhe sorriu ao mesmo tempo em que apontou para o Augustinho. 

        _ Vem ver, Genuíno! Vem ver esse menino mais lindo do mundo!

        O velho se aproximou do grupo e, finalmente, olhou olho a olho pro Augustinho. Para falar a verdade, bem que ele quis permanecer calado, dar as costas e ir embora. Mas foi impedido pela Alzira, que, eufórica, queria porque queria a opinião do Genuíno. O velho torceu a cara e acabou causando um mal-estar, que poderia ter virado até caso de polícia, caso o seu Valdo não interviesse.

    _ Por que viraram o piá do avesso?

    Esse reboliço foi assunto no bairro durante os próximos anos, até que o Augustinho, já com seus quase 8, estava jogando bola na quadra em frente ao cachorródromo do Tesourinha. Chuta daqui, chuta dali, eis que um bicudo mais forte fez com que a bola ultrapassasse a grade e fosse parar justamente aos pés do Genuíno. 

    O idoso, que estava acompanhado do velho Ludo, um vira-lata de pelo rasteiro, fez questão de demonstrar suas habilidades futebolísticas, que não eram muitas. Agachou-se com certa dificuldade, pegou a bola e tentou devolvê-la com um chute. Sem sucesso, pois ela caiu no gramado do cachorródromo, bem ao lado da grade. Foi até lá e, com mais um esforço, conseguiu jogá-la do outro lado. Augustinho, já com a bola nas mãos, agradeceu o velho pela generosidade. O velho sorriu e disse uma coisa que o menino não entendeu.

    _ Você ficou bem melhor depois que te reviraram.

    Parece que tal interlúdio foi parar nos ouvidos da dona Augusta, que, até aquele momento, guardava certa mágoa do Genuíno. Todavia, todo esse rancor de anos havia chegado ao fim. Na verdade, a mãe do Augustinho passou até a ser uma defensora do velho, que ainda guardava alguns desafetos no bairro. Tanto é que, certo dia, a dona Augusta resolveu fazer uma visita para o Genuíno. Sem saber o que levar, colheu algumas pimentas no jardim. Colocou-as cuidadosamente numa vasilha e, já na calçada, percebeu que o velho acabara de entrar em casa.

    Dona Augusta caminhou até a residência do Genuíno, tocou a campainha. Logo o velho surgiu. Ela, para desfazer qualquer mal-entendido, sorriu com todos os dentes, ao mesmo tempo em que cumprimentou o vizinho. Trocaram algumas palavras com promessas de uma visita para um café daqui a alguns dias. Nisso, a mãe do Augustinho se lembrou das pimentas e entregou o potinho para o mais sincero dos homens.

    _ São para o senhor. 

    _ O que é isso?

    _ Ah, são pimentas do meu jardim. Eu que plantei.

    _ Muito agradecido, minha filha. Mas as minhas hemorroidas não me permitem tal extravagância.

  • Nota de esclarecimento: O conto "Genuíno, o sincero" foi publicado no Notibras no dia 26/3/2023. Por um pedido da redação do jornal, foram feitas pequenas alterações no texto para que a história se passasse no Distrito Federal.
  • https://www.notibras.com/site/genuino-o-sincero-a-pimenta-e-as-hemorroidas/
  • O conto "Genuíno, o sincero" faz parte da coletânea Contos de Humor da editora Persona, lançada em 2023.
  • O conto "Genuíno, o sincero" faz parte do livro "EDUARDO MARTÍNEZ E OUTROS AUTORES Projeto Literatura na escola PROJETO LITARATURA NA ESCOLA 1".
  • https://www.calameo.com/books/006803069f3f5db711eee
  • O conto "Genuíno, o sincero" faz parte da 44ª edição da Revista LiteraLivre, 2024.
  • https://drive.google.com/file/d/1p23s5QFHjyx7ieM_btfnEYNRrYFF3m6r/view
Versão de microconto:

Genuíno, o sincero

Genuíno era homem peremptório, sem rodeios.

A vizinha lhe entregou um pote.

            _ São para o senhor. 

            _ O que é isso?

            _ Ah, são pimentas do meu jardim. Eu que plantei.

            _ Agradecido, mas as minhas hemorroidas não me permitem tal extravagância.

2 comentários:

  1. Este é genuíno mesmo!
    Mas muitas vezes, a sinceridade vira falta de educação. Mas têm pessoas que não conseguem deixar a língua quieta dentro da boca.

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    1. Maria Lúcia, que saudade dos seus comentários impagáveis!!! Pois é, você disse uma verdade quando fala que há pessoas que não conseguem deixar a língua quieta dentro da boca. Conheço algumas, inclusive bem próximas. Beijão!!!

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