Ando estressada, como se carregasse
um elefante nos ombros. E pensar que tudo mudou tão rápido, e os sonhos se
transformaram numa completa bagunça. É certo que, mal acordo, minha pequena
Alice despacha qualquer mau humor com o sorriso mais lindo do mundo. Não
resisto e tento me convencer de que, a partir daquele momento, vai ficar tudo
bem, mesmo que não seja um mar de rosas.
Ser
mãe era um desejo, que se acentuou quando percebi minhas amigas com aqueles
bebês, cada um mais fofo, no colo. E o tempo passando, como se fosse alerta:
"É isso mesmo que tu quer, Janete?"
Após
longas conversas com meu marido, decidimos ter um herdeiro. Ele não era contra
nem tampouco a favor. Aquela indiferença, no entanto, me serviu como algo bom,
já que não houve cobranças por eu engravidar, ainda mais porque a ginecologista
havia me alertado por uma possível demora. Que nada! Mal tirei o DIU, constatei
que fertilidade é coisa de família.
Tive
uma gestação tranquila. Tirando os últimos dez dias, quando mal conseguia
andar, não tive enjoos ou grandes transtornos. Quer dizer, com o avançar dos
meses, a barriga ficou enorme, bem redonda, o que, segundo minha mãe, era sinal
de menina. Não que nós já não soubéssemos, pois, antes do quarto mês, já
sabíamos e o nome Alice surgiu naturalmente.
Os
dias após o parto foram repletos de dúvidas, mas, pais de primeira viagem, logo
nos adaptamos à rotina e à nova integrante do lar, doce lar. Tão pequenina,
aqueles olhos atentos a tudo, aquele monte de cabelos pretos que nem graúna.
Linda!
Cada
vez mais entranhada na nossa vida, Alice é parte da rotina. É cansativo?
Demais! Nada além de algumas poucas horas de descanso. Férias? Não! Isso não
existe no roteiro de mães. A gente come quando dá, a gente dorme quando o bebê
dorme, a gente penteia os cabelos quando acha pente e tempo. Tudo some!
Dois
anos, período de inquietação, de birra, de manha, de teatro. Tanto é que meu
marido apelidou a nossa filha de Fernandinha, referência óbvia à maior atriz
deste país, Fernanda Montenegro. E a pediatra tentou nos tranquilizar que tudo
isso é normal, que é a tal "adolescência do bebê", período em que a
criança busca independência, testa todos os limites possíveis, além de ter que
lidar com emoções intensas que ainda não sabe expressar. O resultado é aquela
loucura!
Meu
esposo participa demais da criação da Alice. O regime do seu trabalho é de
plantão, o que é um alívio quando ele está de folga, pois passa todo o tempo
com a nossa menina. O problema é quando está no serviço. Ih, aí, o bicho pega,
mesmo que a Alice frequente a creche.
Ontem,
durante o passeio quase diário que faço com a minha filha no parquinho aqui
perto de casa, ouvi duas mães conversando. A mais risonha, ironicamente,
parecia a mais estressada.
—
Sabe, amiga, nesse nosso meio, não há espaço pra arrependimento. O que tá feito
não tem volta. Não vejo a hora disso tudo acabar, e espero que seja antes que a
sanidade nos abandone por completo.
A
outra, de cabelos curtos, só sorria mudo, enquanto mantinha os olhos de coruja
na cria, uma menina que, aparentemente, regula em idade com a Alice. Apertei a
minha garotinha bem junto ao peito e prometi nunca mais ser impaciente. Ela me
abraçou com aqueles bracinhos gordinhos e me deu o costumeiro beijo babado na
bochecha. Ah, esse beijo me torna imune a qualquer kriptonita!
- Nota de esclarecimento: O conto "Mãe não tira férias" foi publicado no Notibras no dia 1º/4/2026.
- https://www.notibras.com/site/mae-nao-tira-ferias/
