Exageros à parte, o escritor era a vedete da vez. Entretanto, algo começou a incomodá-lo: a falta de tempo para escrever algo realmente impactante, já que a exigência de apresentar um texto novo todos os dias não deixava espaço para se dedicar à produção de algo relevante. Passaria o resto dos seus dias destinado à mediocridade ou, o que era improvável, abandonaria aquela alegoria para, finalmente, escrever o romance que acreditava ser o divisor de águas na sua trajetória nas letras?
A trama estava praticamente desenhada na mente. Todavia, faltavam-lhe as horas necessárias para se debruçar sobre a máquina de escrever, cujo som das teclas fazia parte do processo de criação, e deixar que os dedos ágeis fizessem o que fosse preciso para abrolhar a obra da sua vida. E, quando decidiu que iniciaria o projeto naquele dia, eis que, já nas primeiras horas da manhã, percebeu inúmeras mensagens elogiosas sobre o novo conto publicado.
"Pedro, você se superou!"
"Que maravilha! Como você consegue ser tão genial assim?"
"Quando eu crescer, quero escrever que nem você."
O ego, logicamente, o inebriava e, assim, bloqueava qualquer ímpeto de colocar o plano de se dedicar à produção de um livro de impacto, e não meras lisonjas, que logo eram esquecidas. E foi aí que Pedro, diante do espelho, tentou encontrar aquele escritor que, há muito, acreditou existir. Ou parava tudo para se concentrar numa escrita destacada ou, então, passaria o resto dos seus dias levando tapinhas nas costas, que salvariam seus dias, é verdade, mas que também o levariam para o abismo dos descartáveis das gerações futuras.
Tomado de coragem que não imaginava sua, Pedro teve uma conversa com o editor do jornal. Aproveitou que a porta estava entreaberta, esticou o pescoço e, com a voz mais afinada do que de costume, se fez notar.
— Oi, Pedro! Entre, por favor.
— Obrigado, Wenceslau.
— Diga!
Pedro, pego de surpresa por aquela abertura inesperada, travou.
— O gato comeu a sua língua?
— Não. É que...
— Hum?
As frases, antes ensaiadas mentalmente, evadiram-se.
— Bem, Wenceslau, eu só queria agradecer pela oportunidade que você me deu no jornal.
— Pedro, se os leitores te amam, nós do jornal também te amamos. Continue o seu trabalho, que está satisfatório.
— Obrigado.
— Algo mais?
— Ah, não. Era só isso mesmo. Obrigado.
— Ok. Feche a porta quando sair, por favor.
Satisfatório. Wenceslau definiu exatamente o que eram os contos e crônicas de Pedro. Até mesmo os textos que lhe pareciam de nível mais elevado eram encurtados pela brevidade das horas de entregá-los a tempo de serem publicados no dia seguinte. A roda precisava continuar girando.
Na calçada, Pedro observou o trânsito. Inúmeros automóveis, motocicletas, alguns ônibus. Por um instante, imaginou o impacto da lataria sobre suas carnes. Morreria na hora? Sentiria dor? Calculou a distância exata para ser atropelado por um ônibus, que vinha com velocidade mais do que suficiente para arremessá-lo a vários metros. Ossos quebrados, sangue escorrendo, miolos espalhados naquele asfalto sem vida. A multidão ao redor.
"Coitado!"
"Ele foi atravessar e não percebeu o ônibus."
"Também, quem é que manda atravessar longe do sinal?"
"Esse trânsito não perdoa quem vacila,"
"Mais um que vai virar estatística,"
Uma mulher se aproximou e tocou-lhe o ombro.
— Pedro Cesarini? É você mesmo?
— Oi. Sim, sou eu.
— Nossa! Não acredito! Leio você todos os dias. Posso tirar uma foto com você?
— Sim, claro.
Após a fã se despedir, Pedro caminhou até o seu apartamento. Definitivamente, ele era desprovido de algo próprio dos grandes escritores: a coragem.
Nota de esclarecimento: O conto "Pedro Cesarini, o (quase) notável" foi publicado no Notibras no dia 1º/3/2026.
https://www.notibras.com/site/pedro-cesarini-o-quase-notavel/
