domingo, 1 de março de 2026

Pedro Cesarini, o (quase) notável

    

    Pedro Cesarini era um nome respeitável no meio literário. Sua capacidade de produzir contos e crônicas, publicados diariamente em certo veículo jornalístico de boa circulação, além de livros premiados, faziam-no aclamado não só pelo público, cada vez maior, como também pela crítica especializada. O sujeito estava no topo e havia quem afirmasse que, caso ele erguesse as mãos, certamente ralaria os dedos nas sandálias de São Pedro. 

     Exageros à parte, o escritor era a vedete da vez. Entretanto, algo começou a incomodá-lo: a falta de tempo para escrever algo realmente impactante, já que a exigência de apresentar um texto novo todos os dias não deixava espaço para se dedicar à produção de algo relevante. Passaria o resto dos seus dias destinado à mediocridade ou, o que era improvável, abandonaria aquela alegoria para, finalmente, escrever o romance que acreditava ser o divisor de águas na sua trajetória nas letras?

   A trama estava praticamente desenhada na mente. Todavia, faltavam-lhe as horas necessárias para se debruçar sobre a máquina de escrever, cujo som das teclas fazia parte do processo de criação, e deixar que os dedos ágeis fizessem o que fosse preciso para abrolhar a obra da sua vida.  E, quando decidiu que iniciaria o projeto naquele dia, eis que, já nas primeiras horas da manhã, percebeu inúmeras mensagens elogiosas sobre o novo conto publicado.

      "Pedro, você se superou!"

      "Que maravilha! Como você consegue ser tão genial assim?"

      "Quando eu crescer, quero escrever que nem você."

      O ego, logicamente, o inebriava e, assim, bloqueava qualquer ímpeto de colocar o plano de se dedicar à produção de um livro de impacto, e não meras lisonjas, que logo eram esquecidas. E foi aí que Pedro, diante do espelho, tentou encontrar aquele escritor que, há muito, acreditou existir. Ou parava tudo para se concentrar numa escrita destacada ou, então, passaria o resto dos seus dias levando tapinhas nas costas, que salvariam seus dias, é verdade, mas que também o levariam para o abismo dos descartáveis das gerações futuras. 

      Tomado de coragem que não imaginava sua, Pedro teve uma conversa com o editor do jornal. Aproveitou que a porta estava entreaberta, esticou o pescoço e, com a voz mais afinada do que de costume, se fez notar.

       — Oi, Pedro! Entre, por favor.

       — Obrigado, Wenceslau.

       — Diga!

       Pedro, pego de surpresa por aquela abertura inesperada, travou. 

       — O gato comeu a sua língua?

       — Não. É que...

       — Hum?

       As frases, antes ensaiadas mentalmente, evadiram-se.

    — Bem, Wenceslau, eu só queria agradecer pela oportunidade que você me deu no jornal.

    — Pedro, se os leitores te amam, nós do jornal também te amamos. Continue o seu trabalho, que está satisfatório. 

      — Obrigado.

      — Algo mais?

      — Ah, não. Era só isso mesmo. Obrigado.

      — Ok. Feche a porta quando sair, por favor.

     Satisfatório. Wenceslau definiu exatamente o que eram os contos e crônicas de Pedro. Até mesmo os textos que lhe pareciam de nível mais elevado eram encurtados pela brevidade das horas de entregá-los a tempo de serem publicados no dia seguinte. A roda precisava continuar girando.

    Na calçada, Pedro observou o trânsito. Inúmeros automóveis, motocicletas, alguns ônibus. Por um instante, imaginou o impacto da lataria sobre suas carnes. Morreria na hora? Sentiria dor? Calculou a distância exata para ser atropelado por um ônibus, que vinha com velocidade mais do que suficiente para arremessá-lo a vários metros. Ossos quebrados, sangue escorrendo, miolos espalhados naquele asfalto sem vida. A multidão ao redor.

        "Coitado!"

        "Ele foi atravessar e não percebeu o ônibus."

        "Também, quem é que manda atravessar longe do sinal?"

        "Esse trânsito não perdoa quem vacila,"

        "Mais um que vai virar estatística,"

        Uma mulher se aproximou e tocou-lhe o ombro.

        — Pedro Cesarini? É você mesmo?

        —  Oi. Sim, sou eu.

        — Nossa! Não acredito! Leio você todos os dias. Posso tirar uma foto com você?

        — Sim, claro.

        Após a fã se despedir, Pedro caminhou até o seu apartamento. Definitivamente, ele era desprovido de algo próprio dos grandes escritores: a coragem.

Nota de esclarecimento: O conto "Pedro Cesarini, o (quase) notável" foi publicado no Notibras no dia 1º/3/2026.

https://www.notibras.com/site/pedro-cesarini-o-quase-notavel/